Teologia Calvinista
Pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus Ef2.8
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February 7, 2012


Novo site Teologia Calvinista. Acesse

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O site Teologia Calvinista estava hospedado no Teu Ministério. Teu Ministério é uma parceira da SBB com For Ministry. Parece que eles abandonaram esse projeto, com isso este site Teologia Calvinista não esta funcionando muito bem, está lento e com alguns probleminhas, mas ainda todos os estudos podem serem lindos. Mas em função disso criamos um novo site e reorganizamos seu conteúdo em forma de estudos seqüencial. O novo site é mais leve e agora é possível baixar todos os estudos em pdf. Acesse http://sites.google.com/site/estudosbiblicossolascriptura/


*A Salvação

A Salvação
Ez 36.26,27; Sf 1; Jo 3.16,17; Rm 1.16-17; 1 Co 1.26-31; 1 Ts 1.6-10

Certa vez me defrontei com um jovem, na Filadélfia, que me perguntou: "Você está salvo?" Minha resposta foi: "Salvo do quê?" Mina pergunta pegou-o de  surpresa. Obviamente não tinha pensado muito profundamente sobre o significado da pergunta que estava fazendo às pessoas. Certamente eu não estava salvo das pessoas que me paravam na rua e me importunavam com a pergunta: "Você está salvo?"

A questão sobre estar salvo é  a suprema questão da Bíblia. O tema principal das Sagradas Escrituras é a salvação. Jesus, quando foi concebido no ventre de Maria, foi anunciado como o Salvador. Salvador e salvação caminham junto. O papel do Salvador é salvar.

Perguntamos novamente, salvos de quê? O significado bíblico de salvação é amplo e variado. Em sua forma mais simples, o verbo salvar significa "ser resgatado de uma situação perigosa ou ameaçadora". Quando Israel escapava das derrotas nas mãos de seus inimigos em batalhas, dizia-se que fora salvo. Quando as pessoas se recuperam de uma enfermidade grave, experimentam salvação. Quando a colheita é poupada das pragas e das secas, o resultados se chama salvação.

Usamos a palavra salvação de maneira semelhante. Dizendo que um boxeador foi "salvo pelo gongo" se o assalto termina antes que o juiz possa fazer a contagem que determina o nocaute. Salvação significa ser resgatado de alguma calamidade. Entretanto, a Bíblia também usa o termo salvação num sentido específico para referir-se à nossa redenção suprema do pecado e à nossa reconciliação com Deus. Neste sentido, somos salvos da pior de todas as calamidades - o juízo de Deus. A salvação suprema é concretizada por Cristo, o qual "nos livra da ira vindoura" (1 Ts 1.10).

A Bíblia anuncia claramente que haverá um dia de julgamento quando todos os seres humanos prestarão contas diante do tribunal de Deus. Para muitos, este "dia do Senhor" será um dia de trevas, sem luz alguma. Será o dia quando Deus derramará sua irá sobre o ímpio e impenitente. Será o holocausto supremo, a hora mais triste, a pior calamidade da história da humanidade. Salvação suprema significa ser poupado da ira divina que certamente virá sobre o mundo. Esta é a operação que Cristo realiza por seu povo como seu Salvador.

A Bíblia usa o termo salvação não só em muitos sentidos, mas também em muitos tempos verbais. O verbo salvar aparece em praticamente todos os tempos verbais possíveis da língua grega. Existe um sentido no qual nós fomos salvos (desde a fundação do mundo); estávamos sendo salvo (pela obra de Deus na História); somos salvos (por estarmos num estado justificado); estamos sendo salvos (sendo santificados ou sendo feitos santos); e seremos salvos (experiência da consumação da nossa redenção no céu). A Bíblia fala da salvação em termos de passado, presente e futuro.

Às vezes relacionamos a salvação presente em termos de justificação, a qual é presente. Ouras vezes vemos a justificação como um passo específico na ordem total ou plano da salvação.

Finalmente, é importante notar outro aspecto central no conceito bíblico de salvação. A salvação procede do Senhor. Salvação não é um empreendimento humano. Os seres humanos não podem salvar a si próprios.A salvação é uma obra divina; é concretizada e aplicada por Deus. A salvação pertence ao Senhor e provém do Senhor. É o Senhor quem nos salva da ira do Senhor.

Sumário
1.  O sentido geral de salvação é "ser regatado de uma situação ameaçadora".

2. A salvação suprema significa ser poupado da calamidade suprema da ira de Deus.

3. A Bíblia fala da salvação em vários tempos verbais, referindo-se à obra de redenção feita por Deus, no presente, no passado e no futuro.

4. A justificação ás vezes é usada como sinônimo de salvação; em outras ocasiões é vista como aspecto no esquema geral da salvação.

5. A salvação pertence ao Senhor e provém do Senhor.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 2º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã.


O LIVRE-ARBÍTRIO

O Livre-Arbítrio
Dt 30.19,20; Jp 6.44,65; Jo 8.34-36; Jo 15.5; Rm 8.5-8; Tg 1.13-15

Neste exato momento você está lendo estas palavras porque você decidiu, por sua própria vontade, lê-las. Você pode protestar e dizer: "Não! Eu na decidi ler estas palavras. Fui incumbido de ler este livro. Realmente não quero lê-lo". Tal vez esse seja o caso. No entanto, você o está lendo. Pode ser que haja outras coisas que você preferia estar fazendo neste momento, mas de qualquer forma você decidiu lê-lo. Você decidiu lê-lo e, vez de decidir não lê-lo.

Não sei por que você esta lendo isto. Mas sei que você deve ter uma  razão para lê-lo. Se você não tivesse razão para lê-lo, simplesmente não teria decidido lê-lo.

Toda escolha que fazemos na vida, fazemos por alguma razão. Nossas decisões baseadas sobre o que parece bom para nós no momento, considerando-se todas as implicações. Fazemos algumas coisas movidos por intenso desejo. Fazemos outras sem termos consciência de nenhum desejo. Mesmo assim, o desejo está lá, ou então não escolheríamos fazer tais coisas. Essa é a própria essência do livre-arbítrio - escolher de acordo com nosso desejos.

Jonathan Edwards, em seu livro The Freedom of the Will [A Liberdade de Vontade], define a vontade como "o instrumento pelo qual a mente escolhe". Não há dúvida de que os seres humanos de fato fazem escolhas. Eu estou escolhendo escrever e você está escolhendo ler. Eu quero escrever e a escrita é  acionada. Quando a idéia de liberdade é acrescentada, entretanto, o assunto torna-se terrivelmente complicado. Temos de perguntar: liberdade para fazer o quê? Até mesmo o calvinista mais ardoroso não pode negar que a vontade é livre para escolher qualquer coisa que ela deseja. Até mesmo arminiano mais convicto concordaria qual a vontade não é livre para escolher aquilo que não deseja.

Com respeito à salvação, a questão é: o que o ser humano deseja? Os arminianos crêem que alguns desejam arrepender-se e ser salvos. Outros desejam fugir de Deus, e assim colher a condenação eterna. Por que pessoas diferentes têm desejos diferentes nunca foi esclarecido pelos arminianos. Os calvinistas sustentam qual todo ser humano deseja fugir da presença de Deus a menos e até o Espírito Santo opere a obra de regeneração, a qual muda nossos desejos, para que livremente nos arrependamos e sejamos salvos.

É importante notar que mesmo as pessoas não regeneradas nunca são forçadas contra sua vontade. Sua vontade é transformada sem sua permissão, mas são sempre livres para escolher conforme queiram. Assim, de fato somos livres para fazer segundo queremos. Não somos livres, contudo, para escolher ou selecionar nossa natureza. Ninguém pode declarar simplesmente: "De agora em diante vou desejar só o bem"; da mesma maneira que Cristo não poderia ter declarado: "De agora em diante vou desejar só o mal". É aquele que termina nossa liberdade.

A Queda deixou a vontade humana intacta no sentido em que ainda temos a faculdade de escolher. Nossa mente foi obscurecida pelo pecado e nossos desejos presos a impulsos ímpios. Mas ainda podemos pensar, escolher e agir. Mesmo assim, algo terrível nos aconteceu. Perdemos todo anseio por Deus. Os pensamentos e desejos de nossos corações são continuamente maus. A liberdade de nossa vontade tornou-se uma maldição. Visto que ainda podemos escolher segundo nossos desejos, escolhermos pecar e assim nos tornamos passíveis do juízo de Deus.

Agostinho disse que ainda temos livre-arbítrio, mas perdemos nossa liberdade. A liberdade real sobre a qual a Bíblia fala é a liberdade ou o poder de escolher Cristo como nosso. Entretanto, até que nosso coração seja mudado pelo Espírito Santo, não sentimos nenhum desejo por Cristo. Sem esse desejo, nunca o escolheremos. Deus tem de despertar nossa alma e nos dar uma aspiração por Cristo antes que sejamos inclinados a escolhê-lo.

Edwards disse que, como seres humanos caídos, retemos nossa liberdade natural (o poder de agir de acordo com nossos desejos), mas perdemos nossa liberdade moral. A liberdade moral inclui disposição, inclinação e desejo da alma em relação à justiça. Foi esta inclinação que se perdeu na Queda.

Toda escolha que faço é determinada por algo. Há uma razão para ela, um desejo por trás dela. Isso soa como determinismo? De maneira nenhuma! O determinismo ensina que nossa ações são completamente controlados por fatores que nos são externos, que nos obrigam a fazer o que não queremos. Isso é coerção e se opões à liberdade.

Como nossas escolhas podem ser determinadas, mas não coagidas? Porque são determinadas por algo interior - pelo que nós somos e pelo que  desejamos. São determinadas por nós mesmos. Isso é autodeterminação, que é a própria essência da liberdade.

Para escolhermos a Cristo, Deus tem de mudar nosso coração, e é precisamente isto que ele faz. Ele muda nosso coração por nós. Dá-nos aspiração por ele, que de outra maneira não teríamos. Então o escolhermos a partir do desejo que está dentro de nós. Nós o escolhemos livremente porque queremos escolhê-lo. Esta é a maravilha de sua graça.

Sumário

1. Toda escolha que fazemos e motivada.

2. Nós sempre escolhemos segundo nossa inclinação mais forte no momento em que fazemos a escolha.

3. A vontade é a faculdade de escolher.

4. Seres humanos caídos possuem livre-arbítrio, mas carecem de liberdade. Temos liberdade natural, mas não liberdade moral.

5. A liberdade é autodeterminação.

6. Na regeneração, Deus muda a disposição de nosso coração e implanta em nós o desejo por ele.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 2º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã.


Livre-arbítrio: Afinal, temos ou não temos?

Nota:CFW = Confissão de Fé de Westminster
    
Neste estudo, iremos procurar entender a questão que envolve o termo “Livre-arbítrio”.
Trata-se de um tema que trouxe grande discussão durante alguns períodos da História. O entendimento diferente acerca deste tema, ou seja a defesa da existência de um “livre-arbítrio” ou a sua negação, tem divido pessoas até hoje.
Mas, afinal temos ou não temos livre-arbítrio? É isto mesmo que iremos verificar, não só analisando as posições teológicas acerca do assunto, mas, buscando luz da Bíblia para clarear nosso entendimento. Antes de mais nada precisamos definir o que seja esse tal “Livre-arbítrio”:

1. Livre-arbítrio
“Livre-arbítrio”, tem sido definido, como a capacidade dada ao homem, por ocasião de sua criação, para escolher entre o bem e o mal, entre agradar a Deus ou desobedecê-Lo. Seria o “livre poder de eleger o bem ou o mal”.
Héber Carlos de Campos também a define como tendo sido a capacidade que o homem teve, “de escolher as coisas que combinavam com a sua natureza santa, mas que, mutavelmente, pudesse escolher aquilo que era contrário à sua natureza santa”.
Vejam que tais definições, estão de acordo com o que prescreve a nossa Confissão de Fé:
O homem em seu estado de inocência , tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que pudesse decair dessa liberdade e poder.

É importante dizermos que quanto a definição, não existe dificuldade. O problema todo que envolve o tema, é se o homem hoje, depois da queda , possui ou não esse tal de livre-arbítrio.
Antes mesmo de entrar propriamente na discussão, se o homem ainda dispõe dessa capacidade, precisamos dizer algo acerca de uma faculdade natural e inalterada no homem, mesmo depois da queda, chamada de “livre agência” ou “capacidade de escolha”.

2. Livre Agência ou Capacidade de Escolha
Existe no homem uma capacidade tal que lhe dá condições de fazer escolhas, de acordo com o que lhe é agradável. O homem sempre e em qualquer condição, faz as suas escolhas, de tal forma que ele é responsabilizado por elas. “Essa capacidade ou aptidão é um aspecto inalienável da natureza humana normal”. Ele é livre para escolher o que lhe agrada, de acordo com suas inclinações.
Sobre este aspecto da existência humana a CFW diz o seguinte:
Deus dotou a vontade do homem com tal liberdade natural, que ela nem é forçada para o bem nem para o mal, nem a isso determinada por qualquer necessidade absoluta de sua natureza. Ref. Tiago 1:14; Deut. 30:19; João 5:40; Mat. 17:12; At.7:51; Tiago 4:7.

Comentando acerca desta seção da CFW, A. A. Hodge diz o seguinte:
...que a alma humana, inclusive todos os seus instintos, idéias, juízos, emoções e tendências, tem o poder de decidir por si mesma; isto é, a alma decide em cada caso como geralmente lhe agrade.

O homem é livre para escolher, sendo que nada externamente pode forçar suas escolhas. Isto é essencial no homem, faz parte da sua criação a imagem e semelhança de Deus. “À parte dela, não pode haver qualquer responsabilidade, confiança ou planejamento. À parte dela, não pode haver educação, religião ou adoração. À parte dela, não pode haver qualquer arte, ciência ou cultura. A capacidade de escolher é uma condição sine qua non de toda a vida humana”.
A definição de Campos sobre este assunto é também esclarecedora:
Livre Agência, por outro lado, poderia ser definida como a capacidade que todos os seres racionais têm de agir espontaneamente, sem serem coagidos de fora, a caminharem para qualquer lado, fazendo o que querem e o que lhes agrada, sendo, contudo, levados a fazer aquilo que combina com a natureza deles.

Campos ainda falando sobre este aspecto, enfatizando a responsabilidade humana em suas escolhas diz:
É importante que o ser racional que ele aja sempre movido pelo seu ego. A responsabilidade dele sempre estará diretamente ligada à voluntariedade do seu ato. Todos os atos dele devem ser auto-inclinados e auto-determinados.

Portanto, para que haja responsabilidade, não é necessário que haja o poder de escolha contrária, mas sim, que haja o poder de auto-determinação, que a ação seja nascida nas inclinações do ser racional.

Pelo que ficou demonstrado, em qualquer época o homem é livre para agir conforme sua condição, sua natureza, ou seja, ele sempre faz o que quer conforme a sua inclinação.

3. A queda do homem: O que aconteceu ao livre-arbítrio?
Como dissemos acima, na criação o homem recebeu a capacidade de fazer escolhas e possuía também a liberdade de fazer escolhas certas, ou seja podia escolher agradar a Deus, de tal forma que pudesse cair desse estado em que foi criado. O homem foi criado totalmente santo, integro, contudo podia escolher algo que fosse contrário a essa sua natureza. E foi isso o que aconteceu, ou seja, escolheu pecar. “No princípio, portanto, o homem não era um ser neutro, nem bom nem mau, mas um ser bom que era capaz de, com a ajuda de Deus, viver uma vida totalmente agradável a Deus”. Como dizia Agostinho, o homem tinha a “capacidade de não pecar” (posse non peccare).
Neste sentido, até antes de sua queda podemos dizer, o homem possuía o livre-arbítrio, contudo com a desobediência, ele perdeu tal capacidade, sendo que não mais consegue fazer escolhas certas, não consegue agradar a Deus. Suas escolhas serão sempre determinadas pelo estado em que caiu. Suas escolhas serão de acordo com a sua natureza.
É neste ponto que surgem então discussões, pois, diferente da posição Reformada Calvinista, os Arminianos irão afirmar que o homem ainda possui o livre-arbítrio. Ele pode sem a intervenção de Deus, em seu estado natural, fazer escolhas espirituais acertadas.
Para os arminianos a queda do homem, embora tenha trazido algum prejuízo não afetou totalmente o homem, sendo que, continua em seu estado natural a ter habilidades para escolher a salvação, para escolher agradar a Deus. Desta forma, a depravação não foi total.
Vejam mais detalhadamente a posição dos arminianos quanto a depravação do homem:
Embora a natureza humana tenha sido seriamente afetada pela queda, o homem não ficou reduzido a um estado de incapacidade total. Deus, graciosamente, capacita todo e qualquer pecador a arrepender-se e crer, mas o faz sem interferir na liberdade do homem. Todo pecador possui uma vontade livre (livre arbítrio), e seu destino eterno depende do modo como ele usa esse livre arbítrio. A liberdade do homem consiste em sua habilidade de escolher entre o bem e o mal, em assuntos espirituais. Sua vontade não está escravizada pela sua natureza pecaminosa.. O pecador tem o poder de cooperar com o Espírito de Deus e ser regenerado ou resistir à graça de Deus e perecer. O pecador perdido precisa da assistência do Espírito, mas não precisa ser regenerado pelo Espírito antes de poder crer, pois a fé é um ato deliberado do homem e precede o novo nascimento. A fé é o dom do pecador a Deus, é a contribuição do homem para a salvação.

O ensino arminiano segue o raciocínio de Pelágio, com diferença apenas no fato de que este, dizia que a queda não afetou em nada a humanidade, de tal forma que “o homem continua nascendo na mesma condição em que Adão estava antes da queda. Esta isento não só de culpa, como também de polução.” Por isso, os arminianos são considerados semi-pelagianos, pois pensam que o homem depois da queda tenha capacidade para fazer escolhas certas.
Os reformados calvinistas, em contra partida, afirmam que a queda incapacitou totalmente o homem, afetando todas as suas faculdades. O homem após a queda perdeu tal liberdade, sendo agora escravo do pecado, morto espiritualmente.
Vejam mais detalhadamente o pensamento calvinista sobre a depravação total
Devido à queda, o homem é incapaz de, por si mesmo, crer de modo salvador no Evangelho. O pecador está morto, cego e surdo para as coisas de Deus. Seu coração é enganoso e desesperadamente corrupto. Sua vontade não é livre, pois está escravizada à sua natureza má; por isso ele não irá - e não poderá jamais - escolher o bem e não o mal em assuntos espirituais. Por conseguinte, é preciso mais do que simples assistência do Espírito para se trazer um pecador a Cristo. É preciso a regeneração, pela qual o Espírito vivifica o pecador e lhe dá uma nova natureza. A fé não é algo que o homem dá (contribui) para a salvação, mas é ela própria parte do dom divino da salvação. É o dom de Deus para o pecador e não o dom do pecador para Deus.

Os calvinistas neste sentido, seguem os ensinos de Agostinho, que por sua vez combateu os ensinamentos de Pelágio. Agostinho ensinou que quando os seres humanos “pecaram, embora não perdessem a sua capacidade de fazer escolhas, perderam a sua capacidade de servir a Deus sem o pecado – em outras palavras, a sua verdadeira liberdade. O homem tornou-se, então, um escarvo do pecado; ele passou ao estado de ‘não ser capaz de não pecar’ (non posse non peccare).”
A CFW afirma o seguinte acerca disso:
O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso. Ref. Rom. 5:6 e 8:7-8; João 15:5; Rom. 3:9-10, 12, 23; Ef.2:1, 5; Col. 2:13; João 6:44, 65; I Cor. 2:14; Tito 3:3-5.

Calvino também disse o seguinte acerca desta situação do homem:
As Escrituras atestam que o homem é escravo do pecado; o que significa que seu espírito é tão estranho à justiça de Deus que não concebe, deseja, nem empreende coisa alguma que não seja má, perversa, iníqua e impura; pois o coração, completamente cheio do veneno do pecado, não pode produzir senão os frutos do pecado.

O homem, após a queda não possui mais o livre-arbítrio, não pode mais escolher algo que é contrário a sua natureza pecaminosa. Ele está morto, cego, é escravo do pecado.
Esta doutrina defendida pelos calvinistas, pelos reformados, que por sua vez é negada pelos arminianos, não se trata apenas de uma posição teológica diferente, e sim de afirmação bíblica. Nega-la é o mesmo que renunciar a Palavra de Deus neste assunto.
São inúmeros os textos que afirmam tal verdade, falando que o homem está incapacitado totalmente de atender ao convite de salvação, de atender as exigências divinas. Isto acontece por seu próprio pecado, por sua própria inclinação e desejo. À parte da graça de Deus o homem, por sua própria iniciativa não pode salvar-se, ou escolher isto.
Vejamos textos que servem de base para a doutrina calvinista:

1. O homem está morto, incapaz de qualquer bem, precisando da intervenção divina: Jr 13.23; Ef. 2.1-10; Rm 3.9-18, 23; Cl 2.13; Tt 3.3-5.
2. O homem não consegue ir até Jesus, senão com a ajuda somente de Deus: Jo 6.44, 65; Rm 9.16.
3. O homem precisa nascer de novo, contudo, isto só aconteça através da atuação do Espírito Santo, que age soberanamente: Jo 3.1-15.
4. O homem não pode compreender as coisas espirituais, senão pelo Espírito: I Co 2.14-16.
5. A Bíblia declara que o homem está cego, é escarvo do pecado. Não pode fazer outra coisa senão pecar, a não ser que Deus mude seu estado: Ef. 4.18; Jo 8.31-36; Jo 9.35-41; Rm 6.15-23; 2 Tm 2.26.
6. O homem não pode apresentar um fruto diferente daquilo que ele é: Mt 7.16-18; Tg 1.16-18.

