Teologia Calvinista
Pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus Ef2.8
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May 19, 2012


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Classificação teológica do Novo Testamento

Evangelho

Mateus

 

Jesus como Rei

Marcos

Jesus como Servo

Lucas

Jesus como Filho do Homem

João

Jesus como Filho de Deus

Histórico

Atos

 

Nascimento e edificação da igreja

Epístolas

Paulinas

Romanos

Salvação

Explicação da doutrina da Salvação

1 Coríntios

Debate acerca dos vários aspectos da conduta do cristão.

2 Coríntios

Retrato do mistério cristão

Gálatas

Implicações da justificação pela fé.

Efésios

Igreja como corpo de Cristo

Posição do crente “em Cristo”

Filipenses

Atitude do crente em Cristo

Colossenses

O crente é completo em Cristo

1 Tessalonicenses

Segunda Vinda

Exposição acerca da segunda vinda

2 Tessalonicenses

Esclarecimento sobre a segunda vinda

1 Timóteo

Organização da igreja

Esclarecimento sobre a conduta na casa de Deus

2 Timóteo

Instrução final para o servo de Deus

Tito

Declaração da necessidade de doutrina sadia e de boas obras

Filemom

Nota pessoal

Favor pedido a um irmão em Cristo

Epístolas Gerais

Hebreus

Consolo e exortação

Superioridade de Cristo e da vida cristã

Tiago

Necessidade de boas obras como prova de fé genuína

1 Pedro

Conduta e alegria dos crentes diante do sofrimento

2 Pedro

Advertência contra falso ensino

O Evangelho é fidedigno e o Dia do Senhor

1,2,3 João

Maneira da comunhão e da fé genuína

Judas

Advertência contra os falsos mestres

Profecia/

Escatologia

Apocalipse

 

O auge do reino e da obra redentora de Deus

Autor: H. Wayne House, O Novo Testamento em Quadros, cap5. pg. 19, editora Vida. Compre este excelente livro em www.editoravida.com.br .


O Cânon das Escrituras
Lc 24.44,45; 1 Co 15.3-8; 2 Tm 3.16,17; 2 Pe 1.19-21; 2 Pe 3.14-16

Geralmente pensamos na Bíblia como um livro grande.Na verdade, trata-se de uma pequena biblioteca composta de 66 livros individuais. Juntos, tais livros compõem o que chamamos cânon da Escritura Sagrada. O termo cânon deriva-se de uma palavra grega que significa "vara de medir", "padrão", ou "norma". Historicamente, a Bíblia tem sido a regra autoritativa de fé e prática na Igreja.

Com referência aos livros que compões o Novo Testamento, existe completo acordo entre católicos e protestantes. Existe, entretanto, forte divergência entre os dois grupos sobre o que deveria ser incluído no Antigo Testamento. Os católicos romanos consideram os livros chamados apócrifos como sendo canônicos, enquanto o protestantismo histórico não os considera. (Os livros apócrifos foram escritos depois que o Antigo Testamento já estava completo e antes que começasse o Novo Testamento.) O debate concernente aos apócrifos concentra-se na questão mais ampla do que era considerado canônico pela comunidade judaica. Existem fortes evidências de que era considerado canônico pela comunidade judaica. Existem fortes evidências de que os apócrifos não eram incluídos no cânon palestino dos judeus. Por outro lado, tudo indica que os judeus que viviam no Egito teriam incluído tais livros (traduzidos para o grego) no cânon alexandrino. Evidências recentes, entretanto, laçam dúvidas sobre isso.

Alguns críticos da Bíblia argumentam que a Igreja não tinha a Bíblia como tal até quase o início do quinto sáculo. Isso, porém, é uma distorção de todo o processo do desenvolvimento canônico. A igreja reuniu-se em concílio em várias ocasiões nos primeiros séculos para decidir as disputas sobre quais livros pertenciam propriamente ao cânon. O primeiro cânon formal do Novo Testamento foi criado pelo herege Marcião, o qual produziu sua própria versão expurgada da Bíblia. Para combatê-lo, a Igreja descobriu que era preciso declarar qual o conteúdo exato do Novo Testamento.

Embora a grande maioria dos livros que atualmente se acham incluídos no Novo Testamento claramente funcionava com autoridade canônica desde que foram escritos, houve alguns poucos livros cuja inclusão no cânon do Novo Testamento foi muito debatida. Esses livros incluíam Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse.

Houve também vários livros que disputavam a condição de canônicos, mas que não foram incluídos. A maioria esmagadora desses livros compunha-se de obras espúrias escritas por hereges gnósticos do século II. Tais livros nunca receberam uma consideração séria. (Esse ponto é menosprezado pelos críticos que alegam que mais do dois mil volumes resultaram numa lista de 27. Daí eles perguntam: "Quais são as probabilidades de que os 27 selecionados sejam os corretos?" De fato, apenas dois ou três livros que não foram incluídos no cânon foram levados em consideração. Foram estes: 1 Clemente, O Pastor de Hermas e O Didaquê. Estes livros não foram incluídos no cânon das Escrituras porque não foram escritos por apóstolos e os próprios autores reconheceram que a autoridade deles estava subordinada aos apóstolos.

Alguns cristãos ficam preocupados com o fato de que houve um processo de seleção histórica. Ficam perturbados com a dúvida: "Como podemos saber que o cânon do Novo Testamento inclui os livros certos?" A teologia tradicional católica romana responde a essa pergunta apelando para a infabilidade da igreja. A igreja então é vista com "criadora" do cânon, tendo, portanto, a mesma autoridade que a própria Bíblia. O protestantismo clássico nega que a igreja seja infalível e também  que ela "tenha criado" o cânon. A diferença entre o catolicismo romano e o protestantismo pode ser resumida da seguinte maneira:

Visão do Catolicismo Romano:
O Cânon é uma coleção infalível de livros infalíveis.

Visão do Protestantismo Clássico:
O Cânon é uma coleção falível de livros infalíveis.

Visão dos Críticos Liberais:
O Cânon é uma coleção falível de livros falíveis.

Embora os protestantes creiam que Deus teve um cuidado especial e providencial para assegurar que os livros certos fossem incluídos, nem por isso consideram que ele tenha tornado a igreja infalível. Os protestantes também lembram aos católicos romanos que a igreja não "criou" o cânon. A igreja identificou, reconheceu, recebeu e se submeteu ao cânon das Escrituras. O termo usado pela igreja em Concílio foi "recipimus", que significamos “nós recebemos".

Qual foi o critério de avaliação dos livros? As assim chamadas marcas de canonicidade incluíam o seguinte:

1. Tinham de ter autoria ou endosso apostólico;

2. Tinham de ser recebidos como autoritativos pela igreja primitiva;

3. Tinham de estar em harmonia com os livros a respeito dos quais não havia dúvida.

Embora numa época de sua vida Martinho Lutero tenha questionado a canocidade de Thiago, posteriormente mudou de opinião. Não existe nenhuma razão séria para se ter um mínimo de dúvida de que os livros atualmente incluídos no cânon do Novo Testamento não sejam os verdadeiros.

Sumário

1. O termo cânon deriva-se do grego e significa "norma" ou "padrão". O cânon é usado para descrever a lista autoritativa de livros que a igreja reconheceu como Escrituras Sagradas, e portanto sua "regra" de fé e prática.

2. Além dos 66 livros da Bíblia aceitos pelos protestantes, os católicos romanos também aceitam os Livros Apócrifos como Escrituras autoritativa.

3. Para combater as heresias, a Igreja descobriu que era preciso declarar quais livros tinham sido reconhecidos como sendo autoritativos.

4. Existem alguns livros no cânon que foram assuntos de debate (Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse) e alguns livros cuja inclusão foi considerada, mas que não foram admitidos no cânon, incluindo 1 Clemente, O Pastor de Hermas e O Didaquê.

5. A Igreja não criou o Cânon, mas apenas reconheceu os livros que tinham as marcas de canonicidade e que portanto tinham autoridade na Igreja.

6. As marcas de canonicidade incluíam: (a) autoridade ou endosso apostólico; (2) autoridade reconhecida na Igreja primitiva e (3) estar em harmonia com os livros que já faziam parte inquestionável do cânon.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 1º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre este livro em http://www.cep.org.br




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Apócrifos que não foram incluídos no cânon, mas foram levados em consideração.

Primeiro Clemente

Primeira Carta de São Clemente aos Coríntios

INTRODUÇÃO

A Igreja de Deus estabelecida transitóriamente em Roma à Igreja de Deus estabelecida transitóriamente em Corinto, aos eleitos santificados na vontade de Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo: que a graça e a paz vos sejam dadas em plenitude da parte de Deus todo-poderoso, por Jesus Cristo.

CAPÍTULO I
1Por causa das desgraças e calamidades que repentina e continuamente se abateram sobre nós, talvez estejamos a tratar tardiamente dos acontecimentos que se deram entre vós, meus caros, e daquele motim, não conveniente a eleitos de Deus, iniciado por algumas pessoas irrefletidas e audaciosas, de uma forma sórdida e ímpia, surgido de tal ponto de loucura, que o vosso nome, dantes estimado, acatado e celebrado por todos, fosse seriamente denigrido.
2Ora, quem é que esteve entre vós e não elogiou vossa fé extraordinária e firme? Quem não admirou vossa piedade consciente e suave em Cristo? Quem não louvou a tradição da vossa hospitalidade generosa? Ou quem não vos felicitou por vossa doutrina perfeita e segura?
3Fazíeis tudo sem distiguir as pessoas e andáveis dentro dos preceitos de Deus, sujeitando-vos aos vossos guias e respeitando devidamente os vossos anciãos. Aos jovens, transmitíeis conceitos prudentes e honrosos; às mulheres, recomendáveis para que cumprissem todos os seus deveres com consciência irrepreensível, de forma santa e pura, amando convenientemente seus maridos; e ainda as ensináveis a administrar a vida doméstica dentro das normas de obediência e da mais absoluta discrição.

CAPÍTULO II
1Vós todos ainda possuíeis sentimentos de humildade, isentos de qualquer vaidade, mais dispostos a submeter-vos do que a submeter, dando com mais gosto do que esperando receber. Contentando-vos com o que Cristo vos dava como alimento e meditando sobre suas palavras, vós as guardáveis com tanto cuidado no coração mesmo enquanto tínheis sofrimentos pairando diante dos vossos olhos.
2Assim, uma paz profunda e abençoada comunicava-se a todos, e um desejo insaciável de praticar o bem, assim como a plena efusão do Espírito Santo, eram produzidos em todos.
3Repletos de uma santa vontade, em bom zelo, levantáveis as vossas mãos piedosamente para o Deus onipotente, suplicando-lhe sua misericórdia quando cometíeis involuntariamente alguma falta.
4Dia e noite, travava-se entre vós uma luta em favor da total fraternidade, para conseguir, pela misericórdia e conscienciosidade, a salvação de todos os seus eleitos.
5Autênticos e incorruptos vós éreis, não possuíeis malícia uns para com os outros.
6Toda revolta e todo cisma vos causavam horror. Ficáveis entristecidos ao ver as faltas dos outros; o que os outros cometiam, tínheis como vossas próprias faltas.
7Não havia por que vos arrepender de qualquer omissão de bondade, já que estáveis dispostos a toda boa ação.
8Ornados por uma conduta virtuosa e honrosa, cumpríeis todas as vossas ações em seu temor. Os mandamentos e as justas normas do Senhor estavam escritos sobre as fibras dos vossos corações.

CAPÍTULO III
1Plena reputação e prosperidade vos foi concedida, cumprindo-se a palavra da Escritura: "O bem amado comeu e bebeu, engordou e encheu-se de comida, e tornou-se desobediente".
2Daí nasceram o ciúme e a inveja, a discórdia e a revolta, a perseguição e a desordem, a guerra e o cativeiro.
3Desta forma, os desonrados levantaram-se contra os honrados, os desrespeitados contra os respeitados, os insensatos contra os sensatos, os jovens contra os anciãos.
4Por isso, afastou-se para longe a justiça e a paz no exato momento em que cada um abandonou o temor de Deus e obscureceu o olhar em sua fé, não andando conforme o que prescreve os seus mandamentos, não se conduzindo da maneira digna de Cristo. Ao invés, cada qual anda segundo os desejos de seu coração perverso, admitindo em si um ciúme injusto e ímpio, ciúme este que gerou a morte para o mundo.

CAPÍTULO IV
1Porque assim está escrito: "E aconteceu, após alguns dias, que Caim oferecesse a Deus um sacrifício com os frutos da terra e também, por sua vez, Abel oferecesse das primícias dos rebanhos e de suas gorduras.
2E Deus olhou para Abel e seus dons, não reparando, porém, em Caim e seus sacrifícios.
3Então Caim se entristeceu muito e seu rosto se abateu.
4Então o Senhor falou a Caim: 'Por que te tornaste sombrio e por que teu rosto anda abatido? Acaso não pecaste? Ora, embora tua oferenda seja correta, tua escolha não o foi.
5Acalma-te, pois a oferenda voltará a ti e poderás dispor dela'.
6Então Caim falou a Abel, seu irmão: 'Vamos para a planície'. E ocorreu que, enquanto estavam na planície, Caim se levantou contra Abel, seu irmão, e o matou".
7Vide, irmãos: foram o ciúme e a inveja que produziram o fratricídio.
8Por causa do ciúme, nosso pai Jacó teve que fugir da presença de Esaú, seu irmão.
9O ciúme fez com que José fosse perseguido à morte e acabasse preso.
10Foi o ciúme que obrigou Moisés a fugir da presença do faraó, rei do Egito, na hora de ouvir um de seus compatriotas: quem é que te constituiu árbitro e juiz sobre nós? Não queres matar-me, da mesma forma como ontem mataste o egípcio?
11Por causa do ciúme, Aarão e Maria foram expulsos do acampamento.
12O ciúme conduziu Datã e Abirão vivos para o Mundo dos Mortos, por se revoltarem contra Moisés, servo de Deus.
13Por ciúme, Davi não apenas obteve inveja da parte dos estrangeiros, como também foi perseguido por Saul, rei de Israel.

CAPÍTULO V
1Agora, para colocarmos fim aos exemplos antigos, passemos aos atletas que nos tocam de perto; verifiquemos os nobres exemplos da nossa geração.
2Por ciúme e inveja foram perseguidos e lutaram até à morte as nossas colunas mais elevadas e retas.
3Fixemos nossos olhos sobre os valorosos apóstolos:
4Pedro, que por ciúme injusto não suportou apenas uma ou duas, mas numerosas provas e, depois de assim render testemunho, chegou ao merecido lugar da glória.
5Por ciúme e discórdia, Paulo ostentou o preço da paciência.
6Sete vezes acorrentado, exilado, apedrejado, missionário no Oriente e no Ocidente, recebeu a ilustre glória por sua fé.
7Ensinou a justiça no mundo todo e chegou até os confins do Ocidente, dando testemunho diante das autoridades. Assim, deixou o mundo e foi buscar o lugar santo, ele, que se tornou o mais ilustre exemplo da paciência.

CAPÍTULO VI
1A esses homens de conduta santa, ajuntou-se grande multidão de eleitos que, por ciúme, suportaram muitos insultos e torturas, transformando-se no mais belo exemplo entre nós.
2Por ciúmes, mulheres foram perseguidas, como Danaídes e Dircês, e sofreram afrontas cruéis e sacrílegas, percorrendo a segura trajetória da fé e obtendo o nobre prêmio, elas, que eram fracas de corpo.
3Foi o ciúme que separou esposas e maridos, afrontando a palavra de nosso pai Adão: "Ela é osso dos meus ossos e carne da minha carne".
4Ciúme e intriga destruíram grandes cidades e eliminaram nações poderosas.

CAPÍTULO VII
1Caríssimos, ao vos escrever tais coisas, não apenas vos levamos à refletir, mas também advertimos a nós mesmos, já que nos encontramos no mesmo campo de batalha, nos esperando a mesma luta.
2Abandonemos, assim, as opiniões vazias e tolas, voltando-nos para a gloriosa e santa regra da tradição.
3Vejamos o que é belo, agradável e aceito aos olhos daquele que nos criou.
4Fixemos a vista no sangue de Cristo e compreendamos o quanto é precioso aos olhos do Pai pois, derramando-o por nossa salvação, ofereceu-o ao mundo inteiro pela conversão.
5Percorramos todas as gerações e aprendamos que de geração em geração o Senhor deu possibilidade de conversão àqueles que a Ele quiseram retornar.
6Noé anunciou a conversão e os que a aceitaram se salvaram.
7Jonas anunciou a ruína aos ninivitas; os que fizeram penitência de seus pecados, por suas súplicas, reconciliaram-se com Deus e alcançaram a salvação, ainda que fossem estranhos a Deus.

CAPÍTULO VIII
1Sobre a conversão falaram os ministros da graça de Deus, sob inspiração do Espírito Santo.
2Sobre a conversão também falou o próprio Senhor de tudo, ao jurar: "Tão certo como vivo - diz o Senhor - não quero a morte do pecador, mas sua conversão". E acrescentou:
3"Convertei-vos de vosso erro, casa de Israel! Dize aos filhos do meu povo: 'ainda que os vossos pecados se amontoassem da terra até o céu, ainda que estes fossem mais vermelhos que a púrpura e mais negros que o saco, se vos voltardes para mim de todo coração e disserdes: 'Pai!', eu vos atenderei como se fosses um povo santo'".
4Em outra parte, ainda fala: "Lavai e purificai-vos. Afastai dos meus olhos as maldades de vossas almas. Deixai vossas maldades e aprendei a praticar o bem; procurai a justiça, socorrei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a viúva, e então vinde para colocarmos as coisas em ordem - diz o Senhor. E se os vossos pecados forem como a púrpura, os tornarei brancos como a neve; se forem escarlate como a lã, os farei alvos. Se vos dispuserdes a me escutar, comereis os bens desta terra; porém, se não quiserdes me ouvir, a espada vos devorará - assim fala a boca do Senhor".
5No desejo de levar a todos os seus amados a participarem da conversão, fortaleceu-vos por sua vontade toda-poderosa.

CAPÍTULO IX
1Por isso, obedeçamos sua vontade excelsa e gloriosa. Supliquemos, prostrados, pela piedade e bondade. Recorramos à sua misericórdia. Abandonemos a vaidade, a discórdia e o ciúme que conduz à morte.
2Fixemos o olhar naqueles que serviram com perfeição a sua magnífica glória.
3Tomemos, por exemplo, Henoc, que, encontrado justo em sua submissão, foi arrebatado e não se encontrou indício de sua morte.
4Noé, reconhecido fiel, recebeu o encargo de anunciar o renascimento do mundo e o Senhor salvou, por ele, os seres que entraram em harmonia na sua arca.

CAPÍTULO X
1Abraão, proclamado "o amigo", se revelou fiel em sua submissão à palavra de Deus.
2Por obediência, ele saiu de sua terra, deixou seus parentes e a casa do pai, saindo de uma terra pequenina, parentes sem importância, uma casa modesta, para herdar as promessas de Deus. Pois é Ele quem lhe diz:
3"Deixa tua terra, teus parentes e a casa de teu pai, para te dirigires à terra que te mostrarei. Farei de ti um povo grande. Abençoar-te-ei e engrandecerei teu nome; serás abençoado. Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. Em ti, todas as tribos da terra serão benditas".
4Outra vez, ao se separar de Lot, falou-lhe Deus: "Levanta teus olhos e mede o espaço existente entre ti, entre o norte e o sul, leste e mar: pois toda essa terra vos darei e à tua descendência para sempre.
5Farei tua descendência como o pó da terra: se alguém conseguir contar o pó da terra então saberá também contar a tua descendência".
6E ainda diz: "Conduziu Deus a Abraão para fora e lhe falou: 'Levanta os olhos para o céu e conta os astros, se é que consegues contá-los. Assim será a tua descendência'. Abraão acreditou em Deus e isso lhe foi imputado como justificação".
7Por causa da fé e da hospitalidade, foi-lhe dado um filho na velhice e, por obediência, ele o ofereceu como sacrifício a Deus sobre um dos montes que Ele lhe mostrou.

CAPÍTULO XI
1Por causa da hospitalidade e piedade, Lot salvou-se de Sodoma, quando a terra em redor foi castigada com fogo e enxofre. Desta forma, Deus deixou claro que não abandona aqueles que esperam nele, mas que entrega os ímpios ao castigo e ao suplício.
2Sua mulher acompanhava-o na saída, no entanto, não compartilhava sua fé e crença, transformando-se num sinal disso, a ponto de reduzir-se a mera estátua de sal até os dias de hoje, para que todos, assim, possam se inteirar que Deus pune os desconfiados e os de alma dupla para escárnio de todas as gerações.

CAPÍTULO XII
1Por causa da fé e hospitalidade, Raabe, a prostituta, se salvou.
2Pois quando Jesus, filho de Navé, mandou espiões para Jericó, o rei daquela nação ficou sabendo que haviam chegado homens para explorar a terra; então mandou homens para os prenderem e, após presos, matarem-nos.
3Raabe, a hospitaleira, recebeu-os e os ocultou sob a palha do linho no andar superior.
4Quando os emissários do rei se apresentaram e lhe falaram: "Aqui entraram os espiões que vieram reconhecer nosso território. O rei manda que os entregueis", ela respondeu-lhes: "De fato, os homens que procurais entraram em minha casa, porém já se retiraram e continuam seu caminho". E ela apontou-lhes em direção oposta.
5Então ela falou aos espiões: "Disto sei e me convenci: o Senhor vos entregou esta terra porque o medo e pânico se apossaram de seus habitantes. Quando a conquistardes, salvai a mim e a casa de meu pai".
6Os espiões responderam: "Será como falaste! Quando nos vires aproximar, reúnam-se todos os teus parentes sob o teto da tua morada e todos serão salvos; porém, aqueles que estiverem do lado de fora perecerão".
7Como outro sinal, propuseram-lhe ainda que dependurasse algo vermelho na casa, tornando evidente que, pelo sangue do Senhor, viria a redenção para todos aqueles que cressem e esperassem em Deus.
8Vede, amados: nesta mulher não houve apenas fé, mas também o dom da profecia.

CAPÍTULO XIII
1Portanto, tornemo-nos humildes, irmãos, deixando de lado toda a ostentação, o orgulho, o excesso e a ira, e cumpramos o que está escrito. Pois assim diz o Espírito Santo: "Não se orgulhe o sábio em sua sabedoria, nem o forte em sua força, nem o rico em sua riqueza, mas aquele que se gloriar, glorie no Senhor, procurando-O e praticando o direito e a justiça". Antes de mais nada, recordemos as palavras ditas por Jesus, mestre da equidade e grandiosidade.
2Pois foi ele que disse isto: "Sede misericordiosos para obterdes misericórdia. Perdoai para que sejais perdoados. Assim como fizerdes, assim vos será feito. Da forma como derdes, assim vos será dado. Do modo como julgardes, assim sereis julgados. Como fizerdes o bem, assim vos será feito. Com a medida que medirdes, também vos será medido em troca".
3Com este mandamento e estes preceitos, fortaleçamo-nos, para que possamos andar humildes e submissos às suas santas palavras. Pois a sagrada palavra assim reza:
4"Para quem hei de olhar senão para o manso e pacífico e para aquele que respeita os meus oráculos?".

CAPÍTULO XIV
1É justo e santo, irmãos, tornarmo-nos submissos a Deus do que seguirmos aqueles que se deixam guiar pela arrogância e orgulho, aos promotores do ciúme.
2Estaremos nos expondo não a um prejuízo qualquer, mas a um grande perigo, se nos entregarmos aos caprichos dos homens, que buscam a discórdia e a revolta para nos separar da boa conduta.
3Sejamos bondosos uns para com os outros, seguindo a misericórdia e doçura do nosso Criador.
4Pois assim está escrito: "Os mansos habitarão a terra, os inocentes serão deixados sobre ela enquanto os pecadores serão exterminados dela".
5E em outro ponto: "Vi o ímpio gabar-se orgulhoso como os cedros do Líbano; passei e ele não mais existia; então procurei seu lugar e não encontrei. Guarda a inocência e observa a justiça pois se consagra a memória do homem que guarda a paz".

CAPÍTULO XV
1Unamo-nos, pois, àqueles que mantêm a paz na santidade e não aos que defendem a paz por pura hipocrisia.
2Pois é dito em algum lugar: "Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim".
3E novamente: "Abençoavam com a boca, mas amaldiçoavam com o coração".
4E novamente: "Amavam-no com os lábios, mas mentiam-lhe com a língua; o coração não era sincero para com Ele, nem se mantinham fiéis à sua aliança.
5Por isso, tornem-se mudos os lábios ímpios que proferem maldades contra os justos". E ainda: "Que o Senhor extermine todos os lábios ímpios, a língua arrogante e todos os que dizem: 'Engrandecemos a nossa língua, em nossos lábios estão o poder! Quem é o nosso Senhor?'.
6Por causa da miséria dos pobres e dos gemidos dos desamparados, levantar-me-ei agora - diz o Senhor - e os colocarei a salvo.
7Julgarei seu caso com isenção".

CAPÍTULO XVI
1Porque Cristo pertence aos humildes e não aos se elevam acima da comunidade.
2O cetro da majestade de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, não veio com ares de arrogância e orgulho, muito embora assim pudesse ter feito, mas com humildade, como, sobre ele, o Espírito Santo anunciou. Pois disse:
3"Senhor, quem deu crédito à nossa palavra? A quem se revelou o braço do Senhor? Nós anunciamos na presença Dele: Ele é como o escravo, como a raiz numa terra sedenta! Não possui beleza, nem brilho. Nós o vimos: não tinha beleza, nem aparência agradável. Ao invés, sua beleza era desprezível e perdia para a beleza dos homens. Um homem açoitado, trabalhado e acostumado a sofrer fraquezas; menosprezado, afastou o rosto e não contou para nada.
4Ele carrega nossos pecados e sofre por nós. Vimos nele um homem atormentado, açoitado e humilhado.
5Foi coberto de chagas por causa de nossos pecados; tornou-se debilitado por causa de nossos crimes; o castigo que nos educa para a paz caiu sobre ele e nós fomos curados, graças às suas chagas.
6Todos, como ovelhas, andávamos desviados; o homem havia se desviado de sua rota.
7O Senhor o entregou em resgate por nossos pecados e ele não abriu a boca diante dos maus tratos. Como cordeiro, foi conduzido ao matadouro e, como ovelha, na frente do tosquiador permaneceu calado, sem abrir a boca. Na humilhação foi levantada sua condenação.
8Quem pregava sua geração já que sua vida será tirada da terra?
9Por causa das iniquidades do meu povo, ele será levado à morte.
10E Eu entregarei os ímpios como reféns de sua sepultura e os ricos em troca da sua morte, pois não cometeu mal algum, nem culpa foi encontrada em sua boca. Mas o Senhor quer purificá-lo de suas feridas.
11Se oferecerdes um sacrifício por vosso pecado, vossa alma verá descêndência pela longa vida.
12O Senhor quer arrancar o tormento de sua alma, mostrar-lhe a luz e formá-lo na consciência, justificando o justo que bem serviu a muitos; ele próprio tomará sobre si os pecados deles.
13Por isso terá multidões como herança e distribuirá os troféus dos poderosos pelo fato de sua alma ser entregue à morte e ele ter sido contado entre os ímpios.
14E ele próprio suportou os pecados de muitos e se entregou pelos pecados deles".
15Ele próprio ainda diz: "Eu, porém, não sou mais que um verme, não sou homem, mas último entre os homens e escória do povo.
16Todos os que me viram, zombaram de mim, murmuraram com os lábios e moveram a cabeça em sinal de negação. Confiou no Senhor, que o livre; se o quiser bem, que o salve".
17Vede, amados, que exemplo nos foi dado! Se o Senhor assim se humilhou, o que faremos nós que chegamos, por Ele, ao jugo de sua graça?

CAPÍTULO XVII
1Tornemo-nos imitadores daqueles que em peles de carneiros e ovelhas percorriam a terra, anunciando a chegada de Cristo: pensemos em Elias e Eliseu, também em Ezequiel, nos profetas e, além destes, naqueles que receberam testemunho favorável.
2Abraão recebeu magnífico testemunho, sendo proclamado 'amigo de Deus'. Mesmo assim, contemplando a glória de Deus, confessou em sua humildade: "Eu, por mim, sou terra e cinza".
3Também sobre Jó se escreveu desta forma: "Jó, porém, era justo e irrepreensível; verdadeiro, temente a Deus e afastado de todo o mal".
4Apesar disso, ele próprio se acusa, dizendo: "Ninguém é isento de impureza, mesmo que sua vida se resumisse a um só dia".
5Moisés foi chamado de 'fiel servidor em toda a casa de Deus' e através de seu ministério, Deus castigou o Egito com pragas e sofrimentos. Contudo, mesmo sendo tão magnificamente exaltado, não se excedeu em palavras grandiloquentes, mas, ao revelar-lhe o oráculo da sarça, falou apenas: "Quem sou eu para me enviares? Tenho a voz fraca e dificuldade para falar".
6E novamente assim fala: "Não passo de vapor que sai da panela quente".

CAPÍTULO XVIII
1O que dizer de Davi e seu testemunho? A ele, Deus falou: "Descobri um homem segundo o meu coração: Davi, filho de Jessé. Em eterna misericórdia eu o ungi".
2Mas também ele falou para Deus: "Tende piedade de mim, ó Deus, segundo a tua grande piedade e, segundo a tua grande misericórdia, apaga o meu pecado.
3Lava-me sempre mais de minha iniquidade e purifica-me do meu pecado, pois reconheço a minha injustiça e o meu pecado está sempre diante de mim.
4Pequei somente contra ti e pratiquei o que é mau perante os Vossos olhos; para que estejas justificado em tuas palavras e venças, se te julgarem.
5Eis que fui concebido na iniquidade e no pecado minha mãe me carregou em seu seio.
6Eis que amaste a verdade e me revelaste os obscuros mistérios da tua sabedoria.
7Hás de me aspergir com hissopo e serei purificado; hás de me lavar e tornar-me-ei mais branco do que a neve.
8Hás de fazer-me ouvir o som da alegria e da festa e os ossos humilhados se rejubilarão.
9Afasta o rosto de meus pecados e apaga todas as minhas iniquidades.
10Cria um coração puro em mim, ó Deus, e forma um espírito firme em meu peito.
11Não me afastes de tua presença e não retires de mim teu santo espírito.
12Restitui-me a alegria da tua salvação e confirma-me com um espírito magnâmico.
13Ensinarei teu caminho aos pecadores e os ímpios hão de converter-se para ti.
14Livra-me de ações sanguinárias, ó Deus, Deus de minha salvação.
15Minha língua exaltará a tua justiça. Senhor, hás de me abrir a boca e meus lábios proclamarão o teu louvor.
16Se tivesses desejado um sacrifício, te-lo-ia oferecido, porém, não te agradas com holocaustos.
17Para Deus, sacrifício é o espírito arrependido. Deus não desprezará um coração contrito e humilhado".

CAPÍTULO XIX
1A humildade e a modéstia de homens tão grandes e santos foram aprovados pela sua obediência. Os que receberam as palavras Dele em temor e verdade não só nos tornaram melhores como também as gerações que nos precederam.
2Assim, após participarmos de muitas grandes e gloriosas ações, corramos para a meta de paz que nos foi proposta desde o início. Fixemos o nosso olhar sobre o Pai e Criador de todo o mundo e agarremo-nos aos seus magníficos e excelsos dons de paz e benefícios.
3Olhemos para Ele em espírito e consideremos com os olhos da alma sua generosa vontade. Reconheçamos o quanto é indulgente para com toda a sua criação.

CAPÍTULO XX
1Os céus movem-se por Sua disposição e lhe submetem na paz.
2O dia e a noite percorrem o caminho por Ele demarcado, sem jamais se impedirem mutuamente.
3Sol, lua e demais astros giram conforme Sua determinação, em harmonia e sem desvio algum pelas órbitas prescritas a cada um deles.
4A terra, submissa à Sua vontade, fecunda nas estações próprias e provém sustento aos homens, animais e todos os seres vivos, sem se rebelar nem se afastar da ordem por Ele desejada.
5As profundezas insondáveis dos abismos e os subterrâneos inexplorados se mantêm conforme as Suas leis.
6O mar imenso, encerrado dentro da bacia que o contém, não ultrapassa os limites a ele imposto mas, assim como lhe foi ordenado, o obedece.
7Pois foi Ele quem disse: "Até aqui chegarás e tuas ondas se quebrarão em ti mesmo".
8O oceano, intransponível aos homens, bem como os mundos atrás dele, ordenam-se pelas mesmas leis do Senhor.
9As estações da primavera, verão, outono e inverno se sucedem umas às outras em paz.
10A força dos ventos cumpre, por sua vez, o serviço dele sem se desfalecer; as fontes perenes, criadas para gôzo e saúde, oferecem os peitos - sem interrupção - para dar vida aos homens. Até os animais mais pequeninos fazem suas reuniões dentro da paz e harmonia.
11O grande Criador e Senhor de tudo ordenou todas essas coisas para que existissem em paz e concórdia, já que deseja o bem de todas as criaturas, mostrando-se generoso demais em relação a nós que nos refugiamos em sua misericórdia por nosso Senhor Jesus Cristo.
12A Ele glória e majestade pelos séculos dos séculos. Amém.

CAPÍTULO XXI
1Amados, cuidai para que vossos benefícios tão numerosos não se transformem em condenação para nós, o que acontecerá se não formos dignos Dele e não realizarmos em concórdia o que é bom e agradável a Seus olhos,
2pois está dito em alguma parte: "O Espírito do Senhor é uma lanterna que penetra até o fundo do coração".
3Consideremos o quanto está próximo, de forma que nada do que pensamos, nada do que calculamos permanece-Lhe oculto.
4Assim, é justo que não nos afastemos da Sua vontade.
5Devemos preferir chocar homens tolos e insensatos, exaltados e cheios da arrogância de seus discursos, do que a Deus.
6Reverenciemos o Senhor Jesus, cujo sangue foi derramado por nós. Respeitemos nossos chefes. Honremos os anciãos. Eduquemos os jovens a temerem a Deus. Guiemos nossas mulheres para o bem.
7Que elas manifestem o desejo da pureza, a pura intenção na suavidade. Que, pelo silêncio, demonstrem a moderação de sua linguagem. Que o amor não fique dependente das inclinações, mas que seja praticado de modo santo e igual entre todos aqueles que temem a Deus.
8Que nossos filhos participem da educação em Cristo, aprendendo o quanto pode a humildade perante Deus, o quanto o amor consegue perante Deus, o quanto o temor Dele é bom e excelso, salvando a todos os que nele vivem santamente em pura intenção.
9É Ele que investiga nossos pensamentos e desejos. É o sopro Dele que está presente em nós e que pode ser retirado por Ele quando quiser.

CAPÍTULO XXII
1A fé em Cristo garante todas essas coisas, pois é Ele mesmo que assim nos convida, pelo Espírito Santo: "Filhos, vinde e escutai-me: hei de ensinar-vos a temer a Deus.
2Quem é o homem que quer vida e aprecia ver dias bons?
3Guarda tua língua do mal e teus lábios da traição.
4Afasta-te do mal e faze o bem.
5Procura e persegue a paz.
6Os olhos do Senhor estão voltados para os justos e seus ouvidos para as suas súplicas. Mas a face do Senhor se volta contra os que praticam o mal, destruindo a memória deles sobre a terra.
7O justo clama e o Senhor o atende, livrando-o de todas as tribulações.
8Muitos são os flagelos do pecador, já a misericórdia cerca os que esperam no Senhor.