Percebam que, afirmar que o homem tem o livre-arbítrio, é o mesmo que ignorar tais textos da Bíblia.
É importante enfatizar que, o homem mesmo neste estado, continua ser um agente livre, ou seja, ele exerce “a livre agência”. Isto quer dizer que continua a fazer as suas escolhas, contudo, não escolhe nada que seja contrário a sua natureza pecaminosa (Jo 5.40; Tg 1.14; Mt 17.12; At 7.51; Ef 2.3). O homem nunca é forçado a fazer algo que não deseja. Faz sempre aquilo que lhe traz prazer.
Sobre isto, diz Calvino:
Não pensemos, entretanto, que o homem peca como que impelido por uma necessidade incontrolável; pois peca com o consentimento de sua própria vontade continuamente e segundo sua inclinação. Mas, visto que, por causa da corrupção de seu coração, odeia profundamente a justiça de Deus; e, por outro lado, atrai para si toda sorte de maldade, por isso afirmamos que não tem o livre poder de eleger o bem ou o mal – que é o que chamamos livre-arbítrio.

Campos diz também o mesmo:
Originalmente, antes da queda, o homem teve tanto o livre arbítrio como a livre agência. Depois da queda o homem ficou somente com a livre agência, pois perdeu tanto o desejo quanto a capacidade de fazer o bem, isto é, o poder de agir contrariamente à sua natureza.

Assim, é o homem quem escolhe continuar no pecado, contudo, não tem capacidade, por causa do seu próprio pecado e maldade, para escolher coisa diferente a não ser que suas inclinações e vontade sejam transformadas por Deus, recebendo habilidade para escolher o que é bom e reto. Por isso o homem é sempre responsabilizado por seus atos, pois, sempre escolhe o que lhe agrada.

4. Na Redenção do Homem: O que acontece ao livre-arbítrio?
Quando Deus em sua livre graça, resolvendo salvar o homem, age em seu coração, pela ação do Espirito lhe implanta vida, o que acontece é que o homem recebe habilidade para escolher o que é reto e bom. A Bíblia descreve este ato, como o da libertação de um escravo, dando-lhe liberdade para escolher o que é agradável a Deus, contudo, muito embora liberto, pode ainda inclinar-se para o pecado. O homem passa a desejar o que é bom. Isto não significa que não deseje o pecado, pois, ainda permanece nele a imperfeição.
Sobre isto diz a CFW:
Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta da sua natural escravidão ao pecado e, somente pela sua graça, o habilita a querer e fazer com toda a liberdade o que é espiritualmente bom, mas isso de tal modo que, por causa da corrupção, ainda nele existente, o pecador não faz o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas também o que é mau. Ref. Col.1: 13; João 8:34, 36; Fil. 2:13; Rom. 6:18, 22; Gal.5:17; Rom. 7:15, 21-23; I João 1:8, 10.

Estaria o homem regenerado na mesma condição de Adão antes da queda, ou seja, teria ele agora novamente o livre-arbítrio? Não, pois, não voltamos a ser como era Adão. Ele era perfeitamente reto, santo, e podia escolher algo que fosse contrário ao que era a sua natureza. O homem regenerado, recebe liberdade para escolher o que é bom, contudo, não tem o livre arbítrio, pois não escolhe algo contrário ao que ele é. Ou seja, quando escolhe o que é bom, faz isso de acordo com a sua nova natureza criada em Cristo e quando escolhe pecar, faz isso, conforme a sua natureza carnal. Esta é a luta que reside dentro do homem restaurado. Ele não pode dar lugar ao velho homem (Ef 4.17-24; Cl 3.1-11).
É importante ressaltar que, sendo regenerado o homem recebe habilidade, que antes não tinha, para escolher a Deus. Conforme Agostinho, o homem recebe a capacidade de não pecar (posse non peccare). Por isso, e somente assim, pode atender ao convite do Evangelho para a sua salvação. O homem na regeneração, continua a exercer a sua “livre agência”.
Vejam como a CFW, fala da condição que o homem para fazer escolhas espirituais, como um ser ativo:
Todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e só esses, é ele servido, no tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente pela sua palavra e pelo seu Espírito, tirando-os por Jesus Cristo daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, e transpondo-os para a graça e salvação. Isto ele o faz, iluminando os seus entendimentos espiritualmente a fim de compreenderem as coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes os seus corações de pedra e dando lhes corações de carne, renovando as suas vontades e determinando-as pela sua onipotência para aquilo que é bom e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça. Ref. João 15:16; At. 13:48; Rom. 8:28-30 e 11:7; Ef. 1:5,10; I Tess. 5:9; 11 Tess. 2:13-14; IICor.3:3,6; Tiago 1:18; I Cor. 2:12; Rom. 5:2; II Tim. 1:9-10; At. 26:18; I Cor. 2:10, 12: Ef. 1:17-18; II Cor. 4:6; Ezeq. 36:26, e 11:19; Deut. 30:6; João 3:5; Gal. 6:15; Tito 3:5; I Ped. 1:23; João 6:44-45; Sal. 90;3; João 9:3; João6:37; Mat. 11:28; Apoc. 22:17.

Esta vocação eficaz é só da livre e especial graça de Deus e não provem de qualquer coisa prevista no homem; na vocação o homem é inteiramente passivo, até que, vivificado e renovado pelo Espírito Santo, fica habilitado a corresponder a ela e a receber a graça nela oferecida e comunicada.
Ref. II Tim. 1:9; Tito 3:4-5; Rom. 9:11; I Cor. 2:14; Rom. 8:7-9; Ef. 2:5; João 6:37; Ezeq. 36:27; João5:25.

É o homem que diz sim a Deus, que diz sim ao chamado do Evangelho, depois de Ter sido habilitado, libertado do pecado. O abrir do olhos, a nova criação, o nascer de novo, é obra da livre graça de Deus e se não for assim, ninguém poderá crer em Cristo. Se não recebermos a fé que vem do Senhor, nunca poderemos crer. Maravilhosa graça!

5. Na glorificação do Homem: Terá o livre-arbítrio?
Quando formos glorificados, por ocasião da vinda de Cristo e completação de nossa salvação, teremos de volta o livre-arbítrio? Não, na glorificação, não voltaremos a ser como Adão, estaremos à frente dele, pois, ele quando criado não gozava de uma perfeição permanente, ou seja, podia cair de tal estado. Ele podia escolher algo contrário a sua natureza, contudo, se tivesse sido obediente poderia Ter alcançado a perfeição permanente. Os crente glorificados alcançarão o que Adão não pode alcançar. Teremos perfeita liberdade para servir a Deus. Continuaremos a ser agentes livres, pois, escolheremos o que estará de acordo com a nossa natureza perfeita. Nunca escolheremos pecar, pois, não haverá tal possibilidade, então, nunca mais teremos o livre-arbítrio.
Desta forma, como disse Agostinho, alcançaremos o estado “não posso pecar” (non posse peccare).
Diz a CFW:
É no estado de glória que a vontade do homem se torna perfeita e imutavelmente livre para o bem só. Ref. Ef. 4:13; Judas, 24; I João 3:2.

Comentando a CFW, Hodge diz:
Quanto ao estado dos homens glorificados no céu, nossa Confissão ensina que continuam, como antes, agentes livres; contudo, os restos de suas velhas tendências morais corruptas, sendo extirpadas para sempre, e as graciosas disposições implantadas na regeneração, sendo aperfeiçoadas, e o homem todo, sendo conduzido à medida da estatura do varão perfeito, à semelhança da humanidade glorifica de Cristo, permanecem para sempre perfeitamente livres e imutavelmente dispostos à perfeita santidade. Adão era santo e instável. Os homens não regenerados são impuros e estáveis; isto é, são permanentes na impureza. Os homens regenerados possuem duas tendências morais opostas, digladiando-se pelo domínio em seus corações. São lançadas entre elas, contudo a tendência graciosamente implantada gradualmente por fim prevalece perfeitamente. Os homens glorificados são santos e estáveis. São todos livres e, portanto, responsáveis.

Portanto na glorificação, seremos para sempre livres, sem também o livre-arbítrio para sempre.

Conclusão:
Os reformados, os calvinistas crêem no livre-arbítrio, como tendo sido uma habilidade concedida a Adão e perdida na queda. Desde então o homem ficou desprovido de qualquer habilidade para fazer escolhas santas, agradáveis a Deus. Não lhe resta outro desejo senão o de pecar, conforme as inclinações de seu próprio coração, sendo assim, um agente livre e responsável.
Cremos que, nunca mais tal habilidade fará parte da existência humana. O fato de Deus nos libertar do pecado nos habilitando a fazer escolhas acertadas, não é o mesmo que dizer que temos o livre-arbítrio. As escolhas sempre estarão de acordo com a nossa natureza, ou naturezas.
Nem antes, nem depois, voltaremos a ser como era Adão. Na glorificação estaremos à frente dele, num estado em que o pecado não será possível.
Dizermos que existe um tal de livre-arbítrio, seria o mesmo que dizer que Deus não é soberano sobre a salvação do pecador, que Ele está sujeito ao querer do homem.
Se não fosse Deus, sua graça o que seria de nós, nunca escolheríamos a Ele.
Que o estudo acerca desse tema, possa-nos motivar a glorificar a Deus por causa da sua graça que, agindo em nós mudou nos inclinações e vontade, fazendo-nos querer, desejar, o que não queríamos nem desejávamos.

Sola Gratia!
Soli Deo Gloria

Autor: Rev. Waldemar Alves da Silva Filho
Fonte: Portal IPB - http://www.ipb.org.br


FÉ

A Fé
Rm 1.16-32; Rm 5.1-11; Rm 10.14-17; Gl 3.1-14; Ef 2.8,9; Tg 2.14-26

O cristianismo freqüentemente é chamado de religião. Mais apropriadamente, é chamado de "fé". Costumamos, falar de fé cristão. O cristianismo é chamado de fé porque há um  conjunto de conhecimento que é afirmado ou no qual seus aderentes devem crer. Também é chamado de fé porque a virtude da fé é central para sua compreensão da redenção.

O que fé significa? Em nossa cultura, às vezes fé é confundida com uma crença cega em alguma coisa irracional. Chamar a fé cristã de "fé cega", entretanto, não só denigre os cristãos, mas também ultraja a Deus. Quando a Bíblia fala sobre cegueira, ela usa esta imagem para descrever pessoas que, por seus pecados, andam nas trevas. O cristianismo chama as pessoas das trevas, e não para trevas. A fé é o antídoto para a cegueira e não a causa dela.

Em sua raiz, o termo fé significa "confiança". Confiar em Deus não é um ato de crença irracional. Deus se revela para ser eminentemente confiável. Ele nos dá amplas razões para confiarmos nele, provando que somente ele é fiel e  digno de nossa confiança.

Existe uma enorme diferença entre a fé e credulidade.Ser crédulo é acreditar em algo sem uma sólida razão. Este é o material do qual as superstições são feitas e prosperam. A fé estabelecida sobre o raciocínio coerente e consistente  e sobre sólidas evidências empíricas. Pedro escreve: "Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade." (2 Pe 1.16).

O cristianismo não se apóia em mitos e fábulas, mas no testemunho daqueles que viram e ouviram com seus próprios olhos e ouvidos. A verdade do evangelho se baseia em eventos históricos. Se o relatos desse eventos não é confiável, então nossa fé seria em vão. Deus, porém, não nos pede para  crermos em alguma coisa que seja baseada em mitos.

O livro de Hebreus nos dá uma definição de fé: "Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem." (Hb 11.1) A fé compreende a essência de nossa esperança para o futuro. Em termos simples, significa que confiamos em Deus quanto ao futuro baseados em nossa fé no que ele fez  no passado. Crer que Deus continuará a ser digno de confianção não é uma fé gratuita. Há muitas razões para se crer que Deus está tão fiel ás suas promessas no futuro quanto foi no passado. Há uma razão concreta, para a esperança que está dentro de nós.

A fé, que é a evidência de fatos que não se vêem, tem uma referência primária, mas não exclusiva, ao futuro. Ninguém tem uma bola de cristal que funcione. Todos nós caminhamos para o futuro pela fé e não pelo que vemos. Podemos planejar a fazer projetos, mas ainda as melhoras previsões que temos se baseiam em nossas elaboradas conjunturas. Nenhum de nós tem conhecimento experimental do amanhã.Vemos o presente e podemos nos lembrar do passado. Somos especialistas em avaliar os eventos depois que acontecem. A única evidência sólida que temos do nosso próprio futuro é extraída das promessas de Deus. Neste ponto, a fé oferece evidência de coisas não vistas.  Confiamos em  Deus quanto ao amanhã.

Também confiamos ou cremos que Deus existe. E embora o próprio Deus não seja visto, a Bíblia deixa claro que o Deus invisível se manifesta através das coisas visíveis (Rm 1.20). Embora Deus não seja visível, cremos que ele está porque se tem manifestado de maneira tão clara na criação e na História.

A fé inclui crer que Deus existe, embora esse tipo de fé não seja particularmente digno de aplausos. Thiago escreve: "Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o crêem, e estremecem." (Tg 2.19). Aqui podemos ver sarcasmo nas palavras de Thiago! Crer na existência de Deus simplesmente nos qualifica a sermos demônios. Uma coisa é crer que Deus existe; outra é crer em Deus. Crer em Deus, ou seja, confiar nele e confiar a ele a nossa vida é a própria essência da fé cristã.

Sumário

1. O cristianismo é uma fé porque se baseia num conjunto de conhecimentos revelados por Deus.

2. Fé não é um salto no escuro de olhos fechados, mas a confiança em Deus que nos move para fora das trevas em direção à Luz.

3. A fé é simples, mas não é simplista.

4. Fé não é o mesmo que credulidade. Baseia-se em razões sólidas e em evidências históricas.

5. A fé fornece a substância para nossa esperança futura.

6. A fé envolve confiar naquilo que não é visto.

7. A fé significa mais do que acreditar que Deus existe, significa crer em Deus e confiar nele.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 2º Caderno, Verdades Essenciais da Fé Cristã, Editora Cultura Cristã.


A Fé Salvadora 
Mt 18.3; Rm 10.5-13; Ef 2.4-10; 1 Ts 2.13; Tg 2.14-26

Certa vez Jesus destacou que, a menos que tivéssemos fé como uma criança, de maneira alguma entraríamos no Reino do céu. A fé como de uma criança é um pré-requisito para sermos membros do Reino de Deus. Há certa diferença, contudo, entre ter fé como de uma criança e ter uma fé infantil. A Bíblia nos chama a  sermos crianças quanto ao mal, mas maduros em nosso entendimento. A fé salvadora é simples, mas não simplista.

Visto que a Bíblia ensina que a justificação é somente pela fé, e que a fé é uma condição necessária para a salvação, é imperativo que entendemos o que compreende a fé salvadora. Thiago explica claramente o que a fé salvadora não é: "De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Acaso a fé pode salvá-lo?" (Tg 2.14 - NVI). Aqui Thiago faz distinção entre uma confissão de fé e a realidade da fé. Qualquer um pode dizer que tem fé. Embora certamente sejamos chamados a professar nossa fé, a simples profissão de fé por si mesma não salva ninguém. A Bíblia deixa claro que as pessoas são capazes de honrar a Cristo com seus lábios enquanto seus corações estão longe dele. Aquilo que os lábios dizem, sem nenhuma manifestação do  fruto da fé, não é a fé salvadora.

Thiago prossegue e diz: "Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta."(Tg 2.17 - NVI). A fé morta é descrita por Thiago como algo sem  proveito. É fútil, vã e não justifica ninguém.

Quando Lutero e os reformadores declararam que justificação é pela  fé somente, perceberam que era preciso apresentar um declaração cuidadosa de fé salvadora. Definiram a fé salvadora como incluindo os elementos constituintes necessários. A fé salvadora se compõe de informações, assentimento intelectual e confiança pessoal.

A fé salvadora envolve um conteúdo. Não somos justificados por simplesmente cremos em qualquer coisa. Alguns dizem: "Não importa no que você creia, desde que seja sincero". Este sentimento é radicalmente oposto ao ensino da Bíblia, a qual ensina que aquilo em que cremos é profundamente importante. A justificação não ocorre simplesmente pro meio da sinceridade. Podemos estar sinceramente errados. A doutrina certa, pelo menos nas verdades essenciais do evangelho, é um ingrediente necessário da fé salvadora. Cremos no evangelho, na pessoa e obra de Cristo. Isso é parte integrante da fé salvadora. Se nossa doutrina é herética quanto à essência, não seremos salvos. Se, por exemplo,  dissermos que cremos em Cristo, mas negamos sua divindade, não possuímos a fé que justifica.

Embora seja necessário termos um entendimento correto das verdades essenciais do evangelho para sermos salvos, o entendimentos correto da verdade de teologia cristã, demonstrando que conhece as verdades do Cristianismo, sem que ele próprio afirme que são verdadeiras. A fé salvadora inclui o assentimento  mental da verdade do evangelho.

Mesmo que uma pessoa entenda o evangelho e afirme ou concorde que seja verdade, ainda pode estar longe da fé salvadora. O diabo sabe que o evangelho é verdade, mas o odeia com toda as fibras do seu ser. Existe um elemento de confiança na fé salvadora. Envolve a confiança pessoal e a dependência do evangelho. Podemos crer que uma cadeira suportará nosso peso, mas não demonstramos confiança pessoal na cadeira até que nos sentemos nela.

A confiança envolve a vontade tanto quanto a mente. Ter fé salvadora exige que amemos a verdade e desejamos viver de acordo com ela.  Abraçamos com nosso coração a doçura e o amor de Cristo.

Tecnicamente falando, a confiança pessoal pode ser considerada um subponto ou um acréscimo do assentimento intelectual. O diabo pode assentir quanto à verdade de certos fatos sobre Jesus, mas não assente a todos eles. Ele não assente ao amor ou à aspiração de Cristo. Entretanto, quer distingamos ou  combinamos assentimento intelectual com confiança pessoal, o fato que permanece é que a fé salvadora requer o que Lutero chamou de fé viva - uma vital e  pessoal confiança em Cristo como Salvador e Senhor.

  *Assentir: Dar assentimento ou aprovação; consentir, permitir. Conjug.: como

Sumária

1. A fé salvadora á a fé como de criança, mas não fé infantil.

2. Uma pessoa não é justificada por uma mera profissão de fé.

3. A fé salvadora requer assentimento intelectual a verdade do evangelho.

4. A fé salvadora envolve confiança pessoal e amor a Cristo.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 2º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre este livro em http://www.cep.org.br


Os elementos, objeto e base da Fé
Louis Berkhof
23/1/07
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O CHAMADO

O chamado do evangelho


Qual é a mensagem do evangelho?
Como ele se torna eficaz?
 
 
1. EXPLICAÇÃO E BASE BÍBLICA


Quando Paulo fala a respeito do modo em que Deus traz salvação à nossa vida, ele diz: “E aos que predestinou, também chamou; aos que chamou, também justificou; aos que justificou, também glorificou” (Rm 8.30). Aqui Paulo ressalta uma ordem definida na qual as bênçãos da salvação vêm a nós. Embora muito tempo atrás, quando o mundo ainda não havia sido feito, Deus nos tenha predestinado para que fôssemos seus filhos e para que nos conformássemos à imagem de seu Filho, aqui Paulo salienta o fato de que, no desenvolvimento real do seu propósito em nossa vida, Deus nos “chamou”. Então Paulo imediatamente cita a justificação e a glorificação, mostrando que essas coisas vêm após o chamado eficaz. Paulo indica que há uma ordem definida no propósito salvador de Deus (embora não em todos aspectos de nossa salvação mencionados aqui). Assim, vamos começar a nossa discussão das diferentes partes de nossa experiência de salvação com o tópico do chamado.
 
A. O chamado eficaz


Quando Paulo diz: “aos que predestinou, também chamou; aos que chamou, também justificou” (Rm 8.30), ele assinala que o chamado é um ato divino. De fato, é especialmente um ato de Deus Pai, pois é ele quem predestina as pessoas “para serem conformes à imagem de seu Filho” (Rm 8.29). Outros versículos descrevem mais plenamente o que é esse chamado. Quando Deus chama as pessoas desse modo poderoso, ele as chama “das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pe 2.9); ele as chama “à comunhão com seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor” (lCo 1.9; cf. At 2.39) e para o seu Reino e glória” (lTs 2.12; cf. lPe 5.10; 2Pe 1.3). Os indivíduos que foram chamados por Deus pertencem “a Jesus Cristo” (Rm 1.6). Eles são chamados para “serem santos” (Rm 1.7; lCo 1.2) e vieram para o Reino de paz (lCo 7.15; Cl 3.15), liberdade (Gl 5.13), esperança (Ef 1.18; 4.4), e santidade (lTs 4.7) suportando com paciência o sofrimento (lPe 2.20,21; 3.9) para desfrutar a vida eterna (lTm 6.12).


Esses versículos indicam que esse não é um chamado sem poder ou meramente um chamado humano. Esse chamado é antes uma espécie de “convocação” vinda da parte do Rei do universo e tem tal poder que exige uma resposta dos corações humanos. É o ato divino que garante a resposta, porque Paulo especifica em Romanos 8.30 que todos os que foram chamados foram também justificados. Esse chamado tem a capacidade de retirar-nos do reino das trevas e de transportar-nos ao Reino de Deus, atraindo-nos para a plena harmonia com ele: “Fiel é Deus, o qual os chamou à comunhão com seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor” (lCo 1.9).