CAPÍTULO XXIII
1O Pai todo-poderoso e misericordioso tem entranhas para os que O temem e, assim, distribui de forma bondosa e amorosa Suas graças àqueles que se aproximam Dele com o coração simples.
2Não hesitemos por causa disso, nem se orgulhe nossa alma por causa dos Seus dons ricos e magníficos.
3Que nunca se aplique a nós a passagem da Escritura que diz: "Infelizes os que hesitam no coração e desconfiam na alma; aqueles que dizem: 'Tais promessas já escutamos na época de nossos pais e eis que envelhecemos e nada disso aconteceu'.
4Ó insensatos, comparai-vos à uma árvore; reparai na videira que, primeiro perde as folhas e então brota, a seguir vêm a folha, então a flor e, depois disso, a uva verde é seguida da uva madura". Considerai como, em pouco tempo, o fruto da árvore se torna maduro.
5É bem assim que a vontade de Deus se cumpre, em ritmo veloz e inesperado, como a própria Escritura nos atesta: "Virá logo e não tardará. Subitamente o Senhor entrará no seu santuário, o Santo a quem esperais".

CAPÍTULO XXIV
1Amados, observemos como o Senhor não cessa de dar-nos provas de que, no futuro, a ressurreição se concretizará. Deu-nos prova dela primeiramente ressuscitando Jesus Cristo dos mortos.
2Amados, vejamos como se dá a ressurreição a seu tempo.
3O dia e a noite nos manifestam a ressurreição: dorme a noite, ressuscita o dia; o dia se retira, chega a noite.
4Exemplifiquemos com os frutos da terra: como e de que modo faz-se a semeadura?
5O semeador sai e espalha, semente por semente, pela terra lavrada, que caem secas e nuas sobre a terra e aí se desfazem; desta decomposição, a grandiosa providência do Senhor as ressuscita, de forma que, de uma, aumentam para muitas e produzem fruto.

CAPÍTULO XXV
1Consideremos o sinal prodigioso que ocorre na região oriental, isto é, nas terras próximas da Arábia.
2Aí existe um pássaro chamado fênix, único na espécie e que vive quinhentos anos. Quando está para morrer, ergue seu próprio sepulcro usando incenso, mirra e outras plantas aromáticas e, ao completar seu tempo, aí se introduz e morre.
3De sua carne em decomposição nasce uma larva que se alimenta da matéria putrefata do animal morto e cria asas; quando se torna forte, levanta o sepulcro onde se encontram os restos de seu ancestral e carrega-o, voando da terra da Arábia até a cidade do Egito chamada Heliópolis.
4E, em plena luz do dia, aos olhos de todos, transporta e depõe aqueles restos sobre o altar do sol; a seguir, retoma o vôo de volta.
6Então os sacerdotes examinam os calendários e percebem que ele chegou ao se completarem quinhentos anos.

CAPÍTULO XXVI
1Devemos, então, considerar grandioso e estranho o fato de o Criador operar a ressurreição de todos aqueles que lhe serviram santamente na confiança de uma boa fé, se ele ilustra até por um pássaro a grandeza de sua promessa?
2Lê-se em alguma parte: "Hás de me ressuscitar e eu te louvarei". E: "Deitei-me e adormeci; levantei-me porque tu estás comigo".
3E Jó adverte novamente: "Ressuscitarás minha carne que suportou todo esse sofrimento".

CAPÍTULO XXVII
1Que nossas almas se apeguem por uma esperança assim Àquele que é fiel em Suas promessas e justo em Seus juízos.
2Aquele que proibiu a mentira, tampouco haverá de mentir, pois nada junto a Deus é impossível, exceto a mentira.
3Portanto, que se acenda novamente dentro de nós a fé Nele e reconheçamos que todas as coisas estão próximas Dele.
4Com apenas uma palavra de sua grandeza, estabeleceu tudo e, com uma só palavra, pode destruir tudo.
5Quem diria a Ele: "O que fizeste?", e quem resistiria à força do seu poder? Fará tudo quando e como quiser. Nada das coisas que ordenou haverá de passar.
6Tudo está diante de Seus olhos, nada escapa de Sua determinação.
7Os céus anunciam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de Suas mãos. O dia comunica a façanha ao dia, a noite transmite seu conhecimento à noite. Não há palavras nem discursos em que suas vozes não são ouvidas.

CAPÍTULO XXVIII
1Já que vê tudo e ouve tudo, temamos a Ele e abandonemos os maus desejos das ações desonestas, para nos pouparmos por Sua piedade dos futuros juízos.
2Para onde poderia algum de nós fugir de Sua mão forte? Qual mundo receberia alguém que desertou Dele? Pois, em algum lugar, diz a Escritura:
3Para onde fugirei e onde me esconderei de Tua face? Se subir ao céu, lá estás. Se me retiro para as extremidades da terra, lá está a tua direita. Se me atiro nos abismos, lá está o Teu Espírito.
4Portanto, para onde poderia alguém ir para escapar Daquele que tudo envolve?.

CAPÍTULO XXIX
1Logo, aproximemo-nos Dele com alma santa, levantando mãos puras e imaculadas para Ele, amando nosso Pai bondoso e misericordioso, que nos admitiu como herdeiros.
2Porque assim está escrito: "Quando o Altíssimo distribuiu a herança aos povos, na hora de disseminar os filhos de Adão, definiu territórios para os povos conforme a multidão dos anjos de Deus. Tornou-se herança do Senhor o povo de Jacó e sua partilha foi Israel".
3E em outra parte se diz: "Eis que o Senhor toma para si um povo no meio dos povos, assim como um homem toma as primícias de sua eira, e deste povo há de proceder o Santo dos santos".

CAPÍTULO XXX
1Uma vez que formamos a porção santa, façamos tudo o que leva à santificação. Fujamos da maledicência, abraços impuros e impúdicos, bebedeiras, modismos temporários, cobiças abomináveis, adultério detestável e soberba hedionda.
2Pois Deus, como se lê, resiste aos soberbos, porém, concede graça aos humildes.
3Portanto, unamo-nos àqueles a quem Deus concede a graça. Revistamo-nos de concórdia, sejamos continentes humildes, mantendo-nos afastados de toda murmuração e calúnia, justificando-nos mais pelas obras do que pelas palavras.
4Pois assim se diz: "Quem muito fala, terá resposta. Qual homem eloqüênte imaginaria que isso fosse justo?"
5Bem-aventurado o homem, nascido de mulher, que vive pouco. Não te tornes pródigo em palavras.
6Venha nosso louvor de Deus e não de nós. Deus odeia aquele que louva a si próprio.
7O testemunho de nossas boas ações seja dado pelos outros, como assim também aconteceu com nossos pais, que foram justos.
8A arrogância, a presunção e a audácia se assentam sobre aqueles que foram malditos por Deus. A discrição, a humildade e a mansidão habitam junto daqueles que foram abençoados por Deus.

CAPÍTULO XXXI
1Dessa forma, desejemos a bênção Dele e vejamos quais são os caminhos que levam à bênção. Voltemos aos acontecimentos desde o princípio.
2Por que nosso pai Abraão foi abençoado? Não seria porque ele praticou a justiça e a verdade pela fé?
3Isaac, conhecendo o porvir e cheio de confiança, deixou-se levar alegremente ao sacrifício.
4Jacó, humildemente, abandonou a terra por causa de seu irmão e foi para junto de Labão, vivendo ali como seu servo, recebendo os doze cetros de Israel.

CAPÍTULO XXXII
1Se alguém refletir com sinceridade sobre cada uma dessas coisas, reconhecerá a magnificência dos dons de Deus a Jacó.
2É dele que procederão todos os sacerdotes e levitas que servirão ao altar de Deus. Dele [procede] o Senhor Jesus, segundo a carne. Dele [procede], através de Judas, os reis, príncipes e chefes. Por sua vez, os outros cetros de Jacó também gozarão de não pouca honra, uma vez que Deus anunciou: "Tua descendência será numerosa como as estrelas do céu".
3Assim, todos atingiram à glória e à grandeza, não por si mesmos, nem por suas obras ou pela justiça praticada, mas por vontade Dele.
4Também igualmente entre nós, que fomos chamados por Sua vontade em Cristo Jesus, já que não nos justificamos a nós mesmos, nem por nossa sabedoria ou inteligência, ou pela piedade ou obras que tenhamos praticado na santidade do coração, mas através da fé, pela qual o Deus todo-poderoso justificou a todos desde sempre: a Ele, a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

CAPÍTULO XXXIII
1Então, o que faremos, irmãos? Deveríamos renunciar à prática do bem e desertar de Seu amor? Jamais permita o Senhor que isso aconteça conosco. Ao contrário, devemos nos esforçar para cumprir toda a obra boa com disponibilidade entusiástica,
2já que o próprio Criador e Senhor de tudo se regozija de suas obras.
3Foi Ele que firmou os céus com poder soberano e os ornamentou com inesgotável sabedoria. Separou, também, a terra da água que a cerca, assentando-a sobre a firmeza de Sua própria vontade. Aos animais que povoam [a terra], chamou-os à existência por sua ordem. Ele fez o mar e os seres que nele habitam, encerrando-os aí com seu poder.
4Além disso tudo, com Suas mãos santas e puras, Ele modelou a mais excelente, a maior de Suas obras: o homem. E imprimiu nele os traços de Sua própria imagem,
5pois assim falou Deus: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. E Deus criou o homem; varão e mulher os criou".
6E, enfim, quando terminou todas essas obras, achou-as boas, abençoou-as e lhes disse: "Crescei e multiplicai-vos".
7Reparemos que todos os justos ornamentaram-se de boas obras e também o próprio Senhor teve prazer em ornar-se com boas obras.
8Já que temos tal exemplo, submetemo-nos sem demora à sua vontade e, com todas as forças, pratiquemos as obras da justiça.

CAPÍTULO XXXIV
1O bom trabalhador aceita, desinibidamente, o pão que ganhou com seu trabalho. Já o preguiçoso e negligente foge do olhar de seu senhor.
2Portanto, é necessário que estejamos dispostos a executar as boas obras, já que elas derivam Dele.
3E foi assim que nos preveniu: "Eis o Senhor! Sua recompensa está diante Dele, para retribuir a cada um conforme suas obras".
4Assim nos exorta a confiarmos Nele de todo o coração, para que não sejamos preguiçosos nem indolentes para nenhuma boa obra.
5Nossa glória e segurança estão Nele! Submetamo-nos à sua vontade! Pensemos no grande número de anjos que estão prontos para servirem à Sua vontade.
6Assim diz a Escritura: "Milhares e milhares estavam diante dele e centenas de milhares o serviam e clamavam: 'Santo, Santo, Santo é o Senhor dos exércitos. Toda a criação está cheia de sua glória'".
7Também nós, reunidos harmoniosamente com a mesma finalidade, conscientes de nosso dever, clamamos a ele sem nos cansarmos, numa só voz, para nos tornarmos participantes das Suas grandiosas e magníficas promessas,
8pois é Ele quem diz: "Nenhum olho viu, nenhum ouvido escutou e nenhum coração humano penetrou o que Deus de grande preparou para os que Nele confiam."

CAPÍTULO XXXV
1Meus amados, como são ricos e admiráveis os presentes de Deus!
2Vida em imortalidade, esplendor em justiça, verdade em liberdade, fé em confiança, continência em santidade... e tudo isso chegou ao nosso conhecimento.
3Então, o que não há de estar preparado para os que nele aguardam? O Criador e Pai dos séculos, o próprio Santíssimo conhece a grandeza e a beleza de seus dons.
4Lutemos, assim, para sermos contados no número dos que Nele esperam, para nos tornarmos participantes de Seus dons prometidos.
5Porém, como dar-se-á isso, amados? Fixando nossa mente com confiança em Deus, procurando o que Lhe é agradável e aceito, cumprindo o que convém à Sua santa vontade, seguindo o caminho da verdade, afastando de nós toda injustiça, maldade, ambição, dissensões, malignidade, dolos, murmurações, difamações, recusas de Deus, soberba, jactância, vaidade e falta de hospitalidade.
6Os praticantes de tais obras são réus do ódio de Deus, [mas] não apenas os que as praticam, como também quem as aprovam.
7Assim diz a Escritura: "Porém Deus disse ao pecador: 'Para que explicas os meus mandamentos e pronuncias sobre a minha aliança?
8Detestaste a disciplina e abandonaste minhas palavras. Quando vias um ladrão, corrias com ele; combináveis com os adúlteros. Tua boca estava cheia de malícia e tua língua provocava enganos. Tranqüilamente difamavas teu irmão e entregavas ao escândalo o filho de tua mãe.
9Era o que fazias enquanto Eu me calava. Impiamente supunhas que Sou semelhante a ti.
10Hei de confundir e obrigar-te a ver-te de frente.
11Compreendei, afinal, estas coisas, vós que esqueceis de Deus, para que não vos arrebate como um leão e já não se encontre quem vos liberte.
12Um sacrifício de louvor há de Me glorificar e aí está o caminho no qual lhe mostrarei a salvação de Deus'".

CAPÍTULO XXXVI
1Amados irmãos, este é o caminho no qual encontramos a nossa salvação: Jesus Cristo, o sumo-sacerdote de nossas oferendas, o protetor e auxílio em nossa fraqueza.
2Por ele, olhamos para o alto dos céus. Através dele, descobrimos a face imaculada e soberana de Deus. Através dele, abriram-se os olhos do nosso coração. Através dele, nossa inteligência obtusa e obscura se abre ao encontro da luz. Através dele, o Senhor quis que saboreássemos do conhecimento imortal. Sendo Ele o esplendor de Sua grandeza, é tanto maior que os anjos, tendo recebido em herança um nome superior ao deles.
3Pois assim está escrito: "Aquele que fez os ventos serem seus anjos e as chamas do fogo serem seus servos".
4Assim falou o Senhor a respeito de seu Filho: "Meu Filho és tu. Hoje Eu te gerei: pede-Me e Eu te darei as nações como herança e os confins da terra como possessão".
5E outra vez Lhe diz: "Senta-te à minha direita, até que ponha teus inimigos como escabelo de teus pés".
6Quem seriam estes inimigos? [Certamente,] os maus e os que se opõem à Sua vontade.

CAPÍTULO XXXVII
1Irmãos, militemos com todo entusiasmo sob Suas ordens indiscutíveis.
2Observemos nos soldados que servem sob as bandeiras dos nossos imperadores, como cumprem as ordens com disciplina, prontidão e submissão.
3Nem todos são comandantes, nem todos são chefes de mil, nem chefes de cem, nem chefes de cinqüenta e assim por diante, mas cada qual cumpre, em seu próprio posto, as ordens emanadas pelo chefe supremo e demais autoridades.
4Os grandes nada podem sem os pequenos e os pequenos nada podem sem os grandes. Em tudo existe alguma mistura e aí está a vantagem.
5Exemplifiquemos com o nosso corpo: a cabeça sem os pés nada é; nem, tampouco, os pés sem a cabeça. Até os menores membros do corpo são úteis e necessários ao resto do corpo. Todos convivem e atuam em submissão unânime para salvarem todo o corpo.

CAPÍTULO XXXVIII
1Que se conserve, portanto, por inteiro o corpo que formamos em Jesus Cristo e cada um se submeta a seu próximo, conforme o carisma que lhe foi dado.
2O forte cuide do fraco e o fraco, por sua vez, respeite o forte. O rico preste serviço ao pobre e o pobre, por sua vez, renda graças a Deus, que lhe deu o suficiente para suprir sua falta. O sábio manifeste sua sabedoria não por palavras, mas por obras. O humilde não dê testemunho de si mesmo, mas permita que o outro o dê a seu favor. O casto em sua carne não se envaideça pois sabe que é Outro quem lhe dá a continência.
3Afinal, irmãos, analisemos de que matéria fomos feitos, como e quem fomos ao entrarmos no mundo, de que sepulcro e escuridão nosso oleiro e criador nos tirou para nos introduzir em Seu mundo, Ele que preparou para nós todos os Seus dons antes mesmo que nascêssemos.
4Já que temos tudo isso Dele, devemos render-Lhe graças por tudo. A Ele, a glória pelos séculos. Amém.

CAPÍTULO XXXIX
1Ignorantes e insensatos, loucos e incultos zombam e escarnecem de nós, querendo dar importância às suas idéias.
2O quanto pode um mortal, qual a força de alguém que nasceu da terra?
3Está escrito: "Não havia forma aos meus olhos, mas percebi um hálito e uma voz que dizia:
4'Como haveria de ser puro um mortal diante do Senhor ou irrepreensível um homem por causa de suas obras? Se nem Deus pode confiar em seus servos e se junto a seus anjos encontrou algo de errado?'
5Nem o céu é puro diante Dele, como, então, poderiam ser [puros] os hóspedes dos ranchos de barro, aos quais pertencemos, sendo nós do mesmo barro? Esmagou-os como vermes e entre a manhã e a noite deixaram de existir. Pereceram porque não podem se ajudar por si próprios.
6Soprou sobre eles e morreram por não terem sabedoria.
7Grita! Talvez alguém te escute ou vejas algum dos santos anjos. Realmente a cólera consome o tolo e o ciúme mata aquele que se desviou.
8Tenho visto alguns tolos deitando raízes, mas logo são consumidos como alimento.
9Que seus filhos sejam mantidos longe da salvação, que sejam desprezados ao baterem à porta dos humildes e não se encontre quem os liberte. Aquilo que para eles estava preparado seja alimento dos justos, não encontrando eles saídas para seus males".

CAPÍTULO XL
1Sendo óbvias todas essas coisas e tendo nós sondado as profundezas do conhecimento de Deus, devemos fazer com ordem tudo aquilo que o Senhor nos mandou cumprir nos tempos determinados:
2Mandou-nos oferecer os sacrifícios e celebrar o culto, não ao acaso ou desordenadamente, mas com tempos e horas marcadas.
3Foi Ele quem fixou, por sua decisão altíssima, onde e quais ministros deverão fazê-los, para que tudo fosse feito de forma santa, sendo aceito por sua vontade.
4Aqueles que fazem suas oferendas dentro dos tempos determinados, são-Lhe agradáveis e abençoados, já que seguem as determinações do Senhor e não pecam.
5Pois ao sumo-sacerdote foram confiadas tarefas particulares, aos sacerdotes um lugar próprio, aos levitas certos serviços e o leigo liga-se pelas ordenações exclusivas dos leigos.

CAPÍTULO XLI
1Irmãos, cada qual de nós agrade o Senhor em sua função, vivendo em boa consciência, não transgredindo as regras de seu ofício e exercendo-o com toda a dignidade.
2Irmãos, nem por toda parte são oferecidos sacrifícios perpétuos ou votivos, de expiação e remissão, mas apenas em Jerusalém. E lá mesmo não se oferece em qualquer parte, mas apenas na frente do santuário, sobre o altar, e só depois que o sumo-sacerdote e os seus auxiliares, acima mencionados, examinarem atenciosamente a oferenda.
3Aqueles que praticam algo contra aquilo que agrada Sua vontade recebem a morte como castigo.
4Irmãos, vede que, quanto maior o conhecimento com que somos distingüidos, maior o perigo a que nos expomos.

CAPÍTULO XLII
1Os apóstolos receberam em nosso favor a boa-nova da parte do Senhor Jesus Cristo. E Jesus Cristo foi enviado por Deus.
2Portanto, Cristo vem de Deus e os apóstolos [vêm] de Cristo. Esta dupla missão realizou-se em perfeita ordem por vontade de Deus.
3Munidos de instruções e plenamente assegurados pela ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, confiantes na Palavra de Deus, saíram a evangelizar a próxima vinda do Reino de Deus na plenitude do Espírito Santo.
4Assim, proclamando a palavra nos campos e nas cidades, estabeleceram suas primícias, como bispos e diáconos, dos futuros fiéis, após prová-los pelo Espírito.
5E não se trata de inovação... há séculos que as Escrituras falam de bispos e diáconos, pois assim se lê em algum lugar: "Quero estabelecer os bispos deles na justiça e os seus diáconos na fé".

CAPÍTULO XLIII
1Por que estranhar que os apóstolos, a quem Cristo confiou, da parte de Deus, tal obra, tenham instituído os acima mencionados? Ora, até o bem-aventurado e servo fiel em toda casa, Moisés, assinalou tudo o que lhe fôra ordenado nos santos livros. Seguiram-no os demais profetas, juntando os seus testemunhos às leis por ele instituídas.
2No momento de irromper o ciúme a respeito do sacerdócio e de se disputarem as tribos, isto é, qual delas deveria ostentar esse título glorioso, ordenou ele aos doze chefes de tribo que lhe trouxessem bastões com o nome de cada tribo gravado. Tomando tais bastões, amarrou-os, assinalou-os com os anéis dos chefes e os depositou sobre a mesa de Deus na tenda do testemunho.
3Então fechou a tenda, selando as chaves da mesma forma que os bastões.
4Disse-lhes, então: "Irmãos, a tribo cujo bastão brotar será a escolhida por Deus para exercer o sacerdócio e ministrar seu culto".
5Ao amanhecer, reuniu todo Israel, os seiscentos mil homens, mostrou os selos aos chefes, abriu a tenda do testemunho e retirou os bastões. E ocorreu que o bastão de Aarão não só germinara como também produzira fruto.
8Então, o que lhes parece, irmãos? Acaso Moisés não sabia, previamente, que era isso o que ocorreria? Sem dúvida sabia-o. Mas, para que não irrompesse uma revolta em Israel, agiu dessa maneira, para que fosse glorificado o nome do verdadeiro e único Deus. A Ele, a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

CAPÍTULO XLIV
1Também os apóstolos sabiam, por Nosso Senhor Jesus Cristo, que haveria contestações a respeito da dignidade episcopal.
2Por tal motivo e como tivessem pleno conhecimento do porvir, estabeleceram os acima mencionados e deram, além disso, instruções no sentido de que, após a morte deles, outros homens comprovados lhes sucedessem em seu ministério.
3Os que assim foram instituídos por eles ou, mais tarde, por outros eminentes homens com a aprovação de toda a Igreja, servindo de modo irrepreensível ao rebanho de Cristo, com humildade, pacífica e abnegadamente, recebendo o testemunho favorável por longo tempo e da parte de todos, não é justo, em nossa opinão, serem depostos de seus ministérios.
4E não será pequena a nossa falta se depusermos do episcopado aqueles que ofereceram, de maneira santa e irrepreensível, os sacrifícios.
5Bem-aventurados os presbíteros que nos precederam na caminhada e terminaram sua jornada carregados de frutos e perfeição. Não têm a temer que alguém os remova do lugar para eles preparado.
6Vemos que vós afastastes a alguns de boa índole de um ministério que eles honraram de forma digna.

CAPÍTULO XLV
1Irmãos, cheios de zelo, disputai pelas coisas que levam à salvação.
2Vós vos aprofundastes nas verdadeiras Escrituras Sagradas, que nos vêm do Espírito Santo.
3Sabeis que elas não são injustas, nem contêm falsificação. Lá não encontrareis que homens justos foram depostos por homens santos.
4Ao contrário, os justos foram perseguidos por pecadores, foram encarcerados por ímpios, foram apedrejados por trasgressores da lei, foram assassinados por homens cheios de ciúmes abomináveis e criminosos.
5Tais sofrimentos eles suportam com glória.
6O que diríamos então, irmãos? Acaso Daniel foi lançado à cova por homens tementes a Deus?
7E quanto a Ananias, Azarias e Misael: foram eles lançados à fornalha ardente por homens que praticavam o culto excelso e glorioso do Altíssimo? De modo algum! Então, quem praticou tais coisas? Foram indivíduos odiosos, cheios de maldade e que nutriam tal fúria que mandavam à tortura todos aqueles que serviam a Deus com santa e irrepreensível intenção, esquecendo-se que o Altíssimo é defensor e escudo daqueles que servem a seu Santíssimo Nome com consciência pura. A Ele, a glória pelos séculos dos séculos. Amém.
8Os que perseveraram na paciência, receberam glória e honra como herança, foram exaltados e inscritos no livro da memória de Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém.

CAPÍTULO XLVI
1Irmãos, temos que nos apegar a tais exemplos,
2pois está escrito: "Apegai-vos aos santos porque os que a eles se apegam serão santificados".
3E, de novo, em outra parte, se diz: "Junto ao homem puro serás puro. Junto ao eleito serás eleito. Junto ao perverso serás perverso".
4Apeguemo-nos, pois, aos puros e justos porque são esses os eleitos de Deus.
5Por que entre vós existem disputas, ódios, contendas, cismas e guerras?
6Acaso não temos um só Deus, um só Cristo e um só Espírito da graça derramado sobre nós e uma só vocação em Cristo?
7Por que insistimos em separar e despedaçar os membros de Cristo, nos revoltando contra o próprio corpo, chegando a uma loucura tal que nos esquecemos que somos membros uns dos outros? Lembrai-vos das palavras de Nosso Senhor Jesus,
8porque foi Ele quem disse: "Ai daquele homem! Melhor seria que não tivesse nascido do que escandalizar um dos meus eleitos. Mais lhe valeria amarrar uma pedra em seu pescoço e afundar no mar do que perverter um dos meus eleitos".
9Vosso cisma perverteu a muitos, atirou muitos no desânimo, colocou muitos na dúvida, entristeceu-nos a todos. E vossa revolta se prolonga...

CAPÍTULO XLVII
1Tornai a ler a epístola do bem-aventurado apóstolo Paulo.
2O que vos escreveu primeiro, no início do evangelho?
3Na verdade, estava ele inspirado pelo Espírito quando vos comunicou normas sobre si próprio, sobre Cefas e Apolo, pois já então formáveis partidos.
4Mas o partidarismo daquele tempo importou num pecado muito menor para vós já que vos agrupáveis em torno dos apóstolos e de um homem aprovado por eles.
5Refleti, porém: quem são os que vos pervertem neste momento e como enfraqueceram o renome da vossa caridade tão celebrada por todos.
6Uma vergonha, meus caros, uma vergonha muito grande e indigna de uma conduta em Cristo ouvir-se que a Igreja dos coríntios, tão inabalável e antiga, se rebele contra os presbíteros por causa de uma ou duas pessoas.
7E tal rumor não chegou apenas até nós, mas atingiu também a outros que possuem as mesmas convicções que nós, a ponto de se proferirem blasfêmias ao nome do Senhor por causa da vossa insensatez, por armar perigo para vós próprios.

CAPÍTULO XLVIII
1Arranquemos esse mal o mais rápido possível. Lancemo-nos aos pés do Senhor e peçamos-lhe, entre lágrimas, que se compadeça de nós, reconciliando-se conosco, trazendo-nos de volta a uma prática santa e pura de nossa fraternidade.
2Porque é esta a porta da justiça aberta para a vida, conforme está escrito: "Abri-me as portas da justiça: por elas quero entrar e louvar o Senhor.
3É esta a porta do Senhor: por ela entrarão os justos".
4Entre as muitas portas abertas, a porta da justiça é a porta de Cristo. Bem-aventurados todos aqueles que entram por ela e guiam seus passos na santidade e justiça, cumprindo todas as coisas impertubavelmente.
5Que alguém tenha fé, que seja capaz de expor o conhecimento, que seja sábio em discernir os discursos, que seja santo em suas ações.
6Quanto maior parecer, mais se deve ser humilde, procurando o proveito de todos e não o próprio.

CAPÍTULO XLIX
1Quem possui a caridade em Cristo, cumpra os mandamentos de Cristo.
2Quem poderia descrever o vínculo da caridade de Deus?
3Quem seria capaz de exprimir a magnificência de sua beleza?
4É indescritível a altura a que nos leva o amor.
5O amor nos une a Deus, o amor cobre os pecados, o amor suporta tudo, o amor é grandioso em tudo. Nada há de mesquinho e soberbo na caridade. A caridade não conhece cisma, a caridade não se revolta, a caridade realiza tudo com harmonia, na caridade todos os eleitos de Deus atingiram a perfeição. Sem caridade, não há nada que agrade a Deus.
6Na caridade o Senhor nos acolheu. Pela caridade que teve conosco, Nosso Senhor Jesus Cristo deu Seu sangue por nós, segundo a vontade de Deus; sua carne por nossa carne, sua alma por nossas almas.

CAPÍTULO L
1Amigos, vede como a caridade é grande e admirável e como não há como descrevê-la de forma perfeita.
2Quem seria capaz de chegar até ela a não ser aqueles a quem Deus os torna dignos. Peçamos e supliquemos por Sua misericórdia, para vivermos irrepreensíveis na caridade sem a parcialidade humana.
3Desde Adão, passaram todas as gerações até o dia de hoje. Mas os que foram perfeitos no amor segundo a graça de Deus tomaram posse da terra dos santos e hão de manifestar-se quando o Reino de Cristo estiver à vista.
4Pois está escrito: "Entrai nos aposentos por um instante, até que passe minha ira e meu furor. Então me lembrarei do dia favorável e hei de ressuscitar-vos de vossos túmulos".
5Amigos, somos felizes quando cumprimos os mandamentos de Deus na harmonia da caridade, para que nossos pecados sejam perdoados pela caridade.
6Porque a Escritura diz: "Bem-aventurados aqueles que tiveram perdoadas suas iniqüidades e encobertos seus pecados. Bem-aventurado o homem a quem Deus não imputa pecado e em cuja boca não se encontra a fraude".
7Estas bem-aventuranças dizem respeito aos que foram escolhidos por Deus, através de Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem se dê a glória pelos séculos dos séculos. Amém

CAPÍTULO LI
1Peçamos perdão de nossas quedas e faltas ocorridas pela sugestão do inimigo. Mas também devem considerar nossa comum esperança aqueles que se tornaram os líderes dessa revolta e cisão.
2Pois os que vivem no temor e na caridade preferem ver-se a si mesmos atormentados do que os seus irmãos. Preferem ser censurados do que ver censurada a concórdia que nos foi transmitida por tão bela e santa tradição.
3Mais vale ao homem confessar publicamente suas faltas do que endurecer o coração, da mesma forma como endureceu o coração daqueles que se revoltaram contra Moisés, servo de Deus, e que foram castigados mais tarde,
4pois desceram vivos para o inferno, onde a morte os apascentará.
5O faraó, seu exército, todos os chefes do Egito, os carros e os que neles estavam não foram lançados ao Mar Vermelho por outro motivo. Aí pereceram porque endureceram seus corações insensatos, após os sinais e milagres realizados por Moisés, servo de Deus, no Egito.

CAPÍTULO LII
1Irmãos, o Senhor não necessita de absolutamente nada. Não precisa de nada de ninguém, exceto que o confessem.
2Pois assim diz Davi, Seu eleito: "Hei de exaltar o Senhor e isso Lhe agradará mais do que um novilho que possua chifres e patas. Que O vejam os pobres e se rejubilem".
3E novamente: "Oferece a Deus um sacrifício de louvor. Cumpre teus votos ao Altíssimo. 'Invoca-Me no dia da tua tribulação: Eu te livrarei e me renderás glórias'.
4Porque, para Deus, sacrifício é o espírito humilhado."

CAPÍTULO LIII
1Caríssimos, conheceis - e como conheceis bem - as Sagradas Escrituras: vos aprofundastes nos oráculos de Deus. Escrevemos isto para simplesmente vos recordar das coisas.
2Quando Moisés subiu a montanha e aí passou, humildemente, quarenta dias e quarenta noites fazendo jejum, Deus lhe falou: "Desce depressa porque teu povo pecou. Aqueles que conduziste para fora da terra do Egito pecaram e afastaram-se do caminho que prescreveste pois fizeram para si ídolos de metal".
3E o Senhor ainda acrescentou: "'Eu já te disse e volto a repetir: vi este povo e quão dura é sua cabeça. Deixa-me exterminá-lo, apagarei seu nome sob os céus e farei de ti uma nação grandiosa e admirável, muito mais numerosa do que esta'.
4Mas Moisés respondeu-lhe: 'Senhor, não faças isso! Perdoa o pecado deste povo ou tira de mim o livro dos vivos'".
5Ó grande caridade! Ó perfeição insuperável! O servo fala com liberdade com o seu Senhor: exige perdão para o povo ou implora que seja destruído junto com ele.

CAPÍTULO LIV
1Quem, dentre vós, for nobre, compassivo e cheio de caridade,
2diga: "se é por minha causa que há revolta, discórdia e cisma, eu me retiro, parto para onde quiserdes e faço o que for pedido pela comunidade, desde que apenas o rebanho de Cristo viva em paz com os presbíteros constituídos".
3Quem agir dessa maneira obterá grande glória em Cristo e será recebido em toda a parte, "pois do Senhor é a terra e sua plenitude".
4É isso o que fizeram e ainda fazem os que trilham, sem remorsos, o caminho de Deus.

CAPÍTULO LV
1Porém, tomemos também exemplos dentre os gentios: quando surge uma peste, muitos reis e príncipes se entregam à morte por inspiração de algum oráculo, para salvar o sangue de seus cidadãos. Muitos outros se retiram de suas cidades, para que a revolta não se estenda.
2Conhecemos muitos dentre os nossos que se entregaram à prisão para resgatarem outros. Muitos se entregaram à escravidão para sustentar os demais com o dinheiro pago.
3Muitas mulheres, fortalecidas pela graça de Deus, realizaram difíceis tarefas.
4A bem-aventurada Judite, durante o cêrco da cidade, pediu aos presbíteros a permissão para se ausentar do acampamento dos estrangeiros.
5Expondo-se ao perigo, saiu por amor à pátria e ao povo em cêrco. E o Senhor entregou Holofernes na mão de uma mulher.
6Perfeita na fé, Ester expôs a si mesma num perigo não menor, para salvar da proximidade da morte as doze tribos de Israel. Pelo jejum e humilhação, suplicou ao Senhor que tudo vê, o Deus dos séculos. E este, vendo a humildade de sua alma, salvou o povo em favor daquela que se expusera ao perigo.

CAPÍTULO LVI
1Supliquemos também nós pelos que vivem no pecado, para que recebam doçura e humildade, para não cederem a nós, mas à vontade de Deus. Assim se tornará frutífera e perfeita a lembrança misericordiosa que deles tivemos diante de Deus e dos santos.
2Aceitemos a correção fraterna, a qual, amados, ninguém deve julgar mal. A exortação que damos uns aos outros é boa e muito útil, pois nos une à vontade de Deus.
3É isso que testemunha a santa Escritura: "Castigou e tornou a me castigar o Senhor, mas não me entregou à morte.
4A quem o Senhor ama, castiga e açoita como a seu filho."
5O texto continua: "Há de me castigar, como justo em misericórdia, e há de me corrigir. E enquanto isso, que nenhum óleo dos pecadores unja a minha cabeça."
6E novamente diz: "Bem-aventurado o homem que o Senhor corrigiu. Não recuses a repreensão do todo-poderoso, pois Ele faz sofrer e novamente restabelece.
7Bateu e suas mãos curaram.
8Seis vezes arrancar-te-á as dificuldades; na sétima, o mal não te atingirá.
9Na fome, preservar-te-á da morte. Na guerra, [preservar-te-á] do fio da espada.
10Proteger-te-á do açoite da língua, não temerás males vindouros.
11Rirás dos injustos e maus, e não temerás os animais selvagens.
12Até os animais selvagens viverão em paz contigo.
13Verás que tua casa gozará de paz e não faltará comida na tua tenda.
14Verás que tua descendência será grande e os teus filhos como a erva miúda do campo.
15Descerás ao túmulo como o trigo amadurecido, colhido no tempo certo, ou como feixe da eira, recolhido na hora exata"
16Caríssimos, vede quão grande é a proteção para aqueles que aceitam a correção do Senhor, pois Ele nos corrige como bom Pai, para encontrarmos misericórdia por sua santa correção.

CAPÍTULO LVII
1Portanto, vós que originastes a revolta, submetei-vos aos presbíteros e deixai-vos corrigir até vos converterdes, dobrando os joelhos de vossos corações.
2Aprendei a submeter-vos, depondo a arrogante e orgulhosa jactância da vossa língua, pois é muito melhor para vós encontrar-vos no rebanho de Cristo, como pequenos e escolhidos, do que serdes super-estimados, mas excluídos da Sua esperança,
3pois é assim que se exprime a santíssima sabedoria: "Eis que anunciar-vos-ei a palavra do meu Espírito. Dar-vos-ei a conhecer o meu discurso.
4Já que chamei e não escutastes, me estendi e não destes atenção, ao contrário, negligenciastes os meus conselhos e fizestes pouco caso das minhas advertências, por isso também rirei da vossa perda, zombarei na hora em que chegar a tua ruína e quando o tumulto se abater sobre vós, catástrofe repentina como uma tempestade, ou quando vos visitar a tribulação e a angústia.
5Então me invocarás, porém, não vos escutarei. Pecadores me procurarão, mas não me encontrarão, pois detestaram a sabedoria e não estimaram, acima de tudo, o temor do Senhor, não deram atenção aos meus conselhos, zombaram das minhas advertências.
6Por isso, comerão os frutos dos seus erros e saciar-se-ão da sua própria impiedade.
7Serão mortos em troca do mal que provocaram aos humildes e o julgamento aniquilará os ímpios. Porém, aquele que Me escuta, habitará sua tenda e, confiando na esperança, viverá em paz sem temer qualquer mal."

CAPÍTULO LVIII
1Assim, obedeçamos a seu Nome, todo santo e glorioso. Fujamos das ameaças que a sabedoria incute contra os insubmissos, para que possamos fixar nossa tenda confiantes no Nome santíssimo de Sua Majestade.
2Acatai ao nosso conselho e não vos arrependereis, pois Deus é vivo, assim como vivo também são Jesus Cristo e o Espírito Santo, e vivas também são a fé e a esperança dos eleitos no sentido daqueles que praticam os mandamentos e preceitos de Deus com humildade, mansidão perseverante e sem hesitação, para serem relacionados e se enfileirarem no número dos que serão salvos por Jesus Cristo, pelo qual rendemos glória pelos séculos dos séculos. Amém.

CAPÍTULO LIX
1Se, porém, alguns não obedecerem ao que foi dito por nós, saibam que se envolverão em pecado e perigo não pequeno.
2Contudo, nós seremos inocentes deste pecado e pediremos em súplica e oração constante para que o Criador de tudo conserve intacto o número dos que foram contados entre Seus escolhidos em todo o mundo, por seu Filho mui amado, Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual nos chamou das trevas para a luz, da ignorância para o conhecimento da glória de seu nome.
3Ele nos ensinou a esperar em Teu Nome, princípio de toda criatura. Tu que nos abriste os olhos do coração para Te conhecermos, ao único Altíssimo nas alturas, Santo que repousa entre os santos:
Tu que rebaixas o orgulho dos soberbos, que desfazes as estratégias das nações, que exaltas os humildes e humilhas os que se exaltam, que distribuis a riqueza e a pobreza, que fazes morrer e levas à vida, que és o único benfeitor dos espíritos e Deus de toda carne, que vigias os abismos e controlas as obras dos homens, que és socorro nos perigos e Salvador no desespero, Criador e Bispo de todo espírito, tu que multiplicas as raças sobre a terra e, dentre todas, escolhes os que te amam, por Jesus Cristo, teu Filho amado, pelo qual nos ensinaste, santificaste e glorificaste.
4Mestre, nós te pedimos: torna-te nosso socorro e nosso protetor; salva os oprimidos entre nós; levanta os caídos; mostra-te aos que oram; cura os fracos; leva ao bom caminho aqueles do teu povo que erram; sacia os que têm fome; liberta nossos presos; consola os fracos; conheçam-Te todos os povos, porque Tu és o Deus único, e Jesus Cristo é Teu Filho, e nós o Teu povo e ovelhas do Teu rebanho.

CAPÍTULO LX
1Pois Tu fizeste aparecer a harmonia eterna do universo através das forças que nele operam. Tu, Senhor, criaste a terra habitada. Tu te manténs fiel por todas as gerações, justo nos julgamentos, admirável no poder e na majestade, sábio ao criar e providente ao sustentar a criação, bom nos dons visíveis, benigno para com os que em Ti confiam. Misericordioso e compassivo, perdoas nossas iniqüidades, pecados, faltas e negligências.
2Não leves em conta todo pecado de teus servos e servas, purifica-nos, ao invés, com a purificação da tua verdade. Dirige nossos passos para andarmos na santidade do coração e para realizarmos o que é bom e agradável aos Teus olhos e aos olhos dos que nos governam.
3Sim, Mestre, mostra-nos a tua face para o bem na paz, para nos protegeres com Tua mão forte e nos preservares de todo pecado por teu braço excelso e nos livrares de todos quanto nos odeiam sem motivo
4Concede-nos harmonia e paz, a nós e a todos os habitantes da terra, assim como as concedestes a nossos pais quando Te invocaram santamente na fé e na verdade. Torna-nos submissos a Teu Nome todo-poderoso e todo santo, e aos que nos governam e dirigem sobre a terra.

CAPÍTULO LXI
1Tu, Senhor, lhes deste o poder da autoridade por tua força magnífica e inefável, para que soubéssemos que por Ti lhes foi dada a glória e a honra, e a ele nos submetêssemos em nada contrariando a Tua vontade. Dai-lhes, portanto, Senhor, saúde, paz, concórdia e estabilidade a fim de que possam exercer sem obstáculos a soberania que lhes confiaste.
2Pois Tu, Senhor dos céus, Rei dos séculos, dás aos filhos do homem honra, glória e poder sobre o que existe na terra. Tu, Senhor, dirige sua vontade no sentido do que é bom e agradável a Teus olhos, em Tua presença, a fim de que exerçam a autoridade que lhes deste na paz e mansidão, e obtenham Tua graça!
3Só Tu podes realizar esses bens e outros maiores ainda entre nós. A Ti exaltamos pelo Sumo-Sacerdote e protetor de nossas almas, Jesus Cristo. Por Ele Te seja dada glória e magnificência, agora e de geração em geração, pelos séculos dos séculos. Amém.

CAPÍTULO LXII
1Amados irmãos, escrevemo-vos o suficiente a respeito das decisões mais acertadas para nossa religião, como também a respeito da atitude mais favorável para as pessoas que querem levar uma vida santa na piedade e justiça.
2Citamos todos os aspectos que dizem respeito à fé, penitência, verdadeira caridade, continência, prudência e paciência, recordando que vos é necessário agradar santamente ao Deus poderoso em justiça, verdade e generosidade, mantendo a concórdia pelo esquecimento da injúria, no amor e na paz, com constante modéstia, como também nossos pais que, como mencionamos, Lhe agradaram, mantendo-se humildes na conduta para com o Pai, Deus e Criador, e para com todos os homens.
3Tivemos tanto mais gosto em recordá-lo quanto mais sabíamos estar escrevendo a homens de fé e consideração, que se aprofundaram nas máximas do ensinamento de Deus.

CAPÍTULO LXIII
1É certo, assim, nos orientarmos por tais e tão grandes exemplos. Curvemos nossa cabeça e ocupemos o lugar da obediência, para acalmarmos a vã revolta e atingirmos com lisura a meta proposta dentro da verdade.
2Haveis de nos proporcionar alegria e prazer se vos submeterdes ao que escrevemos pelo Espírito Santo, cortando pela raiz a ira nascida do ciúme, conforme o pedido de paz e concórdia que vos fazemos por esta carta.
3Enviamo-vos homens de confiança e prudentes que, desde a juventude até a idade mais avançada, tiveram uma conduta irrepreensível entre nós, e que servirão de testemunhas entre vós e nós.
4Assim fizemos para que saibais que toda a nossa preocupação ia e continua indo no sentido de que se restabeleça imediatamente a paz entre vós.

CAPÍTULO LXIV
1No restante, que Deus, que tudo enxerga, Senhor dos espíritos, Dono de toda carne e que escolheu o Senhor Jesus Cristo e a nós por Ele, conceda a toda alma que tiver invocado o Seu Nome magnífico e santo, fé, temor, paz, paciência, generosidade, continência, pureza e prudência para agradar ao Seu Nome pelo Sumo-Sacerdote e nosso chefe, Jesus Cristo, pelo qual Lhe seja rendida glória, majestade, poder e honra, agora e por todos os séculos dos séculos. Amém.

CAPÍTULO LXV
1Aos nossos enviados, Cláudio Efebo e Valério Bito, junto com Fortunato, enviai-os rapidamente de volta na paz e com alegria, para que logo nos tragam notícias sobre a harmonia e paz, pela qual tanto rezamos e suplicamos e assim, mais depressa, nos alegremos da boa ordem entre vós.
2A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja convosco e com todos os eleitos de Deus, através Dele por toda a parte. Por Jesus, seja dada a Deus glória, honra, poder e majestade, o trono eterno, desde todos os séculos e para todos os séculos dos séculos. Amém.

Fonte: http://www.mucheroni.hpg.ig.com.br/religiao/96/index_pri_1.html


O Pastor de Hermas


Esta obra foi escrita em meados do segundo século por Hermas, entre 142 e 155 d.C.

Foi um dos escritos mais considerados da antiguidade cristã; por muito tempo, tida como inspirada, inclusive alguns a colocavam no Cânon do NT. As frequentes referências que se encontram dela em várias obras do período patrístico, demonstram a alta estima em que era tida. A obra era muito usada no cristianismo primitivo para instruir aqueles que acabavam de entrar na Igreja e queriam ser instruídos na piedade, como podemos comprovar no início do século IV no testemunho de Eusébio (HE, III,3:6).

Após larga difusão, especialmente, no Oriente, nas Igrejas gregas, inspirado para uns, apenas útil para todos e até mesmo recusado por outros, o Pastor foi, definitivamente, colocado entre os apócrifos após o Concílio Ecumênico de Hipona em 393, onde a Igreja definiu o catálogo bíblico.

Trata-se de uma obra longa, com 114 capítulos dispostos em 3 partes: 5 visões, 12 mandamentos e 10 Parábolas.

A preocupação central de Hermas não é doutrinário-dogmática, mas moral. Seu argumento principal é a necessidade de penitência indo ao encontro da misericórida divina. O leitor notará que o conceito de penitência, isto é, meios de santificação do homem, corresponde aos Sacramentos da Igreja. A Eclesiologia em Hermas, domina a idéia de que a Igreja é uma instituição necessária para a salvação. Quanto a Cristo, Hermas não emprega nenhuma vez, ao longo de sua obra, os termos Jesus Cristo, ou Logos. Chama-o de Salvador, Filho de Deus e Senhor. A Cristologia de Hermas suscitou dificuldades, pois segundo sua obra, há duas pessoas em Deus: Deus Pai e Deus-Espírito-Filho.

PRIMEIRA VISÃO

CAPÍTULO 1
Meu senhor me havia levado a Roma para me vender a uma certa Rosa. Vários anos depois, a revi e comecei a amá-la como irmã. Algum tempo depois, eu a vi tomando banho no Tibre, lhe estendi a mão e ajudei a sair do rio. Olhando sua beleza, pensava comigo mesmo: Eu seria muito feliz se tivesse mulher com essa beleza e caráter. Era a única coisa que eu pensava, sem ir além disso. Passado algum tempo, dirigindo-me para Cumas, refletia como são grandes, marcantes e poderosas as obras de Deus. Durante a viagem dormi. Então o espírito me arrebatou e me conduziu através de um caminho impraticável, por onde ninguém podia andar. O lugar era escarpado, todo cortado por águas. Atravessei o rio que aí havia e, chegando à planície, me ajoelhei e comecei a rezar a Deus, confessando-lhe meus pecados. Durante minha oração, o céu se abriu e vi aquela mulher que havia desejado. Do céu, ela me saudou: Bom dia, Hermas. Olhei para ela e falei: Senhora, que fazes aí? Ela me respondeu: Fui transportada para denunciar ao Senhor os teus pecados . Eu disse: Então, agora és a minha acusadora? Ela respondeu: Não! Ouve as palavras que te vou dizer: Deus, que habita nos céus, que do nada criou os seres, que os multiplicou e os fez crescer em vista da sua santa Igreja, está irritado contigo, porque cometeste falta contra mim . Então eu lhe respondi nestes termos: Cometi falta contra ti? Em que lugar e quando, alguma vez te dirigi palavra desonrosa? Por acaso, não te considerei sempre como deusa? Por acaso, não te tratei sempre como irmã? Mulher, por que me acusas falsamente de maldade e impureza? Sorrindo, ela me disse: O desejo da maldade entrou no teu coração. Não te parece que, para um homem justo, é prejudicial ter no coração o desejo da maldade? É falta, e grande, porque o homem justo tem pensamentos justos. E mediante esses pensamentos justos que ele aumenta sua glória nos céus e faz que o Senhor lhe seja indulgente para com todos os seus atos. Aqueles, porém, que são maus no coração, só atraem para si morte, e prisão, sobretudo aqueles que passam esta vida se vangloriando de suas riquezas e não se interessam pelos bens futuros. As almas deles se arrependerão, daqueles que, não tendo esperança, se desesperaram de si mesmos e da própria vida. Quanto a ti, reza a Deus. Ele curará teus pecados e os pecados de toda a tua família e de todos os santos.

CAPÍTULO 2
Quando ela terminou de dizer essas palavras, os céus se fecharam e eu fiquei tremendo e triste. Dizia a mim mesmo: Se o pecado está escrito contra mim, como poderei alcançar a salvação? Como aplacarei a Deus pelos meus pecados realmente cometidos? Com que palavras pedirei ao Senhor que me seja favorável? Essas eram minhas reflexões e hesitações, quando vi diante de mim uma poltrona forrada de lã branca como a neve, e grande. Então surgiu uma senhora idosa, com vestes resplandecentes, e um livro nas mãos. Ela sentou-se e me saudou: Bom dia, Hermas. Triste, respondi chorando; Bom dia, senhora. Ela então me disse: Por que essa de tristeza, Hermas? Tu, que és paciente, calmo e sempre sorridente, por que estás abatido dessa maneira e sem alegria? Eu respondi: É porque uma excelente mulher diz que cometi contra ela uma falta. Então ela continuou: Para um servo de Deus não se trata do ato em si mesmo. Mas certamente o desejo a respeito dela entrou no teu coração. Para os servos de Deus, intenção desse tipo conduz ao pecado. Para o espírito muito santo e já provado, intenção má, desejar má ação é de se espantar, sobretudo tratando-se do casto Hermas, que se abstém de todo mau desejo, que é pleno de perfeita simplicidade e grande inocência.

CAPÍTULO 3
Entretanto, não é por isso que Deus está irritado contigo, mas porque teus filhos agem mal diante do Senhor e de vós, seus pais, que os mantendes. De fato, amas teus filhos e não os corriges. Ao contrário, deixas que eles se corrompam terrivelmente. É por isso que o Senhor está irritado contigo. Mas ele vai curar todos os males que atingiram tua família, pois é por causa dos pecados e faltas deles que estás arruinado em teus negócios temporais. A grande misericórdia do Senhor teve compaixão de ti e de tua família; ele te fortalecerá e te estabelecerá na sua glória. Quanto a ti, apenas não desanimes: tem coragem e fortalece a tua família. O ferreiro, com o martelo, consegue o objeto que ele quer; da mesma forma, a palavra justa de cada dia consegue superar qualquer iniqüidade. Portanto, não cesses de corrigir teus filhos. Eu sei que, se eles fizerem penitência do fundo do coração, serão inscritos nos livros da vida com os santos. Quando terminou de falar, ela ainda me perguntou: Queres ouvir a leitura? Respondi: Quero sim, senhora. Ela continuou: Presta atenção e escuta os louvores de Deus. Eu ouvi coisas sublimes e admiráveis, que não consegui guardar. Todas essas palavras causam arrepios e o homem não é capaz de alcançar. Entretanto, lembro-me das últimas palavras, pois eram do nosso alcance e doces: Vê! O Deus das Potestades, aquele que com seu poder invisível e superior e grande inteligência criou o mundo; que por sua gloriosa vontade revestiu de graças as suas criaturas; que por sua palavra poderosa fixou o céu e assentou a terra sobre as águas; que por sua sabedoria e previdência criou a santa Igreja e também a abençoou; esse mesmo Deus desloca os céus e as montanhas, as colinas e os mares, que se tornam uma coisa única para os eleitos dele. Assim, ele cumpre na sua glória e a alegria, a promessa que fez para eles, se ao menos observarem os mandamentos do Senhor, que receberam com grande fé.

CAPÍTULO 4
Quando ela terminou de ler e se levantou da poltrona, chegaram quatro jovens que, levando a poltrona, foram embora, em direção ao Oriente. Então ela me chamou, tocou no meu peito e disse: Gostou da minha leitura? Respondi: Senhora, as últimas palavras me agradam, mas as anteriores são penosas e duras. Ela ainda falava comigo, quando apareceram dois homens, a tomaram pelos braços e se foram, na mesma direção da poltrona, para o lado do Oriente. Quando estava para partir, o ar dela era alegre e, ao se retirar, me disse: Sê homem, Hermas.

SEGUNDA VISÃO

CAPÍTULO 5
Eu me dirigia para Cumas, na mesma época do ano anterior. Enquanto caminhava, lembrei-me da visão que tivera no ano anterior, e novamente um espírito me arrebatou e me transportou para o mesmo lugar do ano precedente. Chegando aí, ajoelhei, comecei a rezar ao Senhor e a glorificar o seu nome, por me ter considerado digno e meter dado a conhecer os meus pecados passados. Ao me levantar da oração, vi diante de mim a senhora idosa que eu vira no ano anterior. Ela caminhava e lia um pequeno livro. Então me disse: Podes anunciar isto aos eleitos de Deus? Eu lhe respondi: Senhora, não consigo guardar na memória tantas coisas. Dá-me o livrinho, para que eu faça uma cópia. Ela disse: Toma e depois me devolve. Eu o tomei e, afastando-me para um lugar do campo, copiei tudo, letra por letra, porque não conseguia reconhecer as sílabas. Quando terminei de copiar as letras do livrinho, repentinamente me foi tirado da mão, sem eu ver quem o tomou.

CAPÍTULO 6
Depois de quinze dias de jejum e muitas orações ao Senhor, foi-me revelado o sentido do texto. Estava escrito o seguinte: Hermas, teus filhos se revoltaram contra Deus, blasfemaram o Senhor, traíram seus pais com muita maldade e tiveram de ouvir o nome de traidores de seus pais. Sua traição de nada lhes aproveitou e ainda continuaram acrescentando aos seus pecados a impureza e as contaminações da maldade e, desse modo, suas iniqüidades chegaram ao máximo. Transmite essas palavras a todos os teus filhos e à tua esposa, que doravante deve ser como tua irmã. Ela não domina a língua com a qual pratica o mal, porém, ouvindo essas palavras ela a dominará e alcançará misericórdia. Depois que tiveres dado a conhecer essas palavras que o Senhor me ordenou revelar-te, todos os pecados passados serão perdoados a eles, bem como a todos os santos que pecaram até hoje, se fizerem penitência de todo o coração e se afastarem de seus corações as dúvidas. O Senhor jurou por sua glória e respeito de seus eleitos: se depois deste dia, fixado como limite, ainda se cometer um só pecado, eles não obterão a salvação, pois a penitência para os justos tem limite. Terminaram os dias de penitência para todos os santos. Contudo para os pagãos, a penitência pode ser feita até o último dia. Dize, portanto, aos chefes da Igreja que endireitem seus caminhos na justiça, a fim de receberem plenamente, com grande glória, o que lhes foi prometido. Perseverai portanto, vós que praticais a justiça, e não duvideis, para que o vosso caminho esteja com os santos anjos. Felizes sois vós que suportais a grande tribulação que se aproxima, e todos os que não renegarem a sua própria vida. Porque o Senhor jurou por seu Filho: aqueles que renegarem o seu Senhor, perderão sua própria vida, como também aqueles que estão dispostos a renegá-lo nos dias futuros. Quanto àqueles que o renegaram antes, o Senhor, em sua grande misericórdia, tornou-se propício para eles.

CAPÍTULO 7
Quanto a ti, Hermas, não tenhas rancor contra teus filhos, nem abandones tua irmã. E assim, eles serão purificados dos pecados que cometeram. Se tu não lhes guardares rancor, eles receberão educação correta. O rancor provoca a morte. Quanto a ti, Hermas, sofreste grandes tribulações pessoais por causa das faltas de tua família, porque não cuidavas dela. Tu a negligenciaste, envolvendo-se ela em teus maus negócios. O que te salva, porém, é não teres abandonado o Deus vivo, assim como a tua simplicidade e a tua grande continência. Isso te salva, contanto que perseveres, e salva também todos aqueles que agem assim e andam no caminho da inocência e da simplicidade. Esses dominarão todo o mal e permanecerão firmes até a vida eterna. Felizes todos aqueles que praticam a justiça; jamais perecerão. 'Dize a Máximo: Eis que chega a tribulação. Se te parece bem, renega de novo. O Senhor está próximo daqueles que fazem penitência, como está escrito no livro de Eldad e Medat, que profetizaram para o povo no deserto.'

CAPÍTULO 8
Irmãos, quando eu dormia, tive uma revelação. Foi-me feita por um jovem encantador, que me disse: Quem achas que é a mulher idosa de quem recebeste o livrinho? Eu respondi: A Sibila. Ele disse: Estás enganado. Não é ela. Eu lhe perguntei: Quem é então? Ele me respondeu: É a Igreja. Eu lhe perguntei: Então, por que era tão idosa? Ele respondeu: Porque foi criada antes de todas as coisas. Por isso, ela é idosa. Foi por meio dela que o mundo foi ordenado. Depois disso, tive uma visão em minha casa. A mulher idosa apareceu e me perguntou se eu já havia entregue o livrinho aos presbíteros. Eu respondi que não. Ela continuou: Fizeste bem, porque tenho algumas palavras para acrescentar. Quando eu tiver terminado tudo o que tenho a dizer, tu o darás a conhecer a todos os eleitos. Farás duas cópias do livrinho e as mandarás, uma a Clemente e outra a Grapta. Clemente, por sua vez, mandará a cópia às outras cidades, porque essa missão é dele. Grapta exortará as viúvas e os órfãos. Tu o lerás para esta cidade, na presença dos presbíteros que dirigem a Igreja.

TERCEIRA VISÃO

CAPÍTULO 9
Irmãos, esta é a terceira visão que eu tive. Eu tinha jejuado freqüentemente e pedido ao Senhor que me concedesse a revelação que ele tinha prometido fazer-me por meio da mulher idosa. Nessa mesma noite, ela me apareceu e disse: Já que tens tanto desejo de conhecer tudo, vai ao campo onde cultivas a espelta, e pela quinta hora eu aparecerei a ti e te mostrarei o que precisas ver. Eu lhe perguntei: Senhora, em que lugar do campo? Ela respondeu: Onde quiseres. Escolhi um lugar belo e afastado. Contudo, antes que eu lhe falasse e dissesse o lugar, ela me disse: Irei aonde quiseres. Irmãos, eu caminhava, então, pelo campo, cantando as Horas. Cheguei ao lugar onde lhe havia dito que iria e vi um banco de marfim e em cima dele uma almofada de linho e, estendido sobre ela um véu de linho finíssimo. Ao ver esses objetos, sem que houvesse ninguém no lugar, fiquei espantado. Fui tomado de tremor e meus cabelos ficaram em pé. Ao verme sozinho ali, tive calafrios. Contudo, caí em mim, lembrei-me da glória de Deus e recobrei a coragem. Ajoelhei-me e confessei novamente ao Senhor os meus pecados, como já fizera antes. Então ela apareceu com seis jovens que eu já vira antes, aproximou-se de mim, ouviu-me rezando e confessando meus pecados ao Senhor. Ela me tocou e disse: Hermas, pára de suplicar somente por teus pecados. Suplica também pela justiça, a fim de obter um tanto dela para a tua família. Então ela me levantou pela mão, levou-me até junto ao banco e disse aos jovens: Ide construir. Então os jovens se retiraram, deixando-nos sozinhos. Ela me disse: Senta aqui. Eu lhe respondi: Senhora, deixa que os presbíteros sentem primeiro. Ela replicou: Faze o que te digo: senta. Quis então sentar-me à direita; ela porém não me permitiu, e me faz sinal com a mão para sentar à esquerda. Eu estava pensativo e triste, porque ela não me permitira sentar à direita. Então ela me disse: "Estás triste, Hermas?" O lugar da direita está reservado para outros, para os que já agradaram ao Senhor e sofreram por causa do Nome. Ainda te falta muito para poderes sentar-te com eles. Contudo, persevera na tua simplicidade, como fizeste até agora e sentarás ao lado deles e também com todos aqueles que farão o que eles fizeram e sofrerão o que eles sofreram.

CAPÍTULO 10
Eu lhe perguntei. O que é que sofreram? Ela me respondeu: Ouve: açoites, prisões, grandes tribulações, cruzes, feras, tudo por causa do Nome. E por isso que está reservado para eles o lado direito do santuário, a eles e a todo aquele que sofre por causa do Nome. Os outros ficam do lado esquerdo. Mas uns e outros, os que estiverem sentados à direita e os que estiverem à esquerda, gozam dos mesmos dons e das mesmas promessas. Os que estão sentados à direita, porém, têm glória particular. Tu desejas sentar à direita com eles, mas teus defeitos são numerosos. Deverás ser purificado de teus defeitos, e todos aqueles que não tiverem duvidado serão purificados de todos os seus pecados cometidos até hoje. Depois de dizer isso, ela fez menção de ir embora. Lancei-me a seus pés, suplicando-lhe, pelo Senhor, que me concedesse a visão que ela me prometera. Ela, tomou de novo a minha mão, levantou-me e me fez sentar no banco à esquerda. Ela também sentou, à direita. Depois, levantou um bastão brilhante, e me disse: Estás vendo uma coisa grande? Eu lhe respondi: Senhora, não estou vendo nada . Ela continuou: Não estás vendo diante de ti uma grande torre que está sendo construída sobre as águas, com pedras quadradas e brilhantes? Com efeito, ela estava sendo construída em forma quadrada pelos seis jovens que tinham vindo com ela. Outros milhares e milhares de homens carregavam as pedras, uns do fundo da água, outros da terra, e as entregavam aos seis jovens, que as recebiam e construíam. Eles colocavam as pedras tiradas do fundo da água pois já eram lavradas e se ajustavam imediatamente na construção perfeitamente às outras pedras; ajustavam-se tão bem umas com as outras, que não se via nenhuma juntura, e a torre parecia construída como um só bloco. Das pedras trazidas da terra, umas eram rejeitadas e outras utilizadas; outras ainda eram quebradas e jogadas longe da torre. Muitas outras pedras estavam no chão, ao redor do edifício. Não as utilizavam na construção, porque algumas estavam carcomidas, outras rachadas, outras mutiladas; outras ainda eram brancas e redondas e não se encaixavam na construção. Eu via também outras pedras jogadas longe da torre, caindo no caminho e, sem parar, rolando para lugares inacessíveis; outras caíam no fogo e queimavam, e outras ainda caíam perto da água mas não conseguiam rolar para dentro da água, embora desejassem rolar e entrar na água.

CAPÍTULO 11
Depois de me ter mostrado tudo isso, ela quis ir embora. Eu lhe disse: Senhora, que me serve ver essas coisas, se não sei o que significam? Ela me respondeu: Es curioso para conhecer o que se refere à torre! Eu lhe disse: Sim, senhora, quero conhecer para anunciar aos irmãos e alegrá-los, para que, ouvindo isso, conheçam a Deus em toda a sua glória.Ela então me disse: Muitos ouvirão. Contudo, depois de ouvirem, uns se alegrarão e outros chorarão. Todavia, também estes últimos, se ouvirem e fizerem penitência, se alegrarão. Ouve, portanto, as parábolas da torre, pois eu vou te revelar tudo. Não me incomodes mais, pedindo-me revelação, pois essas revelações podem acabar. Tu, porém, não pararás de pedir revelações, pois és insaciável. A torre que viste em construção, sou eu mesma, a Igreja, que viste agora e antes. Pergunta o que desejas a respeito da torre: eu te revelarei, para que te alegres com os santos. Eu lhe pedi: Senhora, agora que me julgaste digno de todas as revelações, revela-me. Ela me disse: O que convém te revelar, será revelado. Basta que teu coração esteja voltado para Deus e não duvides de nada do que vires. Eu lhe perguntei: Senhora, por que a torre está construída sobre as águas? Ela respondeu: Já te disse que és curioso a respeito das Escrituras e pesquisas com cuidado. Pesquisando, encontras a verdade. Ouve porque a torre foi construída sobre as águas: é porque vossa vida foi salva pela água e ainda o será. A torre foi construída pela palavra do Nome todo-poderoso e glorioso, e é sustentada pela força invisível do Senhor.

CAPÍTULO 12
Então continuei: Senhora, que coisa grande e admirável! Senhora, quem são os seis jovens que constroem? (Ela respondeu:) São os santos anjos de Deus, criados em primeiro lugar. O Senhor confiou-lhes toda a sua criação, para desenvolvê-la, construí-la e governá-la. É por meio deles que a construção da torre será terminada. (Perguntei:) E quem são os que carregam as pedras? (Ela respondeu): Também eles são anjos de Deus, mas os seis primeiros são superiores a eles. Quando a construção da torre estiver terminada, eles se alegrarão todos juntos ao redor dela, e glorificarão o Ser, por ela ter sido terminada. Eu lhe perguntei: Senhora, eu gostaria de conhecer o destino das pedras e qual o significado de cada uma delas. Ela me respondeu: Tu não és mais digno que os outros para que isso te seja revelado. Outros estão antes de ti e são melhores. É a eles que essas visões deveriam ser reveladas. Contudo, para que o nome do Senhor seja glorificado, tu recebeste e receberás ainda essas revelações, por causa dos que vacilam, dos que ficam se perguntando se tudo isso é real. Dize-lhes que tudo isso é ou não é verdadeiro e que nada disso está fora da verdade. Tudo é firme, sólido e bem alicerçado.

CAPÍTULO 13
Ouve agora o que se refere às pedras que entram na construção. As pedras quadradas e brancas, que se ajustam bem entre si, são os apóstolos, os bispos, os doutores e os diáconos. Todos esses, caminhando segundo a santidade de Deus, desempenharam com pureza a santidade seu ministério de bispos, doutores e diáconos a serviço dos eleitos de Deus. Uns já morreram e outros ainda vivem. Estes são os que estiveram sempre de mútuo acordo, conservaram a paz entre si e se ouviram reciprocamente. É por isso que na construção da torre suas junturas se ajustavam bem. (Eu perguntei:) E quem são as pedras tiradas do fundo da água, que se colocam na construção e pelas suas junturas se ajustam bem às outras já colocadas? (Ela respondeu): São os que sofreram por causa do nome de Deus. (Eu continuei:) Senhora, quero saber também quem são as outras pedras tiradas da terra. Ela respondeu: As que entram na construção sem ser talhadas são os que o Senhor aprovou, porque andaram no caminho reto do Senhor e respeitaram perfeitamente seus mandamentos. (Continuei:) E quem são aquelas que eram levadas e postas na construção? (Ela respondeu): São os novatos na fé, porém fiéis. Os anjos os exortam a praticar o bem, e não se encontrou neles nenhum mal. (Perguntei ainda): E quem são aquelas que eram rejeitadas e jogadas fora? (Ela respondeu:) São aqueles que pecaram e que desejam fazer penitência. Por isso não foram jogados muito longe da torre. Se fizerem penitência, serão úteis para a construção. Aqueles que têm intenção de fazer penitência, caso façam penitência, ficarão firmes na fé, contanto que façam penitência agora, enquanto a torre ainda está em construção. Quando ela estiver terminada, não haverá mais lugar para eles: serão rejeitados, e só poderão permanecer perto da torre.

CAPÍTULO 14
Queres conhecer as pedras que são cortadas e jogadas para bem longe da torre? São os filhos da iniqüidade: têm fé hipócrita e nenhuma forma de maldade se afastou deles. É por isso que não alcançam a salvação. São inúteis para a construção, por causa de suas maldades. Foram, portanto, feitos em pedaços e jogados para longe pela ira do Senhor, pois eles o irritaram. Entre as outras que viste jogadas em grande número pelo chão, e que não entravam na construção, as carcomidas são aqueles que conheceram a verdade, mas não perseveraram nela, nem aderiram aos santos. Por isso, são inúteis. (Perguntei:) E quem são as pedras com rachaduras? (Ela respondeu:) São aqueles que nutrem rancor mútuo no coração, e não conservam a paz entre si. Assumem aparência de paz, mas, quando se separam, suas maldades persistem em seus corações: são essas as rachaduras dessas pedras. As pedras mutiladas são aqueles que têm fé e, no essencial, permanecem ligados à justiça, mas neles subsistem restos de iniqüidade. É por isso que elas estão mutiladas e não inteiras. (Eu perguntei:) Senhora e quem são as pedras brancas e redondas, que não se adaptam à construção? Ela me respondeu: Até quando serás ignorante e sem bom senso? Perguntarás tudo sem nada compreenderes por ti mesmo? São aqueles que têm fé, mas também conservam as riquezas deste mundo. Quando chega a tribulação, por causa de suas riquezas e negócios, eles renegam seu Senhor. Eu então lhe replico: Senhora, quando é que eles serão úteis para a construção? Ela me diz: Quando for aparada a riqueza que os domina, então serão úteis para Deus. A pedra redonda não pode se tornar quadrada se não for cortada e não perder algo de si. Do mesmo modo, os ricos deste mundo não poderão ser úteis ao Senhor, se suas riquezas não forem aparadas. Aprende contigo mesmo: enquanto eras rico, eras inútil; agora, porém, és útil e frutuoso para a vida. Tornai-vos úteis para Deus! Tu mesmo foste uma dessas pedras.

CAPÍTULO 15
As outras pedras que viste jogadas longe da torre, caindo no caminho e rolando daí para lugares inacessíveis, são aqueles que tiveram a fé, mas que, devido às suas dúvidas, abandonam o seu verdadeiro caminho. Eles acham que podem encontrar caminho melhor, se extraviam e se enveredam lamentavelmente, andando por lugares inacessíveis. As que caem no fogo e queimam são aqueles que se afastaram para sempre do Deus vivo, e não lhes acudiu à inteligência a idéia de fazerem penitência das paixões e das obras perversas que praticam. Queres saber quem são aquelas que caem junto da água, mas não conseguem rolar para dentro dela? São aqueles que ouviram a palavra de Deus e querem ser batizados em nome do Senhor. Contudo, quando tomam consciência da pureza que a verdade exige, mudam de opinião e voltam novamente para seus desejos perversos. E assim ela terminou a explicação da torre. Sem escrúpulos, eu lhe perguntei se todas essas pedras rejeitadas e impróprias para a construção podiam fazer penitência e encontrar lugar na torre. Ela me respondeu: Elas podem fazer penitência, mas não podem se encaixar nessa torre. Elas se encaixarão em outro lugar muito menor e só depois que tiverem passado pelas provações da penitência e cumprido os dias necessários para expiar os seus pecados. São transportadas para outro lugar, porque participaram da palavra de justiça. Se refletirem sobre as obras perversas que cometeram, serão transportados das provações; se não refletirem, não serão salvos, e isso devido à dureza de seus corações.