Esse poderoso ato de Deus é muitas vezes designado vocação eficaz, para distingui-lo do convite geral do evangelho que se dirige a todas as pessoas e que algumas rejeitam. Isso não significa que a proclamação humana do evangelho não esteja envolvida. De fato, o chamado eficaz de Deus vem por intermédio da pregação humana do evangelho, porque Paulo diz: “Ele os chamou para isso por meio de nosso evangelho, a fim de tomarem posse da glória de nosso Senhor Jesus Cristo” (2Ts 2.14). Naturalmente há muitos que ouvem o chamado geral da mensagem do evangelho e não respondem. Mas em alguns casos o chamado do evangelho torna-se eficaz pela ação do Espírito Santo no coração das pessoas, de forma que elas respondem; podemos dizer que elas receberam a “vocação eficaz”.


Podemos definir a vocação eficaz da seguinte maneira: Vocação eficaz é o ato de Deus Pai, falando por meio da proclamação humana do evangelho, pelo qual ele convoca as pessoas para si mesmo de tal modo que elas respondem com fé salvadora.
E importante não dar a impressão de que as pessoas serão salvas pelo poder dessa vocação independentemente da resposta deliberada delas ao evangelho (v. cap. 21 sobre a fé pessoal e o arrependimento que são necessários à salvação). Embora seja verdade que a vocação eficaz desperta e produz a resposta em nós, devemos sempre insistir em que essa resposta ainda tem de ser voluntária, uma resposta deliberada na qual o indivíduo coloca sua confiança em Cristo.


Essa é a razão por que a oração é tão importante para a evangelização eficaz. A menos que Deus opere no coração das pessoas para tornar a proclamação do evangelho eficaz, não haverá nenhuma resposta salvadora genuína. Jesus disse: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair” (Jo 6.44).


Um exemplo do chamado do evangelho operando eficazmente é visto na primeira visita de Paulo a Filipos. Quando Lídia ouviu a mensagem do evangelho, “o Senhor abriu seu coração para atender à mensagem de Paulo” (At 16.14).


Ao contrário da vocação eficaz, que é inteiramente ato de Deus, podemos falar a respeito do chamado do evangelho em geral, que vem por meio da linguagem humana. Esse chamado do evangelho é oferecido a todas as pessoas, mesmo às que não o aceitam. Às vezes esse chamado do evangelho refere-se ao chamado externo ou chamado geral. Em contrapartida, a vocação eficaz de Deus que realmente produz a resposta deliberada da pessoa que ouve é por vezes chamada vocação interna. O chamado do evangelho é geral e externo e muitas vezes é rejeitado, ao passo que a vocação eficaz é particular, interna e sempre é eficaz. Contudo, isso não significa diminuir a importância do chamado do evangelho — que é o meio pelo qual a vocação eficaz acontecerá. Sem o chamado do evangelho, ninguém poderá responder e ser salvo! “E como crerão naquele de quem não ouviram falar?” (Rm 10.14). Portanto, é importante entender exatamente o que significa o chamado do evangelho.

B. Os elementos do chamado do evangelho


Três elementos importantes devem ser incluídos na pregação do evangelho.
 
1. Explicação dos fatos concernentes à salvação. Qualquer pessoa que vem a Cristo para salvação deve ter ao menos o entendimento básico de quem Cristo é e como ele satisfaz a nossa necessidade de salvação. Portanto, a explicação dos fatos concernentes à salvação deve incluir ao menos três coisas:
 
A. Todas as pessoas pecaram (Rm 3.23)
B. A penalidade do pecado é a morte (Rm 6.23)
C. Jesus Cristo morreu para pagar a penalidade de nossos pecados (Rm 5.8).
 
Mas o entendimento desses fatos e mesmo a concordância de que eles são verdadeiros não são suficientes para uma pessoa ser salva. Deve haver um convite para uma resposta pessoal da parte do indivíduo que vai se arrepender de seus pecados e confiar pessoalmente em Cristo.
 
2. Convite para responder a Cristo pessoalmente em arrependimento e fé.
Quando o NT fala a respeito de pessoas vindo à salvação, ele fala em termos da resposta pessoal ao convite do próprio Cristo. Esse convite é belamente expresso, por exemplo, nas palavras de Jesus: “Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11.28-30).


É importante deixar claro que essas não são apenas palavras faladas muito tempo atrás por um líder religioso do passado. Cada não-cristão que ouve essas palavras deve ser encorajado a pensar nelas como palavras que Jesus Cristo está dizendo neste momento, falando individualmente ao que ouve. Jesus Cristo é o Salvador que está vivo agora no céu, e cada não-cristão deveria pensar em Jesus falando diretamente a ele, dizendo “Venham a mim [...] e eu lhes darei descanso” (Mt 11.28). Esse é um convite genuíno e pessoal que espera uma resposta pessoal de cada um que o ouve.


João também fala a respeito da necessidade da resposta pessoal quando diz: “Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1.11,12). Enfatizando a necessidade de “receber” Cristo, João também destaca a necessidade da resposta individual. Àqueles dentro da igreja morna que não percebiam sua cegueira espiritual o Senhor Jesus novamente dirige um convite que exige resposta pessoal: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo” (Ap 3.20).


Porém o que está envolvido nesse ir a Cristo? Embora isso seja explicado mais plenamente no capítulo 23, é suficiente por ora observar aqui que, se formos a Cristo e confiarmos nele para que nos salve do pecado, não podemos mais nos agarrar ao pecado, mas devemos deliberadamente renunciar a ele com genuíno arrependimento. Em alguns casos na Escritura tanto o arrependimento como a fé são mencionados juntos quando se referem à conversão inicial de uma pessoa. (Paulo disse que gastou seu tempo testificando “tanto a judeus como a gregos, que eles precisam converter-se a Deus com arrependimento e fé em nosso Senhor Jesus”, At 20.2 1.) Em outras ocasiões somente o arrependimento dos pecados é mencionado e a fé salvadora é suposta como fator de acompanhamento (“que em seu nome seria pregado o arrependimento para perdão de pecados a todas as nações, começando por Jerusalém”, Lc 24.47; cf. At 2.37,38; 3.19; 5.31; 17.30; Rm 2.4; 2Co 7.10; etc.). Portanto, qualquer proclamação genuína do evangelho deve incluir o convite para tomar a decisão consciente de abandonar os pecados e vir a Cristo com fé, pedindo-lhe o perdão dos pecados. Se tanto a necessidade de arrependimento de pecados como a necessidade de confiar em Cristo para o perdão forem negligenciados, não terá havido uma plena e verdadeira proclamação do evangelho.


Mas o que é prometido para os que vêm a Cristo? Esse é o terceiro elemento do chamado do evangelho.
 
3. A promessa de perdão e de vida eterna.
Embora as palavras de Cristo do convite pessoal contenham promessas de descanso, poder para se tornar filho de Deus e acesso à água da vida, é útil tornar explícito exatamente o que Cristo promete aos que vêm a ele em arrependimento e fé. A principal promessa na mensagem do evangelho é o perdão de pecados e a vida eterna com Deus. “Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).Na pregação do evangelho, Pedro diz: “Arrependam-se, pois, e voltem-se para Deus, para que os seus pecados sejam cancelados” (At 3.19; cf. 2.38).


Juntamente com a promessa de perdão e de vida eterna deve estar a certeza de que Cristo aceitará todos os que vêm a ele em sincero arrependimento e fé na busca da salvação: “... e quem vier a mim eu jamais rejeitarei” (Jo 6.37).
 
C. A importância do chamado do evangelho

A doutrina do chamado do evangelho é importante porque, se não houvesse o chamado do evangelho, nós não poderíamos ser salvos.”E como crerão naquele de quem não ouviram falar?” (Rm 10.14).


O chamado do evangelho é importante também porque por meio dele Deus se dirige a nós na plenitude de nossa humanidade. Ele não nos salva simplesmente de forma “automática”, sem procurar uma resposta em nós como pessoas completas. Ao contrário, no chamado do evangelho ele se dirige ao nosso intelecto, às nossas emoções e à nossa vontade. Ele fala ao nosso intelecto ao nos explicar os fatos da salvação em sua Palavra. Ele fala às nossas emoções fazendo-nos um convite pessoal sincero que pede uma resposta. Ele fala à nossa vontade por pedir-nos para ouvir o seu convite e responder a ele deliberadamente em arrependimento e fé — para que decidamos abandonar nossos pecados e receber Cristo como Salvador, descansando nosso coração nele para a salvação.

Autor: Wayne Grudem
Fonte: Teologia Sistemática do Autor, Ed. Vida Nova. Compre este livro em http://www.vidanova.com.br


A Vocação Eficaz
Ez 36.26,27; Rm 8.30; Ef 1.7-12; 2 Ts 2.13,14; 2 Tm 1.8-12

Quando eu era menino, minha mãe costumava aparecer à janela e me chamar para jantar. Geralmente eu entrava ao primeiro chamado, mas nem sempre. Se eu demorava, ela chamava uma segunda vez, geralmente num tom de voz mais alto. Seu primeiro chamado nem sempre surtia efeito; não surtia o efeito desejado. O segundo chamado geralmente surtia efeito; eu estava rapidamente em casa.

Há um chamado de Deus que surte efeito. Quando Deus chamou o mundo à existência, o universo não hesitou em atender a voz de comando. O efeito desejado por Deus na criação foi alcançado. Semelhantemente, quando Jesus chamou Lázaro para fora do túmulo, Lázaro respondeu voltando à vida.

Há também um chamado eficaz de Deus na vida do crente. É um chamado que alcança o efeito desejado. O chamado eficaz está relacionado com o poder de Deus ao regenerar o pecador da morte espiritual. Às vezes esse chamado é referido como "graça irresistível".

O chamado eficaz refere-se ao chamado de Deus que por seu soberano poder e autoridade produz seu designado e ordenado efeito. Quando Paulo ensina que aquele a quem Deus predestinou, a esse ele chama, e aqueles a quem chamou também justifica, (Rm 8.30) o chamado a que se refere é a vocação eficaz de Deus.

A vocação eficaz de Deus é uma vocação interior. E a obra secreta de vivificação ou regeneração realizada na alma dos eleitos pela operação imediata e sobrenatural do Espírito Santo. Efetua ou opera a mudança da disposição, inclinação e desejo da alma. Antes da vocação eficaz e interior de Deus ser recebida, nenhuma pessoa tem inclinação para aproximar-se dele. Todo aquele que é efetivamente chamado tem uma nova disposição para com Deus e reponde com fé. Vemos, então, que a própria Fé é um dom de Deus, tendo sido dada na vocação eficaz do Espírito Santo.

A pregação do evangelho representa a vocação exterior de Deus. Esta vocação é ouvida audivelmente tanto pelos eleitos como pelos não-eleitos. Os seres humanos têm a capacidade de resistir e recusar a vocação exterior. Ninguém responderá à vocação exterior com fé a menos que esta vocação seja acompanhada pela vocação eficaz do Espírito Santo no interior. A vocação eficaz é irresistível no sentido em que Deus soberanamente faz com que produza o resultado desejado. Esta obra soberana da graça é resistível no sentido em que podemos e realmente a resistimos em nossa natureza caída, mas é irresistível no sentido em que a graça de Deus prevalece sobre nossa resistência natural.

A vocação eficaz se refere ao poder criador de Deus pelo qual somos conduzidos à vida espiritual. O apóstolo Paulo escreve:

"E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência. Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também." Ef 2.1-3

Nós, que antes éramos filhos da ira e estávamos espiritualmente mortos, nos tornamos os "chamados" pela virtude do poder e da eficácia da vocação interior de Deus. Em sua graça, o Espírito nos dá olhos para ver o que não veríamos e ouvidos para ouvir o que de outra maneira não ouviríamos.

Sumário

1. Os chamados humanos podem ser eficazes ou não.

2. Deus tem o poder de chamar eficazmente os mundos à existência, chamar corpos para fora do túmulo e chamar as pessoas da morte para a vida espiritual.

3. As pessoas podem ouvir o chamado exterior de Deus, por meio do evangelho e rejeitar. Seu chamado interior, entretanto, é sempre eficaz. Sempre produz os resultados desejados.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 2º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre este livro em http://www.cep.org.br


ARREPENDIMENTO

O Arrependimento
Ez 18.30-32; Lc 24.46-47; At 20.17-21; Rm 2.4; 2 Co 7.8-12

A mensagem inaugural de João Batista, o qual serviu como arauto de Jesus Cristo foi:" Arrependei-vos. porque o Reino de Deus está próximo". Este chamado ao arrependimento foi um apelo urgente aos pecadores. Ninguém que se recusa a arrepender-se poderá jamais entrar no Reino de Deus. O arrependimento é um pré-requisito, uma condição necessária para a salvação.

Nas Escrituras, arrependimento significa "experimentar alguém uma mudança de mente". Esta mudança de mente não é uma mera questão de mudar opiniões secundárias, mas de toda a direção da vida. Envolve uma conversão radical, do pecado para Cristo.

O arrependimento não é a causa do novo nascimento ou regeneração; é o resultado ou fruto da regeneração. Apesar de o arrependimento começar com a regeneração, ele é uma atitude que deve se repetir por toda a vida cristã. Porque continuamos a pecar, somos chamados a nos arrependermos cada vez que somos convencidos de nosso pecado pelo Espírito Santo.

Os teólogos fazem certa distinção entre dois tipos de arrependimento. O primeiro é chamado de atrição. Atrição é um tipo falso ou espúrio de arrependimento. Envolve o remorso pelo medo da punição ou pela perda da bênção. Todos os pais têm testemunhado a atrição num filho, quando ele é pego com a mão na lata de biscoito. A criança, temendo a punição chora: "Sinto muito, por favor, não me bata!" Essa súplica, acompanhadas por "lágrimas de crocodilo", geralmente não são sinais de arrependimento genuíno pela ação errada. É o tipo de arrependimento que Esaú demonstrou (Gn 27.30-46). Ficou triste não porque tinha pecado, mas porque tinha perdido seu direito de primogenitura. A atrição, pois, é o arrependimento motivado pela tentativa de conseguir um passaporte para fora do inferno ou para evitar outro tipo de punição.

A contrição, por outro lado, é o arrependimento verdadeiro e piedoso.É genuíno. Inclui um profundo remorso por ter ofendido a Deus. A pessoa contrita confessa franca e plenamente seu pecado, sem nenhuma tentativa de se justificar ou se desculpara. Este reconhecimento do pecado é acompanhado por um desejo espontâneo de fazer restituição, sempre que possível, e uma decisão de abandonar o pecado.Este é o espírito do arrependimento que Davi demonstrou no Salmo 51:" Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto.Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus." (Sl 51.10,17).

Quando o arrependimento é oferecido a Deus num espírito de verdadeira contrição, ele promete nos perdoar e restaurar nossa comunhão com ele: "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça." (1 Jo 1.9).

Sumário

1. Arrependimento é uma condição necessária para a salvação.

2. Arrependimento é o resultado da regeneração.

3. Atrição é um falso arrependimento motivado pelo medo.

4. Contrição é o verdadeiro arrependimento motivado por um remorso piedoso.

5. O arrependimento inclui a plena confissão, restituição e a decisão de abandonar o pecado.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 2º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã.


Arrependimento


Atos 26.20 "Mas anunciei primeiramente aos de Damasco e em Jerusalém, por toda a região da Judéia, e aos gentios, que se arrependessem e se convertessem a Deus, praticando obras dignas de arrependimento".

Arrependimento significa mudança de mente, de modo que os pontos de vista de uma pessoa arrependida, seus valores, objetivos e comportamentos são mudados e toda a sua vida é vivida de um modo diferente. Sua mente , seu discernimento, sua vontade, suas afeições, seu comportamento, seu estilo de vida, seus motivos e seus planos , tudo está envolvido nessa mudança. Arrepender-se significa começar a viver uma nova vida.

A chamada ao arrependimento era a convocação fundamental na pregação de João Batista(Mateus 3.2), de Jesus(Mateus 4.17), dos Doze(Marcos 6.12), de Pedro no Pentecostes(Atos 2.38), de Paulo aos gentios(Atos 17.30;26.20) e do Cristo glorificado a cinco das sete igrejas da Ásia(Apocalipse 2.5,16,22;3.3,19).

Era parte do resumo feito por Jesus do evangelho que devia ser pregado em todo o mundo(Lucas 24.47). Corresponde ao constante apelo dos profetas a Israel para que retornasse a Deus, de quem se tinha extraviado(p.ex. Jeremias 23.22; 25.4-5; Zacarias 1.3-6). O arrependimento é sempre descrito como o caminho para a remissão de pecados e a restauração do favor de Deus, ao passo que a impenitência é o caminho para a ruína.

A fé e o arrependimento são, em si mesmos, frutos da regeneração. Porém, como uma questão prática, o arrependimento é inseparável da fé. Voltar-se para Cristo em fé é impossível sem o abandono do pecado pelo arrependimento. A idéia de que pode haver fé salvadora sem arrependimento e de que alguém pode ser justificado apenas aceitando a Cristo como Salvador, mas recusando-se a aceitá-lo como Senhor, é um erro perigoso.

A verdadeira fé reconhece a Cristo como o que , de fato, ele é, isto é, nosso Rei escolhido por Deus, bem como nosso Sacerdote, que Deus nos deu, e a fé que confia nele como Salvador, se submeterá a ele como Senhor também. Recusar isso é procurar justificação com uma fé impenitente, que não é fé nenhuma.

A Confissão de Westminster declara que no arrependimento,

"movido pelo reconhecimento e o sentimento não só do perigo, mas também da impureza e odiosidade de seus pecados, como contrários à santa natureza e justa lei de Deus, e conscientizando-se da misericórdia divina manifestada em Cristo aos que são penitentes, o pecador, pelo arrependimento, de tal maneira sente e aborrece seus pecados, que, deixando-os, se volta para Deus, tencionando e procurando andar com ele em todos os caminhos de seus mandamentos" (Confissão de Westiminster, XV.2).

Sentimentos de remorso, auto-reprovação e tristeza pelo pecado gerados pelo temor de punição, sem qualquer desejo ou decisão de deixar de pecar, não devem ser confundidos com o arrependimento. Davi expressa o verdadeiro arrependimento no Salmo 51, revelando em seu coração o propósito de não pecar mais e de viver uma vida justa( Lucas 3.8; Atos 26.20).

Fonte : Bíblia de Estudo de Genebra, página 1309


A REGENERAÇÃO

O Novo Nascimento
Dt 30.6; Ez 36.26,27; Rm 8.30; Tt 3.4-7

Quando Jimmy Cater foi eleito presidente do Estados Unidos, descreveu a si  mesmo como um "cristão nascido de novo". Charles Colson, que fora o homem de confiança do presidente Nixon, escreveu um livro intitulado Born Again [Nascido de Novo], no qaul descreve sua própria experiência de conversão ao cristianismo. Desde que essas duas personalidades famosas popularizaram a frase nascer de novo, ela tem se tornado parte do discurso moderno.

Descrever alguém como um cristão nascido de novo é, tecnicamente falando, cometer um redundância. Não existe algo como um cristão não nascido de novo. Um cristão regenerado (não nascido de novo) é uma contradição de termos. Semelhantemente, um não-cristão nascido de novo também é uma contradição.

Foi Jesus quem declarou que o novo nascimento espiritual era uma absoluta necessidade para se entra no reino de Deus. Ele declarou a Nicodemos: "Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus." (Jo 3.3). A expressão, a menos que, no ensino de Jesus, sinaliza uma condição universalmente necessária para ver e entrar no Reino de Deus. O novo nascimento, portanto, é uma parte essencial do cristianismo; sem ele, é impossível a entrada no Reino de Deus.

Regeneração é o termo teológico usado para descrever o novo nascimento. Refere-se a uma nova geração, um novo gênesis, um novo princípio. É mais do que simplesmente "virar uma página"; marca o início de uma nova vida, numa pessoa radicalmente renovada. Pedro fala dos crentes que "fostes regenerados, não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente" (1 Pe 1.23).

A regeneração é obra do Espírito Santo naqueles que estão espiritualmente morto (ver Ef 2.1-10). O Espírito recria o coração humano, vivificando-o da morte espiritual para a vida espiritual. Pessoas regeneras são novas criaturas. Onde anteriormente nãi havia nenhuma disposição, inclinação ou desejo para as coisas de Deus estão dispostos e inclinados para com Deus. Na regeneração, Deus implanta um desejo por ele próprio no coração humano, que de outra forma não estaria lá.

A regeneração na deve ser confundida com plena experiência de conversão. Assim como nascimento é nossa iniciação, nossa primeira entrada na vida fora do ventre materno, assim nosso novo nascimento espiritual é o ponto de partida de nossa vida espiritual. Acontece pela iniciativa de deus e é um  ato soberano, imediato e instantâneo. A conscientização da nossa conversão pode ser gradual. Mesmo assim, o novo nascimento em si é instantâneo. Ninguém pode nascer de novo parcialmente, assim como uma mulher não pode ficar parcialmente grávida.

A regeneração não é o fruto ou resultado de fé. Pelo contrário, a regeneração procede a fé, como a condição necessária para a fé. Também não temos em nós mesmos participação nenhuma na regeneração, ou seja, não cooperamos como colaboradores do Espírito Santo para que ela seja realizada. Não escolhemos ou decidimos ser regenerados. Deus nos decide regenerar antes mesmo decidirmos de abraçá-lo. Em suma, depois que somos regenerados pela graça soberana de Deus, decidimos agir, cooperar e crer em Cristo. Deus não exerce fé por nós. É por meio de nossa própria fé que somos justificados. O que Deus faz é nos injetar a vida espiritual, nos resgatando as trevas, da escravidão e da morte espiritual. Deus torna a fé possível e disponível a nós. Ele gera a fé em nosso interior.

Sumário

1. Todos os que são cristãos autênticos são nascidos de novo.

2. Todos os que genuinamente nascidos de novo são cristãos.

3. O Novo nascimento é um pré-requisito para se entrar no Reino de Deus.

4. A regeneração é obra soberana da graça do Espírito Santo.

5. A regeneração procede a fé. É a iniciativa divina de Deus na Salvação.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 2º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã.