CAPÍTULO 16
Quando terminei de a interrogar sobre todas essas coisas, ela me disse: Queres ver mais alguma coisa? Eu estava muito desejoso de ver, e fiquei deveras contente. Ela me olhou sorridente e perguntou: Vês sete mulheres ao redor da construção? Eu respondi: Sim, senhora. (Ela continuou:) A torre é sustentada por elas, por ordem do Senhor. Ouve agora as funções que elas desempenham. A primeira, de mãos fortes, se chama Fé. É por meio dela que os eleitos do Senhor são salvos. A segunda, que tem cinto e aspecto viril, chama-se Continência, e é filha da Fé. Todo aquele que a segue é feliz durante a vida, porque se abstém de toda má ação, crendo que, por se abster de todo desejo perverso, herdará a vida eterna. (Eu então perguntei:) Senhora, e quem são as outras? (Ela continuou:) Elas são filhas uma da outra e se chamam Simplicidade, Ciência, Inocência, Santidade e Caridade. Portanto, se realizares todas as obras da mãe delas, viverás. Perguntei: Senhora, eu desejaria saber qual é o poder de cada uma delas. Ela respondeu: Ouve quais são os poderes delas. Elas estão subordinadas umas às outras e seguem-se mutuamente, conforme são geradas. Da Fé nasce a Continência; da Continência, a Simplicidade; da Simplicidade, a Inocência; da Inocência, a Santidade; da Santidade, a Ciência; da Ciência, a Caridade. Suas obras são puras, santas e divinas. Quem quer que se torne seu servidor e tenha força para perseverar em suas obras, habitará na torre, junto com os santos de Deus. Perguntei-lhe ainda sobre os tempos, para saber se já havia chegado o fim. Ela, então, gritou em voz alta: Insensato, não vês que a torre ainda está em construção? Quando estiver terminada, então chegará o fim. E ela será terminada logo. Não me perguntes mais nada. Basta a ti e aos santos lembrar-vos disso e renovar vossos espíritos. Mas não é somente para ti que tudo isso foi revelado: deves torná-lo conhecido de todos, em três dias. Em primeiro lugar, és tu que deves refletir. Hermas, eu te ordeno repetir literalmente aos santos todas as palavras que te vou dizer, para que, depois de tê-las ouvido e observado, eles sejam purificados de seus pecados, e tu com eles.

CAPÍTULO 17
Filhos, escutai-me. Eu vos criei com toda a simplicidade, inocência e santidade, pela misericórdia do Senhor, o qual, gota a gota, fez cair sobre vós a justiça, para vos justificar e vos santificar de toda maldade e perversidade. Vós, porém, não quereis corrigir-vos de vossa maldade. Agora, portanto, escutai-me. Vivei em paz uns com os outros, cuidai uns dos outros e socorrei-vos mutuamente. Não vos aposseis, somente para vós, dos bens que Deus criou em abundância, mas reparti também com os necessitados. Alguns, de fato, pelo excesso no comer, acabam por enfraquecer o corpo e minar a saúde. Outros, que não têm o que comer, vêem a saúde arruinada pela insuficiência de alimentos e o corpo se arruína. Essa intemperança é danosa para vós, para vós que possuís e não repartis com os necessitados. Vede o julgamento que está para vir. Vós que tendes muito, procurai os que têm fome, enquanto a torre não estiver terminada, porque, depois de terminada, ainda que quisésseis fazer o bem, não teríeis mais ocasião. Atenção, portanto, vós que vos orgulhais de vossas riquezas, para que os necessitados não gemam e o gemido deles chegue até o Senhor, e sejais excluídos, junto com vossos bens, fora da porta da torre. Eu me dirijo agora aos chefes da Igreja e àqueles que ocupam os primeiros lugares. Não vos torneis semelhantes aos envenenadores. Eles levam seus venenos em frascos. Vós tendes vossa poção e veneno no coração. Estais endurecidos, recusais purificar vossos corações para temperar, com o coração puro, vosso pensamento na unidade, a fim de obter a misericórdia do grande Rei. Atenção, portanto, meus filhos, para que essas divisões não tirem a vossa vida. Como pretendeis instruir os eleitos do Senhor, se vós mesmos não tendes instrução? Instruí-vos, portanto, uns aos outros, e conservai a paz mútua, a fim de que também eu, apresentando-me alegre diante do Pai, possa falar favoravelmente a respeito de todos ao vosso Senhor.

CAPÍTULO 18
Quando ela terminou de falar comigo, chegaram os seis jovens encarregados da construção e a levaram para a torre. Outros quatro tomaram o banco e também o levaram para a torre. Não vi o rosto deles, pois estavam de costas. No momento em que ela se retirava, eu lhe pedi que me explicasse as três formas sob as quais ela me aparecera. E ela me respondeu: É necessário que o perguntes a outro para que o revele a ti. Irmãos, eu a tinha visto, na primeira visão do ano anterior, muito idosa e sentada na poltrona. Na visão seguinte, ela estava com aspecto mais jovem, porém o corpo e os cabelos eram de idosa; ela me falava de pé e estava mais alegre do que antes. Por ocasião da terceira visão, ela era inteiramente jovem e muito bela; só os cabelos eram de idosa. Estava muito alegre e sentada num banco. Eu estava muito intrigado para compreender a revelação prometida sobre essas coisas. De noite, numa visão, vi a mulher idosa, que me disse: Toda pergunta exige humildade. Jejua, portanto, e obterás o que pedes ao Senhor. Jejuei então um dia e, nessa noite, me apareceu um jovem que me disse: Por que pedes continuamente revelações na oração? Atenção! Pedindo muito, podes prejudicar teu corpo. Bastam para ti essas revelações. Es capaz de suportar revelações mais fortes do que aquelas que já tiveste? Eu lhe respondi: Senhor, peço apenas a respeito das três formas da mulher idosa, para que a revelação fique completa. Ele me respondeu: Até quando sereis insensatos? O que vos torna insensatos é duvidar e não voltar o vosso coração para o Senhor. Eu lhe respondi novamente: É justamente por teu meio, Senhor, que conhecemos essas coisas.

CAPÍTULO 19
Ele me disse: Escuta o que estás procurando sobre as formas. Por que na primeira vez ela te apareceu idosa e sentada numa poltrona? Porque vosso espírito estava envelhecido, murcho e sem força, por causa de vossa fraqueza e dúvidas. Os velhos, por não terem mais esperança de rejuvenescer, não esperam outra coisa senão a morte. Da mesma forma, enfraquecidos pelos negócios do mundo, vos tendes deixado levar pelo abatimento e não entregastes ao Senhor as vossas preocupações. Vosso coração se despedaçou e envelhecestes em meio às tristezas. (Eu disse:) Senhor, eu desejaria saber por que ela estava sentada numa poltrona. (Ele respondeu:) Porque toda pessoa fraca, por causa da fraqueza, é obrigada a sentar para reconfortar seu corpo débil. Esse é o sentido geral da primeira visão.

CAPÍTULO 20
Na segunda visão, tu a viste de pé, com aspecto mais jovem e mais alegre do que antes, mas com o corpo e os cabelos de idosa. Escuta a seguinte comparação: um idoso desesperançado por causa de sua fraqueza, e miséria, não espera mais nada, senão o último dia da sua vida. Caso, imprevistamente, lhe seja deixada uma herança, ao saber disso, ele levanta, alegra-se e recobra as forças. Ele não permanece deitado, mas põe-se de pé, e seu espírito, que estava consumido por seus sofrimentos anteriores, rejuvenesce; não fica sempre sentado, mas age virilmente. Igualmente acontece convosco, depois de ouvir a revelação que o Senhor vos fez. Ele teve compaixão de vós, vosso espírito rejuvenesceu e vós deixastes a fraqueza. A força voltou para vós e vos fortalecestes na fé. Vendo vossa força, o Senhor se alegrou e, por isso, vos mostrou a construção da torre. Ele ainda vos fará outras revelações, se de todo o coração estabelecerdes a paz entre vós.

CAPÍTULO 21
Na terceira visão, tu a viste mais jovem, bela, alegre, de aspecto encantador. E como pessoa triste que recebe boa notícia: imediatamente esquece suas tristezas anteriores. Ela só pensa nessa notícia que ouviu, retoma forças para o bem e, pela alegria que experimenta, seu espírito rejuvenesce. O mesmo acontece convosco: ao ver esses bens, vosso espírito rejuvenesceu. Tu a viste sentada no banco, em posição estável, pois o banco tem quatro pés e se mantém firme. O mundo também é sustentado por quatro elementos. Aqueles que fizerem penitência serão completamente rejuvenescidos e firmes, ao menos aqueles que tiverem feito penitência de todo o coração. Tu recebeste, assim, toda a revelação. Doravante, não peças mais nenhuma revelação. Se tiveres necessidade, a receberás.

QUARTA VISÃO

CAPÍTULO 22
Irmãos, esta é a visão que tive vinte dias depois da última, prefigurando a tribulação que se aproxima. Eu caminhava pela Via Campana para o meu campo, situado a uns dez estádios da via pública. O lugar é de fácil acesso. Caminhando sozinho, pedi ao Senhor que completasse as revelações e as visões que me enviou por meio de sua santa Igreja, a fim de me fortalecer e conceder a conversão aos seus servos que tropeçaram. Desse modo, seu nome sublime e glorioso será glorificado, pois ele julgou-me digno de me mostrar suas maravilhas. Eu o glorificava e lhe dava graças, quando um ruído de vozes me respondeu: Não duvides, Hermas. Comecei então a refletir e disse a mim mesmo: Que razões teria eu para duvidar, eu que sou assim sustentado pelo Senhor e que vi essas maravilhas? Avancei um pouco, irmãos, e então vi uma nuvem de poeira que se levantava até o céu, e perguntei: Será algum rebanho que se aproxima e levanta a poeira? A nuvem estava mais ou menos a um estádio de mim. Mas ela aumentava cada vez mais e eu suspeitei que fosse algo divino. Nesse momento, o sol brilhou um pouco, e então pude ver uma fera enorme, parecida com a baleia. E da sua boca saíam gafanhotos de fogo. A fera tinha cerca de cem pés de comprimento, e sua cabeça era do tamanho de um barril. Comecei a chorar e a pedir ao Senhor que me livrasse do monstro. Lembrei-me da palavra que tinha ouvido: Não duvides, Hermas. Então, irmãos, revesti-me da fé em Deus, lembrei-me de seu ensinamento sublime e, num arroubo de coragem, me expus diante da fera. Ela avançava com grande estrépito, capaz de destruir uma cidade. Aproximei-me, e a enorme baleia se estendeu pelo chão, apenas pondo para fora a língua. Ela não fez nenhum outro movimento, até que passei por ela. A fera tinha quatro cores na cabeça: preto, avermelhado de fogo e sangue, dourado e branco.

CAPÍTULO 23
Eu ultrapassara a fera, e continuei uns trinta pés, quando veio ao meu encontro uma jovem adornada, como se estivesse saindo do quarto nupcial, toda vestida de branco, com sandálias brancas, coberta até a fronte, com mitra cobrindo a cabeça. Seus cabelos eram brancos. Pelas visões anteriores, reconheci que era a Igreja, e fiquei muito contente. Ela me saudou, dizendo: Bom dia, homem. Eu lhe respondi com a mesma saudação: Bom dia, senhora. Ela me perguntou: Não encontraste nada? Eu lhe respondi: Senhora, encontrei uma fera tão grande, que seria capaz de aniquilar povos. Mas, pelo poder e misericórdia do Senhor, consegui escapar dela. Então me disse: Tiveste a felicidade de escapar, porque entregaste tua preocupação a Deus, abriste teu coração ao Senhor, acreditando que não poderias ser salvo de outro modo, senão pelo seu Nome grande e glorioso. Por isso, o Senhor enviou o seu anjo, aquele que está à frente das feras selvagens, cujo nome é Tegri: ele fechou a boca da fera, a fim de evitar que ela te devorasse. Por tua fé, escapaste de grande tribulação, pois a visão de tão grande fera não te fez duvidar. Portanto, agora vai, e explica as grandezas do Senhor aos seus eleitos. Dize-lhes que essa fera é a prefiguração da grande tribulação que está para chegar. Se vos preparardes e de todo coração fizerdes penitência diante do Senhor, podereis escapar da tribulação. É preciso, porém, que vosso coração se tome puro e irrepreensível, e que sirvais irrepreensivelmente ao Senhor pelo resto de vossos dias. Entregai ao Senhor as vossas preocupações, e ele as resolverá. Crede no Senhor que tudo pode, vós que duvidais. Ele desvia sua ira de vós e envia flagelos para vós que duvidais Ai daqueles que ouvirem essas palavras e não as aceitarem. Seria melhor para eles não ter nascido.

CAPÍTULO 24
Perguntei-lhe então sobre as quatro cores que a fera tinha na cabeça. Ela me respondeu: Estás novamente curioso a respeito dessas coisas. Eu lhe disse: Sim, senhora. Dá-me a conhecer o que significa isso. Ela disse: Escuta. A cor negra é este mundo em que habitais; o avermelhado de fogo e sangue quer dizer que este mundo deverá perecer pelo fogo e pelo sangue. A parte dourada sois vós, que fugistes deste mundo. Com efeito, o ouro é provado pelo fogo e se torna útil. Da mesma forma, vós que habitais no mundo sois provados. Vós que perseverais e resistis à prova do fogo, sereis purificados. Assim como o ouro deixa sua escória, vós também deixareis toda tristeza e angústia, e sereis purificados e úteis para a construção da torre. A parte branca é o mundo que se aproxima, onde habitarão os eleitos de Deus, pois os eleitos de Deus para a vida eterna serão puros e sem mancha. Quanto a ti, não cesses de falar aos santos. Tendes a prefiguração da grande tribulação que se aproxima. Se quiserdes, porém, ela não será nada. Lembrai vos do que foi escrito antes. Tendo dito isso, ela foi embora, e eu não vi por onde se foi. Apareceu uma nuvem e eu, apavorado, voltei-me para olhar para trás, com a impressão de que a fera estivesse voltando.

QUINTA VISÃO

CAPÍTULO 25
Eu estava rezando em casa, sentado na cama, quando vi entrar um homem de aparência gloriosa, vestido com roupas de pastor, coberto com pele branca de cabra, com o bornal nas costas e o cajado na mão. Saudou-me e respondi à saudação. Imediatamente ele sentou ao meu lado, e me disse: Fui enviado pelo anjo mais venerável, para morar contigo pelo resto da tua vida. Pareceu-me que ele estava ali para me provar. Eu lhe perguntei: Quem és tu? Eu sei muito bem a quem fui confiado. Ele me disse: Não me reconheces? Eu respondi: Não. Ele continuou: Eu sou o Pastor, a quem foste confiado. Ele ainda falava, quando seu aspecto mudou, e então o reconheci: era justamente aquele a quem eu fora confiado. Logo a seguir, cheio de confusão, fui tomado pelo medo e completamente arrasado pela tristeza. Será que eu o tinha tratado de forma desconsiderada e insensata? Ele, porém, me respondeu: Não te perturbes. Ao contrário, fortalece-te com os mandamentos que te darei, pois fui enviado para te mostrar, ainda uma vez, tudo o que viste antes, os principais pontos úteis para vós. Quanto a ti, anota tudo sobre os mandamentos e as parábolas. Escreverás as outras coisas, conforme eu te indicar. Ordeno que escrevas primeiro os mandamentos e as parábolas, para que possas lê-los e observá-los imediatamente. Então escrevi os mandamentos e as parábolas, conforme ele me ordenara. Se vós os escutardes e observardes, se caminhardes neste caminho e os puserdes em prática com o coração puro, recebereis do Senhor tudo o que vos prometeu. Todavia, se depois de escutardes, não vos converterdes, se continuardes a pecar, recebereis do Senhor o contrário. Eis aqui tudo o que o Pastor, o anjo da penitência, me ordenou que escrevesse.

PRIMEIRO MANDAMENTO

CAPÍTULO 26
"Antes de tudo, crê que existe um só Deus, que criou e organizou o universo, fazendo passar todas as coisas do não-ser para o ser, que contém tudo e ele próprio não é contido por nada. Crê nele e teme-o, e temendo-o, sê continente. Observa isso e afasta de ti todo mal, para que sejas revestido de toda virtude de justiça, e viverás para Deus, se observares esse mandamento."

SEGUNDO MANDAMENTO

CAPÍTULO 27
Ele me disse: "Sê simples e inocente, e serás como as crianças que não conhecem o mal que destrói a vida dos homens. Em primeiro lugar, não fales mal de ninguém, nem ouças com prazer o maledicente. Do contrário, participarás do pecado do maledicente, se acreditares na maledicência que ouves. Pois, acreditando nisso, também ficarás hostil ao teu irmão, e participarás do pecado do maledicente. A maledicência é má, é demônio agitado, que nunca está em paz, e só sente prazer nas discórdias. Fica longe dele, e tuas relações com todos serão sempre perfeitas. Sê reservado. Com reserva, não há mau tropeço, mas tudo é plano e alegre. Realiza o bem e, do produto do trabalho que Deus te concede, dá com simplicidade a todos os necessitados, sem te preocupares a quem darás ou não. Dá a todos, porque Deus quer que seus próprios bens sejam dados a todos. Os que recebem prestarão contas a Deus do motivo e finalidade daquilo que tiverem recebido: os que receberem por necessidade não serão julgados, mas os que enganarem para receber, serão punidos. Aquele que dá é irrepreensível, pois realiza com simplicidade o serviço, conforme recebeu do Senhor, sem discriminar a quem dá ou não. O serviço, assim realizado na simplicidade, subsistirá em Deus. Observa, portanto, esse mandamento, conforme te ordenei, para que tua conversão e a da tua casa sejam encontradas simples, puras, inocentes e incorruptíveis."

TERCEIRO MANDAMENTO

CAPÍTULO 28
Ele me disse novamente: "Ama a verdade, e apenas a verdade saia de tua boca, para que o espírito, que Deus colocou nesse corpo, seja encontrado verdadeiro por todos os homens. Assim, o Senhor, que habita em ti, será glorificado, porque o Senhor é verdadeiro em todas as palavras, e nele não há mentira. Os mentirosos renegam o Senhor e o despojam, não lhe restituindo o depósito recebido. De fato, receberam dele um espírito que não mente. Se o restituem mentiroso, transgridem o mandamento do Senhor e se tornam fraudulentos." Ouvindo isso, eu chorei muito. Vendo-me chorar, ele me disse: "Por que choras?" Eu respondi: "Senhor, porque não sei se posso me salvar." Ele perguntou: "Por quê?" Eu continuei: "Senhor, é porque na minha vida eu nunca disse palavra verdadeira, mas sempre vivi usando de fraude para com todos e fiz com que minhas mentiras passassem por verdades aos olhos de todos. Ninguém jamais me contradisse. Ao contrário, sempre confiaram em minha palavra. Senhor, como posso viver, tendo feito isso?" Ele me disse: "Tu pensas bem e verdadeiramente. De fato, era preciso que, como servo de Deus, tivesses caminhado na verdade. A má consciência não deveria habitar com o espírito da verdade e trazer tristeza ao espírito santo e verdadeiro." Eu disse: "Senhor, jamais ouvi palavras tão exatas." Ele continuou: "Agora, porém, estás ouvindo. Observa-as, a fim de que também as mentiras que disseste antes em teus negócios, agora tenham credibilidade, ao verem que a tua linguagem hoje é verdadeira. Se observares essas coisas e, a partir de agora, disseres só a verdade, poderás adquirir a vida. E todo aquele que observar esse mandamento e se abstiver desse grande vício da mentira, viverá em Deus."

QUARTO MANDAMENTO

CAPÍTULO 29
Ele me disse: "Eu te ordeno guardar r castidade e que não entre em teu coração o desejo de outra mulher, nem de qualquer fornicação, nem de qualquer outro vício semelhante. Porque, se fizeres isso, cometerás grande pecado. Lembra-te sempre de tua esposa, e jamais pecarás. Se esses desejos entrarem em teu coração, pecarás; e se entrarem outras coisas igualmente más, também cometerás pecado, pois tal desejo é grande pecado para o servo de Deus. Se alguém realiza esse ato vicioso, prepara a morte para si mesmo. Portanto, estejas atento. Evita esse desejo, pois onde habita a santidade, no coração do homem justo, a iniqüidade não deve entrar." Eu lhe disse: "Senhor, permite-me apresentar algumas questões." Ele respondeu: "Podes perguntar." Eu continuei: "Senhor, se alguém tem esposa que crê no Senhor, e descobre que ela é adúltera, esse homem comete pecado vivendo com ela?" Ele me respondeu: "Enquanto ele não sabe, não comete pecado. Mas se fica sabendo do pecado de sua mulher e que ela, ao invés de se arrepender, persiste no adultério, o marido, vivendo com ela, se torna cúmplice de sua falta e participa no adultério dela." Então perguntei: "Se a mulher persiste nessa paixão, o que o marido deverá fazer?" Ele respondeu: "Deve repudiá-la e viver sozinho. Contudo, se depois de ter repudiado sua mulher, ele se casar com outra, então ele também comete adultério." Eu disse: "Senhor, e se a mulher depois de ter sido repudiada, se arrepender e quiser voltar a seu marido, ele deverá acolhê-la?" Ele continuou: "Sim. E se o marido não a receber, ele cometerá pecado e carrega-se de grande culpa. E preciso acolher aquele que peca e se arrepende, mas não muitas vezes. Para os servos de Deus existe apenas uma conversão. É em vista dessa conversão que o homem não deve se casar de novo. Essa obrigação vale tanto para a mulher como para o homem. O adultério não é apenas macular o corpo. Quem vive como os pagãos, também comete adultério. Portanto, se alguém persiste nessa conduta sem se converter, afasta-te e não vivas mais com ele. Caso contrário, serias cúmplice do seu pecado. A razão por que se ordena permanecer sozinho, tanto o homem como a mulher, é porque em tal caso é possível o arrependimento. "Contudo, não quero dar tal pretexto para que alguém faça isso, e sim impedir que o pecador recaia no pecado. Para quem pecou antes, existe quem pode curá-lo: é aquele que tem poder sobre todas as coisas".

CAPÍTULO 30
Continuei a perguntar: "Uma vez que o Senhor julgou-me digno de habitares sempre comigo, suporta ainda algumas interrogações, pois nada compreendo, e meu coração se endureceu, por causa de minhas ações passadas. Ensina-me, pois sou totalmente desprovido de inteligência e não compreendo absolutamente nada." Ele me respondeu: "Estou encarregado da conversão e concedo inteligência a todos o que se arrependem. Não te parece que o fato de se arrepender é em si mesmo inteligência? O arrependimento é ato de grande inteligência. Com efeito, o pecador compreende que fez o mal diante do Senhor, e que o ato que ele cometeu entra no coração, então se arrepende e não pratica mais o mal. Ao contrário, ele se empenha com todo o zelo a praticar o bem, humilha e experimenta a sua alma, pois ela pecou. Vês, portanto, que o arrependimento é ato de grande inteligência." Eu disse: "Senhor, é por isso que te pergunto essas coisas com minúcias. Primeiro, porque sou um pecador que desejo saber o que devo fazer para viver, pois meus pecados são muitos e numerosos." Ele disse: "Viverás, se observares meus mandamentos e seguires seus caminhos. Quem ouvir esses mandamentos e os observar, viverá em Deus."

CAPÍTULO 31
Eu disse: "Senhor, ainda quero te fazer outra pergunta." Ele respondeu: "Pergunta." Continuei: "Ouvi alguns doutores dizerem que não há outra conversão além daquela do dia em que descemos à água e recebemos o perdão dos pecados anteriores." Ele me respondeu: "Ouviste bem. E assim mesmo. Aquele que recebeu o perdão de seus pecados não deveria mais pecar, e sim permanecer na pureza. Entretanto, como queres saber tudo com pormenores, eu te explicarei também isso, sem dar pretexto para pecar aos que hão de crer ou aos que começaram agora a crer no Senhor, pois tanto uns como outros não têm necessidade de fazer penitência de seus pecados, pois seus pecados passados já foram abolidos. Para os que foram chamados antes destes dias, o Senhor estabeleceu uma penitência, pois o Senhor conhece os corações. E sabendo tudo de antemão, ele conheceu a fraqueza dos homens e a esperteza do diabo em fazer o mal aos servos de Deus e exercer sua malícia contra eles. Sendo misericordioso, o Senhor teve compaixão de sua criatura e estabeleceu a penitência, e deu-me o poder sobre ela. Todavia, eu te digo: se, depois desse chamado importante e solene, alguém, seduzido pelo diabo, cometer pecado, ele dispõe de uma só penitência; contudo, se peca repetidamente, ainda que se arrependa, a penitência será inútil para tal homem, pois dificilmente viverá." Então eu lhe disse: "Senhor, sinto-me reviver depois de ouvir essas coisas tão pormenorizadamente, pois sei que serei salvo, se eu não continuar a pecar." Ele me disse: "Serás salvo, tu e todos os que fizerem essas coisas."

CAPÍTULO 32
Eu lhe perguntei novamente: "Senhor, já que toleraste uma vez minhas interrogações, esclarece-me também este ponto." Ele respondeu: "Podes falar." Eu disse: "Senhor, se uma mulher ou um homem morre e o cônjuge se casa de novo, este último peca por se casar?" Ele respondeu: "Não peca, mas, se permanece sozinho, adquire maior honra e glória diante do Senhor. Se ele se casa, porém, não comete pecado. Observa, portanto, a castidade e a santidade, e viverás em Deus. Observa tudo o que te digo e te direi a partir deste dia em que me foste confiado, e habitarei em tua casa. Alcançarás o perdão de teus pecados passados, contanto que observes os meus mandamentos. Também os outros serão perdoados, se observarem meus mandamentos e se caminharem nessa castidade."

QUINTO MANDAMENTO

CAPÍTULO 33
Ele me disse: "Sê paciente e prudente, e dominarás todas as ações más e realizarás toda a justiça. Se fores paciente, o Espírito Santo, que habita em ti, será límpido e não ficará na sombra de outro espírito mau. Encontrando grande espaço livre, ele ficará contente e se alegrará como o vaso em que ele habita e servirá a Deus com alegria, pois terá felicidade em si mesmo. Se sobrevier acesso de cólera, imediatamente o Espírito Santo, que é delicado, se angustiará por não ter lugar puro, e procurará afastar-se do lugar. Ele se sente sufocado pelo espírito mau e não tem mais lugar para servir a Deus como quer, porque está contaminado pela cólera. Com efeito, o Senhor habita na paciência e o diabo, na cólera. Que esses dois espíritos habitem juntos é, portanto, coisa inconveniente e má para o homem em que habitam. Se tomas uma pequenina gota de absinto e a derramas num vaso de mel, não se estraga todo o mel? O mel fica estragado pelo pouquíssimo absinto, que destrói a doçura do mel, e já não agrada ao dono, porque se tornou amargo e sem utilidade. Todavia, se não se derrama absinto no mel, o mel permanece doce e agrada muito ao seu dono. Vê: a paciência supera o melem doçura, é útil ao Senhor, que habita nela. Ao contrário, a cólera é amarga e inútil. Portanto, se se mistura a cólera com a paciência, a paciência se mancha, e sua oração não é útil para Deus." Eu disse: "Senhor, eu desejaria conhecer a força da cólera, para me preservar dela." Ele respondeu: "Se não te guardares com tua família, destruirás toda a esperança. Mas preserva-te dela, pois eu estou contigo. Todos os que fizerem penitência do fundo do coração se guardarão dela, porque eu estarei com eles e os protegerei. Com efeito, todos foram justificados pelo anjo santíssimo."

CAPÍTULO 34
Ele me disse: "Escuta agora qual é a força da cólera como ela é má, como perverte os servos de Deus com sua força, e como os desvia da justiça. Ela não desvia os pleno. de fé, nem pode fazer nada contra eles, pois meu poder está com eles. Ela desvia somente os vazios e vacilantes. Quando a cólera vê essas pessoas tranqüilas, insinua-se no coração delas e, por um nada, o homem ou a mulher se deixam tomar pela amargura, com os negócios da vida cotidiana, alimentação, ou qualquer futilidade, um amigo, um presente dado ou recebido, ou ainda qualquer outra ninharia. Tudo isso são coisas fúteis, vãs, insensatas e prejudiciais para os servos de Deus. A paciência, ao contrário, é grande e forte, tem força poderosa e sólida, que se expande largamente; a paciência é alegre, contente e sem preocupações, e glorifica o Senhor em todo momento. Nada nela é amargo; ela permanece sempre doce e calma. Essa paciência habita com os que têm fé íntegra. A cólera, ao contrário é, em primeiro lugar, estulta, leviana e estúpida; da estupidez nasce a amargura; da amargura a irritação; da irritação, o furor, e do furor o ressentimento. Tal ressentimento, nascido de tantos males, é pecado grave e incurável. Quando todos esses espíritos vêm habitar o mesmo vaso, onde já habita o Espírito Santo, o vaso não pode mais conter tudo e transborda. Então o espírito delicado, que não tem o costume de habitar com o espírito mau, nem com a aspereza, afasta-se de tal homem e procura habitar com a doçura e a mansidão. Mas, quando se afasta do homem em que habitava, esse homem se esvazia do espírito justo e, daí para a frente, cheio de espíritos maus, agita-se em todas as suas ações, arrastado de cá para lá pelos espíritos maus, completamente cego para todo pensamento bom. Eis o que acontece com todas as pessoas coléricas. Afasta-te, portanto, da cólera, esse espírito maligno. Reveste-te, em troca, de paciência, resiste à cólera e à amargura, e te encontrarás com a santidade, amada pelo Senhor. Estejas atento para não te descuidares desse mandamento. Se o dominares, poderás observar também os outros mandamentos, que te ordenarei. Sê forte e inabalável neles, e fortaleçam-se igualmente todos os que quiserem caminhar neles."

SEXTO MANDAMENTO

CAPÍTULO 35
Ele me disse: "No primeiro mandamento, eu te ordenei guardar a fé, o temor e a continência." Eu respondi: "Sim, Senhor." Ele continuou: "Agora te explicarei as forças dele, para que conheças o poder e a eficácia que elas possuem. Suas forças são de dois tipos e estão relacionadas com o justo e com o injusto. Tem confiança no justo, mas não confies no injusto. De fato, o justo segue caminho reto, ao passo que o injusto segue caminho tortuoso. Quanto a ti, anda pelo caminho direito e plano, deixando o caminho torto. O caminho tortuoso não tem trilhas, mas é impraticável, cheio de obstáculos, pedregoso e espinhoso. Ele é fatal para os que nele caminham. Aqueles, porém, que andam pelo caminho reto, andam de maneira uniforme e sem tropeços, porque ele não é pedregoso, nem espinhoso. Vês, portanto, que é mais conveniente seguir o caminho reto. Eu lhe disse: "Senhor, eu gosto de andar por esse caminho." Ele me disse: "Segue-o, e siga também por ele todo aquele que se converte ao Senhor, do fundo do coração".

CAPÍTULO 36
Ele me disse: "Ouve agora o que vou te falar sobre a fé. Há dois anjos com o homem: um é da justiça, e outro é do mal." Eu perguntei: "Senhor, como distinguirei as ações deles, se os dois anjos habitam comigo?" Ele me respondeu: "Ouve e compreende. O anjo da justiça é delicado, modesto, doce e suave. Quando entra em teu coração, imediatamente fala contigo sobre a justiça, a castidade, a santidade, a temperança, sobe todo ato e toda virtude nobre. Quando tudo isso entra em teu coração, saibas que o anjo da justiça está contigo, pois essas obras são próprias do anjo da justiça. Tem confiança nele e em suas obras. Vê agora as obras do anjo do mal. Em primeiro lugar, ele é colérico, amargo e insensato, e suas obras malignas os servos de Deus. Quando entra em teu coração, tu o conheces por suas obras." Eu disse: "Senhor, não sei como poderei reconhecê-lo". Ele continuou: "Escuta. Quando a cólera se apodera de ti, ou a amargura, saibas que ele está em ti. Da mesma forma, os desejos da atividade, dispersa os gastos loucos em numerosos festins, em bebidas inebriantes, em orgias sem fim, em requintes variados e supérfluos, paixões pelas mulheres, grande riqueza, orgulho exagerado, altivez e tudo o que se assemelha a isso, se essas coisas entram no teu coração, saibas que o anjo do mal está em ti. Reconhecendo suas obras, afasta-te dele e não creias nele, pois essas obras são más e inconvenientes para os servos de Deus. Aí tens as ações dos dois anjos. Compreende essas ações e depõe tua confiança no anjo da justiça. Afasta-te do anjo do mal, porque seu ensinamento é mau para qualquer obra. Se alguém é fiel e o pensamento desse anjo entra em seu coração, é inevitável que essa pessoa, homem ou mulher, cometa pecado. Por outro lado, se homem ou mulher são depravados e as obras do anjo da justiça entram em seu coração, é inevitável que essa pessoa faça o bem. Vê, portanto, que é bom seguir o anjo da justiça e renunciar ao anjo mau. Esse mandamento explica o que se refere à fé, para que acredites nas obras do anjo da justiça e, cumprindo-as, vivas em Deus. Acredita também que as obras do anjo do mal são funestas. Evitando-as, viverás em Deus."

SÉTIMO MANDAMENTO

CAPÍTULO 37
Ele me disse: "Teme o Senhor e guarda seus mandamentos. Guardando os mandamentos de Deus, serás forte em tudo o que fizeres e tua ação será incomparável. Com efeito, temendo ao Senhor, farás tudo bem. Ele é o temor que precisas ter, e então serás salvo. Não temas o diabo. Temendo ao Senhor, triunfarás do diabo, pois ele não tem poder. Se alguém não tem poder, também não apresenta motivo para temor. Quem tem poder glorioso, também inspira temor. De fato, todo aquele que tem poder, inspira temor; aquele que não o tem, é desprezado por todos. Teme as obras do diabo, porque elas são más. Temendo ao Senhor, teme também as obras do diabo, e não as pratiques, mas afasta-te delas. Há duas espécies de temor. Se quiseres praticar o mal, teme ao Senhor e não o praticarás. Todavia, se quiseres praticar o bem, teme ao Senhor, e o praticarás. O temor do Senhor é forte, grande e glorioso. Teme, portanto, ao Senhor, e nele viverás. Os que o temem e observam seus mandamentos, viverão em Deus." Eu perguntei: "Senhor, por que disseste: aqueles que observam seus mandamentos viverão em Deus?" Ele respondeu: "Porque tola a criação teme ao Senhor, mas não guarda seus mandamentos. Os que o temem e guardam seus mandamentos têm a sua vida junto de Deus. Aqueles, porém, que não guardam seus mandamentos não têm vida em si mesmos."

OITAVO MANDAMENTO

CAPÍTULO 38
Ele continuou: "Já te disse que as criaturas de Deus são de dois tipos; a abstinência também é dupla, pois é preciso se abster de algumas coisas e de outras não." Eu pedi: "Senhor, ensina-me de quais coisas preciso me abster e de quais não." Ele respondeu: "Escuta. Abstém-te do mal e não o pratiques. Não te abstenhas do bem, mas pratica-o. Com efeito, se te abstiveres de praticar o bem, cometerás grande pecado; por outro lado, se te abstiveres de praticar o mal, praticarás um grande ato de justiça. Abstém-te, portanto, de todo mal e pratica o bem." Eu perguntei: "Senhor, quais são os males de que nos devemos abster?" Ele me respondeu: "Escuta: adultério, fornicação, excesso na bebida, prazer depravado, comer em demasia, luxo da riqueza, ostentação, orgulho, altivez, mentira, maledicência, hipocrisia, rancor e todo tipo de blasfêmia. São essas as piores obras que existem na vida dos homens. O servo de Deus deve abster-se dessas obras, pois aquele que não se abstém delas, não pode viver em Deus. Escuta agora as obras que seguem a essas." Eu perguntei: "Senhor, há ainda outras obras más?" Ele respondeu: "Muitas, das quais os servos de Deus devem se abster: o roubo, a mentira, a fraude, o falso testemunho, a avareza, os desejos maus, o engano, a vanglória, a arrogância e outros vícios semelhantes. Não te parece que tudo isso é mau?" Eu respondi: "E muito mau para os servos de Deus." (Ele continuou): "É preciso que o servo de Deus se abstenha de tudo isso. Abstém-te, portanto, de tudo isso, para que vivas em Deus e sejas inscrito com os que se abstêm dessas coisas. São essas as coisas das quais te deves abster. As coisas das quais não te deves abster e sim praticar, são estas: não te abstenhas do bem, mas pratica-o." Eu pedi: "Senhor, mostra-me o poder das boas ações, para que eu siga seu caminho e as sirva, a fim de que, praticando-as, possa salvar-me."Ele respondeu: "Escuta as obras do bem, que deves praticar e não evitar. Em primeiro lugar, a fé, o temor do Senhor, a caridade, a concórdia, as palavras justas, a verdade, a perseverança. Não há nada de melhor na vida humana. Se alguém as observa e delas não se abstém, será feliz em sua vida. Escuta agora as obras que seguem a essas: assistir às viúvas, visitar os órfãos e necessitados, resgatar da escravidão os servos de Deus, ser hospitaleiro (pois na hospitalidade encontra-se por vezes a ocasião de fazer o bem), não criar obstáculos para ninguém, ser calmo, tornar-se inferior a todos, honrar os anciãos, praticar a justiça, conservar a fraternidade, suportar a violência, ser paciente, não nutrir rancor, consolar os aflitos na alma, não afastar da fé os escandalizados, mas convertê-los e dar-lhes coragem, corrigir os pecadores, não oprimir os devedores e necessitados, e outras ações semelhantes. Não te parece que essas sejam boas ações?" Eu respondi: "Que coisa é melhor do que isso, Senhor?" Ele continuou: "Anda, portanto, nesse caminho, não te abstenhas dessas coisas, e viverás em Deus. Observa este mandamento: se praticares o bem e não te abstiveres dele, viverás em Deus, e todos os que agirem assim, também viverão em Deus. E ainda, se não praticares o mal e te abstiveres dele, viverás em Deus; e todos aqueles que guardarem esses mandamentos e andarem em seus caminhos, também viverão em Deus."

NONO MANDAMENTO

CAPÍTULO 39
Ele continuou: "Remove de ti a dúvida e por nada no mundo hesites em pedir alguma coisa a Deus, dizendo a ti mesmo: 'Como poderia eu pedir alguma coisa ao Senhor e obtê-la, tendo cometido tão grandes pecados contra ele?' Não penses assim. Ao contrário, converte-te ao Senhor, do fundo do coração, suplica-o confiante e conhecerás sua grande misericórdia, porque ele não te abandonará, mas atenderá a oração da tua alma. De fato, Deus não é como os homens rancorosos; ele não conhece o rancor e tem compaixão de sua criatura. Tu, portanto, purifica teu coração de todas as vaidades deste mundo e dos males dos quais já te falei. Suplica ao Senhor e obterás tudo; nenhuma de tuas orações será rejeitada, se suplicares ao Senhor com confiança. Contudo, se duvidares em teu coração, não alcançarás nenhum dos teus pedidos, pois os que duvidam de Deus são indecisos e não alcançam nada do que pedem. Em troca, os que são íntegros na fé, pedem tudo com plena confiança no Senhor, e são atendidos, porque pedem sem vacilar e sem incerteza. Com efeito, todo homem que duvida, se não fizer penitência, dificilmente se salvará. Portanto, purifica da dúvida o teu coração, reveste-te de fé, porque ela é forte e tem confiança que Deus atenderá todas as tuas orações. E se alguma vez pedires alguma coisa ao Senhor e ele tardar em concedê-la, não duvides porque não obtiveste logo o pedido da tua alma; certamente, tardas a receber o que pediste, por causa de alguma provação ou de algum pecado que ignoras. Não deixes, portanto, de pedir o que tua alma deseja, e o obterás. Contudo, se ao rezar caíres no desânimo e na dúvida, culpa-te a ti mesmo e não àquele que está disposto a te dar. Cuidado com a dúvida: ela é má, insensata e desenraiza da fé, não poucos, até pessoas muito fiéis e firmes, pois a dúvida é filha do diabo e faz muito mal aos servos de Deus. Despreza, portanto, a dúvida, e domina-a em tudo. Para isso, reveste-te de fé firme e poderosa. De fato, a fé tudo promete e tudo cumpre, mas a dúvida, que não tem confiança sequer em si mesma, malogra-se em toda obra que empreende. Vês, portanto, que a fé vem do alto, do Senhor, e tem grande força; a dúvida, porém, é apenas um espírito terrestre que vem do diabo e não tem força, nenhuma. Serve, portanto, à fé que tem força e afasta a dúvida que não tem força nenhuma. Então viverás em Deus, e todos os que pensam assim também viverão em Deus.

DÉCIMO MANDAMENTO

CAPÍTULO 40
Ele continuou: "Afasta de tia tristeza, pois ela é irmã da dúvida e da cólera." Eu perguntei: "Senhor, como é que ela é irmã delas? Parece-me que a cólera é uma coisa, a dúvida é outra, e a tristeza ainda outra coisa." Ele me respondeu: "És homem insensato. Não compreendes que a tristeza é o pior de todos os espíritos e o mais terrível para os servos de Deus e que, mais do que todos os espíritos, ela arruína o homem e expulsa o Espírito Santo, e depois salva?" Eu disse: "Senhor, de fato sou insensato e não compreendo essas parábolas. Com efeito, não compreendo como a tristeza pode expulsar e depois salvar." Ele continuou: "Escuta. Os que nunca pesquisaram a verdade, nem indagaram sobre a divindade, que se limitaram a crer, ficam presos em seus negócios, riquezas, amizades pagãs e outras numerosas ocupações deste mundo. Todos esses, que só vivem para isso, são incapazes de compreender as parábolas a respeito da divindade. Ficam obscurecidos por essas atividades, se corrompem e ficam áridos. As vinhas, antes belas, por falta de cuidados, secam por causa dos espinhos e ervas daninhas de todo tipo. Da mesma forma, os homens que abraçaram a fé e se perdem nas múltiplas atividades de que falei, extraviam-se do seu bom senso e nada mais compreendem sobre a justiça. Até mesmo quando ouvem falar sobre divindade e verdade, sua mente está em seus negócios, e nada compreendem. Todavia, os que temem a Deus, buscam a divindade e a verdade, e têm o coração voltado para o Senhor. Esses logo entendem e compreendem tudo o que se lhes diz. Eles têm em si o temor do Senhor. Com efeito, onde o Senhor habita, aí há total compreensão. Adere, portanto, ao Senhor, e compreenderás e entenderás tudo."

CAPÍTULO 41
Ele continuou: "Escuta, portanto, insensato, como a tristeza expulsa o Espírito Santo e depois salva. Quando o vacilante empreende uma ação e não colhe êxito por causa de sua própria dúvida, a tristeza se insinua nele e entristece o Espírito Santo e o expulsa. Em seguida, a cólera se apodera da pessoa por causa de qualquer coisa, e o amargura muito. De novo, a tristeza entra no coração do homem que se irritou, o qual se entristece pelo que fez e se arrepende de ter feito o mal. Essa tristeza, portanto, parece trazer a salvação, porque, depois de ter feito o mal, a pessoa se arrepende. Essas duas atitudes entristecem o espírito: a dúvida, porque não colheu êxito no empreendimento; e a cólera, porque fez o mal. As duas entristecem o Espírito Santo. Afasta, portanto, a tristeza de ti, para não entristecer o Espírito Santo que habita em ti, a fim de que ele não suplique a Deus contra ti e de ti se afaste. Com efeito, o Espírito de Deus, que foi dado ao teu corpo, não suporta a tristeza nem a angústia."

CAPÍTULO 42
"Reveste-te, portanto, da alegria, que agrada a Deus e ele a aceita: faze dela as tuas delicias. De fato, todo homem alegre realiza sempre o bem, pensa no bem e despreza a tristeza. O homem triste pratica sempre o mal. Em primeiro lugar, pratica o mal porque entristece o Espírito Santo, que foi dado alegre ao homem; em seguida, entristecendo o Espírito Santo, pratica a injustiça por não suplicar a Deus, nem louvá-lo. Com efeito, a oração do homem triste jamais tem a força de subir ao altar de Deus". Eu perguntei: "Por que a súplica do homem triste não sobe ao altar?" Ele respondeu: "Porque a tristeza reside no seu coração. Unida à oração, a tristeza não permite que a oração suba pura ao altar. O vinho misturado com vinagre não tem o mesmo sabor. Igualmente acontece com a tristeza: misturada com o Espírito Santo, não conserva a própria oração. Purifica-te, portanto, dessa tristeza maligna, e viverás em Deus. E todos os que afastarem de si a tristeza e se revestirem de toda alegria, também viverão em Deus."

DÉCIMO PRIMEIRO MANDAMENTO

CAPÍTULO 43
Ele me mostrou homens sentados num banco e outro homem sentado numa poltrona. E me disse: "Vês as pessoas sentadas no banco?" Eu respondi: "Sim, senhor." Ele explicou: "Esses são fiéis, e o que está sentado na poltrona é falso profeta, que corrompe a inteligência dos servos de Deus, isto é, corrompe a inteligência dos que duvidam, e não dos fiéis. Aqueles que duvidam vão até ele como adivinho e lhe perguntam o que lhes acontecerá. Então esse falso profeta, sem ter em si nenhum poder do espírito divino, responde-lhes segundo o que perguntam e segundo seus maus desejos, satisfazendo-lhes a alma com o que desejam. Sendo vazio ele próprio, dá respostas vãs a homens vãos. Seja qual for a pergunta, ele responde conforme a vaidade do interrogador. Também diz coisas verdadeiras, pois o diabo o enche com o seu espírito, a fim de dobrar algum justo. Contudo, os fortes na fé do Senhor, revestidos de verdade, não aderem aos espíritos maus, mas se afastam deles. Por outro lado, os vacilantes e que mudam constantemente de opinião, consultam os adivinhos como os pagãos, e carregam-se de pecado maior que o dos idólatras. Com efeito, quem faz consulta a um falso profeta sobre alguma coisa, é idólatra, vazio da verdade e insensato. De fato, todo espírito dado por Deus não se deixa interrogar, mas, possuindo força da divindade, diz tudo espontaneamente, porque vem do alto, do poder do espírito divino. Ao invés, o espírito que se deixa interrogar e que fala conforme o desejo dos homens, é terreno e leviano, porque não tem nenhum poder. Se não é interrogado, não diz nada." Eu lhe perguntei: "Senhor, como saber quem deles é verdadeiro e quem é falso profeta?" Ele respondeu: "Escuta o que estou para te dizer sobre ambos os profetas, e então discernirás o verdadeiro do falso profeta. Discerne pela vida o homem que tem o espírito divino. Em primeiro lugar, quem tem o espírito que vem do alto, é calmo, sereno e humilde. Ele se abstém de todo mal e de todo desejo vão deste mundo; ele se considera inferior a todos e, quando interrogado, nada responde a ninguém e não fala em particular. O Espírito Santo não fala quando o homem quer, mas só quando Deus quer que ele fale. Quando um homem, que tem o espírito de Deus, entra numa assembléia de homens justos, crentes no espírito divino, e nessa assembléia de homens justos se suplica a Deus, então o anjo do espírito profético que está junto dele, plenifica esse homem, e ele, pleno do Espírito Santo, fala à multidão conforme quer o Senhor. É desse modo que se manifesta o espírito da divindade. Tal é o poder do Senhor sobre o espírito da divindade. Escuta agora a respeito do espírito terreno e vão, que não tem poder e é insensato. Primeiro, tal homem, que julga possuir o espírito, exalta-se a si mesmo, quer ter o primeiro lugar, e logo se apresenta descaradamente, imprudente e loquaz. Vive em meio a muitas delícias e muitos outros prazeres, e aceita pagamento por sua profecia. Quando nada recebe, também não profetiza. Poderia um espírito divino receber pagamento para profetizar? Não é possível que o profeta de Deus aja desse modo; o espírito desses profetas é terreno. Além disso, ele não se aproxima da assembléia de homens justos para nada, mas foge deles. Ele se une aos vacilantes e vãos, e profetiza para eles à parte. Engana-os, falando-lhes coisas vazias, conforme o que desejam, pois responde para gente vazia. Um vaso vazio quando bate em outro vaso vazio não quebra, apenas ressoam mutuamente. Quando o falso profeta entra em assembléia repleta de homens justos, portadores do espírito da divindade, se eles começam a rezar, tal homem se esvazia e o espírito terrestre, tomado de medo, foge dele. Tal homem emudece, completamente desorientado e incapaz de falar. Se armazenas óleo e vinho num depósito e aí colocas uma vasilha vazia, quando quiseres desocupar o depósito, encontrarás vazia essa vasilha. Igualmente acontece com os profetas vazios, quando entram em meio aos espíritos dos justos: da mesma forma que entraram, assim são encontrados. Aí tens a vida dos dois tipos de profeta. Examina, portanto, o homem que se diz portador do espírito, a partir de seus atos e de sua vida. Quanto a ti, crê no espírito que vem de Deus e tem poder, mas não creias no espírito terrestre e vazio, porque nele não existe poder. Ele vem do diabo. Escuta a parábola que vou te contar. Pega uma pedra e atira para o céu. Vê se podes atingi-lo. Ou então pega um tubo de água e atira o jato para o céu. Vê se és capaz de furar o céu." Eu perguntei: "Senhor, como se pode fazer isso? As duas coisas que disseste são impossíveis!" Ele respondeu: "Assim como essas coisas são impossíveis, também os espíritos terrestres são impotentes e fracos. Toma agora a força que vem do alto. O granizo é grão pequenino, mas quando cai sobre a cabeça de uma pessoa, que dano lhe causa! Ou então, pega a gota de água, que cai do telhado no chão e fura a pedra. Vês, portanto, que as melhores coisas que caem do alto sobre a terra têm grande força. Da mesma forma, o espírito divino que vem do alto é poderoso. Crê, portanto, nesse espírito e afasta-te do outro."

DÉCIMO-SEGUNDO MANDAMENTO

CAPÍTULO 44
Ele continuou: "Arranca de ti todo mau desejo, e reveste-te do desejo bom e santo. Revestido desse desejo, odiarás o desejo mau e o domarás como quiseres. O desejo mau é selvagem e difícil de amansar. É terrível, e com sua selvageria consome os homens. Principalmente se o servo de Deus cair nesse desejo e não tiver discernimento, será consumido de modo terrível. Ele consome também os que não têm a veste do desejo bom e se deixam enredar por este mundo. O desejo entrega-os à morte". Eu perguntei: "Senhor, quais são as obras do desejo mau, que entregam os homens à morte? Dá-me a conhecê-las, para que me afaste delas." Ele respondeu: "Escuta com quais obras o desejo mau mata os servos de Deus."

CAPÍTULO 45
Antes de tudo, o desejo de outra mulher ou homem, o luxo das riquezas, os banquetes numerosos e vãos, a embriaguez, e muitos outros prazeres insensatos. Com efeito, todo prazer é insensato e vazio para os servos de Deus. Tais desejos são maus, e matam os servos de Deus, porque o desejo mau é filho do diabo. E preciso, portanto, abster-se dos desejos maus para que, abstendo-vos, vivais em Deus. Todos os que são dominados por eles e não lhes resistem, acabarão morrendo, pois esses desejos são mortais. Reveste-te, portanto, do desejo da justiça e, armado do temor de Deus, resiste a eles. De fato, o temor de Deus habita no desejo bom. Se o desejo mau te vir armado do temor de Deus e resistindo, ele fugirá para longe de ti e não o verás mais, porque ele teme as tuas armas. Quanto a ti, vitorioso e coroado por sua derrota, apresenta-te diante do desejo da justiça e entrega-lhe a vitória que recebeste, e serve-o do modo que ele quiser. Se servires o desejo bom e te submeteres a ele, poderás dominar o desejo mau e comandá-lo, conforme quiseres.

CAPÍTULO 46
Eu disse: "Senhor, desejaria saber de que modo devo servir ao desejo bom." Ele respondeu: "Escuta. Pratica a justiça e a virtude, a verdade e o temor do Senhor, a fé, a mansidão e todas as coisas boas semelhantes a essas. Praticando essas coisas, serás servo agradável de Deus e viverás nele. Todo aquele que servir ao desejo bom viverá em Deus." Ele terminou os doze mandamentos e me disse: "Tens agora esses mandamentos. Anda em conformidade com eles e exorta os ouvintes, para que se exercitem na penitência purificadora pelo resto dos dias de sua vida. Cumpre com cuidado esse serviço que te confio. Desse modo, realizarás. Com efeito, encontrarás boa acolhida daqueles que se dispõem a fazer penitência; eles acreditarão em tuas palavras. Eu estarei contigo e os induzirei a crer em ti." Eu lhe disse: "Senhor, esses mandamentos são grandes, sublimes e gloriosos, e podem alegrar o coração do homem que for capaz de observá-los. Todavia, Senhor, não sei se esses mandamentos podem ser guardados pelo homem, pois eles são muito duros". Ele me respondeu: "Se te convenceres de que esses mandamentos podem ser guardados, tu os guardarás facilmente, e eles não serão duros. Contudo, se se insinuar no teu coração que não podem ser guardados pelo homem, não os guardarás. Agora, porém, eu te garanto: se não os guardares e os negligenciares, nem tu, nem teus filhos, nem tua família vos salvareis, pois decidindo que esses mandamentos não podem ser guardados pelo homem, tu te condenas a ti mesmo."

CAPÍTULO 47
Ele me disse isso de modo tão indignado, que fiquei confuso e com muito medo. Sua aparência se alterou de tal modo que nenhum homem poderia suportar sua ira. Vendo-me completamente perturbado e confuso, começou a falar-me de modo mais brando e sereno, dizendo: "Tolo, insensato e vacilante! Não compreendes que a glória de Deus é grande, forte e admirável? Ele não criou o mundo para o homem e não lhe submeteu toda a sua criação, dando-lhe o poder de dominar todas as coisas que existem debaixo do céu? Portanto, se o homem é o senhor de todas as criaturas de Deus e domina sobre todas, será que ele não pode dominar também esses mandamentos? Somente o homem que leva o Senhor em seu coração é capaz de dominar todas as coisas e todos esses mandamentos. No entanto, para os que têm o Senhor somente nos lábios, e cujo coração está endurecido e estão distantes de Deus, esses preceitos são duros e inacessíveis. Esteja o Senhor em vosso coração, vós homens vazios e levianos na fé, e sabereis que não há nada mais fácil, suave e simples do que esses mandamentos. Convertei-vos, vós que seguis os mandamentos do diabo, mandamentos difíceis, amargos, brutais e licenciosos, e não temais o diabo, pois ele não tem poder nenhum sobre vós. Eu, o anjo da penitência, que triunfo sobre o diabo, estarei convosco. O diabo só pode amedrontar, mas esse medo não tem força alguma. Não o temais, portanto, e ele fugirá de vós."

CAPÍTULO 48
Eu lhe disse: "Senhor, escuta ainda algumas palavras." Ele respondeu: "Dize o que queres." Eu continuei: "Senhor, o homem tem o desejo de guardar os mandamentos de Deus, e ninguém deixa de pedir ao Senhor que o reforce nos seus mandamentos e o submeta a eles. O diabo, porém, é duro, e domina os homens." EIe me respondeu: "Ele não conseguirá dominar os servos de Deus, se estes, de todo coração, nele tiverem esperança. O diabo é capaz de combater, não porém de triunfar. Se lhe resistirdes, será derrotado e, envergonhado, fugirá de vós. Todavia, aqueles que são vazios temem o diabo como se ele tivesse poder. Quando um homem enche de bom vinho recipientes apropriados e entre estes deixa alguns semicheios, ao voltar para os recipientes ele não se preocupa com os que estão cheios, pois sabe que estão cheios; observa, sim, os que estão semicheios, temendo que tenham azedado, e o vinho perca o sabor. O mesmo acontece com o diabo: Ele vai e tenta todos os servos de Deus. Os que estão cheios de fé lhe resistem fortemente, e o diabo se afasta deles, pois não encontra por onde entrar. Então, ele vai até os que estão semicheios e, encontrando lugar, entra neles, faz o que quer, tornando-os seus escravos."

CAPÍTULO 49
"Eu, o anjo da penitência, vos digo: não temais o diabo, pois fui enviado para estar com aqueles de vós que de todo o coração fazem penitência, para os fortificar na fé. Portanto, crede, em Deus, vós que, por causa dos vossos pecados, desesperastes da vida e acrescentais pecados a pecados, agravando assim profundamente a vossa própria vida. Se vos converterdes ao Senhor de todo o vosso coração e praticardes a justiça pelo resto dos dias de vossa vida; se o servirdes retamente, conforme a sua vontade, ele vos curará de vossos pecados passados e não vos faltará força para dominar as obras do diabo. Não temais de modo nenhum a ameaça do diabo, pois ele, como nervos de cadáver, não tem força nenhuma. Escutai, portanto, e temei aquele que pode salvar ou destruir tudo; observai seus mandamentos e vivereis em Deus." Eu lhe pedi: "Senhor, agora estou fortificado em todos os mandamentos do Senhor, porque estás comigo. Sei que abaterás todo o poder do diabo e que nós o dominaremos, e venceremos todas as suas obras. Senhor, espero que, fortalecido pelo Senhor, eu possa guardar os preceitos que me deste." Ele me respondeu: "Tu os guardarás, contanto que teu coração permaneça puro, voltado para o Senhor. Todos aqueles que os guardarem, purificando o coração dos desejos vazios deste mundo, viverão em Deus."

PRIMEIRA PARÁBOLA

CAPÍTULO 50
Ele me disse: "Vós, servos de Deus, sabeis que habitais em terra estrangeira. De fato, vossa cidade acha-se longe desta cidade. Portanto, se conheceis vossa cidade, aquela que deveis habitar, por que correis assim atrás de campos, instalações luxuosas, palácios e mansões inúteis? Quem procura tais coisas nesta cidade não espera retornar à sua própria cidade. Insensato, vacilante, homem infeliz! Ignoras que tudo isso é estrangeiro e está em poder de outro? De fato, o dono desta cidade dirá: 'Não quero que habites na minha cidade. Vai embora daqui, porque não obedeces às minhas leis'. Então, tu, que possuis campos, casas e muitos bens, ao ser expulso por ele, o que farás com teu campo, tua casa e tudo o que te resta do que acumulaste? Porque o dono desta cidade te diz justamente: 'Ou obedeces às minhas leis, ou sais do meu país'. Portanto, o que farás, tu que segues a lei da tua cidade? Por causa de teus campos e do resto de teus bens, renegarás tua lei e andarás de acordo com a lei dessa cidade? Atenção! É perigoso renegar tua lei, porque, se queres retornar à tua cidade, temo que não te acolham mais, por teres renegado a lei de tua cidade, e assim sejas excluído dela. Vigia, portanto. Visto que moras em terra estrangeira, não reserves para ti senão o estritamente necessário, e estejas pronto. Desse modo, quando o dono dessa cidade quiser te expulsar, porque te opões às suas leis, sairás da sua cidade, chegarás à tua, e aí viverás conforme tua lei, sem prejuízo e com alegria. Atenção, vós que servis ao Senhor e o tendes no coração. Praticai as obras de Deus, lembrando-vos de seus mandamentos e das promessas que ele vos fez. Crede que ele as manterá, se seus mandamentos forem observados. Em lugar de campos, resgatai os oprimidos, conforme cada um puder; visitai as viúvas e os órfãos, e não os desprezeis. Gastai vossas riquezas e todos os vossos bens, que recebestes de Deus, nesses campos e casas. De fato, o Senhor vos enriqueceu, para que presteis a ele tais serviços. E melhor adquirir esses campos, bens e casas, que reencontrarás em tua cidade, quando aí retornares. Esse investimento é nobre e alegre, não produz tristeza, nem medo, mas alegria. Não procureis o investimento dos pagãos, perigoso para os servos de Deus. Fazei vossos próprios investimentos, com os quais podeis alegrar-vos. Não cometais fraude, não toqueis nos bens de outros, nem os desejeis, porque é mau desejar os bens alheios. Realiza tua tarefa, e serás salvo."

SEGUNDA PARÁBOLA

CAPÍTULO 51
Caminhava eu para o meu campo e, observando um olmeiro e uma videira, refletia sobre essas árvores e seus frutos. Então o Pastor me apareceu e disse: "O que pensas sobre o olmeiro e a videira?" Eu respondi: "Senhor, penso que eles se completam perfeitamente." Ele disse: "Essas duas árvores existem para servir de modelo aos servos de Deus." Eu pedi: "Desejaria saber o modelo que podem oferecer essas árvores das quais falas." Ele perguntou: "Vês o olmeiro e a videira?" Respondi: "Sim, senhor." Ele continuou: "A videira produz frutos, mas o olmeiro é estéril. Entretanto, se essa videira não se prende ao olmeiro, fica estendida no chão e não produzirá frutos. Os frutos que produzir apodrecerão, se ela não estiver suspensa no olmeiro. Vês, portanto, que o olmeiro também dá muitos frutos, não menos que a videira, e até mais." Eu perguntei: "Por que mais, Senhor?" Ele respondeu: "Porque a videira suspensa no olmeiro dá muitos frutos belos, ao passo que estendida no chão só produz frutos podres e poucos. Essa parábola vale para os servos de Deus, o pobre e o rico." Eu perguntei: "Senhor, como assim? Explica-me." Ele respondeu: "Escuta. O rico tem muitos bens, mas aos olhos do Senhor ele é pobre, porque se distrai com suas riquezas. A oração e a confissão ao Senhor não lhe são importantes e, se ele as faz, são breves, fracas e sem nenhum poder. Contudo, se o rico se volta para o pobre e atende às suas necessidades, crendo que o bem que ele fez ao pobre poderá encontrar sua retribuição junto a Deus (porque o pobre é rico por sua oração e confissão, e sua oração tem grande poder junto de Deus), então o rico atende sem hesitação às necessidades do pobre. Assim, o pobre, socorrido pelo rico, reza por ele e agradece a Deus pelo seu benfeitor; este, por sua vez, redobra o zelo para com o pobre, para que não lhe falte nada na vida, pois sabe que a oração do pobre é bem acolhida e rica junto a Deus. Desse modo, ambos cumprem sua tarefa: o pobre o faz mediante sua oração, que é sua riqueza recebida do Senhor. Ele a devolve ao Senhor na intenção daquele que o ajuda. E o rico, sem hesitação, dá ao pobre a riqueza que recebeu do Senhor. Essa é uma ação nobre e bem acolhida por Deus, porque o rico compreendeu perfeitamente o sentido da sua riqueza e partilhou com o pobre os dons do Senhor, cumprindo assim, convenientemente, a sua tarefa. Para os homens, o olmeiro parece não produzir fruto. Eles não ignoram e não compreendem que, se vier seca, o olmeiro, que conserva água, nutre a videira, e esta, continuamente provida de água, produz o duplo de frutos, para ela mesma e para o olmeiro. Da mesma forma, os pobres, rezando ao Senhor para os ricos, asseguram pleno desenvolvimento às riquezas deles. Por sua vez, os ricos, atendendo às necessidades dos pobres, dão satisfação à sua alma. Portanto, ambos participam da ação justa. Quem age assim não será abandonado por Deus, mas será inscrito no livro dos viventes. Felizes os que possuem e compreendem que o Senhor preserva suas riquezas, pois aquele que o compreende poderá também prestar bons serviços."

TERCEIRA PARÁBOLA

CAPÍTULO 52
Ele me mostrou muitas árvores sem folhas, que me pareciam mortas, e eram todas semelhantes. E me perguntou: "Vês essas árvores?" Respondi: "Sim, senhor, eu as vejo: são semelhantes e mortas." Ele continuou: "Essas árvores que vês são os habitantes deste mundo." Eu perguntei: "Senhor, então por que são semelhantes e mortas?" Ele respondeu: "Porque os justos e os pecadores não se distinguem neste mundo, mas são semelhantes. De fato, para os justos este mundo é inverno, e eles não se distinguem, pois nele habitam juntamente com os pecadores. No inverno, despojadas de suas folhas, as árvores são semelhantes, e não se distingue quais estão mortas e quais vivas. Da mesma forma, os justos e os pecadores não se distinguem neste mundo; são todos semelhantes."

QUARTA PARÁBOLA

CAPÍTULO 53
De novo, ele me mostrou muitas árvores, umas verdes e outras secas. E me disse: "Vês essas árvores?" Respondi: "Sim, senhor, eu as vejo: umas estão verdes e outras secas." Ele continuou: "As árvores verdes são os justos, que habitarão no mundo que está para chegar. De fato, o mundo que está para chegar será verão para os justos e inverno para os pecadores. Portanto, quando brilhar a misericórdia do Senhor os servos de Deus poderão ser distinguidos e serão visíveis para todos. No verão, os frutos de cada árvore aparecem e se pode saber de que espécie são. Do mesmo modo, naquele mundo os frutos dos justos serão manifestos e se saberá que todos eles são vigorosos. Entretanto, naquele mundo, os pagãos e os pecadores, as árvores secas que viste, serão encontrados secos e mortos, e serão queimados, como madeira morta, patenteando-se assim que durante a vida deles sua conduta foi má. De fato, os pecadores serão queimados, porque pecaram e não fizeram penitência; os pagãos serão queimados porque não conheceram o seu Criador. Portanto, leva frutos em ti mesmo, para que, naquele verão, teu fruto seja conhecido. Evita muitas ocupações e não cometas nenhum pecado. Os que se carregam de muitas ocupações cometem também muitos pecados. São absorvidos por seus negócios e não servem mais em nada ao Senhor. Como poderia o homem assim pedir algo ao Senhor e ser atendido, se ele não serve ao Senhor? Os que o servem, receberão o que pedem, mas os que não o servem, não receberão absolutamente nada. Aquele que tem apenas uma ocupação, pode também servir ao Senhor; o seu pensamento não se corromperá longe do Senhor, mas o servirá, conservando pensamento puro. Se assim fizeres, poderás levar frutos para o mundo que está para chegar. Qualquer um que fizer isso, levará frutos."

QUINTA PARÁBOLA

CAPÍTULO 54
Eu jejuava, sentado sobre um monte, e agradecia a Deus tudo o que ele fizera por mim. Então vi o Pastor sentado junto de mim, dizendo: "Por que vieste aqui tão cedo?" (Eu respondi): "Senhor, porque estou montando guarda." EIe perguntou: "Que quer dizer guarda?" Eu respondi: "Senhor, estou jejuando." Ele continuou: "E que jejum é esse que estás fazendo?" Eu respondi: "Senhor, eu jejuo por costume." Ele disse: "Não sabes jejuar para o Senhor, e esse jejum que fazes é sem valor." Eu perguntei: "Senhor, por que dizes isso?" Ele explicou: "Digo-te que não é jejum esse que imaginas fazer. Eu te ensinarei, porém, qual é o jejum agradável e perfeito para o Senhor." Eu disse: "Sim, senhor. Tu me farás feliz, se eu puder conhecer o jejum que agrada a Deus." Então ele explicou: "Escuta. Deus não deseja esse jejum vazio. Com efeito, jejuando desse modo para Deus, não farás nada para a justiça. Jejua do seguinte modo: Não faças nada de mau em tua vida e serve ao Senhor de coração puro; observa seus mandamentos, andando conforme seus preceitos, e que nenhum desejo mau entre em teu coração, e crê em Deus. Se fizeres isso e o temeres, abstendo-te de toda obra má, viverás em Deus. Se cumprires essas coisas, farás um jejum grande e agradável ao Senhor."

CAPÍTULO 55
Escuta a parábola sobre o jejum. Um homem possuía um campo e muitos escravos, e mandou plantar uma vinha numa parte do campo. Ele escolheu um servo muito fiel e estimado, chamou-o e lhe disse: "Toma conta desta vinha que plantei e, durante minha ausência, coloca as estacas. Não faças mais nada na vinha. Observa esta minha ordem e serás livre na minha casa." Então o senhor do escravo saiu de viagem. Depois que partiu, o escravo tomou conta e estaqueou. Tendo terminado de estaquear, viu que a vinha estava cheia de mato. Então refletiu e disse: "Já executei a ordem do senhor. Agora capinarei a vinha, pois capinada ficará mais bela e, não sendo sufocada pelo mato, produzirá mais fruto. Decidido, capinou a vinha e arrancou todo o mato que havia nela. Sem o mato que a sufocava, a vinha ficou mais bela e florescente. Depois de certo tempo, o senhor do campo e do servo voltou. Foi até à vinha e, vendo que estava muito bem estaqueada, capinada, o mato extirpado e que as videiras floresciam, ficou muito satisfeito com o trabalho do escravo. Chamou então seu filho amado, que era o herdeiro, e seus amigos conselheiros. Disse-lhes o que ordenara ao escravo e tudo o que ele vira executado. Eles se alegraram com o escravo, por causa do testemunho que o patrão dera dele. Então o patrão lhe disse: "Prometi a liberdade a esse escravo, se ele executasse a ordem que lhe dera. Ele não só executou a ordem, mas fez bom trabalho na vinha, e isso me agradou muito. Portanto, como recompensa do trabalho que ele realizou, quero que seja herdeiro junto com meu filho, porque teve uma boa idéia e, ao invés de descartá-la, a realizou." O filho do senhor aprovou a intenção de designar o escravo como seu co-herdeiro. Alguns dias mais tarde, o patrão dava um banquete e enviou muita comida do banquete ao escravo. Este aceitou a comida que o senhor lhe enviara, reteve o suficiente para si e distribuiu o resto a seus companheiros de escravidão. Os companheiros o receberam, se alegraram e começaram a rezar para que ele, que os tratara tão bem, recebesse ainda mais favores do senhor. "O senhor soube de tudo o que acontecera e de novo se alegrou muito com a conduta do escravo. Chamou novamente os amigos e o filho e contou-lhes a respeito da atitude do servo quanto à comida recebida. E eles concordaram mais ainda que o servo se tornasse herdeiro juntamente com o filho do senhor."

CAPÍTULO 56
Eu lhe disse: "Senhor, não compreendo essas parábolas, nem as poderei entender, se não me explicares." EIe respondeu: "Vou te explicar tudo, e, te esclarecerei tudo que eu falar. Guarda os mandamentos do Senhor, e lhe serás agradável e contado entre os que observam seus mandamentos. Se fizeres algo de bom, além do mandamento de Deus, conseguirás glória maior e serás glorificado junto a Deus, mais do que deverias ser. Portanto, se, observando os mandamentos de Deus, acrescentares essas boas obras, te alegrarás, se as observares conforme a minha ordem." Eu lhe disse: "Senhor, observarei tudo o que me indicares, pois sei que estás comigo." Ele me respondeu: "Estarei contigo, pois tens esse desejo de fazer o bem, e estarei com todos os que têm o mesmo desejo. Se os mandamentos do Senhor são observados, teu jejum é muito bom. Eis como observarás o jejum que queres praticar: Antes de tudo, guarda-te de toda palavra má, de todo desejo mau, e purifica teu coração de todas as coisas vãs deste mundo. Se observares isso, teu jejum será perfeito. E jejuarás do seguinte modo: depois de cumprir o que foi escrito, no dia em que jejuares, não tomarás nada, a não ser pão e água. Calcularás o preço dos alimentos que poderias comer nesse dia e o porás à parte para dar a uma viúva, a um órfão ou necessitado e, desse modo, te tornarás humilde. Graças a essa humildade, quem tiver recebido ficará saciado e rogará ao Senhor por ti. Se jejuares como te ordenei, teu sacrifício será aceito por Deus, teu jejum será anotado, e o serviço, assim realizado, será bom, alegre e bem acolhido pelo Senhor. Observarás isso com teus filhos e toda a tua família. Desse modo, serás feliz, e todos os que ouvirem esses preceitos e os observarem, serão felizes e receberão do Senhor as coisas que pedirem."