A Regeneração
 
Que significa nascer de novo?
 
EXPLICAÇÃO E BASE BÍBLICA

Podemos definir a regeneração da seguinte maneira: Regeneração é o ato secreto de Deus pelo qual ele nos comunica nova vida espiritual. Isso é algumas vezes chamado “nascer de novo” (para usar a linguagem de João 3.3-8).
 
A. A regeneração é totalmente obra de Deus

Em alguns dos elementos da aplicação da redenção que discutiremos nos capítulos subseqüentes, exercemos uma parte ativa (isso é verdade, por exemplo, na conversão, na santificação e na perseverança). Mas na obra da regeneração não exercemos nenhum papel ativo. Trata-se, ao contrário, de uma obra totalmente de Deus.Vemos isso, por exemplo, quando João fala a respeito daqueles a quem Cristo deu o poder de serem feitos filhos de Deus — “os quais não nasceram por descendência natural, nem pela vontade da carne nem pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus” (Jo 1.13). Aqui João especifica que os filhos de Deus são os que “nasceram de Deus”, e a vontade humana (“vontade do homem”) não ocasiona essa espécie de nascimento.
O fato de que somos passivos na regeneração fica também evidente quando a Escritura se refere a ela como gerar ou “nascer de novo” (cf. Tg 1.18; 1 Pe 1.3; Jo 3.3-8). Nós não escolhemos nos tornar vivos fisicamente e também não escolhemos nascer — isso simplesmente aconteceu; de modo semelhante, essas analogias na Escritura sugerem que somos inteiramente passivos na regeneração.
A obra soberana de Deus na regeneração também é predita na profecia de Ezequiel. Por meio dele Deus prometeu um tempo futuro no qual daria nova vida espiritual ao seu povo:

“Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês; tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne. Porei o meu Espírito em vocês e os levarei a agirem segundo os meus decretos e a obedecerem fielmente às minhas leis” (Ez 36.26,27).

Qual é o membro da Trindade que causa a regeneração? Quando Jesus diz “nascer do Espírito” (cf. Jo 3.8), ele indica que é especialmente Deus Espírito Santo que produz a regeneração. Mas outros versículos também indicam o envolvimento de Deus Pai na regeneração. Paulo especifica que é Deus que “deu-nos vida com Cristo” (Ef 2.5; cf. Cl 2.13). E Tiago diz que é o “Pai das luzes” que nos deu o novo nascimento: “Por sua decisão ele nos gerou pela palavra da verdade, a fim de sermos como que os primeiros frutos de tudo o que ele criou” (Tg 1.17,18). Finalmente, falando de Deus, Pedro diz que, “conforme a sua grande misericórdia, ele nos regenerou para uma esperança viva, por meio da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos” (lPe 1.3). Podemos concluir que tanto Deus Pai como Deus Espírito Santo produzem a regeneração.
Qual é a conexão entre a vocação eficaz e a regeneração? Como veremos mais tarde neste capítulo, a Escritura indica que a regeneração deve vir antes de podermos responder à vocação eficaz com fé salvadora. Portanto, podemos dizer que a regeneração vem antes do resultado da vocação eficaz (a nossa fé). Mas é mais difícil especificar a relação temporal exata entre a regeneração e a proclamação humana do evangelho por meio da qual Deus opera a vocação eficaz. Ao menos duas passagens sugerem que Deus nos regenera ao mesmo tempo em que nos fala mediante a vocação eficaz. Pedro diz: “Vocês foram regenerados, não de uma semente perecível, mas imperecível,por meio da palavra de Deus, viva e permanente. [...]! Essa é a palavra que lhes foi anunciada” (1 Pe 1.23,25). E Tiago diz: “Por sua decisão ele nos gerou pela palavra da verdade” (Tg 1.18). À medida que o evangelho nos chega, Deus fala por meio dele, chamando-nos para si mesmo (vocação eficaz), e nos dá vida espiritual (regeneração) de forma que somos capacitados a responder com fé. A vocação eficaz é, dessa forma, Deus Pai nos falando poderosamente, e a regeneração é Deus Pai e Deus Espírito operando poderosamente em nós para nos dar vida. Essas duas coisas devem ter acontecido simultaneamente enquanto Pedro pregava o evangelho à casa de Cornélio, pois, enquanto ele estava pregando, “o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a mensagem” (At 10.44).

Algumas vezes o termo graça irresistível é usado nesse sentido. Ele se refere ao fato de que Deus eficazmente chama pessoas e as regenera, e ambas as ações garantem que responderemos com fé salvadora. O termo graça irresistível está sujeito ao entendimento errôneo, contudo, visto que parece sugerir que as pessoas não fazem uma escolha voluntária e deliberada na resposta ao evangelho — uma idéia errônea e um entendimento errôneo do termo graça irresistível. O termo preserva algo valioso, no entanto, porque indica que a obra de Deus alcança nosso coração para produzir a resposta que é absolutamente certa — muito embora nós respondamos voluntariamente.
 
B. A natureza exata da regeneração é mistério para nós.

Exatamente o que acontece na regeneração é mistério para nós. Sabemos de qualquer maneira que nós, que estivemos espiritualmente mortos (Ef 2.1), fomos vivificados por Deus e, em um sentido muito verdadeiro, “nascemos de novo” (cf. Jo 3.3,7; Ef 2.5; Cl 2.13). Todavia, não entendemos como isso acontece ou como exatamente Deus nos dá essa vida espiritual. Jesus diz: “O vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito” (Jo 3.8).

A Escritura vê a regeneração como algo que nos afeta como pessoas integrais. Obviamente, nosso “espírito” é vivificado em relação a Deus após a regeneração (Rm 8.10), mas isso acontece simplesmente porque nós como pessoas integrais somos afetados pela regeneração. Não somente nosso espírito estava morto antes — nós estávamos mortos em delitos e pecados (v. Ef 2.1). É incorreto dizer que tudo o que acontece na regeneração é que o nosso espírito é vivificado (como alguns costumam ensinar), pois cada parte de nós é afetada pela regeneração:”Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!” (2Co 5.17).

Porque a regeneração é obra de Deus dentro de nós na qual ele nos dá nova vida, é correto concluir que ela é um ato instantâneo. Ele acontece uma só vez. Em dado momento estamos espiritualmente mortos, e no momento seguinte recebemos vida espiritual da parte de Deus. No entanto, nem sempre sabemos exatamente quando essa mudança instantânea ocorre.

Especialmente quando se trata de crianças crescidas em lar cristão ou de pessoas que freqüentam uma igreja evangélica ou um estudo bíblico por um grande período de tempo e gradualmente crescem no seu entendimento do evangelho, normalmente não acontece uma crise dramática acompanhada de uma mudança radical de conduta de ”um pecador endurecido” para “um santo”.

Apesar disso, no entanto, há uma mudança instantânea, quando Deus, por meio do Espírito Santo e de modo invisível, desperta vida espiritual dentro do indivíduo. A mudança se tornará evidente no tempo próprio em padrões de conduta e de desejos que são agradáveis a Deus. Em outras ocasiões (de fato, provavelmente a maioria dos casos em que pessoas adultas se tornam cristãs), a regeneração acontece em um tempo claramente detectável no qual a pessoa percebe que anteriormente era separada de Deus e espiritualmente morta, mas logo após surgiu sem dúvida a nova vida espiritual dentro dela. Os resultados podem ser normalmente vistos de uma só vez — o coração sensível confiando em Cristo para a salvação, a certeza de pecados perdoados, o desejo de ler a Bíblia e de orar (e a percepção de que essas são atividades espirituais significativas), o prazer na adoração, a vontade de ter comunhão cristã, o desejo sincero de ser obediente à Palavra de Deus na Escritura e de contar a outros a respeito de Cristo. Essas pessoas podem dizer algo mais ou menos assim: “Não sei exatamente o que aconteceu, mas antes daquele dia eu não confiava em Cristo para a salvação. Estava ainda pensando e questionando em minha mente. Mas, a partir daquele momento, percebi que confiava em Cristo e que ele era meu Salvador. Alguma coisa aconteceu em meu coração”. Todavia, mesmo nesses casos, não podemos estar totalmente certos sobre o que aconteceu exatamente em nosso coração. É como Jesus disse com respeito ao vento — ouvimos a sua voz, vemos os resultados, mas não podemos realmente ver o próprio vento. Assim também acontece com a operação do Espírito em nosso coração.
 
C. Nesse sentido de “regeneração”, ela precede a fé salvadora.

Usando os versículos citados anteriormente, definimos a regeneração como o ato de Deus despertar vida espiritual dentro de nós, trazendo-nos da morte espiritual para a vida espiritual. Com base nessa definição, é natural entender que a regeneração antecede a fé salvadora. É de fato essa obra de Deus que nos dá a capacidade espiritual de responder a Deus com fé. Contudo, quando dizemos que a regeneração vem “antes” da fé salvadora, é importante lembrar que elas normalmente estão tão próximas que parecerão acontecer ao mesmo tempo. Assim que Deus nos envia o chamado eficaz do evangelho, nos regenera, e respondemos com fé e arrependimento a esse chamado. Portanto, de nossa perspectiva, é difícil perceber qualquer diferença temporal entre elas, especialmente porque a regeneração é uma obra espiritual que não podemos perceber com nossos olhos ou mesmo entender com a mente.

Todavia, há diversas passagens que nos dizem que essa obra secreta e misteriosa de Deus em nosso espírito acontece antes de respondermos a Deus com fé salvadora (embora muitas vezes ela possa se dar apenas alguns segundos antes de nossa resposta). Ao falar a respeito da regeneração com Nicodemos, Jesus disse: “Ninguém pode entrar no Reino de Deus, se não nascer da água e do Espírito” (Jo 3.5). Entramos no Reino de Deus quando nos tornamos cristãos na conversão. Mas Jesus diz que temos de “nascer do Espírito” antes de nos convertermos. (“Nascer da água” com freqüência se refere à limpeza espiritual do pecado, que é simbolizada pela água na profecia de Ezequiel capítulo 36.25,26). Nossa incapacidade de ir a Cristo por nós próprios, sem a obra inicial de Deus dentro de nós, é também enfatizada quando Jesus diz: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair” (Jo 6.44), e “ninguém pode vir a mim, a não ser que isto lhe seja dado pelo Pai” (Jo 6.65). Esse ato interior da regeneração é belamente descrito quando Lucas diz de Lídia: “O Senhor abriu seu coração para atender à mensagem de Paulo” (At 16.14). Primeiro o Senhor abriu o coração de Lídia, então ela foi capaz de dar ouvidos à pregação de Paulo e responder com fé.

De modo contrastante, Paulo nos diz: “Quem não tem o Espírito não aceita as coisas que vêm do Espírito de Deus, pois lhe são loucura; e não é capaz de entendê-las,porque elas são discernidas espiritualmente” (1 Co 2.14). Ele também diz, sobre pessoas que estão separadas de Cristo: “não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus” (Rm 3.11).

A solução para essa morte e incapacidade espiritual de responder vem somente quando Deus nos dá a nova vida interior: “Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos vida com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela graça vocês são salvos” (Ef 2.4,5). Paulo também diz: “Quando vocês estavam mortos em pecados e na incircuncisão da sua carne, Deus os vivificou com Cristo” (Cl 2.13).

A idéia de que a regeneração antecede a fé salvadora não é sempre entendida pelos evangélicos de hoje. As vezes as pessoas dizem algo mais ou menos assim: “Se você crer em Cristo como seu Salvador, então (depois de crer) você nascerá de novo”. Mas a Escritura não diz nada semelhante.

O novo nascimento é visto pela Escritura como algo que Deus faz em nós a fim de nos capacitar a crer.

A razão pela qual os evangélicos sempre pensam que a regeneração vem após a fé salvadora é que eles vêem os resultados (como o amor por Deus e por sua Palavra e o abandono do pesado) após as pessoas virem à fé e pensam que a regeneração deve, portanto, ter vindo após a fé salvadora. De fato, algumas afirmações evangélicas de fé contêm palavras que sugerem que a regeneração vem após a fé salvadora. Nessas afirmações, a palavra regeneração certamente significa a evidência exterior da regeneração que é vista em uma vida mudada, evidência que certamente vem após a fé salvadora. Assim, ”nascer de novo” tem sido entendido não em termos de comunicação inicial da nova vida, mas em termos da mudança total de vida que resulta dessa comunicação. Se o termo regeneração for compreendido desse modo, então é verdade que a regeneração vem após a fé salvadora.

Todavia, se usarmos a linguagem que combina com o ensino geral da Escritura, será melhor restringir a palavra regeneração para a obra inicial instantânea de Deus na qual ele nos comunica vida espiritual. Assim, podemos enfatizar que não vemos a regeneração propriamente, mas somente os resultados dela em nossa vida, e que a fé em Cristo para a salvação é o primeiro resultado que vemos. De fato, não podemos saber que fomos regenerados até que venhamos à fé em Cristo, porque essa é a evidência exterior dessa obra divina interior e secreta. Uma vez que alcancemos a fé salvadora em Cristo, podemos saber que nascemos de novo.

Aplicando essa verdade, percebemos que a explicação da mensagem do evangelho na Escritura não aparece em forma de mandamento: “Nasça de novo e seja salvo”, mas antes: “Creia em Jesus Cristo e será salvo”. Esse é o padrão consistente na pregação do evangelho segundo todo o livro de Atos e também nas descrições do evangelho fornecidas nas cartas.
 
D. A regeneração genuína deve trazer resultados na vida.

Na seção anterior, observamos que a capacidade de responder a Deus com fé salvadora é o primeiro resultado da regeneração. Assim, João diz: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus”(lJo 5.l).Mas há também outros resultados da regeneração, muitos dos quais são especificados na primeira epístola de João. Por exemplo, João diz: “Todo aquele que é nascido de Deus não pratica o pecado” (lJo 3.9). Aqui João explica que a pessoa que nasceu de novo tem a “semente” espiritual (que se mostra em vida mudada e crescente em poder) dentro dela que a livra de viver continuamente em pecado. Obviamente isso não significa que a pessoa terá uma vida perfeita, mas apenas que o padrão de vida não será o de indulgência contínua com relação ao pecado. Devemos perceber que o que João diz é verdadeiro em relação a cada um que realmente nasceu de novo: “Todo aquele que é nascido de Deus não pratica o pecado”. Outra maneira de dizer isso seria: “todo aquele que pratica a justiça é nascido dEle” (lJo 2.29).

O amor genuíno, semelhante ao de Cristo, apresentará um resultado específico na vida: “Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus” (lJo 4.7). Outro efeito do novo nascimento é a vitória sobre o mundo: “E os seus [de Deus] mandamentos não são pesados. O que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (lJo 5.3,4). Aqui João explica que a regeneração capacita a vencer as pressões e as tentações do mundo que, de outra forma, nos impediriam de obedecer aos mandamentos de Deus e de seguir os seus caminhos. João diz que nos venceremos essas pressões, e, portanto, não será pesado obedecer aos mandamentos de Deus, pelo contrário, subentende-se que essa obediência será algo que faremos com alegria.

Finalmente, João observa que outro resultado da regeneração é a proteção que ela nos dá em relação ao próprio Satanás: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não está no pecado; aquele que nasceu de Deus o protege, e o Maligno não o atinge” (lJo 5.18). Embora possa haver ataques de Satanás, João reassegura a seus leitores: “aquele que está em vocês é maior é aquele que está no mundo” (lJo 4.4), e esse poder maior do Espírito Santo dentro de nós nos guarda em segurança do prejuízo espiritual que o Maligno poderia nos causar.

Devemos perceber que João enfatiza todas essas coisas como resultados necessários na vida dos que nasceram de novo. Se há regeneração genuína na vida de uma pessoa, ela crerá que Jesus é o Cristo, e isso a refreará de viver continuamente em pecado, ela amará seus irmãos na fé, vencerá as tentações do mundo e será guardada segura do prejuízo definitivo causado pelo Maligno. Essas passagens mostram que é impossível a pessoa ser regenerada e não se converter verdadeiramente.

Outros resultados da regeneração são mencionados por Paulo quando fala do “fruto do Espírito”, a saber, o resultado na vida que é produzido pelo poder do Espírito Santo trabalhando na vida de cada crente: “Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio” (Gl 5.22,23). Se há regeneração verdadeira, esses elementos do fruto do Espírito serão mais e mais evidentes na vida da pessoa. Todavia, por outro lado, os descrentes, incluindo os que se imaginam crentes, mas não são, claramente mostrarão a falta dessas qualidades de caráter em suas vidas. Jesus disse aos discípulos: Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos. Pode alguém colher uvas de um espinheiro ou figos de ervas daninhas? Semelhantemente, toda árvore boa dá frutos bons, mas a árvore ruim dá frutos ruins.A árvore boa não pode dar frutos ruins, nem a árvore ruim pode dar frutos bons. Toda árvore que não produz bons frutos é cortada e lançada ao fogo. Assim, pelos seus frutos vocês os reconhecerão! (Mt 7.15-20).Nem Jesus nem Paulo nem João destacam a atividade na igreja ou os milagres como evidência da regeneração. Ao contrário, ressaltam as qualidades do caráter na vida. De fato, logo após os versículos citados anteriormente, Jesus adverte que no dia do juízo muitos lhe dirão: “‘Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal!” (Mt 7.22,23). Profecia, exorcismo e muitos milagres e atos poderosos em nome de Jesus (para não falar de outras espécies de intensas atividades da igreja na força da carne durante décadas na vida de uma pessoa) não proporcionam evidência convincente de que uma pessoa verdadeiramente nasceu de novo. Aparentemente essas coisas podem ser produzidas pela força do próprio homem natural ou com a ajuda do Maligno. Mas o amor genuíno a Deus e a seu povo, a obediência sincera aos seus mandamentos e as qualidades do caráter semelhante ao de Cristo que Paulo chama fruto do Espírito, demonstrados firmemente por longo tempo na vida de uma pessoa, não podem simplesmente ser produzidos por Satanás ou pelo homem natural trabalhando em sua força. Essas coisas só podem acontecer pelo Espírito de Deus trabalhando interiormente em nós, dando-nos nova vida.

Autor: Wayne Grudem
Fonte: Teologia Sistemática do autor, Ed. Vida Nova


Regeneração e Novo Nascimento


João 3:3: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”.

Regeneração é o ato realizado só por Deus, no qual ele renova o coração humano, fazendo-o reviver depois de estar morto. Na regeneração, Deus age no âmago, no ponto mais fundamental da pessoa humana. Isso significa que não há preparação nem disposição precedente da parte do pecador que solicite ou contribua para a nova vida que lhe é dada por Deus.

A regeneração é necessária porque todos os descendentes de Adão e Eva herdaram o pecado deles e são moralmente incapazes de fazer o que é bom. Paulo escreveu aos efésios que as pessoas estão mortas em seus delitos e pecados. Nesse estado, estão sem Deus e sem esperança no mundo. Não como recompensa ao mérito deles, mas livremente e em amor, Deus pronuncia a palavra que faz o morto reviver.

Os versículos clássicos de Jo 3, que usam a linguagem do “novo nascimento” ou “nascer de cima”, dão ao perfil da regeneração seus pormenores mais nítidos. Jesus diz que, a menos que se nasça de novo, não se pode ver o Reino do céu. Sem a graça de Deus, os pecadores não podem encontrar a porta, muito menos entrar por ela. Em outro lugar, Jesus disse: “Sem mim nada podeis fazer”, e, em se tratando da salvação, “sem Deus nada é possível”.

Jesus mostrou-se surpreso pelo fato de Nicodemos ficar perplexo com a exigência de um novo nascimento. Nicodemos devia ter compreendido, com base no Antigo Testamento, que ele era um pecador e necessitava de uma nova vida; e ele deve ter reconhecido os profetas, que prometeram que Deus haveria de remover os corações de carne e substituí-los por corações prontos para fazer a vontade de Deus. Deus ressuscitaria os mortos, daria vida aos cegos e pregaria as boas-novas àqueles que não podiam salvar-se a si mesmos.

A regeneração é o dom da graça de Deus; é a obra imediata, sobrenatural do Espírito Santo, realizada em nós. Seu efeito é fazer com que nós, da morte espiritual, passemos à vida espiritual. Muda a disposição de nossa alma, inclinando nosso coração para Deus. O fruto da regeneração é a fé. A regeneração antecede a fé.

As crianças podem nascer de novo, ainda que a fé, exercida por elas, não possa ser tão visível como a dos adultos. Para muitos cristãos, o momento em que nasceram de novo é claramente reconhecido; porém, para outros, não, especialmente se receberam o novo nascimento na infância. Somos responsáveis por saber se somos espiritualmente renascidos, não por conhecer a ocasião e o lugar em que nascemos de novo.

 

Fonte: Bíblia de Estudo de Genebra, Nota Teológica, página 1233. 

 


A Regeneração Precede a Fé

Um dos momentos mais dramáticos em minha vida, na formação de minha teologia, ocorreu em uma sala de aula de um seminário. Um de meus professores foi ao quadro negro e escreveu estas palavras em letras garrafais:

A REGENERAÇÃO PRECEDE A FÉ

Aquelas palavras foram um choque para o meu sistema. Eu tinha entrado no seminário crendo que a obra principal do homem para efetivar o novo nascimento era a fé. Eu pensava que nós tínhamos que primeiro crer em Cristo, para então nascermos de novo. Eu uso as palavras "para então" aqui por uma razão. Eu estava pensando em termos de passos que deviam ocorrer em uma certa seqüência. Eu colocava a fé no princípio. A ordem parecia algo mais ou menos assim:

"Fé - novo nascimento -justificação."