CAPÍTULO 57
Eu lhe pedi insistentemente que me explicasse o sentido simbólico do campo, do senhor, da vinha, do escravo que estaqueara a vinha, do filho e dos amigos conselheiros, pois compreendera que tudo isso era uma parábola. Ele me respondeu: "És muito ousado em tuas perguntas! De modo algum deves perguntar, pois, se alguma coisa se deve explicar a ti, será explicada." Eu lhe disse: "Senhor, tudo o que me mostrares sem explicar, será inútil que eu veja, pois não compreenderei o que significa. Da mesma forma, se me contas parábolas sem explicá-las, terei ouvido em vão alguma coisa de ti." De novo, ele me respondeu, dizendo: "Todo servo de Deus que tem o Senhor em seu coração, pode lhe pedir a compreensão e obtê-la. Ele poderá, então, explicar qualquer parábola e, graças ao Senhor, tudo o que for dito em parábolas será compreensível para ele. Os indolentes e preguiçosos para a oração, porém, vacilam em pedir ao Senhor. O Senhor é misericordioso e atende todos os que lhe pedem sem hesitação. Tu, porém, que foste fortificado pelo anjo glorioso e dele recebeste essa oração, e não és preguiçoso, por que não pedes a compreensão? Tu a receberás." Eu repliquei: "Senhor, tendo a ti comigo, tenho necessidade de te pedir e perguntar. Com efeito, tu me mostras tudo e falas comigo. Se eu visse ou ouvisse essas coisas sem ti, pediria ao Senhor que as explicasse a mim".

CAPÍTULO 58
Ele continuou: "Já te disse, e não faz muito, que és esperto e ousado para pedir explicação das parábolas. Como és tão perseverante, vou te explicar o sentido simbólico do campo e de tudo o mais que o acompanha, para que possas explicá-lo a todos. Escuta, portanto, e compreende. O campo é este mundo, e o dono do campo é aquele que criou todas as coisas, que as organizou e lhes deu força. O filho é o Espírito Santo, e o escravo é o Filho de Deus. As videiras são o povo, que ele mesmo plantou. As estacas são os santos anjos do Senhor, que protegem o seu povo. O mato arrancado da vinha são as iniqüidades dos servos de Deus. A comida do banquete que ele enviou ao escravo são os mandamentos que ele deu por meio de seu filho. Os amigos e conselheiros, são os primeiros santos anjos criados. A viagem do senhor é o tempo que resta para a sua parusia." Eu lhe perguntei: "Senhor, tudo isso é grande, admirável e glorioso. Como poderei, Senhor, compreender essas coisas por mim mesmo? Nenhum outro homem, ainda que fosse muito inteligente, poderia compreendê-las. Explica-me ainda, Senhor, o que vou perguntar." Ele disse: "Se desejas alguma explicação, podes pedi-la." Eu perguntei: "Senhor, por que o Filho de Deus aparece na parábola sob forma de escravo?"

CAPÍTULO 59
Ele respondeu: "Escuta. O Filho de Deus não aparece sob a forma de escravo, mas com grande poder e soberania." Eu disse: "Como, senhor? Não compreendo." Ele continuou: "Porque Deus plantou a vinha, isto é, criou o seu povo e o entregou a seu Filho, e o Filho estabeleceu os anjos sobre eles para guardá-los individualmente. Ele próprio purificou os pecados deles, trabalhando muito e suportando muitas fadigas, pois ninguém pode capinar uma vinha sem trabalho e fadiga. Ele, portanto, tendo purificado os pecados do povo, ensinou os caminhos da vida, dando-lhes a lei, que recebera de seu Pai. Observa que ele é o senhor do povo, porque recebeu todo o poder do seu Pai. Escuta por que o Senhor nomeou seu Filho conselheiro e os anjos gloriosos para decidir a herança que deveria ser dada ao escravo. Deus fez habitar na carne que ele havia escolhido o Espírito Santo preexistente, que criou todas as coisas. Essa carne, em que o Espírito Santo habitou, serviu muito bem ao Espírito, andando no caminho da santidade e pureza, sem macular em nada o Espírito. Ela se portou digna e santamente, participou dos trabalhos do Espírito e colaborou com ele em todas as coisas. Comportou-se com firmeza e coragem e, por isso, Deus a escolheu como companheira do Espírito Santo. Com efeito, a conduta dessa carne agradou a Deus, pois ela não se maculou na terra, enquanto possuía o Espírito Santo. Ele tomou então o Filho e os anjos gloriosos por conselheiros, para que essa carne, que tinha servido ao Espírito irrepreensivelmente, obtivesse um lugar de repouso e não parecesse ter perdido a recompensa pelo seu serviço. Toda carne em que o Espírito Santo habitou e que for encontrada pura e sem mancha, receberá sua recompensa. Aí tens a explicação dessa parábola."

CAPÍTULO 60
Eu disse: "Senhor, fiquei contente em ouvir a explicação." Ele disse: "Escuta agora. Guarda tua carne pura e sem mancha; para que o espírito, que nela habita, dê testemunho em favor dela e assim seja justificada. Cuida para que nunca entre em teu coração a idéia de que tua carne é perecível. E cuidado para não abusar dela com alguma impureza. Se manchas tua carne, mancharás também o Espírito Santo. Portanto, se manchas tua carne, não viverás." Eu perguntei: "Senhor, se tiver havido alguma ignorância antes que essas palavras tivessem sido ouvidas, como se pode salvar o homem que manchou a sua carne?" Ele respondeu: "Quanto às ignorâncias anteriores, somente Deus pode conceder a cura, pois ele tem todo o poder. Agora, porém, estejas atento, e o Senhor, em sua grande misericórdia, as curará, se doravante não manchares nem tua carne, nem teu espírito, pois os dois vão juntos e não podem manchar-se um sem o outro. Portanto, conserva os dois puros, e viverás em Deus."

SEXTA PARÁBOLA

CAPÍTULO 61
Sentado em casa, eu glorificava ao Senhor por tudo que tinha visto, e meditava sobre os mandamentos, descobrindo que eles são bons, fortes, alegres, gloriosos e capazes de salvar a alma do homem. E dizia a mim mesmo: "Serei feliz, se caminhar conforme esses mandamentos, e qualquer um que andar nesse caminho também será feliz." Enquanto dizia isso a mim mesmo, de repente vi o pastor ao meu lado dizendo: "Por que duvidas a respeito dos mandamentos que te dei? Eles são bons. Não duvides em nada. Ao contrário, reveste-te da fé do Senhor e andarás em seus caminhos, porque eu te fortificarei neles. Esses mandamentos são úteis para os que farão penitência, porque, se não andarem nesse caminho, sua penitência será inútil. Vês, portanto, que fazeis penitência, rejeitai os males deste mundo, que vos aniquilam. Revestidos de toda a virtude de justiça, podereis observar os meus preceitos, mas não acrescenteis pecados aos vossos pecados. Se não acrescentardes mais pecados, cancelarei os vossos pecados passados. Caminhai, portanto, conforme os meus mandamentos, e vivereis em Deus. Todas essas coisas vos foram ditas por mim." Depois de me dizer isso, ele acrescentou: "Vamos ao campo, e te mostrarei os pastores das ovelhas." Eu disse: "Vamos, Senhor." Fomos para uma planície, e ele me mostrou um jovem pastor, vestido com roupa amarela. Apascentava numerosas ovelhas, as quais viviam de modo voluptuoso e dissoluto, saltando alegremente de cá para lá. O pastor também estava muito satisfeito com seu rebanho; sua fisionomia era alegre, e ele andava de um lado para o outro, no meio das ovelhas. Vi também outras ovelhas juntas, dissolutas e voluptuosas; mas estas não saltavam.

CAPÍTULO 62
Então ele me perguntou: "Vês esse pastor?" Eu respondi: "Vejo, senhor." Ele continuou: "E o anjo da volúpia e do erro. Ele aniquila as almas dos servos de Deus que são vazios, desviando-os da verdade e enganando-os com maus desejos, nos quais eles morrem. De fato, eles esquecem os mandamentos do Deus vivo e caminham nos enganos e volúpias vãs, e são destruídos por esse anjo: alguns morrem, outros se corrompem." Eu lhe disse: "Senhor, não sei o que é essa morte e essa corrupção." Ele respondeu: "Escuta. Todas as ovelhas que viste muito alegres e saltitantes são os que se separaram definitivamente de Deus e se entregaram às paixões deste mundo. Para eles não há mais penitência para a vida, porque, além de tudo, blasfemaram contra o nome do Senhor. Para eles, portanto, resta apenas a morte. Aquelas que viste, pastando no mesmo lugar sem saltitar, são os que se entregaram às volúpias e aos enganos, mas sem blasfemar contra o Senhor. Corromperam-se longe da verdade. Para eles, portanto, existe esperança de penitência, a fim de que possam viver. A corrupção conserva ainda alguma esperança de restauração, ao passo que a morte implica em perdição eterna." Avançamos um pouco, e ele me mostrou um pastor de porte alto e de aspecto selvagem, vestido com pele branca de cabra, com bornal nas costas, e na mão um cajado rude e cheio de nós e um grande chicote. Seu olhar era tão severo que me infundiu medo. Assim era o seu olhar! Esse pastor recebia do pastor jovem as ovelhas dissolutas e voluptuosas, mas que não saltitavam. Ele as impelia para lugar escarpado, cheio de espinhos e cardos, e as ovelhas não conseguiam livrar-se dos espinhos e dos cardos, pois ficavam emaranhadas neles. Pastavam presas, entre os espinhos e cardos, e sofriam muito, açoitadas pelo pastor, o qual as fazia andar de cá para lá, sem lhes dar descanso, e elas jamais se tranqüilizavam.

CAPÍTULO 63
Ao vê-Ias assim flageladas e atormentadas, fiquei triste por elas, porque assim torturadas não tinham nenhum tipo de trégua. Então perguntei ao pastor que conversava comigo: "Senhor, quem é esse pastor tão cruel e severo, que não tem nenhuma piedade dessas ovelhas?" Ele respondeu: "Esse é o anjo do castigo. Ele é justo, mas foi encarregado do castigo. Ele recebe aqueles que vagueiam longe de Deus e que seguiram o caminho dos desejos e enganos deste mundo. Ele os pune conforme cada um merece, com castigos terríveis e variados." Eu pedi: "Senhor, eu desejaria saber quais são esses diversos castigos." Ele continuou: "Escuta quais são as diversas provações e castigos. As provações são as da vida. Alguns são castigados com prejuízos, outros pela indigência outros por doenças diversas, outros por alguma insegurança e outros ainda são injuriados por pessoas indignas e têm que sofrer muitas outras calamidades. De fato, incertos em suas intenções, muitos se lançam a muitas coisas, mas em nada conseguem sucesso. Dizem que não são felizes em seus negócios e não lhes entra no coração que cometeram ações más; ao contrário, acusam o Senhor. Quando são atribulados por essas provações, são entregues a mim para uma boa reeducação. Eles se reforçam na fé do Senhor e o servem, de coração puro, pelo resto de seus dias. Quando fazem penitência, as obras más que praticaram lhes entram no coração e então eles glorificam a Deus, porque é juiz justo e porque cada um sofreu justamente por suas próprias ações. Doravante, eles servem ao Senhor de coração puro e têm sucesso em tudo o que fazem, pois recebem do Senhor tudo o que pedem. Então eles glorificam ao Senhor, por terem sido entregues a mim, e já não sofrem mal nenhum".

CAPÍTULO 64
Eu lhe disse: "Senhor, explica-me ainda esse ponto." Ele perguntou: "O que procuras ainda?" Eu continuei: "Senhor, os voluptuosos e transviados são atormentados por tanto tempo quanto aquele em que foram voluptuosos e transviados?" Ele respondeu: "São atormentados durante tempo igual." Observei: "Senhor, são atormentados por pouquíssimo tempo. Com efeito, seria preciso que as pessoas que vivem assim na volúpia e se esquecem de Deus, fossem torturadas por tempo sete vezes maior." Ele me disse: "Insensato! Não conheces a força do tormento." Eu respondi: "Senhor, se eu conhecesse, não pediria explicação." Ele continuou: "Escuta qual é a força de uma e outra coisa. O tempo da volúpia e do engano é de uma hora; mas uma hora de tormento tem a força de trinta dias. Passando um dia na volúpia e no engano, e um dia nos tormentos, esse dia de tormento vale por um ano inteiro. A pessoa é atormentada por tantos anos quantos dias passou na volúpia. Vês, portanto, que o tempo da volúpia e do engano é mínimo, mas o do castigo e do tormento é longo."

CAPÍTULO 65
Eu disse: "Senhor, não compreendi inteiramente os tempos do engano, da volúpia e do tormento. Explica-me com mais clareza." Ele respondeu: "Tua insensatez é insistente e não queres purificar teu coração e servir a Deus. Cuidado para que o tempo não se cumpra e sejas encontrado insensato. Ouve, portanto, para compreender o que desejas. Aquele que vive um dia na volúpia e no engano, fazendo o que quer, reveste-se de muita insensatez e não percebe a ação que faz. No dia seguinte, esquece o que fez no dia anterior. A volúpia e o engano não têm memória, por causa da insensatez de que se revestem. Quando, porém, o castigo e o tormento se ligam ao homem por um dia, é durante um ano todo que ele é castigado e atormentado, pois o castigo e o tormento têm grande memória. Atormentado e castigado durante um ano inteiro, ele se lembra então da volúpia e do engano, e reconhece que é por causa deles que sofre esses males. Todo homem que vive na volúpia e no engano é assim atormentado, porque, possuindo a vida, ele se entregara à morte." Eu perguntei: "Senhor, quais são as volúpias perniciosas?" Ele respondeu: "Tudo o que o homem faz com prazer, é volúpia. Assim o colérico, fazendo aquilo que é conforme a sua paixão, é voluptuoso. O mesmo acontece com o adúltero, o bêbado, o maledicente, o mentiroso, realizando aquilo que é conforme à sua própria doença, se entrega por esse ato à volúpia. Todas essas volúpias são más para os servos de Deus. Portanto, é por causa desses enganos que sofrem aqueles que são castigados e atormentados. Contudo, há também volúpias que salvam os homens, pois muitos experimentam volúpia em fazer o bem: são impulsionados pelo próprio prazer. Essa é volúpia proveitosa para os servos de Deus e traz vida para o homem. As volúpias perniciosas, de que falamos antes, só lhe trazem tormentos e castigos. Caso se obstinem e não se arrependam, acarretam a morte para si mesmos."

SÉTIMA PARÁBOLA

CAPÍTULO 66
Poucos dias depois, vi o pastor na mesma planície onde tinha visto também os pastores, e ele me perguntou: "O que procuras ainda?" Respondi: "Senhor, estou aqui a fim de te pedir que mandes o pastor justiceiro sair da minha casa, pois ele me atribula muito." Ele disse: "É preciso que sejas atribulado. Com efeito, foi assim que o anjo glorioso ordenou a respeito de ti. Ele quer que sejas provado." Perguntei: "Senhor, o que fiz de tão mau, para ser entregue a esse anjo?" Ele respondeu: "Escuta. Teus pecados são numerosos, mas não tanto para que sejas entregue a esse anjo. Todavia, tua família cometeu grandes pecados e iniqüidades, e o anjo glorioso ficou irritado com as obras deles e, por isso, ordenou que sejas atribulado por algum tempo. Dessa forma, eles farão penitência e se purificarão de todo desejo deste mundo. Quando se tiverem arrependido e purificado, o anjo do castigo se afastará." Perguntei-lhe: "Senhor, se foram eles que fizeram essas coisas para irritar o anjo glorioso, que fiz eu? Ele respondeu: "E que não há outro modo para que eles sejam atribulados, se tu, chefe da família, não sofreres tribulação. Porque sendo tu atribulado, eles forçosamente o serão também, mas, se tiveres prosperidade, nenhuma tribulação poderá atingi-los." Eu repliquei: "Senhor, eles já fizeram penitência de todo o coração." Ele respondeu: "Eu sei muito bem que eles fizeram penitência do fundo do coração. Você pensa que os pecados daqueles que fazem penitência são imediatamente remidos? De modo algum. E preciso que aquele que fez penitência prove sua própria alma, se humilhe profundamente em tudo o que faz e passe por muitas e variadas tribulações. Se ele suportar as tribulações que lhe sobrevierem, aquele que tudo criou e fortaleceu terá compaixão dele e lhe concederá a cura. Isso acontecerá seguramente, se ele vir puro de toda coisa má o coração do penitente. E, portanto, proveitoso a ti e à tua família passar agora por tribulações. Mas, por que estou falando tanto? Tens que passar por tribulações, conforme ordenou esse anjo do Senhor que te confiou a mim. Agradece ao Senhor por julgar-te digno de te mostrar previamente a tribulação. Dessa forma, conhecendo-a de antemão, tu a suportarás valorosamente." Eu lhe pedi: "Senhor, fica comigo, e eu poderei suportar qualquer tribulação." Ele respondeu: "Eu estarei contigo, e pedirei ao anjo justiceiro para te atribular mais suavemente. Todavia, serás atribulado por pouco tempo, e depois serás restabelecido em teu lugar. Continua, porém, a te humilhar e a servir ao Senhor de coração puro - tu, teus filhos e tua família - e anda conforme os meus mandamentos que te dei. Desse modo, tua penitência poderá ser firme e pura. Se observares isso com tua família, toda tribulação se afastará de ti. E a tribulação também se afastará de todos os que andarem conforme os meus mandamentos."

OITAVA PARÁBOLA

CAPÍTULO 67
Ele me mostrou um grande salgueiro, que cobria planícies e montanhas, e ao abrigo do salgueiro tinham-se recolhido todos os que são chamados pelo nome do Senhor. Debaixo do salgueiro, estava de pé o anjo glorioso do Senhor, com enorme estatura. Tinha uma grande foice, e cortava ramos do salgueiro e as dava à multidão abrigada debaixo do salgueiro. Os ramos que entregava eram pequenos, com cerca de meio metro. Depois de todos terem recebido seu ramo, o anjo deixou a foice, e a árvore estava inteira, da mesma forma como eu a vira. Eu me admirava e dizia a mim mesmo: "Como é possível que, depois de tantos ramos cortados, a árvore esteja inteira?" O pastor me disse: "Não te admires que essa árvore permaneça inteira, depois que tantos ramos foram cortados. Espera e, depois de ver tudo, te será explicado o que significa isso." O anjo que entregara os ramos à multidão, pediu-os de novo. Pedia-os na ordem segundo a qual eles os haviam recebido, e cada um entregava seu ramo. O anjo do Senhor os tomava e os examinava. De alguns, ele recebia ramos secos e roídos como por vermes, e aos que entregavam tais ramos o anjo dizia que formassem um grupo à parte. Outros entregavam ramos secos, mas não roídos por vermes. Também a estes o anjo dizia que formassem um grupo separado. Outros os entregavam meio secos, e também estes formavam um grupo separado. Outros entregavam seus ramos meio secos e fendidos, e também estes formavam um grupo separado. Outros entregavam seus ramos verdes e fendidos, e também estes formavam um grupo separado. Outros entregavam ramos com metade seca e metade verde, e também esses formavam um grupo separado. Outros devolviam seus ramos, dois terços verdes e secos no resto, e também estes formavam um grupo separado. Outros entregavam seus ramos, dois terços secos, e verdes no resto, e também estes formavam um grupo separado. Outros entregavam seus ramos quase completamente verdes; apenas uma pequena parte dos seus ramos estava seca, bem na ponta, mas estavam fendidos. E também estes formavam um grupo separado. Os ramos de alguns outros tinham apenas uma pequena ponta verde e o resto estava seco, e também estes formavam um grupo separado. Outros vinham com os ramos verdes, como os tinham recebido do anjo. A maior parte da multidão entregava ramos assim, e o anjo alegrava-se muito com isso. E também estes formavam um grupo separado. Outros entregavam seus ramos verdes com brotos novos, e também estes formavam um grupo separado, e o anjo ficava muito alegre com eles. Outros entregavam seus ramos verdes e com brotos, os quais traziam uma espécie de fruto. Os homens, cujos ramos foram encontrados assim, estavam muito alegres. Também o anjo se alegrava com eles, e igualmente o pastor estava muito alegre com eles.

CAPÍTULO 68
O anjo do Senhor ordenou que trouxessem coroas, e foram trazidas coroas que pareciam feitas de palmas. Então coroou os homens que haviam entregue os ramos que tinham brotos e uma espécie de fruto, e enviou-os para a torre. Também enviou para a torre aqueles que haviam entregue os ramos com brotos, mas sem fruto, dando-lhes um selo. Todos os que iam para a torre vestiam roupas brancas como a neve. Enviou também aqueles que tinham entregue os ramos verdes como os haviam recebido, dando-lhes roupas brancas e o selo. Ao terminar isso, o anjo disse ao pastor: "Eu também vou. Conduze tu para dentro das muralhas os que são dignos de habitar aí. Examina com cuidado seus ramos, e depois os conduze. Examina cuidadosamente. Atenção para que ninguém te escape, pois, se alguém escapar, eu mesmo julgarei junto ao altar." Dito isso ao pastor, foi embora. Depois que o anjo saiu, o pastor me disse: "Tomemos os ramos de todos e os plantemos, para ver se alguns dentre eles viverão." Eu lhe perguntei: "Senhor, como esses ramos secos viverão?" Ele me respondeu: "Esta árvore é salgueiro, e é cheia de vida por natureza. Plantando esses ramos, muitos deles viverão, se receberem um pouco de umidade. Por isso, procurarei água para regá-los. Se algum deles viver, eu me alegrarei com ele; se não viver, não terei sido negligente." O pastor me ordenou que os chamasse conforme estavam agrupados. Eles vieram, grupo por grupo, e entregaram seus ramos ao pastor. O pastor os tomou e, por grupo, os replantou; depois de plantados, jogou tanta água neles, de modo que os ramos não apareciam sobre a água. Depois de regar os ramos, disse-me: "Vamos embora. Dentro de poucos dias, voltaremos para examinar todos esses ramos, pois aquele que criou esta árvore deseja que vivam todos aqueles que receberam um ramo dela. Quanto a mim, espero que, encontrando umidade e regados com água, a maioria desses ramos viverá."

CAPÍTULO 69
Eu lhe disse: "Senhor, faze-me compreender o que é essa árvore, pois não entendo como ela, aparada de tantos ramos, continua inteira, sem parecer em nada que foi aparada. É isso que eu não entendo." Ele me respondeu: "Escuta. Essa grande árvore que cobre planícies, montanhas e toda a terra, é a lei de Deus dada ao mundo inteiro, e essa lei é o Filho de Deus anunciado até os confins da terra. Os povos que se encontram debaixo da árvore são aqueles que ouviram o anúncio e creram. O anjo grande e glorioso é Miguel, que tem o poder sobre esse povo e o governa. É ele que dá a lei e grava no coração daqueles que crêem. Ele examina, portanto, se aqueles a quem deu a lei, a observaram bem. Vês muitos ramos inúteis. Reconhecerás entre eles os que não observaram a lei, e verás a morada de cada um." Perguntei-lhe: "Senhor, por que o anjo enviou alguns para a torre e deixou para ti os outros?" Ele respondeu: "Todos aqueles que transgrediram a lei que receberam dele foram deixados em meu poder para fazerem penitência. Todos os outros que se alegraram na lei e a observaram, ele os tem em seu próprio poder." Perguntei: "Senhor, quem são aqueles que foram coroados e se dirigiram para a torre?" Ele me respondeu: "Esses coroados são os que lutaram contra o diabo e o venceram; eles sofreram pela lei. Os outros que entregaram seus ramos verdes com brotos novos, mas sem fruto, foram atribulados por causa da lei, sem entretanto serem torturados por ela, mas não a renegaram. Os que entregaram os ramos verdes como os haviam recebido, são santos e justos. Caminharam muito de coração puro, observando os mandamentos do Senhor. Conhecerás o resto, quando eu examinar os ramos plantados e regados."

CAPÍTULO 70
Alguns dias depois, voltamos a esse lugar e o pastor sentou-se no lugar do anjo grande, e eu fiquei ao seu lado. Então ele me disse: "Cinge-te com uma toalha e serve-me.” Eu me cingi com uma toalha limpa, feita de saco. Vendo-me cingido e pronto para servi-lo, ele me disse: "Chama os homens cujos ramos foram plantados, na mesma ordem em que cada um o devolveu." Fui até à planície, chamei a todos, e todos os grupos se apresentaram. O pastor lhes disse: "Cada um arranque seu próprio ramo e o traga a mim." Os primeiros a devolvê-los foram aqueles cujos ramos estavam secos e corroídos. Como estavam secos e corroídos, ele mandou que fossem colocados à parte. Em seguida, os devolveram os que tinham os ramos secos, mas não corroídos. Alguns deles os devolveram verdes, e outros, secos e corroídos como por vermes. Aos que os devolveram verdes, o pastor mandou formar um grupo separado; aos que os devolveram secos e corroídos, ele mandou que os colocassem com os primeiros. Depois, os devolveram os que os tinham recebido metade secos e fendidos, e muitos deles os devolveram verdes e sem fendas; alguns, verdes com brotos novos e frutos nesses brotos, como os tinham aqueles que foram coroados para a torre. Alguns os devolveram secos e carcomidos; outros, secos mas não carcomidos; outros ainda, tais como estavam antes: meio secos e fendidos. E o pastor mandou que eles se separassem, cada um em seu grupo respectivo, e os outros restantes, à parte.

CAPÍTULO 71
Em seguida, os devolveram os que tinham recebido os ramos verdes, mas fendidos. Todos esses os devolveram verdes e tomaram lugar em seu próprio grupo. O pastor alegrou-se com estes, pois todos se tinham transformado e livrado de suas fendas. Também os devolveram aqueles que os haviam recebido metade verdes e metade secos. Os ramos de alguns foram encontrados inteiramente verdes; de outros, metade verdes; de outros, secos e carcomidos; e de outros ainda, verdes com brotos novos. Todos esses foram mandados para seus respectivos grupos. Em seguida, os devolveram aqueles que os tinham recebido com dois terços verdes e um terço seco. Muitos deles os devolveram verdes; muitos outros, metade secos; e outros, secos e carcomidos. Todos esses foram mandados cada um para seu próprio grupo. Em seguida, os devolveram aqueles que tinham recebido ramos secos em dois terços e verdes no resto. Muitos deles os devolveram metade secos; alguns, secos e carcomidos; e alguns ainda, metade secos e fendidos. Muito poucos os devolveram verdes. E todos esses tomaram lugar em seus respectivos grupos. Em seguida, os devolveram aqueles que tinham recebido ramos verdes, mas com mínima parte seca e fendida. Desses, alguns os devolveram verdes; e alguns, verdes com brotos novos. Também esses se foram para seus respectivos grupos. Em seguida, os devolveram aqueles que tinham recebido com mínima parte verde e todo o resto seco. Os ramos destes, em sua maior parte, foram encontrados verdes, com brotos novos e com frutos neles; e outros, inteiramente verdes. O pastor se alegrou muito com esses ramos, por tê-los encontrado assim. E também esses se foram, cada um para seu próprio grupo.

CAPÍTULO 72
Depois de examinar os ramos de todos, o pastor me falou: "Eu lhe disse que esta árvore é cheia de vida. Vês quantos fizeram penitência e foram salvos?" Eu respondi: "Vejo, senhor." Ele continuou: "Isso é para que saibas que a misericórdia de Deus é grande e gloriosa, e como ele deu um espírito àqueles que eram dignos de fazer Penitência." Perguntei: "Senhor, então, por que nem todos fizeram penitência?" Ele respondeu: "O Senhor concedeu a penitência àqueles cujo coração ele viu que estava pronto para se purificar e que haviam de servi-lo de todo o coração. Contudo, àqueles nos quais viu a perfídia e a maldade e que iriam arrepender-se apenas hipocritamente, ele não concedeu a penitência, para que não blasfemassem novamente sua lei." Eu lhe pedi: "Senhor, explica-me quem é cada um daqueles que te devolveram os ramos, e a morada que lhes cabe. Desse modo, após terem ouvido, aqueles que acreditaram e receberam o selo, mas que o quebraram e não o preservaram inteiro, reconhecerão suas obras, farão penitência e receberão de ti um selo. Assim glorificarão o Senhor, por ter usado piedade com eles e te haver enviado para renovar seus espíritos." Ele explicou: "Escuta. Aqueles cujos ramos foram encontrados secos e carcomidos por vermes, são os apóstatas e traidores da Igreja que, com seus pecados, blasfemaram o Senhor e que ainda se envergonharam do nome do Senhor invocado sobre eles. Tais indivíduos estão definitivamente mortos para Deus. Vês que nenhum deles fez penitência, embora tenham ouvido as palavras que lhes transmitiste, sob minha ordem. A vida, portanto, foi tirada desses homens. Aqueles que devolveram os ramos secos, mas não apodrecidos, estão próximos dos anteriores: eram hipócritas que introduziam ensinamentos errados, que desviavam os servos de Deus e sobretudo os pecadores, não lhes permitindo fazer penitência, mas persuadindo-os com ensinamentos loucos. Todavia, esses têm esperança de fazer penitência. Vês que muitos dentre eles já fizeram penitência, desde quando lhes falaste sobre os meus preceitos. Outros ainda farão penitência, e todos aqueles que não fizerem penitência, já perderam a vida. Aqueles que fizeram penitência tornando-se bons, têm sua morada nas primeiras muralhas; alguns subiram à torre. Vês, portanto, que a penitência dos pecadores traz vida, e a impenitência, traz morte."

CAPÍTULO 73
Escuta também sobre aqueles que devolveram os ramos metade secos e fendidos. Aqueles cujos ramos estavam somente secos pela metade, são os que duvidam; não estão nem vivos nem mortos. Os que os tinham secos pela metade e fendidos, são os que duvidam e murmuram, e que nunca estão em paz entre si, mas sempre em discórdia. Também esses ainda têm possibilidade de fazer penitência. Vês que alguns deles já fizeram penitência e ainda há esperança de penitência para eles. Todos os que dentre eles fizeram penitência, têm sua morada na torre. Aqueles, porém, que se arrependerem demasiadamente tarde, habitarão nos muros; aqueles que não fizerem penitência, persistindo em suas ações, certamente morrerão. Aqueles que devolveram ramos verdes, mas fendidos, sempre foram fiéis e bons, mas têm entre si inveja pelos primeiros lugares e por alguma honraria. Todos eles são loucos em rivalizarem entre si pelos primeiros lugares. Todavia, depois de terem ouvido meus mandamentos, como eram bons, eles se purificaram e logo fizeram penitência. A morada deles foi na torre. Contudo, se um deles voltar novamente à discórdia, será expulso da torre e perderá a própria vida. A vida pertence a todos os que observam os mandamentos do Senhor. Ora, nesses mandamentos nada se diz de primeiros lugares, nem de alguma honraria, mas fala-se da paciência e humildade do homem. Nessas pessoas, portanto, está a vida do Senhor; nos que provocam discórdia e violam a lei, está a morte."

CAPÍTULO 74
"Aqueles que devolveram seus ramos metade verdes e metade secos, são os que estavam imersos em seus negócios e não se juntavam aos santos. Por isso, metade neles estava viva, e metade estava morta. Todavia, depois de terem ouvido meus mandamentos, fizeram penitência e foram morar na torre. Alguns outros se afastaram definitivamente, e não têm possibilidade de fazer penitência. Com efeito, por causa de seus negócios, eles blasfemaram o Senhor e o renegaram. Portanto, perderam a vida, por causa da maldade que praticaram. Muitos dentre eles são vacilantes; esses ainda têm possibilidade de fazer penitência, se logo se arrependerem, e sua morada será na torre. Se levarem demasiado tempo para fazerem penitência, irão morar nas muralhas; se não fizerem penitência, também eles já terão perdido a vida. Aqueles que devolveram os ramos dois terços verdes e no resto secos, são aqueles que renegaram de diversas formas. Muitos deles fizeram penitência e foram morar na torre. Outros se afastaram definitivamente de Deus; esses perderam definitivamente a vida. Alguns deles duvidaram e provocaram discórdia; estes ainda têm possibilidade de fazer penitência, se a fizerem logo, sem persistir em seus prazeres. Mas, se eles se obstinarem em suas ações, estarão trabalhando para a própria morte."

CAPÍTULO 75
"Aqueles que devolveram ramos com dois terços secos e no resto verdes, são os que foram fiéis, mas que se enriqueceram e adquiriram honra entre os pagãos. Revestiram-se de grande orgulho, tornaram-se arrogantes, abandonaram a verdade e se separaram dos justos. Ao contrário, conviveram com os pagãos, e esse caminho lhes pareceu mais agradável. Eles não se afastaram de Deus, permaneceram na fé, mas não praticaram as obras da fé. Muitos deles fizeram penitência e tiveram sua morada na torre. Outros, convivendo inteiramente com os pagãos e arrastados pelas suas glórias vãs junto aos pagãos, afastaram-se de Deus e praticaram as obras dos pagãos; esses foram contados como pagãos. Outros entre eles ficaram na dúvida, porque não esperavam mais ser salvos, por causa das ações que haviam praticado. Outros ainda, não só duvidaram, mas fomentaram divisões entre si. Para esses indivíduos e para aqueles que permaneceram na dúvida por causa de suas ações, ainda há possibilidade de penitência. Mas a sua penitência deve ser rápida, para que a morada deles seja dentro da torre. Para os que não fazem penitência, mas permanecem nos seus prazeres, a morte está próxima."

CAPÍTULO 76
"Os que devolveram ramos verdes, mas com a ponta seca e fendida, são os que sempre foram bons, fiéis e gloriosos junto de Deus, mas pecaram um pouco, por leve concupiscência e leves rancores mútuos. Depois de ouvirem minhas palavras, a maioria deles arrependeu-se logo, e tiveram sua morada na torre. Alguns duvidaram, e outros, por causa de sua dúvida, promoveram maiores divisões. Estes ainda têm esperança de penitência, pois sempre foram bons; é difícil que um deles morra. Aqueles que devolveram seus ramos secos e com uma pequenina parte verde, são os que apenas creram, mas praticaram as obras da iniqüidade. Nunca se afastaram de Deus, levaram com alegria o Nome, e receberam com alegria os servos de Deus em sua casa. Ouvindo o anúncio desta penitência, arrependeram-se sem hesitação e praticam toda a virtude da justiça. Alguns até sofrem e são atribulados com alegria, pois conhecem as ações que praticaram. A morada de todos esses será na torre."

CAPÍTULO 77
Quando terminou de explicar acerca de todos os ramos, o pastor me disse: "Vai e dize a todos que façam penitência, e viverão em Deus. De fato, o Senhor teve compaixão, e me enviou para oferecer a ocasião de penitência a todos, embora alguns, por causa de suas obras, sejam indignos da salvação. O Senhor, porém, é paciente e quer que o chamado feito pelo Filho não seja invalidado." Eu lhe disse: "Senhor, espero que, depois de ouvir essas coisas, todos farão penitência. Estou persuadido de que cada um, conhecendo suas ações e temendo a Deus, faça penitência." Ele me respondeu: "Todos os que se arrependerem do fundo do coração, se purificarem dos pecados anteriormente assinalados e não acrescentarem mais nada a seus pecados, receberão do Senhor a cura de seus pecados passados, se não duvidarem a respeito desses mandamentos; então eles viverão em Deus. Todos aqueles, porém, que aumentarem seus pecados e caminharem nas paixões deste mundo, se condenarão à morte. Quanto a ti, caminha segundo os meus mandamentos e viverás em Deus. Do mesmo modo, aquele que andar no caminho dos mandamentos e os praticar retamente, viverá em Deus." Depois de meter mostrado tudo isso, ele me disse: "O resto, eu te explicarei dentro de poucos dias."

NONA PARÁBOLA

CAPÍTULO 78
Depois que escrevi os mandamentos e as parábolas do pastor, anjo da penitência, ele veio a mim e disse: "Quero te mostrar tudo o que te mostrou o Espírito Santo, que te falou na figura da Igreja. Esse Espírito é o Filho de Deus. Estavas muito fraco na carne e, por isso, não te foi revelado por meio de anjo. Contudo, quando ficaste fortalecido pelo Espírito e tu mesmo tiveste a força para poderes ver um anjo, então te foi revelada, por meio da Igreja, a construção da torre. Viste bem e santamente, qual uma virgem, todas as coisas. Agora, graças a um anjo, vês por meio do próprio Espírito. E preciso que compreendas tudo, por meu intermédio, de modo mais preciso. O anjo glorioso me conferiu a missão de habitar em tua casa, para que vejas tudo com coragem, e não mais com apreensão, como antes." Então me transportou para a Arcádia, sobre um monte de forma cônica. Fez-me sentar no topo da montanha, e me mostrou uma grande planície e, ao redor da planície, outras doze montanhas, cada uma com aspecto diferente. A primeira era negra como fuligem; a segunda, seca e sem vegetação; a terceira, cheia de espinhos e cardos; a quarta, com vegetação meio seca, verde na parte de cima e seca junto às raízes; quando o sol brilhava, parte da vegetação secava. A quinta montanha era muito rochosa, mas tinha vegetação verde. A sexta montanha estava cheia de fendas, algumas pequenas, outras grandes; nas fendas havia vegetação, mas não era muito verdejante: parecia antes estar murcha. A sétima montanha tinha vegetação cheia de viço e a montanha toda era exuberante; todas as espécies de rebanhos e aves se alimentavam sobre a montanha e, quanto mais os rebanhos e aves comiam, tanto mais a vegetação brotava da montanha. A oitava montanha estava cheia de fontes, e todas as espécies da criação do Senhor vinham beber nessas fontes da montanha. A nona montanha não tinha água nenhuma, e estava completamente deserta; havia nela animais selvagens e répteis mortíferos, que provocam a morte dos homens. Na décima montanha havia árvores gigantes e estava coberta de sombras; debaixo das sombras estavam deitadas muitas ovelhas, que repousavam e ruminavam. A décima primeira montanha era coberta de árvores, as quais eram frutíferas e carregadas de frutas de toda espécie, e quem as via, desejava comê-las. A décima segunda montanha era inteiramente branca; seu aspecto era muito exuberante, e a montanha em si mesma era belíssima.

CAPÍTULO 79
No meio da planície, ele me mostrou uma grande rocha branca que se erguia da planície. Era mais alta que as montanhas, e quadrada, de modo a conter o mundo inteiro. A rocha era antiga, e havia nela uma porta escavada, que parecia ter sido escavada recentemente. Resplandecia mais do que o sol, e eu me maravilhava com tal esplendor. Ao redor da porta estavam doze virgens. As quatro que havia nos cantos me pareciam mais gloriosas, mas as outras o eram também. As virgens estavam nos quatro lados da porta, duas a duas, à meia distância das quatro primeiras. Vestiam túnica de linho, belamente cingidas, com o ombro direito descoberto, como para transportar algum peso. Estavam prontas, alegres e animadas. Vendo isso, fiquei admirado pelas coisas grandes e gloriosas que via. Além disso, fiquei perplexo com essas virgens, que eram delicadas, mas que se comportavam virilmente, como se devessem sustentar todo o céu. Então o pastor me disse: "Em que estás pensando, preocupando-te e causando tristeza a ti mesmo? As coisas que não consegues compreender, não as trates como se fosses inteligente. Pede antes ao Senhor que te dê inteligência para compreender essas coisas. Não podes ver o que está atrás de ti, mas vês o que está diante de ti; não te atormentes pelo que não podes ver. Procura dominar as coisas que vês, e não te angusties com o resto. Explicarei tudo o que te vou mostrar. Vê, portanto, o resto."
CAPÍTULO 80
Então vi que haviam chegado seis homens altos, gloriosos e de aspecto semelhante. Chamaram uma multidão de homens. Estes recém-chegados eram de grande estatura, muito belos e fortes. Os seis homens lhes deram ordens de construir uma torre sobre a rocha. Os homens que vieram construir a torre fizeram então grande tumulto, correndo de cá para lá ao redor da porta. As virgens que estavam ao redor da porta diziam aos homens que apressassem a construção da torre. Elas estendiam as mãos, como se devessem receber alguma coisa dos homens. Os seis homens ordenaram que subissem pedras de um abismo e se colocassem na construção da torre. Então subiram dez pedras quadradas e brilhantes, não lavradas. Os seis homens chamaram as virgens e lhes disseram que carregassem todas as pedras que haviam de entrar na construção da torre, que as passassem através da porta, e entregassem aos homens que iriam construir a torre. As virgens então carregaram sobre si, mutuamente, as dez primeiras pedras que haviam subido do abismo, e as transportaram juntas, pedra por pedra.

CAPÍTULO 81
Elas carregavam as pedras na mesma ordem em que estavam ao redor da porta: as virgens que pareciam vigorosas, se colocavam nos ângulos da pedra; as outras se colocavam dos lados. E assim carregavam todas as pedras, passando pela porta, conforme lhes fora ordenado, e as entregavam aos homens na torre, os quais recebiam as pedras e construíam. A torre era construída sobre a grande rocha e em cima da porta. As dez pedras foram então ajustadas e cobriram toda a rocha, tornando-se, desse modo, o alicerce da construção da torre. A rocha e a porta suportavam toda a torre. Depois das dez pedras, subiram do abismo outras vinte e cinco. Elas também foram ajustadas à construção, carregadas pelas virgens como as anteriores. Depois, subiram trinta e cinco pedras, que foram igualmente ajustadas à torre. A seguir, subiram outras quarenta pedras, e todas foram também empregadas na construção da torre. Desse modo, formaram-se quatro camadas no alicerce da torre. Pararam então de subir do abismo, e os construtores descansaram um pouco. Depois, os seis homens ordenaram à multidão numerosa que trouxesse pedras das montanhas, a fim de construir a torre. Eram trazidas de todas as montanhas, de cores variadas, lavradas pelos homens, e entregues às virgens, as quais as transportavam pela porta e as entregavam para a construção da torre. Quando essas pedras de cores diferentes eram colocadas na construção, tornavam-se igualmente brancas, mudando as cores precedentes. Algumas pedras eram entregues aos homens para a construção, mas não se tornavam brilhantes; continuavam tais como eram antes, pois não tinham sido entregues pelas virgens, nem tinham passado pela porta. Tais pedras, portanto, destoavam na construção da torre. Os seis homens viram que essas pedras destoavam na construção, e ordenaram que fossem retiradas, levadas para baixo, para o lugar de onde tinham sido transportadas. Então disseram aos homens que transportavam as pedras: "De modo nenhum, não entregueis vós mesmos pedras aos construtores. Colocai-as perto da torre, para que as virgens, fazendo-as passar pela porta, as entreguem para a construção. Com efeito, se elas não passarem a porta pelas mãos das virgens, não poderão mudar suas cores. Portanto, não vos afadigueis em vão."

CAPÍTULO 82
Terminou naquele dia o trabalho de construção, mas a torre não ficou concluída. Devia-se retomar a construção, mas houve uma pausa. Os seis homens mandaram que todos os construtores se retirassem um pouco e descansassem; às virgens, porém, ordenaram que não se afastassem da torre. Parecia-me que as virgens foram deixadas aí para guardá-la. Depois que todos se retiraram para descansar, eu perguntei ao pastor: "Senhor, por que não foi terminada a construção da torre?" Ele respondeu: "A torre não pode ser terminada enquanto o seu proprietário não vier examinar a construção, para trocar as pedras que estiverem corroídas. A torre foi construída segunda a vontade dele." Eu então pedi: "Senhor, desejaria saber o que significa a construção da torre e a rocha, a porta, as montanhas, as virgens e as pedras que subiram do abismo, porque não foram lavradas, mas entraram na construção tais quais eram. Também desejaria saber por que primeiro foram postas no alicerce dez pedras, depois vinte e cinco, trinta e cinco, e quarenta. E também o que significam as pedras que entraram na construção e depois foram logo retiradas e recolocadas em seu lugar. Senhor, tranqüiliza a minha alma sobre tudo isso, e explica-me tudo." Ele respondeu: "Se tua curiosidade não for considerada vã, conhecerás tudo. Daqui a poucos dias voltaremos aqui, e verás o resto do que acontecerá a esta torre, e saberás completamente todas as parábolas." Poucos dias depois, voltamos ao lugar onde estivéramos sentados, e ele me disse: "Vamos até à torre, pois o proprietário virá examiná-la." Então fomos até à torre, e perto dela não havia absolutamente ninguém, exceto as virgens. O pastor perguntou às virgens se o proprietário da torre estava aí, e elas responderam que ele chegaria para examinar a construção.

CAPÍTULO 83
Eis que pouco depois vejo um cortejo de muitos homens chegando, e no meio deles um homem tão alto que ultrapassava a torre. Os seis homens que trabalharam na construção caminhavam com ele à direita e à esquerda, e todos os que trabalharam na construção estavam com ele, e muitos outros, gloriosos, ao seu redor. As virgens que guardavam a torre correram ao seu encontro, o beijaram e começaram a caminhar com ele ao redor da torre. Esse homem examinava minuciosamente a construção, a ponto de apalpar pedra por pedra; com um bastão na mão, batia em cada uma das pedras da construção. À medida que batia nelas, algumas ficavam negras como fuligem; outras, corroídas, ou fendidas, ou mutiladas, ou nem brancas nem negras; outras, desiguais, já não se harmonizavam com as demais pedras; e outras ainda, cheias de manchas. Tais foram as variedades de pedras achadas inúteis para a construção. E ele ordenou retirá-las todas da torre, colocá-las junto dela e trazer outras para substituí-Ias. Os construtores lhe perguntaram de qual montanha ele queria que tirassem as pedras para colocar no lugar das outras. Ele ordenou que fossem tiradas, não das montanhas, mas de uma planície vizinha. Cavou-se então a planície e foram encontradas pedras brilhantes, quadradas, e algumas redondas. Todas as pedras encontradas nessa planície foram trazidas, e as virgens as transportaram através da porta. As pedras quadradas foram lavradas e colocadas no lugar das que tinham sido tiradas; as redondas não foram colocadas na construção, porque eram duras, e o trabalho de lavrá-las era lento. Foram colocadas perto da torre, pois deviam ser lavradas para serem colocadas na construção, já que eram muito brilhantes.

CAPÍTULO 84
Terminando isso, o homem glorioso e senhor de toda a torre chamou o pastor e lhe entregou todas as pedras que se achavam perto da torre e que foram tiradas da construção, e lhe disse: "Limpa cuidadosamente todas essas pedras, e emprega na construção da torre as que se ajustam às outras; as que não se ajustarem, atira-as para longe da torre." Depois de ordenar isso ao pastor, foi embora, acompanhado de todos os que tinham vindo com ele; as virgens, porém, permaneceram ao redor da torre, para guardá-la. Eu perguntei ao pastor: "Como podem essas pedras, que foram rejeitadas como indignas, voltar à construção da torre?" Ele me respondeu: "Vês estas pedras?" Eu disse: "Sim, senhor, estou vendo." Ele continuou: "Lavrarei a maior parte delas e as empregarei na construção, e elas se ajustarão às outras." Eu perguntei: "Senhor, como poderão, depois de esquadradas, preencher o mesmo lugar?" Ele me respondeu: "As que forem achadas pequenas serão colocadas no interior da construção; as maiores serão colocadas no lado externo e sustentarão as outras." Dito isso, continuou: "Vamos embora. Dentro de dois dias voltaremos, limparemos essas pedras e as colocaremos na construção. E preciso limpar tudo ao redor da torre, pois, se o proprietário vier de improviso e encontrar tudo sujo ao redor da torre, ficará irritado. Nesse caso, essas pedras não entrariam na construção da torre, e aos olhos do proprietário eu pareceria negligente." Dois dias depois, voltamos à torre e ele me disse: "Examinemos todas as pedras e vejamos quais delas podem entrar na construção." Eu respondi: "Sim, senhor, vamos examiná-las".

CAPÍTULO 85
Para começar, examinamos primeiro as pedras negras. Da forma como foram retiradas da torre, assim as encontramos. O pastor ordenou que fossem levadas embora da torre e colocadas à parte. Depois, examinou as corroídas. Pegou muitas delas, lavrou-as e ordenou que as virgens as levantassem e as colocassem na construção. As virgens as levantaram e as colocaram no interior da construção da torre. Ele ordenou então que as restantes fossem colocadas com as pretas, pois elas também foram encontradas pretas. Em seguida, examinou as fendidas. Lavrou muitas e mandou que as virgens as levassem para a construção. Puseram-nas, porém, no lado externo, pois eram mais sólidas. As outras, como tinham muitas fendas, não puderam ser lavradas e, por isso, foram excluídas da construção da torre. Examinou depois as mutiladas. Entre elas se encontraram muitas pedras pretas, e algumas com grandes fendas, e ele mandou que também essas fossem colocadas com as rejeitadas. Quanto às restantes, ele as limpou, lavrou e mandou colocar na construção. As virgens as levantaram e as ajustaram no meio da construção, pois eram muito fracas. Depois, examinou as meio brancas e meio pretas, e muitas delas foram encontradas pretas. Mandou que também essas fossem levantadas e colocadas junto com as que tinham sido rejeitadas. Todas as outras foram levantadas pelas virgens. Como eram brancas, foram ajustadas à construção pelas próprias virgens. Foram postas no lado externo da muralha, pois foram encontradas sólidas, de modo que podiam sustentar as que eram colocadas no meio. Nada foi cortado delas. Em seguida, examinou as que eram duras e ásperas, e algumas delas foram rejeitadas; não era possível lavra-las, porque eram muito duras. As outras foram lavradas, levantadas pelas virgens, e ajustadas no interior da construção da torre, pois eram mais fracas. Em seguida, ele examinou as que tinham manchas, e delas poucas ficaram pretas e foram rejeitadas com as outras. As que restaram foram encontradas brilhantes e sólidas, ajustadas pelas virgens à construção; foram colocadas no lado externo, porque eram resistentes.

CAPÍTULO 86
Em seguida, ele foi examinar as pedras brancas e redondas, e me disse: "Que faremos com essas pedras?" Eu respondi: "Que sei eu, senhor?" (Ele continuou:) "Não tens nenhuma idéia sobre isso?" Eu respondi: "Senhor, não conheço esse ofício, não sou talhador de pedras, nem consigo entender nada." Ele continuou: "Não vês que elas são redondas e que, se eu quiser deixá-las quadradas, será preciso cortar bastante? Contudo, é preciso que algumas delas entrem na construção." Eu perguntei: "Senhor, se é necessário, por que te preocupas? Por que não escolhes para a construção aquelas que preferes e as ajustas na construção?" Ele escolheu as maiores e mais brilhantes delas, e as lavrou. As virgens as levantaram e as ajustaram no lado externo da construção. As restantes foram levantadas e colocadas na planície, de onde tinham sido tiradas. Não foram, porém, reprovadas. Ele me disse: "Porque resta ainda um pouco da torre para construir, e o proprietário dela quer de todo modo que essas pedras sejam ajustadas à construção, pois são muito brilhantes." Então ele chamou doze mulheres muito belas, vestidas de preto e cingidas, com os ombros descobertos e os cabelos soltos. Elas me pareceram selvagens, e o pastor ordenou que levantassem as pedras rejeitadas da construção e as levassem para as montanhas de onde tinham sido tiradas. EIas as levantaram, alegres, e transportaram todas e as puseram no lugar de onde haviam sido tiradas. Quando todas as pedras foram retiradas, e não restou nenhuma pedra ao redor da torre, o pastor me disse: "Percorramos ao redor da torre, para ver se não há nenhum defeito." Dei a volta com ele. Vendo que a torre era bela em sua construção, o pastor ficou muito contente. Com efeito, a torre era tão bem construída, que eu experimentei o desejo de habitá-la, pois ela era construída como se fosse uma pedra única, sem a mínima juntura. A pedra parecia ter sido cortada da rocha, pois me parecia formar um único bloco.

CAPÍTULO 87
Andando com ele, eu estava contente de ver coisas tão boas. E o pastor me disse: "Vai me buscar cal e cacos para igualar as formas das pedras que foram levantadas e empregadas na construção. E preciso que todo o contorno da torre fique igualado." Fiz conforme ele ordenou e lhe trouxe tudo. Ele pediu: "Ajuda-me, para que a obra fique logo terminada." Então ele igualou as formas das pedras que entraram na construção; depois mandou varrer e limpar ao redor da torre. As virgens pegaram vassouras e varreram, tirando toda a sujeira da torre, e espalharam água. Então o lugar da torre ficou alegre e muito belo. O pastor me disse: "Tudo foi lavado. Se o proprietário vier examinar a torre, não terá nada a nos reprovar." Dito isso, queria ir embora. Eu, porém, o segurei pelo bornal e comecei a conjurá-lo, pelo Senhor, que me explicasse o que me mostrara. Ele me disse: "Ainda tenho coisas para fazer. Depois te explicarei tudo. Espera-me aqui até que eu volte." Eu lhe perguntei: "Senhor, que farei aqui sozinho?" Ele respondeu: "Não estás sozinho. As virgens estão contigo." Eu lhe pedi: "Recomenda-me então a elas." Então o pastor as chamou, e lhes disse: "Confio a vós este homem, até que eu volte." E foi embora. Fiquei sozinho com as virgens. Elas estavam muito contentes, e me trataram com muita atenção, principalmente as quatro mais gloriosas.

CAPÍTULO 88
As virgens me disseram: "O pastor não voltará aqui hoje." Eu perguntei: "Então, o que é que eu faço?" Elas responderam: "Espera-o até à tarde. Se ele vier, falará contigo; se não vier, ficarás até que ele volte." Eu lhes disse: "Vou esperá-lo até à tarde. Se não vier, voltarei para casa e retornarei amanhã de manhã." Elas responderam: "Foste confiado a nós. Portanto, não podes sair de perto de nós." Eu perguntei: "Onde ficarei?" Elas responderam: "Dormirás conosco, como irmão, e não como marido, pois tu és nosso irmão e, doravante, habitaremos contigo, porque te amamos muito." Eu fiquei envergonhado de permanecer com elas. Então, aquela que me parecia ser a primeira delas começou a beijar-me e abraçar-me. As outras, vendo-a abraçar-me, começaram também a beijar-me, a andar ao redor da torre e a brincar comigo. De minha parte, eu me senti rejuvenescido, e também comecei a brincar com elas. Umas formavam coros de danças, outras dançavam e outras cantavam. Eu fiquei em silêncio, passeava com elas ao redor da torre, e estava alegre com elas. Chegando a tarde, quis retirar-me para casa. Elas, porém, não me deixaram e me retiveram. Fiquei com elas à noite e dormi perto da torre. As virgens estenderam no chão suas túnicas de linho e me fizeram deitar no meio delas. E nada mais fizeram do que rezar. Eu comecei a rezar sem cessar com elas, e não menos que elas. As virgens se alegraram, vendo-me rezar assim. Permaneci aí com as virgens até à manhã seguinte, pela décima hora. Em seguida, o pastor chegou e perguntou: "Não lhe fizestes nenhuma insolência?" Elas responderam: "Pergunta a ele mesmo." Eu lhe respondi: "Senhor, estou muito contente de ter ficado com elas." Ele me perguntou: "O que você comeu?" Eu respondi: "Comi palavras do Senhor a noite inteira." Ele perguntou: "Elas te receberam bem?" Eu respondi: "Sim, senhor." EIe continuou: "Agora, o que queres ouvir em primeiro lugar?" Eu disse: "Senhor, quero ouvir na mesma ordem que me mostraste desde o começo. Peço-te, senhor, que me expliques à medida que eu for perguntando." Ele me disse: "Explicarei como quiseres e não esconderei de ti absolutamente nada."

CAPÍTULO 89
Eu perguntei: "Antes de tudo, explica-me o que representam a rocha e a porta." Ele me respondeu: "A rocha e a porta são o Filho de Deus." Eu continuei: "Como é que a rocha é antiga e a porta é recente?" Ele explicou: "Escuta, homem insensato, e compreende. O Filho de Deus nasceu antes de toda a criação, embora ele tenha sido o conselheiro de seu Pai para a criação. E por isso que a rocha é antiga." Eu lhe perguntei: "E por que a porta é nova, senhor?" Ele respondeu: "Por que ele se manifestou nos últimos dias da consumação. Aporta foi feita recentemente, para que os que devem salvar-se entrem por ela no Reino de Deus." Viste que as pedras que passaram pela porta foram utilizadas na construção da torre, mas as que não passaram por ela foram rejeitadas para seu antigo lugar?" Eu respondi: "Sim, senhor, eu vi." Ele continuou: "Da mesma forma, ninguém entrará no Reino de Deus, se não tiver recebido o seu nome santo. Se quiseres entrar numa cidade e ela for cercada de muralhas e só houver uma porta, poderias entrar nela sem ser pela única porta que tem?" Eu respondi: "Como poderia ser de outra maneira, senhor?" Ele continuou: "Da mesma forma que não poderias entrar na cidade a não ser pela sua porta, também o homem não pode entrar no Reino de Deus senão pelo nome de seu Filho amado. Viste a multidão que construía a torre?" Eu respondi: "Sim, senhor, eu vi." Ele continuou: "Todos eles são anjos gloriosos. E por meio deles que o Senhor foi cercado com muralha. A porta é o Filho de Deus. É a única entrada para o Senhor. Ninguém chegará até ele, senão por meio de seu Filho. Viste os seis homens e, no meio deles, um homem grande e glorioso, que andava ao redor da torre e que rejeitou como indignas as pedras da construção?" Eu disse: "Sim, senhor, eu vi." Ele explicou: "O homem glorioso é o Filho de Deus, e os outros seis são os anjos gloriosos que o escoltam, à sua direita e à sua esquerda. Sem ele, nenhum desses anjos gloriosos poderá entrar para junto de Deus. Quem não tiver recebido o nome dele, não entrará no Reino de Deus."

CAPÍTULO 90
Eu perguntei: "O que é a torre?" Ele disse: "A torre é a Igreja". (Eu perguntei:) "E quem são as virgens?" Ele respondeu: "São espíritos santos. Um homem não pode entrar de outra forma no Reino de Deus, se essas virgens não o revestirem com a própria veste delas. Se receberes apenas o nome, mas não a veste, nada adiantará, porque essas virgens são os poderes do Filho de Deus. Se levas o nome, mas não a força dele, é em vão que serás o portador do nome. As pedras que viste rejeitadas, são as pessoas que levaram o nome, mas não foram revestidas com as vestes das virgens." Eu perguntei: "Senhor, qual é a veste delas?" Ele, respondeu: "O próprio nome delas é sua veste. Aquele que leva o nome do Filho de Deus, deve levar também os nomes delas, porque o próprio Filho de Deus leva o nome dessas virgens. Todas as pedras que viste entrar na construção da torre, levadas pela mão delas, e aí permanecem, são pessoas revestidas com o poder dessas virgens. Por isso vês a torre formar um só bloco com a rocha. O mesmo acontece com os que acreditaram no Senhor por meio do seu Filho e, revestidos com esses espíritos, formarão um só espírito, um só corpo, e suas vestes terão uma só cor. Tais pessoas que portam o nome das virgens têm sua morada na torre." Eu perguntei: "Senhor, e as pedras que foram rejeitadas? Por que o foram? Elas tinham passado pela porta e foram colocadas na construção da torre pela mão das virgens." Ele respondeu: "Uma vez que te preocupas de tudo e pesquisas acuradamente, escuta o que se refere às pedras rejeitadas. Todos esses indivíduos receberam o nome do Filho de Deus e também o poder das virgens. Acolhendo esses espíritos, eles foram fortalecidos e se encontraram entre os servos de Deus. Tinham um só espírito, um só corpo e uma só veste, pois todos pensavam a mesma coisa e praticavam a justiça. Depois de certo tempo, porém, foram seduzidos pelas mulheres que viste vestidas de preto, com os ombros descobertos, cabelos soltos e belos. Vendo-as, eles as desejaram e se revestiram com o poder delas, rejeitando a veste e o poder das virgens. Esses foram rejeitados da casa de Deus e entregues a essas mulheres. Mas os que não se deixaram seduzir pela beleza delas, permaneceram na casa de Deus. Aí tens a explicação das pedras rejeitadas."

CAPÍTULO 91
Eu perguntei: "Senhor, se esses homens, mesmo que sejam assim, fizerem penitência, rejeitarem o desejo por essas mulheres e voltarem às virgens, andando conforme seus poderes e suas obras não entrarão na casa de Deus?" Ele respondeu: "Eles entrarão se renunciarem às obras dessas mulheres, assumirem o poder das virgens e andarem em suas obras. Houve uma pausa na construção, justamente para que eles pudessem, no caso de se arrependerem, entrar de novo na construção da torre. Caso não fizerem penitência, outros entrarão, e eles serão definitivamente rejeitados." Dei graças ao Senhor por todas essas coisas, por se ter compadecido de todos os que são chamados pelo nome dele, por nos ter enviado o anjo da penitência, a nós que pecamos contra ele; por ter concedido nova vida, a nós que já estávamos corrompidos e sem esperança de viver. Eu disse: "Agora, Senhor, explica-me por que a torre não está construída no chão, mas sobre a rocha e sobre a porta." Ele respondeu: "Ainda és idiota e insensato!" Eu repliquei: "Senhor, tenho necessidade de perguntar tudo, pois não consigo compreender absolutamente nada. Essas coisas são grandes, gloriosas e difíceis para os homens compreenderem." Ele explicou: "Escuta. O nome do Filho de Deus é grande, imenso e sustenta o mundo inteiro. Se toda a criação é sustentada pelo Filho de Deus, o que pensar então daqueles que foram chamados por ele, que levam o nome do Filho de Deus e andam conforme os seus mandamentos? Estás vendo, portanto, os que ele sustenta? São os que levam o seu nome de todo o coração. Por isso, ele se constituiu alicerce deles e, para ele é uma alegria sustentá-los, pois eles não se envergonham de levar o nome dele."

CAPÍTULO 92
Eu pedi: "Senhor, dize-me o nome das virgens e das mulheres trajadas de preto." Ele respondeu: "Escuta o nome das virgens mais fortes, que estão nos ângulos (da porta). A primeira é a Fé; a segunda, a Temperança; a terceira, a Força; a quarta, a Paciência. As outras, colocadas entre as primeiras, chamam-se: Simplicidade, Inocência, Castidade, Alegria, Verdade, Inteligência, Concórdia, Caridade. Aquele que leva esses nomes e também o nome do Filho de Deus, poderá entrar no Reino de Deus. Escuta também os nomes das mulheres trajadas de preto. Quatro delas são mais fortes: a primeira é a Incredulidade; a segunda, Intemperança; a terceira, Desobediência; a quarta, Engano. As que se seguem chamam-se: Tristeza, Maldade, Dissolução, Cólera, Falsidade, Insensatez, Maledicência e Ódio. O servo de Deus que leva esses nomes verá o Reino de Deus, mas nele não entrará." Eu perguntei: "Senhor, e as pedras que saíram do abismo e foram ajustadas à construção? Quem são elas?" Ele respondeu: "As dez primeiras, colocadas no alicerce, é a primeira geração; as vinte e cinco seguintes são a segunda geração de homens justos; as trinta e cinco seguintes são os profetas de Deus e seus servos; as quarenta são os apóstolos e doutores que anunciaram o Filho de Deus." Eu perguntei: "Senhor, por que as virgens passaram as pedras pela porta, para entregá-las aos construtores da torre?" EIe respondeu: "Porque eles foram os primeiros a levar esses espíritos e não se separaram uns dos outros; nem os espíritos se separaram dos homens; nem os homens, dos espíritos. Os espíritos permaneceram com eles até à morte. Se não levassem em si esses espíritos, tais homens não teriam sido úteis à construção da torre."

CAPÍTULO 93
Eu pedi: "Senhor, explica-me mais ainda." Ele respondeu: "O que procuras mais?" Eu continuei: "Senhor, por que as pedras tiveram que subir do fundo, para ser colocadas na construção da torre, embora tivessem esses espíritos?" Ele respondeu: "Era preciso que saíssem da água, para receber a vida. Elas não podiam entrar no Reino de Deus, senão deixando a mortalidade da vida anterior. Tais mortos receberam o selo do Filho de Deus e entraram no Reino de Deus. De fato, antes de levar o nome do Filho de Deus o homem está morto. Quando recebe o selo, deixa a morte e retoma a vida. O selo é a água: eles descem à água e daí saem vivos. Também a eles foi anunciado esse selo, e eles o usaram para entrar no Reino de Deus." Eu perguntei: "Senhor, por que as quarenta pedras também sobem com eles do abismo, visto que estas já haviam recebido o selo?" Ele respondeu". "Porque esses apóstolos e doutores que anunciaram o nome do Filho de Deus, adormecidos no poder e na fé do Filho de Deus, o anunciaram também àqueles que tinham morrido antes deles, e lhes deram o selo do anúncio. Desceram com eles à água e novamente subiram. Contudo, desceram vivos e subiram vivos, enquanto os que estavam mortos antes deles desceram mortos e subiram vivos. E graças a eles que estes últimos receberam o nome do Filho de Deus. Por isso, subiram com eles, foram ajustados à construção da torre, e colocados sem ser lavrados, porque morreram na justiça e na pureza. Apenas não tinham o selo. Agora tens a explicação dessas coisas." Eu respondi: "Sim, senhor."

CAPÍTULO 94
(Eu perguntei): "Senhor, explica-me agora a respeito das montanhas. Por que são tão diferentes entre si e suas formas variadas?" Ele respondeu: "Escuta. Essas doze montanhas são as doze tribos, que habitam o mundo inteiro. O Filho de Deus lhes foi anunciado por meio dos apóstolos." (Eu pedi): "Porque as montanhas têm formas variadas entre si? Explica-me, senhor." Ele respondeu: "Escuta. Essas doze tribos que habitam o mundo inteiro são doze nações. Elas são diferentes no sentimento e no pensamento. Assim como são diversas as montanhas que vês, também o são as qualidades do pensamento e do sentimento das nações. Eu te explicarei, porém, o comportamento de cada uma em particular." Eu pedi: "Senhor, explica-me primeiramente porque, apesar da diversidade dessas montanhas, as pedras, quando colocadas na construção, se tornaram brilhantes e com a mesma cor branca, como as pedras que subiram do abismo." Ele me respondeu: "E porque todas as nações que habitam debaixo do céu, tendo ouvido e acreditado, foram chamadas com o nome do Filho de Deus. Depor de terem recebido o selo, tiveram todas um só sentimento e um só pensamento, uma só fé e uma só caridade. Com o nome levaram também os espíritos das virgens. Por isso, a construção da torre tornou-se de uma só cor, brilhante como o sol. Mas, depois de terem entrado para o mesmo lugar e terem formado um só corpo, alguns deles se contaminaram. Foram excluídos do povo dos justos e se tornaram como antes, ou talvez piores."

CAPÍTULO 95
Eu perguntei: "Senhor, como puderam tornar-se piores, depois de conhecer a Deus?" Ele respondeu: "Aquele que não conhece a Deus e pratica o mal, merece alguma punição por seu mal. Contudo, aquele que conhece a Deus não deve praticar o mal, e sim o bem. Se aquele que deve praticar o bem, pratica o mal, não te parece que comete erro maior do que aquele que não conhece a Deus? Por isso, aqueles que não conhecem a Deus e praticam o mal, são condenados à morte. Mas os que conhecem a Deus, que viram sua grandeza, e ainda praticam o mal, serão duplamente castigados, e morrerão para sempre. É desse modo que a Igreja de Deus será purificada. Viste essas pedras tiradas da torre, entregues aos espíritos maus e rejeitadas dela. Aqueles que tiverem sido purificados, formarão um só corpo. Desse modo, a torre, depois de purificada, ficou aparentemente como de uma só pedra. Igualmente acontecerá com a Igreja de Deus, depois que for purificada e forem expulsos os maus, os hipócritas, os blasfemadores, os vacilantes e os que tiverem praticado todo tipo de mal. Depois da exclusão deles, a Igreja de Deus será um só corpo, um só sentimento, um só pensamento, uma só fé, uma só caridade. Então, o Filho de Deus se alegrará e se regozijará com eles por ter encontrado puro o seu povo." Eu disse: "Senhor, tudo isso é grande e glorioso. Mas agora, Senhor, mostra-me o poder e a conduta de cada uma das montanhas, a fim de que cada alma fiel ao Senhor, ouvindo isso, glorifique o seu nome grande, admirável e glorioso." Ele respondeu: "Escuta a respeito da diversidade das montanhas e das doze nações."

CAPÍTULO 96
"Os fiéis que vieram da primeira montanha, a preta, são apóstatas, pessoas que blasfemaram contra o Senhor e traíram os servos de Deus. Para esses não há penitência, mas a morte; são pretos porque é geração sem lei. Os fiéis que vieram da segunda montanha, a seca, são hipócritas e mestres do mal. São semelhantes aos anteriores: não produziam nenhum fruto de justiça. Com efeito, assim como a montanha deles é infrutífera, tais homens possuem o nome, mas são vazios de fé, e neles não há nenhum fruto de verdade. A penitência é possível para eles, caso se arrependam logo; porém, se tardarem, a morte será o destino deles, junto aos primeiros." Eu perguntei: "Senhor, por que existe penitência para estes, enquanto para os primeiros não? Até certo ponto, as ações deles são semelhantes." Ele respondeu: "A penitência é possível para eles, porque não blasfemaram o seu Senhor, nem traíram os servos de Deus. Agiram hipocritamente pelo desejo do lucro, e cada um ensinou conforme os desejos dos homens pecadores. Por isso, sofrerão alguma pena. Para eles há possibilidade de penitência, porque não foram blasfemadores, nem traidores."

CAPÍTULO 97
"Os fiéis que vieram da terceira montanha, a coberta de espinhos e cardos, são estes: alguns deles são ricos e outros enredados em numerosos negócios. Os cardos simbolizam os ricos, e os espinhos são os que se enredaram em múltiplos negócios. Estes últimos, enredados em múltiplos negócios, não se ligam aos servos de Deus, mas se extraviam, afogados em seus negócios. Os ricos dificilmente se ligam aos servos de Deus, porque temem que alguém lhes peça alguma coisa e, por isso, dificilmente entrarão no Reino de Deus. Assim como é difícil andar descalço sobre os cardos, também-o é para eles entrar no Reino de Deus. Todavia, para todos esses existe possibilidade de penitência, com a condição de que seja logo, para recuperar nesses dias o que não fizeram no passado, e assim praticar alguma coisa boa. Se fizerem penitência e praticarem algo de bom, viverão em Deus; mas, se persistirem obstinados em suas obras, serão entregues àquelas mulheres que os matarão."

CAPÍTULO 98
"Os fiéis que vieram da quarta montanha, a que possui muita vegetação verde na ponta e seca perto das raízes, e alguma ressequida pelo sol, são os seguintes: alguns são vacilantes, outros têm o Senhor nos lábios, mas não no coração. Por isso, a base deles é seca e sem força; somente suas palavras são vivas, mas suas obras são mortas. Tais pessoas não estão vivas, nem mortas; são parecidas com os vacilantes, que não são nem verdes, nem secos, pois eles não vivem nem estão mortos. Assim como essa vegetação seca ao ver o sol, também os vacilantes, quando ouvem falar de perseguição, por causa de sua covardia, sacrificam aos ídolos e se envergonham do nome do seu Senhor. Eles, portanto, nem vivem, nem estão mortos. Contudo, também eles, se fizerem logo penitência, viverão; se não fizerem penitência, porém, já estão entregues às mulheres que lhes tirarão a vida."