Eu não tinha pensado sobre esse assunto com muito cuidado. Nem tinha atentado cuidadosamente às palavras de Jesus a Nicodemus. Eu presumia que mesmo sendo um pecador, uma pessoa nascida da carne e vivendo na carne, eu ainda tinha uma pequena ilha de justiça, um pequeno depósito de poder espiritual remanescente em minha alma para me capacitar a responder ao Evangelho sozinho. Possivelmente eu tinha sido confundido pelo ensino da Igreja Católica Romana. Roma, e muitos outros ramos do Cristianismo, tem ensinado que a regeneração é graciosa; ela não pode acontecer aparte da ajuda de Deus.

Nenhum homem tem o poder para ressuscitar a si mesmo da morte espiritual. A divina assistência é necessária. Esta graça, de acordo com Roma, vem na forma do que é chamado graça preveniente. "Preveniente" significa que ela vem antes de outra coisa. Roma adiciona a esta graça preveniente o requerimento de que devemos "cooperar com ela e assentir diante dela", antes que ela possa atuar em nossos corações.

Esta concepção de cooperação é na melhor das hipóteses uma meia verdade. Sim, a fé que exercemos é nossa fé. Deus não crê por nós. Quando eu respondo a Cristo, é a minha resposta, minha fé, minha confiança que está sendo exercida. O assunto, contudo, se aprofunda. A questão ainda permanece: "Eu coopero com a graça de Deus antes de eu nascer de novo, ou a cooperação ocorre depois?" Outro modo de fazer esta pergunta é questionar se a regeneração é monergista ou sinergista. Ela é operativa ou cooperativa? É eficaz ou dependente? Algumas destas palavras são termos teológicos que requerer maior explanação.

MONERGISMO E SINERGISMO

Uma obra monergística é uma obra produzida por uma única pessoa. O prefixo mono significa um. A palavra erg refere-se a uma unidade de trabalho. Palavras como energia são construídas com base nessa raiz. Uma obra sinergística é uma que envolve cooperação entre duas ou mais pessoas ou coisas. O prefixo sun significa "juntamente com".

Eu faço esta distinção por um razão. O debate entre Roma e Lutero foi travado sobre este simples ponto. A questão era esta: A regeneração é uma obra monergística de Deus ou uma obra sinergística que requer cooperação entre homem e Deus? Quando meu professor escreveu "A regeneração precede a fé" no quadro negro, ele estava claramente tomando o lado da resposta monergística. Depois de uma pessoa ser regenerada, esta pessoa coopera pelo exercício de sua fé e confiança. Mas o primeiro passo é a obra de Deus e de Deus tão-somente.

A razão pela qual não cooperamos com a graça regeneradora antes dela agir sobre nós e em nós é que nós não podemos. Não podemos porque estamos mortos espiritualmente. Não podemos assistir o Espírito Santo na vivificação de nossas almas para a vida espiritual, da mesma forma que Lázaro não podia ajudar Jesus a ressuscitá-lo dos mortos.

Quando comecei a lutar com o argumento do Professor, fiquei surpreso ao descobrir que o estranho som de seu ensino não era novidade. Agostinho, Martinho Lutero, João Calvino, Jonathan Edwards, George Whitefield - até o grande teólogo medieval Tomás de Aquino ensinaram esta doutrina. Tomás de Aquino é o Doctor Angelicus da Igreja Católica Romana. Por séculos seu ensino teológico era aceito como dogma oficial pela maioria dos Católicos. Então, ele era a última pessoa que eu esperava sustentar tal visão da regeneração. Todavia Aquino insistiu que a graça regeneradora é uma graça operante, e não uma graça cooperativa. Aquino falou da graça preveniente, mas ele falou de uma graça que vem antes da fé, que é a regeneração.

Estes gigantes da história Cristã derivaram a visão deles das Sagradas Escrituras. A frase chave na Carta de Paulo aos Efésios é esta: "estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)" (Efésios 2:5). Aqui Paulo localiza o tempo em que a regeneração ocorre. Ela ocorreu "quando estávamos ainda mortos". Com um único raio de revelação apostólica foram esmagadas, total e completamente, todas as tentativas e entregar a iniciativa na regeneração aos homens. Novamente, homens mortos não cooperam com a graça. A menos que a regeneração ocorra primeiro, não há possibilidade de fé.

Isso não diz nada de diferente do que Jesus disse a Nicodemus. A menos que um homem nasça de novo primeiro, ele não pode ver ou entrar no reino de Deus. Se nós cremos que a fé precede a regeneração, então nós colocamos nossos pensamentos, e, portanto, nós mesmos, em direta oposição não só aos gigantes da história Cristã, mas também ao ensino de Paulo e do nosso próprio Senhor Jesus Cristo.

Autor: R. C. Sproul
Fonte: O Mistério do Espírito Santo, Tyndale House, 1990
Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT, 18 de Março de 2003 www.monergismo.com


A conversão (fé e arrependimento)
 


Que é o verdadeiro arrependimento?
Que é fé salvífica?
Podem as pessoas aceitar Jesus como Salvador, mas não como Senhor?
 
1.  EXPLICAÇÃO E BASE BÍBLICA


Os dois capítulos anteriores explicaram como o próprio Deus (por meio da pregação humana da Palavra) promulga o chamado do evangelho a nós e, pela obra do Espírito Santo, nos regenera, comunicando-nos nova vida espiritual interior. Neste capítulo vamos examinar nossa resposta ao chamado do evangelho. Podemos definir a conversão da seguinte maneira: A conversão é a nossa resposta deliberada ao chamado do evangelho, pela qual sinceramente nos arrependemos dos pecados e colocamos a nossa confiança em Cristo para sermos salvos.

A palavra conversão significa “voltar-se” — aqui ela significa a volta espiritual, a volta do pecado para Cristo. Esse retorno do pecado é chamado arrependimento, e o voltar-se para Cristo é chamado fé. Podemos olhar para cada um desses elementos da conversão e, em certo sentido, não importa qual deles vamos discutir primeiro, porque nenhum pode ocorrer sem o outro, e eles devem ocorrer juntos quando a verdadeira conversão acontece. Para os propósitos deste capítulo, examinaremos a fé salvadora primeiro e a seguir o arrependimento.
 
A. A verdadeira fé salvadora inclui conhecimento, aprovação e confiança pessoal.

1. Apenas o conhecimento não é suficiente.

A fé salvadora pessoal, da maneira como a Escritura a entende, envolve mais que mero conhecimento. É necessário que tenhamos algum conhecimento de quem Cristo é e o que ele fez, pois “como crerão naquele de quem não ouviram falar?” (Rm 10.14). Porém o conhecimento a respeito dos fatos da vida, morte e ressurreição de Jesus por nós não é suficiente, pois as pessoas podem conhecer fatos, mas podem se rebelar contra eles ou não gostar deles. Por exemplo, Paulo nos diz que muitas pessoas conheciam as leis de Deus, mas não as apreciavam: “Embora conheçam o justo decreto de Deus, de que as pessoas que praticam tais coisas merecem a morte, não somente continuam a praticá-las, mas também aprovam aqueles que as praticam” (Rm 1.32). Mesmo os demônios sabem quem Deus é e conhecem os fatos a respeito da vida de Jesus e de sua obra salvadora, pois Tiago diz: “Você crê que existe um só Deus? Muito bem! Até mesmo os demônios crêem—e tremem!” (Tg 2.19).
Mas esse conhecimento certamente não significa que os demônios são salvos.
 
2. Conhecimento e aprovação não são suficientes.

Além disso, o mero conhecimento dos fatos e a aprovação deles ou a concordância de que eles são verdadeiros não é suficiente. Nicodemos sabia que Jesus tinha vindo de Deus, porque ele disse: “Mestre, sabemos que ensinas da parte de Deus, pois ninguém pode realizar os sinais miraculosos que estás fazendo, se Deus não estiver com ele” (Jo 3.2). Nicodemos avaliara os fatos da situação, incluindo os ensinos de Jesus e os seus milagres notáveis, e havia tirado a conclusão correta daqueles fatos: Jesus era o mestre vindo da parte de Deus. Mas isso somente não significava que Nicodemos tinha fé salvadora, pois ele tinha ainda de colocar sua confiança em Cristo para ser salvo; ele ainda precisava “crer nele” O rei Agripa proporciona outro exemplo de conhecimento e aprovação sem fé salvadora. Paulo percebeu que o rei Agripa conhecia e aparentemente via com aprovação as Escrituras dos judeus (o que hoje chamados AT). Quando Paulo estava no tribunal perante Agripa, ele disse: “Rei Agripa, crês nos profetas? Eu sei que sim” (At 26.27). Todavia, Agripa não tinha a fé salvadora, pois ele disse a Paulo: “Você acha que em tão pouco tempo pode convencer-me a tornar-me cristão?” (At 26.28).


 
B.        Fé e arrependimento devem vir juntos

Podemos definir o arrependimento da seguinte maneira: Arrependimento é a tristeza de coração pelo pecado, a renúncia ao pecado e o compromisso sincero de abandoná-lo e de andar em obediência a Cristo.

Essa definição indica que o arrependimento é algo que pode ocorrer em determinado ponto do tempo e não é equivalente à demonstração de mudança no padrão de vida de uma pessoa. Semelhantemente à fé, o arrependimento é o entendimento intelectual (de que o pecado está errado), a aprovação emocional dos ensinos da Escritura com respeito ao pecado (tristeza pelo pecado e o ódio dele) e a decisão pessoal de abandoná-lo (a renúncia ao pecado e decisão voluntária de deixá-lo e, em vez disso, de levar uma vida de obediência a Cristo). Não podemos dizer que alguém já vive realmente esse tipo de vida mudada antes de arrepender-se genuinamente, nem podemos dizer que o arrependimento se torna uma espécie de obediência que prestamos para merecer a própria salvação. Obviamente, o genuíno arrependimento resultará na vida mudada. De fato, a pessoa verdadeiramente arrependida começará a viver uma vida transformada, e podemos chamar essa vida transformada fruto do arrependimento. Mas nunca devemos exigir que haja um período de tempo em que uma pessoa realmente viva uma vida mudada antes que possamos lhe dar a certeza do perdão. O arrependimento é algo que ocorre no coração e envolve a totalidade da pessoa na decisão de abandonar o pecado.

E importante perceber que a mera tristeza que advém das ações de uma pessoa, ou mesmo o remorso profundo por causa dessas ações, não constitui o genuíno arrependimento a menos que ele seja acompanhado da decisão sincera de abandonar o pecado que está sendo cometido contra Deus. O arrependimento genuíno envolve a profunda convicção de que a pior coisa a respeito de pecado é que ele ofende o Deus santo. Paulo pregava a respeito da conversão “a Deus com arrependimento e fé em nosso Senhor Jesus” (At 20.21). Ele diz aos coríntios: “Agora, porém, me alegro, não porque vocês foram entristecidos, mas porque a tristeza os levou ao arrependimento. Pois vocês se entristeceram como Deus desejava, e de forma alguma foram prejudicados por nossa causa. A tristeza segundo Deus não produz remorso, mas sim um arrependimento que leva à salvação, e a tristeza segundo o mundo produz morte” (2Co 7.9,10). Uma espécie de tristeza mundana pode envolver pesar da pessoa por suas ações e provavelmente também o temor de punição, mas não é a renúncia genuína do pecado ou o compromisso de abandoná-lo. Hebreus 12.17 nos diz que Esaú chorou por causa das conseqüências das suas ações, mas não se arrependeu verdadeiramente. Além disso, como 2Coríntios 7.9,10 indica, mesmo a tristeza verdadeira e piedosa é apenas um fator que conduz ao arrependimento genuíno, mas tal tristeza não é em si mesma a decisão sincera do coração na presença de Deus que torna autêntico o arrependimento.

A Escritura coloca o arrependimento e a fé juntos, como aspectos diferentes do mesmo ato de ir a Cristo para ser salvo. O que acontece não é que a pessoa primeiro se volta do pecado e em seguida confia em Cristo, ou primeiro confia em Cristo e a seguir se volta do pecado, mas que ambas as coisas ocorrem ao mesmo tempo. Quando nos voltamos para Cristo a fim de receber salvação de nossos pecados, estamos simultaneamente nos apartando dos pecados dos quais pedimos a Deus que nos salve. Se isso não fosse verdade, o abandono do pecado para voltar-nos para Cristo para sermos salvos dificilmente poderia ser a conversão genuína a ele ou confiança nele.

O fato de que o arrependimento e a fé são simplesmente dois lados diferentes da mesma moeda, ou dois aspectos diferentes do mesmo evento da conversão, pode ser visto na figura abaixo:

 

Nesse diagrama, a pessoa que se volta genuinamente para Cristo para a salvação deve ao mesmo tempo ser liberta do pecado ao qual está presa a fim de voltar-se para Cristo.Assim, nem o arrependimento nem a fé vêm primeiro; eles devem vir juntos. John Murray fala de ”fé penitente” e de “arrependimento confiante”.
Não-cristão ARREPENDIMENTO + FE = CONVERSÃO

Conversão é a ação simples de voltar-se do pecado em arrependimento e voltar-se para Cristo em fé.
Portanto, é claramente contrário à evidência do NT falar a respeito da possibilidade de haver verdadeira fé salvadora sem haver arrependimento verdadeiro do pecado. É também contrário ao NT falar a respeito da possibilidade de alguém aceitar Cristo “como Salvador” mas não “como Senhor”, se isso significa simplesmente depender dele para a salvação, mas sem o compromisso de abandonar o pecado e ser obediente a Cristo daquele ponto em diante.

Quando Jesus convida pecadores: “Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso”, imediatamente acrescenta: “Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim” (Mt 11.28,29). Ira ele inclui tomar o fardo sobre nós, estando sujeitos à sua direção e orientação, aprendendo dele e sendo obedientes a ele. Se não temos o desejo de tal comprometimento, então não colocamos verdadeiramente nossa confiança nele.
Quando a Escritura fala em confiar em Deus ou em Cristo, ela muitas vezes conecta tal confiança ao arrependimento genuíno. Por exemplo, Isaías dá um testemunho eloqüente que é típico da mensagem de muitos profetas do AT: Busquem o SENHOR enquanto é possível achá-lo; clamem por ele enquanto está perto. Que o ímpio abandone o seu caminho, e o homem mau, os seus pensamentos. Volte-se ele para o SENHOR, que terá misericórdia dele; volte-se para o nosso Deus, pois ele dá de bom grado o seu perdão (Is 55.6,7).

Aqui ambos os elementos, o arrependimento do pecado e a vinda a Deus em busca do perdão, são mencionados. No NT, Paulo resume o seu ministério do evangelho como a tarefa de testificar, “tanto a judeus como a gregos, que eles precisam converter-se a Deus com arrependimento e fé em nosso Senhor Jesus” (At 20.21).O autor de Hebreus inclui como os dois primeiros elementos em uma lista de doutrinas elementares o “arrependimento de atos que conduzem à morte” e a “fé em Deus” (Hb 6.1). Naturalmente, às vezes a fé é mencionada isoladamente como necessária para vir a Cristo para ser salvo (v. Jo 3.16; At 16.31; Rm 10.9; Ef 2.8,9; etc.). Essas são passagens familiares, e nós as enfatizamos muitas vezes quando explicamos o evangelho a outras pessoas. Mas o que não percebemos com freqüência é que há muitas outras passagens onde somente o arrependimento é mencionado, pois está simplesmente subentendido que o verdadeiro arrependimento também envolverá a fé em Cristo para o perdão dos pecados. Os autores do NT entenderam tão bem que o arrependimento genuíno e a fé genuína tinham de estar juntos que muitas vezes mencionaram somente o arrependimento, entendendo que a fé já estava incluída, porque voltar-se dos pecados de modo genuíno é impossível independentemente do genuíno voltar-se para Deus. Portanto, exatamente antes de Jesus retornar ao céu, ele disse aos discípulos: “Está escrito que o Cristo haveria de sofrer e ressuscitar dos mortos no terceiro dia, e que em seu nome seria pregado o arrependimento para perdão de pecados a todas as nações, começando por Jerusalém” (Lc 24.46,47).A fé salvadora está implícita na frase “perdão de pecados”, mas não está explicitamente mencionada.

A pregação registrada no livro de Atos mostra o mesmo padrão. Após o sermão de Pedro no Pentecoste, a multidão perguntou: “‘Irmãos, que faremos?’ Pedro respondeu: ‘Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos seus pecados” (At 2.37,38). Em seu segundo sermão, Pedro falou aos ouvintes de modo semelhante, dizendo: “Arrependam-se, pois, e voltem-se para Deus, para que os pecados sejam cancelados” (At 3.19). Mais tarde, quando os apóstolos estavam no tribunal diante do Sinédrio, Pedro falou de Cristo, dizendo: “Deus o exaltou, colocando-o à sua direita como Príncipe e Salvador, para dar a Israel arrependimento e perdão de pecados” (At 5.31). Quando Paulo estava pregando no Areópago de Atenas para a assembléia de filósofos gregos, disse: “No passado Deus não levou em conta essa ignorância, mas agora ordena que todos, em todo lugar, se arrependam” (At 17.30). Ele também diz em suas cartas que “a bondade de Deus [...] leva ao arrependimento” (Rm 2.4), e fala do “arrependimento que leva à salvação” (2Co 7.10).

Quando percebemos que a fé salvadora genuína deve ser acompanhada pelo genuíno arrependimento do pecado, isso nos ajuda a entender por que algumas pregações do evangelho apresentam resultados inadequados hoje. Se não há menção da necessidade de arrependimento, às vezes a mensagem do evangelho se torna somente “crê em Jesus Cristo e serás salvo”, sem qualquer menção ao arrependimento. Mas essa versão enfraquecida do evangelho não exige o compromisso do coração para com Cristo — o compromisso com a pessoa de Cristo. Se o evangelho é genuíno, deve incluir o compromisso de abandonar o pecado. A pregação sobre a necessidade de fé sem o arrependimento é a pregação do evangelho pela metade. Resultará em muitas pessoas sendo enganadas, pensando que ouviram o evangelho cristão e obedeceram a ele, mas nada aconteceu. Podem até dizer algo do tipo: “Aceitei Cristo como Salvadoras várias vezes e isso nunca funcionou”. Todavia, nunca realmente receberam Cristo como seu Salvador, porque ele vem a nós em sua majestade e convida-nos a recebê-lo como ele é — o único que verdadeiramente merece e exige ser o Senhor absoluto de nossa vida.
Por fim, o que diremos a respeito da prática comum de pedir às pessoas que orem a fim de receber a Cristo como seu Salvador pessoal e Senhor? Desde que a fé pessoal em Cristo deve envolver uma decisão da vontade, é com freqüência muito útil expressar essa decisão em palavras faladas, e isso poderia muito naturalmente tomar a forma de uma oração a Cristo na qual lhe dizemos de nossa tristeza pelos pecados, de nosso compromisso de abandoná-los e de nossa decisão de realmente colocar nossa confiança nele. Tal oração em si mesma não nos salva, mas a atitude do coração que ela representa se constitui na verdadeira conversão, e a decisão de expressar essa oração pode muitas vezes ser o ponto em que a pessoa verdadeiramente vem à fé em Cristo.
 
C. Tanto a fé como o arrependimento continuam pela vida toda

Embora tenhamos considerado a fé e o arrependimento iniciais os dois aspectos da conversão no começo da vida cristã, é importante perceber que a fé e o arrependimento não estão confinados à etapa inicial de nossa vida cristã. Antes tratam-se de atitudes do coração que permanecem ao longo de toda a nossa vida como cristãos. Jesus diz aos seus discípulos para orar diariamente:
“Perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6.12), oração que, se autêntica, certamente envolverá tristeza diária pelo pecado e arrependimento genuíno. E o Cristo ressuscitado diz à igreja de Laodicéia: “Repreendo e disciplino aqueles que eu amo. Por isso, seja diligente e arrependa-se” (Ap 3.19; cf.2Co 7.10).

Com relação à fé, Paulo nos diz: “Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor” (lCo 13.13). Ele certamente quer dizer que esses três permanecem em todo o transcorrer de nossa vida, mas provavelmente também quer dizer que eles permanecem por toda a eternidade: se fé é a confiança em Deus para suprir nossas necessidades, então essa atitude nunca cessará, nem mesmo na era por vir. Mas, de qualquer forma, o ponto claramente enfatizado é o de que a fé continua no decorrer de toda esta vida. Paulo também diz: “A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2.20).

Portanto, embora seja verdadeiro que a fé salvadora inicial e o arrependimento inicial ocorrem somente uma vez na vida, e quando ocorrem constituem a verdadeira conversão, as atitudes do coração de arrependimento e fé somente começam na conversão. Essas mesmas atitudes devem continuar no decorrer de toda nossa vida como cristãos. A cada dia deveria haver no coração o sentimento de arrependimento pelos pecados que cometemos e fé em Cristo para suprir nossas necessidades e capacitar-nos a viver a vida cristã.
 
Autor: Wayne Grudem
Fonte: Teologia Sistemática do autor, Ed. Vida Nova


ADOÇÃO


Adoção

Gálatas 4:5: “Para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos”.

O dom da justificação, isto é, a presente aceitação por Deus, o Juiz do mundo, é acompanhada pelo dom da adoção, isto é, o dom de a pessoa poder tornar-se filho do Pai Celestial (Gl 3.26; 4,4-7). No mundo de Paulo, a adoção se fazia comumente de jovens adultos, homens, de bom caráter, que se tornavam herdeiros e mantinham o nome da família de pessoas ricas que, de outro modo, não teriam filhos. Paulo, contundo, proclama a adoção graciosa de Deus, que adota indivíduos de mau caráter, para se tornarem “herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8.17).