CAPÍTULO 99
"Os fiéis que vieram da quinta montanha, que tinha vegetação verde e era pedregosa, são os seguintes: indóceis, arrogantes, cheios de si; querem saber tudo, mas não sabem nada. Por causa de sua presunção, a inteligência se afastou deles e a loucura insensata neles penetrou. Gabam-se de como se tivessem inteligência e desejam ser mestres, quando são apenas insensatos. Por causa desse orgulho, muitos, enaltecendo a si mesmos, acabaram se esvaziando. De fato, a presunção e a vaidade são um grande demônio. Muitos deles, foram rejeitados; alguns fizeram penitência, creram e, reconhecendo sua própria insensatez, submeteram-se aos que têm inteligência. Os outros também ainda podem fazer penitência, pois não eram maus, mas idiotas e insensatos. Se fizerem penitência, viverão em Deus; mas, se não fizerem penitência, habitarão com as mulheres que lhes fazem mal."

CAPÍTULO 100
"Os fiéis que vieram da sexta montanha, a que tem grandes e pequenas fendas e vegetação murcha nas fendas, são os seguintes: os que têm pequenas fendas são os que guardam algum rancor mútuo e, por causa de suas maledicências recíprocas, estão murchos na fé. Muitos deles, porém, fizeram penitência; outros a farão quando ouvirem os meus mandamentos, pois suas maledicências são pequenas e eles se arrependerão logo. Os que têm grandes fendas, obstinam-se na maledicência, tornam-se rancorosos e furiosos uns com os outros. Esses foram rejeitados para longe da torre e julgados indignos da sua construção. Tais homens dificilmente viverão. Deus nosso Senhor, que domina tudo e tem poder sobre toda a sua criação, não guarda rancor para com os que confessam seus pecados. Se ele é misericordioso, por que o homem, que é mortal e cheio de pecados, guarda rancor contra o homem, como se tivesse poder de destruí-lo ou salvá-lo? Eu, o anjo da penitência, vos digo: Vós que tendes essa tendência, afastai-a e fazei penitência. O Senhor curará vossos pecados passados, se vos purificardes desse demônio; caso contrário, sereis entregues a ele para a morte."

CAPÍTULO 101
"Os fiéis da sétima montanha, onde crescia vegetação verde e viçosa, e onde tudo era exuberante, todo tipo de rebanho e aves se alimentavam da vegetação dessa montanha, e cuja vegetação, quanto mais era cortada, mais abundante brotava, são os seguintes: aqueles que sempre foram simples, inocentes, felizes, sem rancor mútuo, sempre satisfeitos com os servos de Deus e revestidos com o santo espírito dessas virgens, sempre cheios de compaixão para com todos os homens e, graças a seus esforços, puderam socorrer a todos, sem altivez e sem hesitação. O Senhor, vendo sua simplicidade e candura, multiplicou o fruto do trabalho de suas mãos e os favoreceu em todas as ações. Eu, o anjo da penitência, digo a vós que assim sois: permanecei assim, e vossa descendência jamais será destruída. Com efeito, o Senhor vos experimentou e vos inscreveu no número dos nossos, e toda a vossa posteridade habitará com o Filho de Deus, pois recebestes do seu Espírito."

CAPÍTULO 102
"Os fiéis que vieram da oitava montanha, cheia de fontes, nas quais ia beber toda a criação do Senhor, são os seguintes: apóstolos e doutores que anunciaram no mundo inteiro e que ensinaram, com santidade e pureza, a palavra do Senhor. Não se deixaram de modo algum desviar por paixão má, mas sempre caminharam na justiça e na verdade, conforme o Espírito Santo que receberam. O lugar desses homens é ao lado dos anjos."

CAPÍTULO 103
"Os fiéis que vieram da nona montanha, repleta de répteis e feras que causam a morte do homem, são os seguintes: aqueles que têm manchas são diáconos que administraram mal a sua função, roubando a subsistência de viúvas e órfãos Enriqueceram-se com os recursos que receberam para socorrer. Se continuarem nessa ambição, já estão mortos e não têm mais nenhuma esperança de viver. Contudo, se fizerem penitência e desempenharem retamente seu ministério, poderão viver. Os que têm sarna são aqueles que renegaram seu Senhor e não se converteram a ele. Tornando-se áridos e solitários, não se vinculam aos servos de Deus, mas vivem isolados e perdem a vida. A vinha abandonada em alguma parte degenera por falta de cuidados; sufocada pelas ervas daninhas, com o tempo ela se torna selvagem, e seus frutos não são mais úteis para o seu dono. Da mesma forma, esses homens, abandonados a si mesmos, tornam-se selvagens e inúteis para o seu Senhor. Eles ainda podem fazer penitência, se não tiverem de coração renegado o Senhor; contudo, se alguém o tiver renegado de coração, não sei se poderá viver. O que digo não vale para o tempo presente, de modo que alguém o negue e faça penitência. Para aqueles que o renegaram no passado é que parece haver possibilidade de penitência. Portanto, se alguém quiser fazer penitência, que a faça logo, antes que a torre esteja terminada. Caso contrário, será morto pelas mulheres. Os mutilados são os espertos e maledicentes; eles são as feras que viste na montanha. Essas feras, com seu veneno, matam e destroem o homem. Da mesma forma, as palavras dessas pessoas envenenam o homem e o fazem morrer. Eles estão mutilados na fé, por causa da conduta que assumem. Alguns fizeram penitência e foram salvos; os outros, sendo como são, podem ser salvos, se se arrependerem. Se não fizerem penitência, morrerão vitimados pelas mulheres, das quais têm o poder."

CAPÍTULO 104
"Os fiéis que vieram da décima montanha, onde as arvores abrigavam ovelhas, são os seguintes: bispos e pessoas hospitaleiras, que sempre receberam com prazer os servos de Deus em sua casa, sem nenhuma hipocrisia. Os bispos, com seu ministério, continuamente protegeram os necessitados e as viúvas, e sempre levaram vida pura. Eles serão, por sua vez, protegidos pelo Senhor, para sempre. Os que assim agiram são gloriosos junto de Deus; seu lugar já é junto com os anjos, se perseverarem até o fim no serviço ao Senhor.

CAPÍTULO 105
"Os fiéis que vieram da décima primeira montanha, cujas árvores estavam cheias de frutos de várias espécies, são os seguintes: homens que sofreram por causa do nome do Filho de Deus, que sofreram corajosamente, de todo o coração, entregando a própria vida." Eu perguntei: "Senhor, por que todas essas árvores têm frutos e, algumas delas, frutos mais belos?" Ele respondeu: "Escuta. Todos aqueles que sofreram por causa do Nome são gloriosos junto de Deus. Os pecados de todos eles foram perdoados, porque sofreram por causa do nome do Filho de Deus. Escuta, porém, por que os frutos deles são variados, e alguns deles melhores. Aqueles que foram arrastados diante das autoridades, submetidos a interrogatórios e não renegaram, mas sofreram corajosamente, são muito mais gloriosos junto do Senhor, e o fruto deles é o melhor. Aqueles, porém, que tremeram e hesitaram e interrogavam no coração se renegariam ou confessariam, e sofreram, esses levam frutos inferiores, por lhes ter entrado essa intenção no coração. Com efeito, é má intenção um servo renegar seu próprio Senhor. Vigiai, portanto, vós que tendes essa intenção, para que ela não permaneça em vosso coração, e morrais para Deus. Vós que sofreis por causa do Nome deveis glorificar a Deus, por vos ter julgado dignos de levar seu nome e ser curados de todos os vossos pecados. Felicitai-vos, portanto, e crede também que realizastes grande obra, quando algum de vós sofrer por causa de Deus. O Senhor vos agracia com a vida, e vós não compreendeis. De fato, os vossos pecados se tornaram pesados, e se não sofrêsseis pelo nome do Senhor, estaríeis mortos para Deus por causa de vossos pecados. Digo isso a vós que hesitais em negar ou confessar. Confessai que tendes um Senhor, pois, se o negardes, sereis entregues à prisão. Se os pagãos punem o escravo que renega seu senhor, o que pensais que fará convosco o vosso Senhor, que tem poder sobre todas as coisas? Afastai esses desejos de vossos corações, a fim de viver eternamente para Deus."

CAPÍTULO 106
"Os fiéis que vieram da décima segunda montanha, a branca, são os seguintes: são como crianças pequeninas, em cujo coração não entra maldade nenhuma. Eles nem sequer sabem o que é o mal, e sempre permaneceram na inocência. Tais homens certamente habitarão no Reino de Deus, pois em nada violaram os mandamentos de Deus, mas perseveraram todos os dias de sua vida na inocência e no mesmo sentimento. Todos vós que assim perseverardes e fordes sem malícia, como crianças pequenas, sereis mais gloriosos do que todos os anteriores. Com efeito, todas as crianças são gloriosas diante de Deus e os primeiras diante dele. Felizes, portanto, sereis vós, se arrancardes de vós mesmos o mal e vos revestirdes da inocência, pois sereis os primeiros de todos a viver em Deus." Depois que ele terminou (de explicar) as parábolas a respeito das montanhas, eu lhe pedi: "Senhor, explica-me agora o que são as pedras tiradas da planície e colocadas no lugar das pedras que foram tiradas da torre, e também as pedras redondas que foram colocadas na construção, e aquelas que ainda são redondas."

CAPÍTULO 107
Ele respondeu: "Escuta também o sentido de todas essas coisas. As pedras tiradas da planície e que entraram na construção da torre, no lugar das pedras que foram tiradas, são as raízes dessa montanha branca .2Como os fiéis que vieram dessa montanha branca foram todos encontrados inocentes, o Senhor da torre mandou empregar, na construção da torre, pedras que vieram das raízes dessa montanha. De fato, ele sabia que se essas pedras entrassem na construção da torpe, elas permaneceriam brilhantes, e nenhuma delas escureceria. Se ele tivesse acrescentado pedras vindas de outras montanhas ter-lhe-ia sido necessário examinar e purificar a torre novamente. Estes, porém, foram encontrados brancos, tanto os que creram, como os que creriam, pois eles pertencem à mesma geração. Feliz essa geração, pois ela é inocente! Escuta agora o que se refere às pedras redondas e brilhantes. Elas vêm todas dessa montanha branca. Escuta, porém, por que foram encontradas redondas. Suas riquezas os obscureceram um pouco na verdade e os ofuscaram; porém, nunca se afastaram de Deus, nem saiu palavra má, de sua boca, mas sempre a eqüidade e a virtude da verdade. Vendo, pela mente deles, que poderiam servir à verdade permanecendo bons, o Senhor mandou cortar suas riquezas, sem as tirar de todo, para que pudessem fazer algum bem com o que lhes restava. Essas pessoas viverão em Deus, porque são de índole boa. E por isso que essas pedras foram cortadas ligeiramente, e depois colocadas na construção dessa torre."

CAPÍTULO 108
"Quanto às outras, que até agora se conservaram redondas e não foram ajustadas à construção, porque não tinham ainda recebido o selo, foram recolocadas em seu lugar; de fato, foram encontradas demasiadamente redondas. É preciso cortá-los deste século e da vaidade de suas riquezas, e então se adaptarão ao Reino de Deus. De fato, é necessário que eles entrem no Reino de Deus, pois o Senhor abençoou essa geração inocente. Dessa geração, ninguém perecerá. Pode ser que alguém deles, seduzido pelo diabo infame, cometa algum pecado e imediatamente recorra a seu Senhor. Eu, o anjo da penitência, vos julgo todos felizes. Sois inocentes como as crianças, pois vossa herança é boa e honrada diante de Deus. Digo a todos vós, que recebestes esse selo: sede simples, esquecei as ofensas, não permaneçais em vossa malícia ou na lembrança amarga das ofensas. Tende um só espírito, remediai e tirai de vós essas más divisões, a fim de que o Senhor das ovelhas se alegre com isso. Ele ficará contente, se encontrar todas as suas ovelhas, e nenhuma transviada. Ai, porém, dos pastores, se ele encontrar transviada alguma delas. Se os próprios pastores forem encontrados desviados, o que poderão dizer ao Senhor do rebanho? Poderão talvez dizer que foram desviados pelas ovelhas? Não se dará crédito a eles, pois é incrível que o pastor sofra alguma coisa por parte das ovelhas. Será mais gravemente punido por causa de sua mentira. Eu também sou pastor, e é preciso que eu preste rigorosamente conta de vós."

CAPÍTULO 109
"Curai-vos, portanto, enquanto a torre ainda está em construção. O Senhor habita nos homens que amam a paz, pois de fato a paz lhe é agradável, e ele se afasta para bem longe dos que brigam e dos que se perderam pela malícia. Devolvei-lhe, portanto, o espírito íntegro, como o recebestes. Se entregas ao lavadeiro uma roupa nova e intacta, esperas recebê-la de volta intacta. Se o lavadeiro te devolver a roupa rasgada, tu a receberás? Não te irritarás e o perseguirás com reprovação, dizendo: "Eu te entreguei uma roupa intacta. Por que a rasgaste, tornando-a inútil? Por causa do rasgão que nela fizeste, agora não pode ser mais usada." Não dirás tudo isso ao lavadeiro, por causa do rasgão que ele fez em tua roupa? Se ficas aborrecido assim com a tua roupa e te lamentas, por não tê-la recebido intacta, o que julgas que te fará o Senhor, que te deu espírito intacto, e tu o devolves completamente inútil, a ponto de não servir para mais nada ao teu Senhor? De fato, ele se tornou inútil, desde o dia em que o corrompeste. O Senhor desse espírito não te fará morrer por teres feito isso?" Eu respondi: "Certamente. Ele tratará assim todos aqueles que conservarem o rancor." Ele concluiu: "Não calceis nos pés a clemência dele, mas glorificai-o por ser tão paciente frente aos vossos pecados e por não ser semelhante a vós. Fazei, portanto, penitência útil para vós."

CAPÍTULO 110
Eu, o pastor, o anjo da penitência, mostrei e expliquei aos servos de Deus todas essas coisas, que estão acima escritas. Portanto, podereis viver se acreditardes e ouvirdes as minhas palavras, se caminhardes nelas e corrigirdes os vossos caminhos. No entanto, se permanecerdes na malícia e no rancor, não vivereis em Deus. Tudo o que devia dizer, eu vos disse. Então o pastor me disse: "Fizeste-me todas as perguntas?" Eu respondi: "Sim, senhor." (Então ele me perguntou:) "Por que não me perguntaste sobre a forma das pedras recolocadas na construção, das quais melhoramos as formas?" Eu respondi: "Senhor, eu esqueci." Ele explicou: "Escuta agora sobre elas. São aqueles que ouviram os meus mandamentos e fizeram penitência de todo o coração. Tendo visto que a penitência deles era boa e pura, e que podiam nela perseverar, o Senhor mandou apagar seus pecados anteriores. Aquelas formas eram os pecados deles, e foram igualadas, para que não aparecessem mais."

DÉCIMA PARÁBOLA

CAPÍTULO 111
Quando terminei de escrever este livro, o anjo que me confiara a esse pastor, veio à casa onde eu me encontrava, e sentou sobre o leito. O pastor apareceu de pé à direita. Então o anjo me chamou, e disse: "Eu te confiei a esse pastor a ti e à tua casa, para que fosses protegido por ele." Eu respondi: "Sim, senhor." Ele continuou: "Se queres, portanto, ser protegido de toda tribulação e violência, ter sucesso em toda boa obra e palavra, e ter toda a virtude da eqüidade, caminha nos seus mandamentos que te dei, e poderás dominar todo mal. Com efeito, se guardares os seus mandamentos, toda ambição e delícias deste mundo serão dominadas, e o sucesso te acompanhará em toda boa obra. Acolhe em ti a sua santidade e a sua modéstia e dize a todos que ele goza de grande honra e dignidade junto ao Senhor. Ele detém grande poder, e a sua função é forte. Somente a ele foi conferido o poder da penitência para o mundo inteiro. Não te parece poderoso? Mas vós desprezais a sua santidade e moderação, que ele tem para convosco."

CAPÍTULO 112
Eu disse: "Senhor, pergunta ao pastor se eu fiz alguma coisa errada desde que ele está em minha casa." O anjo respondeu: "(quanto a mim, sei que não fizeste nada de errado e que também não o farás. Eu te digo isso para que perseveres. O pastor disse-me que tem boa impressão de ti. Quanto a ti, transmitirás essas palavras aos outros, para que aqueles que fizeram ou estão para fazer penitência, tenham os mesmos sentimentos que tu. Dessa forma, o pastor falará bem deles para mim, e eu ao Senhor." Eu disse: "Senhor, de minha parte mostrarei a todo homem as grandezas do Senhor. E espero que todos os que outrora pecaram, ao ouvirem essas coisas, façam espontaneamente penitência, para recuperar a vida." Ele me disse: "Permanece nessa missão, realizando-a até o fim. Todos aqueles que praticam os mandamentos do pastor, terão vida e grande honra junto ao Senhor. Por outro lado, todos aqueles que não observam seus mandamentos, afastam-se da vida e desprezam o pastor. No entanto, o pastor, tem a sua honra junto de Deus. Todos aqueles que o desprezam e não observam seus mandamentos, se entregam à morte, e cada um deles se torna réu do seu próprio sangue. Digo-te mais uma vez: coloca-te a serviço desses mandamentos e terás o remédio para os seus pecados."

CAPÍTULO 113
"Eu te enviei essas virgens, para que habitem contigo; percebi que são afáveis contigo. Tu as tens como auxiliares, de modo que possas observar melhor os mandamentos do pastor. Não é possível observar esses mandamentos, sem essas virgens. Vejo, porém, que elas estão contigo de boa vontade; mas ordenei-lhes que de modo algum se afastem de tua casa. Apenas limpa bem a tua casa, pois elas habitarão com prazerem casa limpa. Elas são limpas e castas, ativas, e todas gozam de grande crédito junto ao Senhor. Portanto, se encontrarem tua casa limpa, permanecerão contigo. Se houver, porém, alguma coisa poluída, imediatamente elas deixarão tua casa, pois essas virgens não gostam de nenhum tipo de poluição." Eu lhe respondi: "Senhor, espero poder agradar-lhes, de modo que elas habitem sempre em minha casa de boa vontade. O pastor, a quem me confiaste, não se queixa de mim; elas também não se queixarão de mim." O anjo disse ao pastor: "Vejo que o servo de Deus quer viver, que guardará esses mandamentos, e instalará as virgens numa casa limpa." Tendo dito isso, confiou-me de novo ao pastor, chamou as virgens e lhes disse: "Como estou vendo que habitais com satisfação na casa desse homem, eu vo-lo recomendo, tanto a ele como à sua casa, para que não vos afasteis da casa dele". Elas, por sua vez, ouviram com prazer essas palavras.

CAPÍTULO 114
Em seguida, ele me disse: "Sê forte nesse ministério, mostra a todos os homens as grandezas do Senhor, e alcançarás a graça nesse ministério. Todo aquele que se comportar conforme esses mandamentos, viverá, e será feliz em sua vida. Por outro lado, quem os deixar à margem, não viverá, e será infeliz em sua vida. Dize a todos que não deixem de fazer tudo o que puderem praticar de bom, porque praticar boas obras é útil para eles. Digo também que é necessário arrancar da miséria todo homem. O necessitado e que sofre revezes em sua vida cotidiana está em grande tormento e angústia. Aquele, pois, que livrar uma pessoa da necessidade, adquire para si uma grande alegria. Com efeito, quem se encontra na miséria, sofre o mesmo tormento e as mesmas torturas que alguém que está na prisão. Muitos, não podendo suportar essas calamidades, se suicidam. Aquele, portanto, que conhece a miséria de tal homem e dela não o retira, comete grande pecado e se torna réu do sangue dele. Fazei, portanto, boas obras, todos vós que recebestes bens do Senhor, para que a construção da torre não termine, enquanto tardais em praticá-las. E por vossa causa que os trabalhos da construção foram interrompidos. Portanto, se não vos apressais em agir bem, a torre será terminada, e vós sereis excluídos dela." Quando ele terminou de falar comigo, o anjo se ergueu do leito e, tomando consigo o pastor e as virgens, retirou-se. Disse-me, porém, que me enviaria de novo o pastor e as virgens à minha casa.

Tradução: Ivo Storniolo/Euclides M. Balancim

Fonte: http://www.geocities.com/athens/aegean/8990/hermas0.htm


O Didaqué

INTRODUÇÃO - A Instrução dos Doze Apóstolos

Instrução do Senhor para as nações segundo os Doze Apóstolos,

Parte I - O Caminho da Vida e o Caminho da Morte

CAPÍTULO I
1Existem dois caminhos: o caminho da vida e o caminho da morte. Há uma grande diferença entre os dois.
2Este é o caminho da vida: primeiro, ame a Deus que o criou; segundo, ame a seu próximo como a si mesmo. Não faça ao outro aquilo que você não quer que façam a você.
3Este é o ensinamento derivado dessas palavras: bendiga aqueles que o amaldiçoam, reze por seus inimigos e jejue por aqueles que o perseguem. Ora, se você ama aqueles que o amam, que graça você merece? Os pagãos também não fazem o mesmo? Quanto a você, ame aqueles que o odeiam e assim você não terá nenhum inimigo.
4Não se deixe levar pelo instinto. Se alguém lhe bofeteia na face direita, ofereça-lhe também a outra face e assim você será perfeito. Se alguém o obriga a acompanhá-lo por um quilometro, acompanhe-o por dois. Se alguém lhe tira o manto, ofereça-lhe também a túnica. Se alguém toma alguma coisa que lhe pertence, não a peça de volta porque não é direito.
5Dê a quem lhe pede e não peças de volta pois o Pai quer que os seus bens sejam dados a todos. Bem-aventurado aquele que dá conforme o mandamento pois será considerado inocente. Ai daquele que recebe: se pede por estar necessitado, será considerado inocente; mas se recebeu sem necessidade, prestará contas do motivo e da finalidade. Será posto na prisão e será intgerrogado sobre o que fez... e daí não sairá até que devolva o último centavo.
6Sobre isso também foi dito: que a sua esmola fique suando nas suas mãos até que você saiba para quem a está dando.

CAPÍTULO II
1O segundo mandamento da instrução é:
2Não mate, não cometa adultério, não corrompa os jovens, não fornique, não roube, não pratique a magia nem a feitiçaria. Não mate a criança no seio de sua mãe e nem depois que ela tenha nascido.
3Não cobice os bens alheios, não cometa falso juramento, nem preste falso testemunho, não seja maldoso, nem vingativo.
4Não tenha duplo pensamento ou linguajar pois o duplo sentido é armadilha fatal.
5A sua palavra não deve ser em vão, mas comprovada na prática.
6Não seja avarento, nem ladrão, nem fingido, nem malicioso, nem soberbo. Não planeje o mal contra o seu próximo.
7Não odeie a ninguém, mas corrija alguns, reze por outros e ame ainda aos outros, mais até do que a si mesmo.

CAPÍTULO III
1Filho, procure evitar tudo aquilo que é mau e tudo que se parece com o mal.
2Não seja colérico porque a ira conduz à morte. Não seja ciumento também, nem briguento ou violento, pois o homicídio nasce de todas essas coisas.
3Filho, não cobice as mulheres pois a cobiça leva à fornicação. Evite falar palavras obscenas e olhar maliciosamente já que os adultérios surgem dessas coisas.
4Filho, não se aproxime da adivinhação porque ela leva à idolatria. Não pratique encantamentos, astrologia ou purificações, nem queira ver ou ouvir sobre isso, pois disso tudo nasce a idolatria.
5Filho, não seja mentiroso pois a mentira leva ao roubo. Não persiga o dinheiro nem cobice a fama porque os roubos nascem dessas coisas.
6Filho, não fale demais pois falar muito leva à blasfêmia. Não seja insolente, nem tenha mente perversa porque as blasfêmias nascem dessas coisas.
7Seja manso pois os mansos herdarão a terra.
8Seja paciente, misericordioso, sem maldade, tranquilo e bondoso. Respeite sempre as palavras que você escutou.
9Não louve a si mesmo, nem se entrege à insolência. Não se junte com os poderosos, mas aproxima dos justos e pobres.
10Aceite tudo o que acontece contigo como coisa boa e saiba que nada acontece sem a permissão de Deus.

CAPÍTULO IV
1Filho, lembre-se dia e noite daquele que prega a Palavra de Deus para você. Honre-o como se fosse o próprio Senhor, pois Ele está presente onde a soberania do Senhor é anunciada.
2Procure estar todos os dias na companhia dos fiéis para encontrar forças em suas palavras.
3Não provoque divisão. Ao contrário, reconcilia aqueles que brigam entre si. Julgue de forma justa e corrija as culpas sem distinguir as pessoas.
4Não hesite sobre o que vai acontecer.
5Não te pareças com aqueles que dão a mão quando precisam e a retiram quando devem dar.
6Se o trabalho de suas mãos te rendem algo, as ofereça como reparação pelos seus pecados.
7Não hesite em dar, nem dê reclamando porque, na verdade, você sabe quem realmente pagou sua recompensa.
8Não rejeite o necessitado. Compartilhe tudo com seu irmão e não diga que as coisas são apenas suas. Se vocês estão unidos nas coisas imortais, tanto mais estarão nas coisas perecíveis.
9Não se descuide de seu filho ou filha. Muito pelo contrário, desde a infância instrua-os a temer a Deus.
10Não dê ordens com rudeza ao seu escravo ou escrava pois eles também esperam no mesmo Deus que você; assim, não perderão o temor de Deus, que está acima de todos. Certamente Ele não virá chamar a pessoa pela aparência, mas somente aqueles que foram preparados pelo Espírito.
11Quanto a vocês, escravos, obedeçam aos seus senhores, com todo o respeito e reverência, como à própria imagem de Deus.
12Deteste toda a hipocrisia e tudo aquilo que não agrada o Senhor.
13Não viole os mandamentos dos Senhor. Guarde tudo aquilo que você recebeu: não acrescente ou retire nada.
14Confesse seus pecados na reunião dos fiéis e não comece a orar estando com má consciência. Este é o caminho da vida.

CAPÍTULO V
1Este é o caminho da morte: primeiro, é mau e cheio de maldições - homicídios, adultérios, paixões, fornicações, roubos, idolatria, magias, feitiçarias, rapinas, falsos testemunhos, hipocrisias, coração com duplo sentido, fraudes, orgulho, maldades, arrogância, avareza, palavras obscenas, ciúmes, insolência, altivez, ostentação e falta de temor de Deus.
2Nesse caminho trilham os perseguidores dos justos, os inimigos da verdade, os amantes da mentira, os ignorantes da justiça, os que não desejam o bem nem o justo julgamento, os que não praticam o bem mas o mal. A calma e a paciência estão longe deles. Estes amam as coisas vãs, são ávidos por recompensas, não se compadecem com os pobres, não se importam com os perseguidos, não reconhecem o Criador. São também assassinos de crianças, corruptores da imagem de Deus, desprezam os necessitados, oprimem os aflitos, defendem os ricos, julgam injustamente os pobres e, finalmente, são pecadoresconsumados. Filho, afaste-se disso tudo.

CAPÍTULO VI
1Fique atento para que ninguém o afaste do caminho da instrução, pois quem faz isso ensina coisas que não pertencem a Deus.
2Você será perfeito se conseguir carregar todo o jugo do Senhor. Se isso não for possível, faça o que puder.
3A respeito da comida, observe o que puder. Não coma nada do que é sacrificado aos ídolos pois esse culto é destinado a deuses mortos.

Parte II - A Celebração Litúrgica

CAPÍTULO VII
1Quanto ao batismo, faça assim: depois de ditas todas essas coisas, batize em água corrente, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
2Se você não tiver água corrente, batize em outra água. Se não puder batizar com água fria, faça com água quente.
3Na falta de uma ou outra, derrame água três vezes sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
4Antes de batizar, tanto aquele que batiza como o batizando, bem como aqueles que puderem, devem observar o jejum. Você deve ordenar ao batizando um jejum de um ou dois dias.

CAPÍTULO VIII
1Os seus jejuns não devem coincidir com os dos hipócritas. Eles jejuam no segundo e no quinto dia da semana. Porém, você deve jejuar no quarto dia e no dia da preparação.
2Não reze como os hipócritas, mas como o Senhor ordenou em seu Evangelho. Reze assim: "Pai nosso que estás no céu, santificado seja o teu nome, venha o teu Reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; o pão-nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai nossa dívida, assim como também perdoamos os nossos devedores e não nos deixes cair em tentação, mas livrai-nos do mal porque teu é o poder e a glória para sempre".
3Rezem assim três vezes ao dia.

CAPÍTULO IX
1Celebre a Eucaristia assim:
2Diga primeiro sobre o cálice: "Nós te agradecemos, Pai nosso, por causa da santa vinha do teu servo Davi, que nos revelaste através do teu servo Jesus. A ti, glória para sempre".
3Depois diga sobre o pão partido: "Nós te agradecemos, Pai nosso, por causa da vida e do conhecimento que nos revelaste através do teu servo Jesus. A ti, glória para sempre.
4Da mesma forma como este pão partido havia sido semeado sobre as colinas e depois foi recolhido para se tornar um, assim também seja reunida a tua Igreja desde os confins da terra no teu Reino, porque teu é o poder e a glória, por Jesus Cristo, para sempre".
5Que ninguém coma nem beba da Eucaristia sem antes ter sido batizado em nome do Senhor pois sobre isso o Senhor disse: "Não dêem as coisas santas aos cães".

CAPÍTULO X
1Após ser saciado, agradeça assim:
2"Nós te agradecemos, Pai santo, por teu santo nome que fizeste habitar em nossos corações e pelo conhecimento, pela fé e imortalidade que nos revelaste através do teu servo Jesus. A ti, glória para sempre.
3Tu, Senhor onipotente, criaste todas as coisas por causa do teu nome e deste aos homens o prazer do alimento e da bebida, para que te agradeçam. A nós, porém, deste uma comida e uma bebida espirituais e uma vida eterna através do teu servo.
4Antes de tudo, te agradecemos porque és poderoso. A ti, glória para sempre.
5Lembra-te, Senhor, da tua Igrreja, livrando-a de todo o mal e aperfeiçoando-a no teu amor. Reúne dos quatro ventos esta Igreja santificada para o teu Reino que lhe preparaste, porque teu é o poder e a glória para sempre.
6Que a tua graça venha e este mundo passe. Hosana ao Deus de Davi. Venha quem é fiel, converta-se quem é infiel. Maranatha. Amém."
7Deixe os profetas agradecerem à vontade.

Parte III - A Vida em Comunidade
CAPÍTULO XI
1Se vier alguém até você e ensinar tudo o que foi dito anteriormente, deve ser acolhido.
2Mas se aquele que ensina é perverso e ensinar outra doutrina para te destruir, não lhe dê atenção. No entanto, se ele ensina para estabelecer a justiça e conhecimento do Senhor, você deve acolhê-lo como se fosse o Senhor.
3Já quanto aos apóstolos e profetas, faça conforme o princípio do Evangelho.
4Todo apóstolo que vem até você deve ser recebido como o próprio Senhor.
5Ele não deve ficar mais que um dia ou, se necessário, mais outro. Se ficar três dias é um falso profeta.
6Ao partir, o apóstolo não deve levar nada a não ser o pão necessário para chegar ao lugar onde deve parar. Se pedir dinheiro é um falso profeta.
7Não ponha à prova nem julgue um profeta que fala tudo sob inspiração, pois todo pecado será perdoado, mas esse não será perdoado.
8Nem todo aquele que fala inspirado é profeta, a não ser que viva como o Senhor. É desse modo que você reconhece o falso e o verdadeiro profeta.
9Todo profeta que, sob inspiração, manda preparar a mesa não deve comer dela. Caso contrário, é um falso profeta.
10Todo profeta que ensina a verdade mas não pratica o que ensina é um falso profeta.
11Todo profeta comprovado e verdadeiro, que age pelo mistério terreno da Igreja, mas que não ensina a fazer como ele faz não deverá ser julgado por você; ele será julgado por Deus. Assim fizeram também os antigos profetas.
12Se alguém disser sob inspiração: "Dê-me dinheiro" ou qualquer outra coisa, não o escutem. Porém, se ele pedir para dar a outros necessitados, então ninguém o julgue.

CAPÍTULO XII
1Acolha toda aquele que vier em nome do Senhor. Depois, examine para conhecê-lo, pois você tem discernimento para distinguir a esquerda da direita.
2Se o hóspede estiver de passagem, dê-lhe ajuda no que puder. Entretanto, ele não deve permanecer com você mais que dois ou três dias, se necessário.
3Se quiser se estabelecer e tiver uma profissão, então que trabalhe para se sustentar.
4Porém, se ele não tiver profissão, proceda de acordo com a prudência, para que um cristão não viva ociosamente em seu meio.
5Se ele não aceitar isso, trata-se de um comerciante de Cristo. Tenha cuidado com essa gente!

CAPÍTULO XIII
1Todo verdadeiro profeta que queira estabelecer-se em seu meio é digno do alimento.
2Assim também o verdadeiro mestre é digno do seu alimento, como qualquer operário.
3Assim, tome os primeiros frutos de todos os produtos da vinha e da eira, dos bois e das ovelhas, e os dê aos profetas, pois são eles os seus sumos-sacerdotes.
4Porém, se você não tiver profetas, dê aos pobres.
5Se você fizer pão, tome os primeiros e os dê conforme o preceito.
6Da mesma maneira, ao abrir um recipiente de vinho ou óleo, tome a primeira parte e a dê aos profetas.
7Tome uma parte de seu dinheiro, da sua roupa e de todas as suas posses, conforme lhe parecer oportuno, e os dê de acordo com o preceito.

CAPÍTULO XIV
1Reúna-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer após ter confessado seus pecados, para que o sacrifício seja puro.
2Aquele que está brigado com seu companheiro não pode juntar-se antes de se reconciliar, para que o sacrifício oferecido não seja profanado.
3Esse é o sacrifício do qual o Senhor disse: "Em todo lugar e em todo tempo, seja oferecido um sacrifício puro porque sou um grande rei - diz o Senhor - e o meu nome é admirável entre as nações".

CAPÍTULO XV
1Escolha bispos e diáconos dignos do Senhor. Eles devem ser homens mansos, desprendidos do dinheiro, verazes e provados pois também exercem para vocês o ministério dos profetas e dos mestres.
2Não os despreze porque eles têm a mesma dignidade que os profetas e os mestres.
3Corrija uns aos outros, não com ódio, mas com paz, como você tem no Evangelho. E ninguém fale com uma pessoa que tenha ofendido o próximo; que essa pessoa não escute uma só palavra sua até que tenha se arrependido.
4Faça suas orações, esmolas e ações da forma que você tem no Evangelho de nosso Senhor.

Parte IV - O Fim dos Tempos
CAPÍTULO XVI
1Vigie sobre a vida uns dos outros. Não deixe que sua lâmpada se apague, nem afrouxe o cinto dos rins. Fique preparado porque você não sabe a que horas nosso Senhor chegará.
2Reúna-se com frequência para que, juntos, procurem o que convém a vocês; porque de nada lhe servirá todo o tempo que viveu a fé se no último instante não estiver perfeito.
3De fato, nos últimos dias se multiplicarão os falsos profetas e os corruptores, as ovelhas se transformarão em lobos e o amor se converterá em ódio.
4Aumentando a injustiça, os homens se odiarão, se perseguirão e se trairão mutuamente. Então o sedutor do mundo aparecerá, como se fosse o Filho de Deus, e fará sinais e prodígios. A terra será entregue em suas mãos e cometerá crimes como jamais foram cometidos desde o começo do mundo.
5Então toda criatura humana passará pela prova de fogo e muitos, escandalizados, perecerão. No entanto, aqueles que permanecerem firmes na fé serão salvos por aquele que os outros amaldiçoam.
6Então aparecerão os sinais da verdade: primeiro, o sinal da abertura no céu; depois, o sinal do toque da trombeta; e, em terceiro, a ressurreição dos mortos.
7Sim, a ressurreição, mas não de todos, conforme foi dito: "O Senhor virá e todos os santos estarão com ele".
8Então o mundo assistirá o Senhor chegando sobre as nuvens do céu. 


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