A justificação é a benção básica sobre a qual se fundamenta a adoção; a adoção é a bênção culminante para a qual a justificação abre caminho. O status de adotado pertence a todos os que recebem Cristo (Jo 1.12). Em Cristo e através de Cristo, Deus ama seus filhos adotivos, como ama a seu Filho unigênito, e partilhará com eles a glória que Cristo usufrui agora (Rm 8.17, 38-39). Os crentes estão sob o cuidado e disciplina paternais de Deus (Mt 6.26; Hb 12.5-11). Eles devem orar a Deus que é seu próprio Pai do céu (Mt 6.5-34), expressando desse modo o instinto filial que o Espírito Santo implantou neles (Rm 8.15-17; Gl 4.6).

Adoção e regeneração constituem duas realidades que permanecem juntas, como dois aspectos da salvação assegurada por Cristo (Jo 1.12-13), porém são realidades que devem ser distinguidas entre si. A adoção resulta num novo relacionamento, enquanto que a regeneração é uma mudança de nossa natureza moral. Contudo, a conexão entre elas é clara. Deus quer que seus filhos, a quem ele ama, tenham o seu caráter e, para isso, ele toma providências.

Fonte: Bíblia de Estudos de Genebra, Notas Teológicas, página 1394 


PREDESTINAÇÃO (Eleição e Reprovação)

A Predestinação

Provérbios 16.4
O SENHOR fez todas as coisas para determinados fins e até o perverso, para o dia da calamidade.

João 13.18
Não falo a respeito de todos vós, pois eu conheço aqueles que escolhi; é, antes, para que se cumpra a Escritura: Aquele que come do meu pão levantou contra mim seu calcanhar.

Romanos 8.30
E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.

Efésios 1.4-5
assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade,

2 Tessalonicenses 2.13-14
Entretanto, devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade, para o que também vos chamou mediante o nosso evangelho, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo.

Poucas doutrinas suscitam tanta polêmica ou provocam tanta consternação como a doutrina da predestinação. Trata-se de uma doutrina difícil, que precisa ser discutida com grande cuidado e precaução. Apesar disso, trata-se de uma doutrina bíblica, com a qual temos de lidar. Não devemos ousar ignorá-la.

Praticamente, todas as igrejas cristãs têm algum tipo de doutrina sobre a predestinação. Isso é inevitável, visto que o conceito claramente se encontra nas Escrituras. Muitas igrejas, entretanto, discordam—muitas vezes veementemente — quanto ao seu significado. O ponto de vista metodista é diferente do ponto de vista luterano, o qual discorda do ponto de vista presbiteriano. Embora seus pontos de vista difiram, cada um deles está tentando chegar a uma sólida compreensão desta difícil questão de maneira apropriada.

Em sua forma mais elementar, a predestinação significa que nosso destino final, seja o céu ou o inferno, é decidido por Deus não somente antes de irmos para lá, mas até mesmo antes que tivéssemos nascido. A predestinação ensina que nosso destino final está nas mãos de Deus. Outra maneira de expressar isso é: Desde toda a eternidade, antes mesmo que nós existíssemos, Deus decidiu salvar alguns membros da raça humana e permitir que o resto da raça humana perecesse. Deus fez uma escolha— escolheu alguns indivíduos para serem salvos na eterna bênção do céu e escolheu passar por sobre outros, permitindo que sofressem as conseqüências dos seus pecados no tormento eterno do inferno.

A aceitação desta definição é comum a muitas igrejas. Para chegar ao âmago da questão, alguém deve perguntar: como Deus fez tal escolha? O ponto de vista não-reformado, defendido pela grande maioria dos cristãos, é que Deus faz essa escolha com base em sua presciência. Deus escolhe para a vida eterna aqueles que sabe que o escolherão. Esse conceito é chamado de visão presciente da predestinação, porque baseia-se na presciência de Deus quanto às decisões ou ações humanas.

A visão reformada difere no fato de que ela vê a decisão final para a salvação nas mãos de Deus, e não nas mãos do homem. Segundo este ponto de vista, a eleição de Deus é soberana. Não se baseia em decisões ou respostas previstas por parte dos seres humanos. Aliás, vê tais decisões fluindo da graça soberana de Deus.

O ponto de vista da Reforma afirma que nenhuma pessoa caída jamais escolheria a Deus por iniciativa própria. Pessoas caídas ainda têm livre-arbítrio e podem escolher o que desejam. O problema é que não nutrem nenhum desejo por Deus e não escolherão a Cristo a menos que sejam antes regeneradas. A fé é um dom que procede do novo nascimento. Somente aqueles que foram eleitos responderão com fé ao Evangelho.

Os eleitos escolhem a Cristo somente porque antes foram escolhidos por Deus. Como no caso de Esaú e Jacó, o eleito foi escolhido exclusivamente com base no beneplácito soberano de Deus e não com base em algo que tivessem feito ou desejado fazer. Paulo declara:

“E não ela somente, mas também Rebeca, ao conceber de um só, Isaque, nosso pai. E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela. O mais velho será servo do mais moço... Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia.” Romanos 9.10-12, 16

O problema mais incômodo envolvendo a predestinação é que Deus não escolhe ou elege salvar todas as pessoas. Ele reserva para si o direito de ter misericórdia de quem quer ter misericórdia. Alguns membros da humanidade caída recebem a graça e a misericórdia da eleição. Deus ignora o restante, deixando-os em seus pecados. Os não-eleitos recebem justiça. Os eleitos recebem misericórdia.

Ninguém é tratado com injustiça. Deus não é obrigado a ser misericordioso igualmente com todos. É decisão dele o quanto será misericordioso. Mesmo assim, nunca pode ser acusado de ser injusto com qualquer pessoa (ver Rm 9.14,15).

Sumário

1. A predestinação é uma doutrina difícil e deve ser tratada com cuidado.

2. A Bíblia ensina a doutrina da predestinação.

3. Muitos cristãos definem a predestinação em termos de presciência de Deus.

4. A visão da Reforma não considera a presciência como uma explicação para a predestinação bíblica.

5. A predestinação baseia-se na escolha de Deus e não na escolha dos seres humanos.

6. Pessoas não-regeneradas não nutrem nenhum desejo de escolher a Cristo.

7. Deus não elege todas as pessoas. Reserva para si o direito de ter misericórdia de quem quer.

8. Deus não trata nenhuma pessoa injustamente.


Autor: R.C. Sproul
Fonte: Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre este Livro em http://www.cep.org.br


Predestinação e Reprovação
Ex 7.1-5; Pv 16.4; Rm 9; Ef 1.3-6; Judas 1.4

"Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), Foi-lhe dito a ela: O maior servirá o menor.Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú. Que diremos pois? que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma. Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece.Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer. Dir-me-ás então: Por que se queixa ele ainda? Porquanto, quem tem resistido à sua vontade?Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição; Para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou, Os quais somos nós, a quem também chamou"  (Rm 9.11-24)

Toda moeda tem dois lados. Existe também um outro lado da doutrina da eleição. A eleição refere-se a apenas a um aspecto da questão mais ampla da predestinação. Outro lado da moeda é a questão da reprovação. Deus declarou que amava Jacó mas odiava a Esaú. Como podemos entender essa referência ao ódio divino?

A predestinação é dupla. A única maneira de evitar a doutrina da predestinação dupla é afirma que Deus predestinou todos para a eleição ou que não predestina ninguém seja para a eleição seja para a reprovação. Visto que a Bíblia ensina claramente a predestinação para a eleição e nega a salvação universal, temos de concluir que a predestinação é dupla: inclui  tanto a eleição como a reprovação. A dupla predestinação é inevitável se tomarmos a Bíblia a sério. O ponto crucial, entretanto, é como entender a predestinação dupla.

Alguns cristão têm  encerado a predestinação dupla como uma questão de causação igual, onde Deus é igualmente responsável por fazer com que o  réprobo não creia, assim como é responsável por fazer com que o eleito creia. Chamamos isso de visão positivo-positivo da predestinação.

A visão positivo-positivo da predestinação ensina que Deus intervém positiva e ativamente na vida dos eleitos para operar a graça em seus corações e levá-los à fé. Semelhantemente, no caso dos réprobos, ele opera o mal nos seus corações e impede ativamente que cheguem à fé. Esse ponto de vista tem sido freqüentemente chamado de "hipercalvinismo", porque vai além do ponto de vista de Calvino, Lutero e outros reformadores.

A visão reformada da predestinação dupla segue e um esquema positivo-negativo. No caso dos eleitos, Deus intervém de forma positiva e ativa operando a graça em seus corações e levando-os à fé salvadora. Deus regenera de  maneira unilateral os eleitos e assegura sua salvação. No caso dos réprobos, ele não opera o mal em seus corações ou impedem que cheguem à fé. Pelo contrário, ele os ignora, deixando-os à mercê de seus próprios esquemas pecaminosos. Segundo este ponto de vista, não há simetria na ação divina. A atividade de Deus é assimétrica entre os eleitos e os réprobos. Existe, contudo, um tipo de igual supremacia. O réprobo, a quem Deus ignora, está definitivamente condenado, e  sua condenação é tão certa e inevitável quanto a salvação final do eleito.

O problema está ligado a declarações bíblicas tais como aquela concernente ao endurecimento que Deus causa no coração do Faraó. É inquestionável que a Bíblia ensina que Deus endureceu Faraó. A questão que permanece é: como Deus endureceu o coração de Faraó: Lutero defendia um endurecimento passivo, ao invés de ativo; quer dizer. Deus não criou um novo nível de maldade no coração do rei. Já havia mal suficiente no coração dele para incliná-lo a resistir a cada estágio da vontade de Deus. Tudo o que Deus tem a fazer para endurecer uma pessoa é retirar sua graça dela e deixá-la completamente entregue aos seus próprios impulsos malignos. è precisamente isto que Deus faz com os condenados ao inferno. Abandona-os à sa impiedade.

Em que sentido Deus "odeia" a Esaú? Duas explicações diferentes são oferecidas para resolver este problema. A primeira define o ódio não como uma paixão negativa voltada contra Esaú, mas simplesmente como a ausência de amor redentor. O fato de Deus ter "amado" Jacó significa simplesmente que o fez recipiente de sua graça imerecida. Deus deu a Jacó um benefício que este não merecia. Esaú não recebeu o mesmo benefício, e nesse sentido Deus o odiou.

A primeira explicação soa um pouco como uma defesa especial para não permitir que Deus seja surpreendido odiando alguém. A segunda explicação dá mais força à palavra ódio. Diz simplesmente que Deus de fato odiou a Esaú. Esaú era odioso aos olhos de Deus. Não havia nada nele para Deus amar. Esaú era um vaso próprio para destruição e totalmente digno da ira e do ódio santo de Deus. vamos deixar que o leitor decida.

Sumário

1. A predestinação é dupla; tem dois lados.

2. Alguns cristãos ensinam que Deus é igualmente responsável pela eleição e pela reprovação. Esta é uma característica do hipercalvinismo.

3. A visão reformada da predestinação dupla reflete um esquema positivo-negativo.

4. Deus endureceu o coração de Faraó passiva e não ativamente.

5. Deus odiou a Esaú no sentido de não lhe dar a bênção da graça ou no sentido de excrá-lo como vaso próprio para a destruição.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 2º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre este livro em http://www.cep.org.br


Eleição
DEUS ESCOLHE OS SEUS

Pois Ele (Deus) diz Moisés: “Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão.” Assim, pois, não depende de quem quer, ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia.” Romanos 9.15,16

O verbo eleger significa “selecionar ou escolher”. A doutrina bíblica da eleição consiste em que, antes da Criação, Deus selecionou da raça humana, antevista como decaída, aqueles a quem  Ele redimiria, traria à fé, justificaria e glorificaria em Jesus Cristo e por meio dele (Rm 8.28-39; Ef 1.3-14; 2 Ts 2.13,14; 2 Tm 1.9,10). Esta escolha divina é uma expressão da graça livre e soberana, porque ela é não constrangida e incondicional, não merecida por qualquer coisa naqueles que são seus objetos. Deus não deve aos pecadores nenhuma misericórdia de qualquer espécie, mas somente condenação; por isso, é surpreendente, e razão de sempiterno louvor, que Ele tenha decidido salvar alguns de nós; e louvor duplicado porque sua escolha incluiu o envio de seu próprio Filho para sofrer, como portador do pecado, pelos seus eleitos (Rm 8.32).

A doutrina da eleição, como toda verdade acerca de Deus, envolve mistério e, algumas vezes, incita à controvérsia. Mas na Escritura é uma doutrina pastoral, incluída ali para ajudar os cristãos a verem quão grande é a graça que os salva, conduzindo-os à humildade, confiança, alegria, louvor, fidelidade e santidade como resposta. É o segredo de família dos filhos de Deus. Não sabemos quem mais Ele escolheu entre aqueles que ainda não crêem, nem tampouco a razão por que nos escolheu em particular. O que de fato sabemos é que, primeiro, se não tivéssemos sido escolhidos para a vida, não seríamos crentes agora (pois somente o eleito é trazido à fé), e, em segundo lugar, como crentes eleitos podemos confiar que Deus completará em nós a boa obra que Ele começou (1 Co 1.8,9; Fp 1.6; 1 Ts 5.23,24; 2 Tm 1.12; 4.18). Assim, o conhecimento da eleição por parte de uma pessoa traz conforto e alegria.
 
Pedro nos diz que devemos “confirmar a (nossa) vocação e eleição” (2 Pe 1.10) _ isto é, certifica-la. A eleição é conhecida por seus frutos. Paulo sabia da eleição dos tessalonicenses por sua fé, esperança e amor, a transformação interna e externa que o evangelho tinha operado em sua vida (virtude, conhecimento, domínio próprio, perseverança, piedade, fraternidade, amor: 2 Pe 1.5-7), mais seguros estaremos da própria eleição que nos foi concedida.

Os eleitos são, de um ponto de vista, a dádiva de Deus ao Filho (Jô 6.39; 10.29; 17.2,24). Jesus testifica que veio a este mundo especificamente para salva-los (Jô 6.37-40; 10.14-16,26-29; 15.16; 17.6-26; Ef 5.25-27), e qualquer relato de sua missão deve enfatizar isto.
Reprovação é o nome dado à eterna decisão de Deus a respeito dos pecadores que Ele não escolheu para a vida. Sua decisão é, em essência, não para muda-los, como os eleitos são destinados a ser mudados, mas deixa-los ao pecado, como em seus corações eles já desejam fazer, e finalmente para julga-los como merecem pelo que têm feito. Quando em casos particulares Deus os entrega a seus pecados (isto é, remove as restrições à prática de coisas desobedientes que desejam fazer), isto já é o começo do julgamento. Ele se chama endurecimento” (Rm 9.18; 11.25; cf. Sl 81.12; Rm 1.24,26,28), que leva inevitavelmente culpa maior.
 
A reprovação é uma realidade bíblica (Rm 9.14-24; 1 Pe 2.8), mas não a que se relaciona diretamente com a conduta cristã. Até onde os cristãos saibam, os reprovados não têm face, não nos cabendo tentar identifica-los. Devendo, antes, viver à luz da certeza de que qualquer um pode ser salvo, se ele ou ela arrepender-se e colocar sua fé em Cristo.
 
Devemos ver todas as pessoas que encontramos como possivelmente incluídas entre os eleitos.

Autor: J. I. Packer
Fonte: Teologia Concisa, Ed. Cultura Crista. Compre este livro em http://www.cep.org.br


Eleição e Reprovação

Romanos 9:18: “Logo, tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz”.

Eleger” significa selecionar ou escolher. De acordo com a Bíblia, antes da criação, Deus selecionou – dentre os da raça humana – aqueles que seriam redimidos, justificados, santificados e glorificados em Jesus Cristo (Rm 8.28-29; Ef 1.3-14; 2Ts 2.13-14; 2Tm 1.9-10). A escolha divina é uma expressão da graça livre e soberana de Deus. Não é merecida por coisa alguma por parte daqueles que são escolhidos. Deus não deve aos pecadores nenhuma espécie de misericórdia, pois eles só merecem condenação. Por isso, é maravilhoso que ele escolhesse salvar qualquer um entre nós.

Como toda a verdade a respeito de Deus, a doutrina da eleição envolve mistério e, às vezes, levanta controvérsia. Porém, nas Escrituras, é uma doutrina pastoral, que ajuda os cristãos a verem quão grande é a graça que os salva e os move a responder com humildade, confiança e louvor. Não sabemos quais os outros que Deus escolheu entre os que ainda não são crentes, nem por que ele nos escolheu, especificamente. Sabemos apenas que, se somos crentes agora, é porque fomos escolhidos. Também sabemos que, como crentes, podemos confiar em que Deus acabará a boa obra que começou (1Co 1.8-9; Fp 1.6; 1Ts 5.23-24; 2Tm 1.2; 4.18). Por essas razões, o conhecimento da eleição é uma fonte de gratidão e confiança.

Pedro nos diz que devemos procurar “com diligência ... confirmar (nossa) vocação e eleição” (2Pe 1.10), isto é, devemos tomá-la certa para nós. A eleição é conhecida por seus frutos. Paulo sabia que os tessalonicenses tinham sido escolhidos, porque viu sua fé, sua esperança e seu amor, a transformação da vida deles, realizada pelo evangelho (1Ts 1.3-6).

Reprovação é o nome dado à eterna decisão de Deus com relação àqueles pecadores que não foram escolhidos para a vida. Não os escolhendo para a vida, Deus determinou que eles não fossem transformados. Eles continuarão em pecado e, finalmente, serão julgados por aquilo que tiverem feito. Em alguns casos, Deus pode ir mais longe e remover as influências restritivas que protegem uma pessoa da desobediência extrema. Esse abandono, chamado de “endurecimento”, é, em si mesmo, uma penalidade do pecado (Rm 9.18; 11.25 conforme Sl 81.12; Rm 1.24,26,28).

A reprovação é ensinada na Bíblia (Rm 9.14-24; 1Pe 2.8), porém como uma doutrina, seu significado sobre o comportamento cristão é indireto. O decreto de Deus sobre a eleição é secreto; quais pessoas são eleitas e quais são reprovadas não será revelado antes do Juízo Final. Até aquele tempo, Deus ordena que o chamado ao arrependimento e a fé sejam pregados a todos.

Fonte: Bíblia de Estudo de Genebra, Nota Teológica, página 1333. Compre esta Bíblia em http://www.cep.org.br


A JUSTIFICAÇÃO

A Justificação pela Fé

Rm 3.21-28; 5.12-19; 2 Co 5.16-21; Gl 2.11-21; Ef 2.1-10; Fp 3.7-11

Martinho Lutero declarou que a justificação pela fé somente é o artigo sobre o qual a igreja permanece ou cai. Essa doutrina fundamental da Reforma Protestante tem sido vista como o campo de batalha de nada menos do que o próprio evangelho.
A justificação pode ser definida como o ato pelo qual pecadores injustos são feitos justos aos olhos de um Deus santo e justo. A necessidade suprema das pessoas injusta é a justiça. Esta falta de justiça foi suprimida por Cristo em favor do pecador que crê. Justificação pela fé somente significa justificação pela justiça ou pelo mérito exclusivo de Cristo, e não pela nossa bondade ou pela nossas boas obras.

A questão da justificação se focaliza na questão do mérito e da graça. Justificação pela fé significa que as obras que fazemos não são suficientemente boas para merecer em justificação. Conforme Paulo declara: "ninguém será justificado diante dele por obras da lei" (Rm 3.20). A justificação e forense. Isto é, somos declarados, contados ou considerados como justo quando deus computa a justiça de Cristo em nossa conta. A condição necessária para isso é a fé.

A teologia protestante afirma que a fé é a causa instrumental da justificação no sentido em que a fé é o meio pelo qual os mérito de Cristo são apropriados por nós. A teologia católica romana ensina que o batismo é a causa instrumental primária da justificação, e que o sacramento da penitência é a causa secundária e restauradora. (A teologia católica vê a penitência como o segundo suporte da justificação para aqueles que sofreram naufrágio de suas almas - aqueles que penderam a graça da justificação por terem cometido um pecado mortal.) O sacramento de penitencial requer obras de satisfação, por meio da quais o ser humano conquista um mérito congruente para a justificação. A visão católica afirma que a justificação é pela fé, mas nega que seja somente pela fé, adicionando as boas obras como uma condição necessária.
A fé que justifica é uma fé viva, não uma profissão de fé vazia. A fé é uma confiança pessoal que busca a salvação somente em Cristo. A fé salvadora é também uma fé penitente, que abraça Cristo como Salvador e Senhor.

A Bíblia diz que não somos justificados por nossa próprias boas obras, mas pelo que nos é acrescentado pela fé, ou seja, a justiça de Cristo. Em síntese, algo novo é acrescentado a algo básico. Nossa justificação é operada por imputação. Deus transfere a nós, pela fé, a justiça de Cristo. Isso não é uma "ficção jurídica", porque Deus nos atribui o mérito real de Cristo, a quem agora pertencemos. É uma imputação real.

Sumário
1. A justificação é um ato de Deus, por meio do qual declara pecadores injustos como justos depois de imputar-lhes a justiça de Cristo.
2. Ninguém pode alcançar a justificação por meio de boas obras.
3. Fé é uma condição necessária para recebermos a imputação dos méritos de Cristo.
4. Justificação exige uma fé viva e real, e não uma mera profissão de fé.

Autor:  R.C. Sproul
Fonte: 2º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre este livro em http://www.cep.org.br


Quem é justo?

A Bíblia declara que não existe nenhum justo. Citando o Salmo 14.3, o apóstolo Paulo afirma em Romanos 3.10: “Não há justo, nem um sequer”. Se ninguém é justo, como é que a Bíblia se refere a “justos e injustos” (Mt 5.45) ?

No conceito bíblico, é justo aquele que foi revestido da justiça de Deus em Cristo. Cristo se revestiu do nosso pecado e da nossa culpa; pagou a nossa culpa com Seu sacrifício, cumpriu perfeitamente a lei que não conseguimos cumprir. Por Sua obediência (Fp 2.6-8) adquiriu a reconciliação com o Pai que, misteriosa mas realmente, O havia desamparado no momento culminante do sacrifício vicário, e vestiu com Sua justiça perfeita os que nele crêem, como se vê claramente em 2 Coríntios 5.21:

Aquele [Cristo] que não cometeu pecado, ele [Deus o Pai] o fez pecado por nós; para que nele, fôssemos feitos justiça de Deus”.

Em suma: Na cruz, Deus viu em Seu Filho amado o nosso pecado, os nossos crimes de lesa Divindade e a nossa culpa merecedora da maior condenação. No cristão (i.e., naquele que verdadeiramente crê em Jesus Cristo como o Messias, o Filho eterno do Deus eterno, o único Mediador entre Deus e o homem) – no cristão, Deus vê a justiça de Cristo.

Por isso, apesar de o homem salvo continuar sendo pecado na terra, é aceito e declarado justo por Deus (Justificação pela fé em Cristo). Pela fé em Cristo o pecador, morto em delitos e pecados, recebe vida, com base na graça de Deus (Ef 2.1-8).

Em Romanos 5.2, diz a Palavra de Deus: “justificados, pois mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” – Tenha vivido no tempo da espera do Messias, na antiga dispensação, ou depois, o justo é o pecador que foi justificado pela fé em Cristo.

Espera-se que o justo não peque, e ele deve empenhar-se em não pecar. Disse Deus: “Sede santo, porque eu sou santo” (Lv 11.44,45; 19.2; 20.7; 1 Pe 1.16). E em 1 João 2.1 diz o apóstolo:

Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado justo ao Pai, Jesus Cristo, o Justo”.

– Louvado seja Deus

Autor: Rev. Odayr Ollivetti – pastor presbiteriano (IPB), ex-professor da Teologia Sistemática do Seminário Presbiteriano de Campinas, escritor e tradutor.

Fonte: Jornal Brasil Presbiteriano, edição  50, pg 3. Assine este excelente jornal pelo site da www.ipb.org.br ou ligue (11) 3207-7099 falar com Edna. Assinatura anual 20,00.


Justificação e Mérito

Gálatas 3:11: “E é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé”.

A doutrina da justificação – o núcleo tormentoso da Reforma – era, para Paulo, o âmago do evangelho (Rm 1:17; 3:21-5:21; Gl 2:15-5:1), dando forma à sua mensagem (At 13.38-39) e à sua devoção (2Co 5.13-21; Fp 3.4-14). Ainda que outros escritores do Novo Testamento afirmem a mesma doutrina em substância, os termos com que os Protestante a têm afirmado e defendido, por quase cinco séculos, são tirados essencialmente de Paulo.

Justificação é o ato de Deus pelo qual ele perdoa pecadores e os aceita como justos por causa de Cristo. Por esse ato, Deus endireita permanentemente o anterior relacionamento alienado que os pecadores tinham com ele. Essa sentença justificadora é a concessão por Deus de um status de aceitação de pecadores por causa de Jesus Cristo (2Co 5.21).

O juízo justificador de Deus parece estranho, pois declarar justificados os pecadores parece ser exatamente o tipo de ação injusta praticada por um juiz, que a própria lei de Deus o proíbe (Dt 25.1; Pv 17.15). Contudo, é um julgamento justo, porque sua base é a justiça de Jesus Cristo. Como o ‘último Adão' (1Co 15.45), agindo em nosso favor, como nosso Cabeça representativo, Cristo cumpriu a lei que nos prendia e suportou o castigo que merecíamos pela desobediência à lei e, assim, ‘mereceu' a nossa justificação. Por isso, nossa justificação tem base justa (Rm 3.25-26; 1Jo 1.9), com a justiça de Cristo creditada em nosso favor (Rm 5.18-19).

A decisão justificadora de Deus é, na prática, o julgamento do Último Dia, com relação ao lugar onde devemos estar na eternidade; essa decisão já é trazida para o presente e é pronunciada aqui e agora. É um juízo sobre o nosso destino eterno; Deus nunca voltará atrás, por mais que Satanás possa apelar contra o veredito (Zc 3.1; Rm 8.33-34; Ap 12.10). Estar justificado é estar eternamente seguro (Rm 5.1-5; 8.30).

O meio necessário para a justificação é a fé pessoal em Jesus Cristo como Salvador crucificado e como Senhor ressurreto (Rm 4.23-25; 10.8-13). A fé é necessária porque o fundamento meritório de nossa justificação está totalmente em Cristo. Ao nos entregarmos a Jesus, em fé, ele nos concede seu dom da justiça, de modo que no próprio ato de ‘fechar com Cristo' – como os mais antigos mestres Reformados diziam -, recebemos o perdão e a aceitação divinos, que não podemos encontrar em nenhum outro lugar (Gl 2.15-16; 3.24).

A teologia católica romana histórica inclui a santificação na definição da justificação, considerada como um processo, ao invés de um único evento decisivo, e afirma que, embora a fé contribua para a nossa aceitação diante de Deus, nossas obras de satisfação e mérito devem contribuir também. Os católicos vêem o batismo como portador da graça santificadora, que nos justifica primeiramente. Depois, o sacramento da penitência permite que mérito suplementar seja alcançado através das obras, assegurando a justificação se a graça da aceitação inicial por Deus se perder por causa de um pecado mortal. Esse mérito suplementar não obriga Deus a ser gracioso, embora seja o contexto normal para recebê-lo. Segundo o conceito católico romano, os fiéis efetuam sua própria salvação com a ajuda da graça que procede de Cristo através do sistema sacramental da Igreja. Os Reformados ressaltaram que esse conceito da salvação solapa o sentido de confiança que só a livre graça pode oferecer àqueles que não têm méritos. Paulo já tinha mostrado que todos os seres humanos, seja qual for o grau de sua piedade, estão sem méritos e necessitam da livre justificação para serem salvos. Uma justificação que precisa ser completada pelo beneficiado não oferece repouso sólido.

 

Fonte: Bíblia de Estudo de Genebra

 


Estudos auxiliares
1. A Justificação pela Fé...
2. A Santificação...

Diferença entre Justificação e Santificação

Compreender a diferença entre Justificação e Santificação pode ser tão importante quanto entender a diferença entre salvação e condenação. Saber separar as duas coisas é de importância fundamental para o cristão. Quando você entende o que elas são, você pode finalmente dizer: "Isto é o que salva. Isto não é o que salva".
A Justificação é a obra de Deus na qual a retidão de Jesus é imputada ao pecador e assim, o pecador é declarado por Deus como sendo íntegro diante da Lei (Rm 4:3; 5:1,9; o Gl 2:16; 3:11). Esta retidão não é obtida nem retida por qualquer esforço dos salvos. A Justificação é uma ocorrência instantânea que tem como resultado a vida eterna. É completamente e somente baseada no sacrifício de Jesus na cruz (1 Pe 2:24) e é recebida por fé somente (Ef 2:8-9). Nenhuma obra é necessária para se obter a Justificação. Caso contrário, ela não seria um presente (Rm 6:23). Então, nós somos justificados pela fé (Romanos 5:1).
Por outro lado, a Santificação envolve o trabalho da pessoa salva. Mas, ainda assim, é Deus quem trabalha no cristão para produzir mais do Seu caráter e vida na pessoa que já está justificada (Fp 2:13). A Santificação não é instantânea, porque não é só trabalho de Deus. A pessoa justificada é ativamente envolvida no processo, submetendo-se a Deus, resistindo ao pecado, buscando santidade e trabalhando para ser mais santo (o Gl 5:22-23). Significativamente, a Santificação não tem nenhuma implicação na justificação. Ou seja, até mesmo se nós não vivemos uma vida perfeita, nós ainda estamos justificados.
Onde a Justificação é uma declaração legal que é instantânea, a Santificação é um processo. Enquanto a Justificação vem de fora de nós, de Deus, a Santificação vem de Deus para dentro de nós, pelo trabalho do Espírito Santo, conforme a Bíblia. Em outras palavras, nós contribuímos para a Santificação com nossos esforços. Em contrapartida, nós não contribuímos para nossa Justificação por nossos esforços.

Isto significa que os justificados pela graça
podem pecar tanto quanto quiserem?

 
Em Romanos 6:1-2 lemos: Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante?
De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?
1Ts. 4:7 diz: porquanto Deus não nos chamou para a impureza, e sim para a santificação.
As Escrituras ensinam que nós devemos viver vidas santas e evitar o pecado (Cl 1:5-11). Só porque nós somos salvos e eternamente justificados diante de Deus (Jo 10:28), isso não é nenhuma desculpa para continuar no pecado do qual nós fomos salvos. Claro que, todos nós pecamos (1 Jo 1:8). Mas a guerra entre os salvos e o pecado é contínua (Rm 7:14-20) e não será antes do retorno de Jesus que nós seremos libertados deste corpo de morte (Rm 7:24). Buscar o pecado continuamente e usar a graça de Deus para desculpar-se é o mesmo que pisotear o sangue de Cristo sob os pés (Hb 10:29) e revela a verdadeira natureza de pecado da pessoa, uma natureza de uma pessoa não-salva. (1 Jo 2:4; 2:19). (Outro versos que confirmam isso são: Hb 12:14; 1 Pe 1:14-16; e 1 Pe 2:21-22.)

O que as seitas fazem com justificação e santificação?

As seitas toldam os significados das duas condições constantemente e desviam as verdades ensinadas na Palavra de Deus. O resultado é uma teologia de retidão de obras, de salvação como recompensa, que na verdade só conduz à condenação. Isto porque pelas obras da Lei nenhuma carne será justificada (Gl 2:16). O homem não pode contribuir para sua salvação(Gl 5:1-8). Porque o homem é pecador e mesmo suas melhores ações estão manchadas e imundas diante de Deus (Is 64:6). Então, para uma pessoa se corrigir diante de Deus, o trabalho só pode ser do próprio Deus (Gl 2:20).
Tipicamente, nas teologias das seitas, uma pessoa não é justificada (declarada íntegra aos olhos de Deus) até o dia final de julgamento, quando os trabalhos dela serão pesados e será verificado se ela foi achada merecedora de um lugar com Deus. Assim, uma pessoa com esta teologia errante não pode reivindicar 1 Jo 5:13 que diz, Estas coisas vos escrevi, a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus.
Contextualmente, "Estas coisas" referem-se a amar a Deus e ser obediente a Ele, crer em Cristo, e na vida eterna em Jesus. Então, 1 Jo 5:13 pode ser considerado um teste. Se você está crendo e está fazendo as coisas certas, então você saberá se você tem a vida eterna. Um membro de uma seita pode saber que ele tem a vida eterna? Não. Ele não pode. Mas um Cristão pode.
As pessoas que estão em seitas não entendem a diferença entre Justificação e Santificação. Por isso elas têm que depender de um esforço cooperativo com Deus para ter seus pecados perdoados, o que é, essencialmente, combinar os trabalhos imundos de homem (Is 64:6) com o trabalho santo de Deus. Mas as obras de Deus e do homem não se misturam. Conseqüentemente, a salvação é por Graça e por Fé, somente. Acreditar em qualquer outra coisa é perder a salvação.

Autor: Desconhecido
Fonte: Apostila sem título


Justificação pela Fé muito antes de Lutero

(Jesus e a doutrina da Justificação)

Não há doutrina mais importante para a teologia evangélica do que a doutrina da justificação pela fé somente – o princípio sola fide da Reforma. Martinho Lutero o definia como sendo o artigo que determinava se uma igreja estava de pé ou caindo.

    A história fornece provas concretas para confirmar a avaliação dele. As igrejas e denominações que se firmam em sola fide permanecem evangélicas. Aquelas dispostas a ceder nesse ponto inevitavelmente se rendem ao liberalismo, revertem ao sacerdotismo ou adotam formas até piores de apostasia. O evangelismo histórico, portanto, sempre encarou a justificação pela fé como sendo uma doutrina bíblica central – se não aquela doutrina mais importante a ser bem compreendida. Não foge à verdade definir os evangélicos como sendo os que crêem na justificação pela fé.

    A própria Bíblia coloca sola fide como a única alternativa a um sistema de justiça pelas obras que leva à maldição. “Ora, ao que trabalha o salário não é considerado como favor, e sim como dívida. Mas, ao que não é considerado como favor, e sim como dívida. Mas, ao que não trabalha porem crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça” (Rm 4:4,5, ênfase acrescentada). A apostasia de Israel se baseava no seu abandono da justificação somente pela fé: “Desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus” (Rm 10:3). Em outras palavras, aqueles que confiam em Jesus Cristo para justificação pela fé somente recebem uma justiça perfeita que lhes é atribuída. Os que tentam estabelecer sua própria justiça ou misturam fé com obras só recebem o salário terrível que é devido a todos aqueles  que não alcançam o alvo. Então o indivíduo, tanto como igreja, permanece ou cai segundo esse princípio de sola fide.

    A justificação bíblica precisa ser definida com empenho e sinceridade em duas frentes. Muitos hoje usam mal a doutrina com fim de apoiar a visão de que a obediência à lei moral de Deus é facultativa. Esse ensino procura reduzir toda a obra salvadora de Deus ao ato declarativo da justificação.

Põe em segundo plano o novo nascimento espiritual da regeneração (2 Co 5:17); despreza os efeitos morais do novo coração do crente (Ez 36:26-27); e torna a santificação dependente de esforços do próprio pecador. Tem a tendência de tratar dos elementos forenses da justificação – como se este fosse o único aspecto essencial da salvação. O efeito inevitável dessa abordagem é mudar a graça de Deus em libertinagem (Jd 4). Tal ótica é chamada de antinomianismo.

    Por outro lado, há muitos que fazem a justificação depender de uma mistura de fé e obras. Onde o antinomianismo isola a justificação da santificação radicalmente, este erro mistura os dois aspectos da obra salvífica de Deus. O efeito é fazer da justificação um processo firmado na justiça defeituosa do crente, em vez de um ato declarativo de Deus baseado na justiça perfeita de Cristo. Assim que a justificação é misturada com a santificação, as obras da justiça tornam-se parte essencial do processo. A fé conseqüentemente fica diluída com obras. Sola fide é abandonada. O erro dos legalistas gálatas (cf. Gl 2:16) foi esse. Paulo chamou isto de “outro evangelho” (Gl1: 6,9). E esse mesmo erro é encontrado em praticamente todas as seitas falsas. Também acha-se aqui toda a base da doutrina católico-romana da justificação.

    O evangelismo está sendo assaltado nos dias de hoje pelos dois erros. A controvérsia da “salvação do senhorio” revela a força do antinomianismo moderno.1 Ao mesmo tempo, na outra frente, há o esforço vigoroso pela união ecumênica com o catolicismo romano. Isso exigiria dos evangélicos um amolecimento de sua posição em sola fide e a

Concessão do carimbo de aprovação para uma doutrina de justificação do tipo dos gálatas, combinando fé e obras. Essas tendências são especialmente alarmantes porque emanam de dentro do próprio movimento evangélico.

    E fora do evangelismo, a justificação pela fé somente está sendo atacada fortemente. Uma nova geração de apologistas católicos romanos armou-se contra a sola fide. De acordo com eles, a Bíblia não ensina essa doutrina – ela é invenção de Lutero e dos reformadores.

    Recentemente, ouvi uma apresentação gravada em fita por um padre católico que fazia essas reedificações. Sugeriu que Jesus dava pouca ou nenhuma atenção à doutrina da justificação em seu próprio ensino e evangelismo. Este homem, que freqüentemente entra em debate contra teólogos protestantes, diz que já desafiou todos eles para demonstrarem onde foi que Jesus ensinou que alguém pudesse ser justificado pela fé somente. Até agora, diz ele, não encontrou ninguém que aceitasse o desafio.

    Infelizmente, os evangélicos de hoje estão mal preparados para enfrentar tal desafio. Muitos vêem a Teologia como menos importante do que as grandes   questões   

Morais do nosso tempo, quais sejam o aborto, a eutanásia, o homossexualismo e outros assuntos semelhantes. Misturados aos católicos romanos na arena política, muitos ativistas morais  vêem como contraproducente debater Teologia. Preferem deixar as diferenças doutrinárias entre Roma e os reformadores desaparecer gradualmente até a obscuridade. No mínimo dispõem-se a tratar  todas as diferenças doutrinárias como assuntos secundários. Essa mentalidade está pressuposta no documento intitulado “Evangélicos e Católicos Juntos”, que conclama os  evangélicos a

Abraçarem  os católicos como verdadeiros irmãos e irmãs em Cristo.2

    Enquanto isso, a ignorância e a igênuadade teológica têm deixado muitos evangélicos incapazes de defender o que a Bíblia ensina. Nossa época é de pragmatismo, obcecada com o que funciona e menos preocupada com o que é verdadeiro. São pouquíssimos os que sabem como, ou mesmo que se dispõe a defender as verdades evangélicas contra visões que as contradizem. É muito mais fácil – e muito mais cortês, ao que parece – simplesmente não discutir. Portanto, os ataques contra doutrinas evangélicas cruciais muitas vezes nem são respondidos. A próxima geração estará colhendo o fruto venenoso dessa tendência.

    Se a doutrina como um todo é ignorada em nossos dias, a doutrina da justificação é negligenciada mais ainda. Obras sobre a justificação estão sensivelmente ausentes do corpo da literatura evangélica recente. Em sua introdução à reedição de 1961 da obra marcante de James Buchanan sobre o assunto, J.I. Packer observou isso:

É um fato de sentido ameaçador saber que o volume clássico de Buchanan, que já tem um século de existência, seja o mais recente estudo completo da justificação pela fé que o protestantismo de fala inglesa (para não procurar mais longe) tenha produzida, nunca houve uma época de atividade teológica tão febril quanto a dos últimos cem anos; contudo, em meio a todos os múltiplos interesses teológicos, o século não produziu um único livro de qualquer tamanho sobre doutrina da justificação. Se tudo que conhecêssemos da igreja durante o século passado tivesse sido que ela negligenciou o assunto da justificação desse modo, já estaríamos aptos a concluir que a época tem sido de apostasia e declínio religioso.3

     Não existe doutrina mais importante para ser definida do que o ensino bíblico de que os crentes justificados pela fé somente. Sola fide é uma verdade que precisamos conservar bem visível se vamos seguir uma rota segura entre os males gêmeos do antinomianismo, por um lado, e da justiça-pelas-obras do outro. O apóstolo Paulo a considerava tão importante que pronunciou uma maldição solene de condenação eterna contra qualquer pessoa que corrompesse o evangelho nesse ponto (Gl 1:9). Não é de admirar que na Reforma tantos tenham dado sua vida em defesa dessa doutrina.

    Na verdade, a justificação foi a doutrina que acendeu a Reforma. A teologia católica havia negligenciado o assunto por séculos. Roma estava despreparada para responder ao desafio doutrinário dos primeiros reformadores. Por isso, a resposta inicial da Igreja foi desviar o debate para a questão das reformas morais e eclesiásticas. Martinho Lutero ficou frustrado pela relutância de Roma em falar sobre doutrina, especialmente sobre a justificação pela fé. Ele até declarou que teria prazer em ceder ao papa em matérias eclesiásticas se o papa abraçasse o verdadeiro evangelho.4  Lutero entendeu que todas as ofensas morais e eclesiásticas toleradas pela Igreja foram em última instância resultado do obscurecimento da justificação somente pela fé teria automaticamente posto fim à venda de indulgências e outros abusos do poder eclesiásticos.

    Portanto, quando a pregação dos reformadores sobre a justificação pela fé começou a despertar as massas para a verdade da Bíblia, foi inevitável que a Igreja Católica Romana respondesse.

O EVANGELHO SEGUNDO ROMA

    A Igreja finalmente expôs seus pontos de vista sobre a justificação em meados do século XVI no concílio visava especificamente colocar a doutrina católica em forte contraste às idéias protestantes. No tratamento dado à justificação, mais do que em qualquer outro ponto, a divergência entre Roma e os reformadores é bem acentuada.

    Os Cânones e Decretos de Trento não são meramente a opinião arcaica de alguns bispos medievais. Representam a posição oficial da Igreja até o dia de hoje. Todos os concílios católicos subseqüentes têm reafirmado de maneira uniforme pronunciamentos de Trento. Na verdade, o Segundo Concílio Vaticano dos anos 60 declarou serem essas doutrinas “irreformáveis”5. Ordena-se a todos os católicos fiéis que as recebam como verdade infalível. Portanto, para entender a doutrina católico-romana da justificação, precisamos retornar ao Concílio de Trento.

    Trento não negou abertamente que os crentes sejam salvos pela divina graça. Para dizer a verdade, o Concílio declara especificamente que “Deus justifica os pecadores pela sua graça por meio da redenção que está em Jesus Cristo6. Isso, é claro, é um eco de Romanos 3:24. Mas a escritura vai um passo além do que Trento estava disposto a ir. Romanos 11:6 diz “E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça” (ênfase acrescentada). Trento assumiu uma posição que fazia com que as obras fossem parte essencial da justificação. Fazendo assim, ficaram só com uma graça que “já não é graça”. Portanto, embora Trento começasse com uma afirmação da graça divina, a doutrina da justificação que descreveu realmente é já “um outro evangelho” que corrompe a graça de Deus.  

Um Processo Dependente do Crente,

Não um Ato Judicial de Deus

      O conselho viu a justificação como um processo pelo qual o pecador é realmente tornado justo. Em outras palavras, Trento dizia que a justificação compreende todo o processo de santificação. Segundo o Concílio, a justificação é “não meramente a remissão de pecados, mas também a santificação e renovação do homem interior, pela recepção voluntária da graça e dos dons pelos quais um homem injusto se torna justo.” 7

     Além disso, segundo o Concílio, a justificação é um processo que dura a vida toda. 8

Na verdade, o processo se estende além dessa vida e entra em outra. O purgatório é necessário para apagar a dívida toda do castigo eterno:

Se  alguém  diz  que  a culpa  é perdoada  a todo  pecador  penitente  depois de  ter sido recebida a graça da justificação, e  que  a dívida  do castigo  eterno  é de tal maneira apagada que não fica nenhuma  dívida de  castigo temporal  para  ser descontada, seja  neste  mundo, seja no próximo ou no Purgatório, antes que a entrada ao reino dos céus possa ser aberta – que seja ele anátema.9

     Não há garantia alguma de que alguém há de perseverar no processo, 10 e alguns poderão cair pelo caminho e ser perdidos para sempre. Mas “aqueles que, pelo pecado, tiverem caído da graça da justificação recebida poderão ser novamente justificados... pelo sacramento da penitência”.11

     Em outras palavras, as boas obras são necessárias para preservar a justificação, e quando crentes pecam, precisam ganhar de novo sua justificação por meio de um ritual religioso. Isso é uma negação inconfundível da sola fide.

A Fe Mais as Obras, Não a Fé Somente

    Ao mesmo tempo em que prestava falso culto a importância da fé na justificação, Trento declarava que a causa instrumental da justificação (o meio pelo qual é obtida) não é a fé, e sim “o sacramento do batismo”. 12

    E dentro desse mesmo raciocínio, o Concílio determinou: “Se alguém disser que a justiça recebida não é preservada e que também não é aumentada perante Deus por boas obras, mas que essas obras são apenas frutos e sinais da justificação obtida, e não a causa desse aumento, que seja ele anátema”.13  Em outras  palavras, as obras são necessárias para se obter, preservar e aumentar a justificação. Se obras não forem acrescida à fé, a justificação não atinge seu alvo.

    Até mesmo a graça é conferida por meio de obras no sistema católico-romano: Se alguém disser que pelos ditos sacramentos. a graça não é conferida por meio da obra executada, e [disser] que a fé nas promessas divinas sozinha é suficiente para a obtenção da graça, que seja ele anátema. 14

    O Concílio emitiu ainda um repúdio à sola fide: “Se qualquer pessoa disser que pela fé somente o pecador é justificado, com o sentido de que nada mais seja requerido para cooperar a fim de obter a graça da justificação... que seja ele anátema”.15 Em  outras palavras, Trento decretou que qualquer pessoa que afirme ser justificado com base na fé sozinha sem as obras, será condenada à maldição eterna.

A Graça Infundida, e não a Justiça Imputada

    Como se notou anteriormente, quando a justificação é misturada com a santificação, a base para a justificação torna-se a justiça imperfeita do próprio pecador, em vez da justiça perfeita de Cristo. Trento reconhecida isso de modo explícito:

           Se alguém disser que os homens são justificados seja pela imputação da justiça de Cristo somente, seja pela remissão de pecados somente, para exclusão da graça e  amor  que é derramado em seus corações pelo Espírito Santo e que é inerente  neles; ou mesmo  que a graça pela qual somos justificados é somente o favor de Deus – que seja anátema. 16

    Aqui o Concílio estava claramente contradizendo o ensino da Reforma, que a justiça perfeita de Cristo, atribuída como crédito na conta do pecador, é a base mediante a qual nós somos aceitos diante de Deus. Em lugar disso, o Concílio  declarou que a graça é infundida no coração do crente, resultado numa justiça que é inerente (a justiça do próprio crente). Essa justiça inerente – que precisa ser aperfeiçoada pela santificação e no purgatório – oferece a base para que sejamos aceitos diante de Deus.

Um Outro Evangelho, e Não a Mensagem Bíblica

    A Escritura não ensina nada disso. Na verdade, a doutrina católica da justificação é precisamente o que Paulo condenou como sendo “um outro evangelho”. De acordo com a Bíblia, Deus “atribui justiça, independentemente de obras” (Rm 4:4-6). Paulo considerava todas as outras coisas como lixo e refugo por amor a uma doutrina correta da justificação: “para conseguir Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus mediante a fé” (Fp 3:8,9 ênfase acrescentada). Isso é um repúdio claro da própria doutrina ensinada pelo Concílio de Trento!

    A Bíblia também ensina que a justificação é um ato declarativo de Deus, e não um processo. Jesus prometeu salvação imediata aos crentes: “quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5:24). Esse versículo afirma claramente que na base da fé somente, os pecadores passam da morte para a vida eterna. A santificação é resultado, não pré-requisito; e o purgatório sequer é mencionado na Escritura. “De fato, onde quer que a Bíblia fale da justificação dos crentes, sempre fala de um evento no pretérito que ocorreu no momento da fé: [tendo sido] Justificados, pois mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5:1, ênfase acrescentada). “Como agora fomos justificados pelo seu sangue, muito mais ainda seremos salvos da ira de Deus por meio dele!” (Rm 5:9 NVI, ênfase acrescentada). “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8:1, ênfase acrescentada). Nossa justificação é um ato realizado, não pela fé mais obras: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2:8,9 ênfase acrescentada).

     A justificação pela fé somente é e sempre foi único caminho da salvação:

         “Pois que diz a Escritura [do antigo Testamento]? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça. Ora, ao que trabalha o salário não é considerado como favor, e sim como dívida. Mas, ao que trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como Justiça. E  é  assim  também  que  Davi  declara  ser bem-aventurado  o  homem  a quem Deus atribui justiça, Independentemente de obras” (Rm 4:3-6, ênfase acrescentada).  

     O que devemos fazer para sermos salvos? A Bíblia responde a essa pergunta nos termos mais claros possíveis: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo” (At 16:31). As obras não fazem parte nenhuma de nossa justificação. A única que pode tornar qualquer pecador aceitável a Deus é o mérito imputado do Senhor Jesus Cristo.

O EVANGELHO DE ACORDO COM JESUS

    Voltemos ao desafio do padre católico romano. É certo que se a justificação pela fé somente é uma doutrina tão crucial, seria de se esperar que a encontrássemos ensinada de maneira clara pelo nosso Senhor. De fato, é precisamente isso que descobrimos.

    Embora Cristo não tenha dado nenhuma explicação formal da doutrina da justificação (como fez Paulo em sua epístola aos romanos), a justificação pela fé fundamentava e permeava toda sua pregação do evangelho. Embora Jesus nunca tenha discursado sobre o assunto, é fácil demonstrar a partir do ministério evangélico de Jesus que ele ensinava a sola fide.

    Por exemplo, foi o próprio Jesus quem declarou: “quem ouve a minha palavra e crê... passou da morte para a vida” (Jo 5:24)– sem passar por qualquer sacramento ou ritual,e sem qualquer

Período de espera ou purgatório. O ladrão na cruz é o exemplo clássico. Mediante a prova de sua tão pequenina fé, Jesus lhe disse: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23:43). Não foi exigido nenhum sacramento, nenhuma obra, para que ele obtivesse a justificação.

    E mais ainda, as muitas curas que Jesus realizou foram evidência física de seu poder de perdoar pecados (Mt 9:5,6). Quando curava, ele com freqüência dizia: “ a tua fé te salvou” (Mt 9:22; Mc 5:34; 10:52; Lc 8:48; 17:19; 18:42). Todas essas curas foram lições concretas sobre a doutrina da justificação pela fé somente.

   Mas a ocasião única em que Jesus realmente declarou alguém “justificado” oferece o melhor vislumbre para se entender à doutrina conforme ele ensinou:

  E disse-lhe Jesus: Hoje veio a salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão. Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido. E, ouvindo eles estas coisas, ele prosseguiu, e contou uma parábola; porquanto estava perto de Jerusalém, e cuidavam que logo se havia de manifestar o reino de Deus. Disse pois: Certo homem nobre partiu para uma terra remota, a fim de tomar para si um reino e voltar depois. E, chamando dez servos seus, deu-lhes dez minas, e disse-lhes: Negociai até que eu venha.Mas os seus concidadãos odiavam-no, e mandaram após ele embaixadores, dizendo: Não queremos que este reine sobre nós.” (Lc 18:9-14).

     Essa parábola certamente chocou os ouvintes de Jesus! Eles “confiavam em si mesmos, por ser considerados justos” (v.9) – a definição exata de farisaísmo. Seus heróis teológicos eram os fariseus, que se atinham aos mais rigorosos padrões legalistas. Jejuavam, exibiam suas orações e doações de esmolas, faziam muitos mais do que era exigido quando da aplicação das leis cerimoniais que Moisés tinha realmente prescrito.“Quanto à justiça que há na lei”, consideravam-se “irrepreensíveis”

(cf. Fp 3:5,6). Contudo, Jesus tinha deixado multidões pasmas quando disse: “se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus.

    Em seguida pasmou ainda mais os ouvintes com uma parábola que parecia colocar um cobrador de impostos detestável em melhor posição quanto à espiritualidade do que um fariseu que orava.

    A lição de Jesus é clara. Estava ensinando que a justificação é pela fé somente. Toda a teologia da justificação está ali contida. Mas sem entrar em teologia abstrata, Jesus nos pintou o quadro com uma parábola.

Um Ato Judicial de Deus

         A justificação do cobrador de impostos foi uma realidade que aconteceu no mesmo instante. Não houve processo, intervalo de tempo, nem medo do purgatório.

    Ele “desceu justificado para sua casa” (Lc 18:14) – não por causa de qualquer coisa que tivesse feito, mas por causa daquilo que fora feito a seu favor. Observe que o cobrador de impostos compreendia sua própria falta de capacidade. Ele tinha uma dívida impossível e sabia que não tinha meios de paga-lá. Tudo que podia fazer era se arrepender e rogar por misericórdia. Compare sua oração com a do fariseu arrogante. Que contraste! Ele não recitou o que havia feito. Sabia que mesmo suas melhores obras eram pecado. Não ofereceu fazer nada por Deus. Simplesmente rogou pela misericórdia divina. Estava buscando que Deus fizesse por ele aquilo que ele próprio não podia fazer. Essa é a natureza da penitência que Jesus pedia.

Pela Fé Somente

    Além disso, homem saiu justificado sem fazer nenhum ato de penitência, sem passar por qualquer sacramento ou ritual, sem realizar uma só obra meritória que fosse. Sua justificação estava completa sem qualquer uma dessas coisas porque aconteceu só com base na fé. Tudo que era necessário para expiar seu pecado e lhe dar perdão já fora feito por ele. Estava justificado pela fé naquele momento.

    Repetindo, ele se contrasta totalmente com o fariseu presunçoso, tão certo de que todos seus jejuns e dízimos e outras obras o tornavam aceitável para Deus. Mas enquanto o operoso fariseu continuava não-justificado, o coletor de impostos crentes recebia plena justificação pela fé somente.

Uma Justiça Imputada

    Você se lembra da declaração de Jesus no Sermão do Monte: “se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mt 5:20)? Contudo aqui ele afirma que esse cobrador de impostos – o mais ímpio dos homens – estava justificado! Como um pecador desse pôde obter uma justiça que excedia a do fariseu? A única resposta possível é que recebeu uma justiça que não era dele próprio (cf. Fp 3:9). A justiça lhe foi atribuída mediante a fé (Rm 4:9-11).

    De quem era a justiça que foi atribuída a ele? Só podia ser a justiça perfeita de um Substituto sem defeito, que por sua vez devia suportar os pecados do cobrador de impostos e sofrer a penalidade da ira de Deus em lugar dele.

    O cobrador de impostos ficou justificado. Deus o declarou justo, atribuindo-lhe a plena e perfeita justiça de Cristo, perdoando-o de toda injustiça, e livrando-o de toda condenação. Depois disso ele se apresentou diante de Deus para sempre na posição de perfeita justiça que tinha sido computada a seu favor.

    Esse é o sentido da justificação. É o único evangelho verdadeiro. Todos os outros pontos da teologia emanam desse. Como escreveu Packer: “A doutrina da justificação pela fé é como Atlas: suporta um mundo em seus ombros, o conhecimento evangélico completo da graça salvadora”. 17 A diferença entre Roma e os reformadores não está em temas sobre minuciosidade teológicas. Um entendimento correto sobre a justificação pela fé constitui o fundamento do evangelho. Não é possível errar nesse ponto sem corromper junto todas as outras doutrinas. E é bem por isso que todo “outro evangelho” está sob a maldição eterna de Deus.

    Realmente, não se pode dizer que Lutero tenha inventado a idéia da justificação pela fé somente. Muitos anos antes de Lutero ela foi ensinada por Santo Agostinho, por Paulo, por Jesus e por Moises. Mesmo remontando ao Jardim do Éden, Adão e Eva perceberam logo após seu pecado que as folhas de figueira com que tentaram cobrir a vergonha do que fizeram eram deploravelmente inadequadas. O evangelho é dado em Gênesis 3:21  quando Moises nos diz que Deus os vestiu. Precisavam de algo que não podiam providenciar por si próprios; é Deus dando ao homem aquilo de que carecia para se posicionar na presença favorável dele – esta é a essência do evangelho. Lutero só reafirmou o que os cristãos já compreendem há séculos, que a justificação é pela fé somente.

[1] Tenho confrontado esse erro em dois livros distintos: The Gospel According to Jesus [O evangelho segundo Jesus] (Grand Rapids: Zondervan, 1988, 1994); Faith Works: The Gospel According to the Apostles [A Fé Funciona: O Evangelho Segundo os Apóstolos] (Dallas: Word, 1993).

[2] Discuti este documento em detalhe em Reckless Faith [Fé Irresponsável] (Wheaton, II.: Crosway, 1994), PP. 119-53.

[3] James I. Packer em James Buchanan, The Doctrine of Justification [A Doutrina da Justificação] (Edimburgo: Barner of Truth, 1961), p. 2.

[4] Martinho Lutero, Table Talk, em Helmut T. Lehman,(org.), Luter’s Works, 55 vols. (Filadélfia, Fortress, 1967), Theodore G. Tappert, trad. 54:185.

[5] Lumen Gentium, p. 25, em Walter M. Abbot, S.J., (org.), The Documents of Vatican II [Os Documentos do Vaticano II] (Nova York: America Press, 1966).

[6] Cânones e Decretos do Concílio de Trento, seção 6, cap. 6.

[7] Trento, seção 6, cap. 7 (ênfase acrescentada).

[8] Trento, seção 6, cap. 10.

[9] Trento, seção 6, cap. 30.

[10] Trento, seção 6, cap. 13.

[11] Trento, seção 6, cap.14.

[12] Trento, seção 6, cap. 7.

[13] Trento, seção 6, cap.24.

[14] Trento, seção 7, cânone 8 (ênfase acrescentada).

[15] Trento, seção 6, cânone 9 (ênfase acrescentada).

[16] Trento, seção 6, cânone 11.

[17] Packer, em Buchanan, p. 2.

Autor: Dr. John F. Macarthur, Jr.

Fonte: Justificação Pela Fé Somente, Capítulo 1, autores John MacArthur, Jr., R. C. Sproul, Joel Beeke, John Gerstner e John Armstrong, Editora Cep. Compre este maravilhoso livro em www.cep.org.br

Estudo digitado pelo caríssimo irmão e colaborado do site Teologia Calvinista: Marcelo Aires dos Santos Romão.


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Justificação pela fé (estudo completo)

Louis Berkhof

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A EXPIAÇÃO

A Expiação
Rm 3.21-28; Rm 5.17-19; Ef 1.7; Fp 3.8,9; Tt 3.1-7

O apóstolo Paulo declarou que estava determinado a não saber nada, exceto Cristo, e este crucificado. Esta foi sua maneira de enfatizar a extrema importância da Cruz para o cristianismo. A doutrina da expiação é central em toda a teologia cristã. Lutero chamou o cristianismo de teologia da cruz. A figura de uma cruz é o símbolo universal do cristianismo. O conceito de expiação o retrocede ao Antigo Testamento, onde Deus estabeleceu um sistema pelo qual o povo de Israel pudesse fazer expiação por seus pecados. Expiar é fazer emendas, é acertar as coisas; Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento deixam bem claro que todos os seres humanos são pecadores. Como nossos pecados são contra um Deus santo e infinito, que não pode nem mesmo olhar para o pecado, a expiação deve  feita a fim de podermos ter comunhão com Deus. O pecado afeta até mesmo nosso melhores atos, e por isso somos incapazes de fazer sacrifício satisfatório. Mesmo nosso sacrifícios são corrompidos e exigiriam um outro sacrifício para  conrir essa imperfeição, ad infinitum. Não temos nenhuma oferta suficientemente valiosa, nenhuma obra suficientemente justa para fazer expiação por nossos próprios pecados. Somos devedores que não têm como pagar sua dívida.

Ao receber a ira de Deus na cruz,  Cristo pôde fazer expiação por seu povo. Ele carregou, ou recebeu sobre si o castigo pelos pecados da humanidade. Jesus fez expiação por eles aceitando  o justo castigo devido por seus pecados. A Aliança do Antigo Testamento pronunciou uma maldição sobre qualquer pessoas que quebrasse a Lei de Deus. Na cruz, Jesus não somente tomou essa maldição sobre si, mas tornou-se "ele próprio maldição em nosso lugar" (Gl 3.13). Foi abandonado pelo Pai e experimentou a plena medida do inferno na cruz.

O cristianismo ortodoxo tem insistido em que a expiação envolve substituição e satisfação. Tomando a maldição de Deus sobre si, Jesus satisfez as exigências da santa justiça (1 Ts 1.10).

Uma frase-chave na Bíblia, concernente à expiação, é "em nosso favor". Jesus não morreu por si mesmo, mas por nós. Seu sofrimento foi vicário; ele foi o nosso substituto. Ele tomou nosso lugar assumindo o papel do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Embora a ira de Deus seja real, devemos notar que a expiação que Cristo fez não era uma questão do Filho operando contra a vontade do Pai. Não era como se Cristo estivesse arrebatando seu povo das mãos do Pai. O Filho não persuadiu o Pai a salvar aqueles a quem o Pai não estava disposto a salvar. Pelo contrário, ambos, Pai e Filho, queriam a salvação dos eleitos e trabalharam juntos para sua concretização. Conforme o apóstolo Paulo escreveu, " Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação." (2 Co 5.19)

Sumário

1. Expiação envolve pagamento para quitar um débito.

2. Os seres humanos não podem fazer expiação por seus próprios pecados.

3. A perfeição de Jesus o qualificou para fazer a expiação.

4. Cristo cumpriu a maldição da Antiga Aliança.

5. A expiação de Cristo foi uma obra de substituição e de satisfação.

6. O Pai e o filho trabalharam juntos em harmonia para efetuar nossa reconciliação.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 2º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre este livro em http://www.cep.org.br


A Expiação

Romanos 8:30: “A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos”.

A expiação é uma reconciliação de partes alienadas entre si, a restauração de um relacionamento rompido. A expiação é realizada por ressarcir os danos, apagando-se os delitos e oferecendo satisfação pelas injustiças cometidas.

Segundo as Escrituras, toda pessoa peca e precisa fazer expiação de suas culpas, porém faltam o poder e os recursos para isso. Temos ofendido o nosso Criador, cuja natureza é odiar o pecado (Jr 44.4; Hc 1.13) e punir o mesmo (Sl 5.4-6; Rm 1.18; 2.5-9). Os que têm pecado não podem ser aceitos por Deus e não podem ter comunhão com ele, a menos que seja feita expiação. Uma vez que há pecado mesmo nas melhores ações das criaturas pecadoras, qualquer coisa que façamos na esperança de ressarcir os danos só pode aumentar a nossa culpa ou piorar a nossa situação, porque “o sacrifício dos perversos é abominável ao SENHOR” (Pv 15.8). Não há modo de a pessoa poder estabelecer a própria justiça diante de Deus (Jó 15.14-16; Is 64.6; Rm 10.2-3); isso simplesmente não pode ser feito.

Porém, contra esse fundo de desesperança humana, as Escrituras revelam a graça e a misericórdia de Deus, que, pessoalmente, providencia a expiação que o pecado torna necessária. A maravilhosa graça de Deus é o enfoque da fé bíblica; do Gênesis ao Apocalipse, a graça brilha com glória maravilhosa.

Quando Deus tirou Israel do Egito, ele estabeleceu, como parte do relacionamento da aliança, um sistema de sacrifícios, que tinha seu âmago no derramamento de sangue de animais “para fazer expiação por vossa alma” (Lv 17.11). Esses sacrifícios eram “típicos”, isto é, como “tipos”, prenunciavam alguma coisa melhor. Pecados eram perdoados quando os sacrifícios eram fielmente oferecidos, mas não era o sangue dos animais que apagava os pecados (Hb 10.4); era o sangue do “antítipo”, Jesus Cristo, cuja morte na cruz expiou os pecados já cometidos, bem como os pecados que seriam cometidos posteriormente (Rm 3.25-26; 4.3-8; Hb 9.11-15).

De acordo com o Novo Testamento, o sangue de Cristo foi derramado como sacrifício (Rm 3.25; 5.9; Ef 1.7; Ap 1.15). Cristo redimiu os seu povo por meio de um resgate; sua morte foi o preço que nos livrou da culpa e da escravidão ao pecado (Rm 3.24; Gl 4.4-5; Cl 1.14). Na morte de Cristo, Deus nos reconciliou consigo mesmo, vencendo a sua própria hostilidade causada por nossos pecados (Rm 5.10; 2Co 5.18-19; C 1.20-22). A cruz aplacou Deus. Isso significa que ela aplacou a ira de Deus contra nós, expiando nossos pecados e, desse modo, removendo-os de diante de seus olhos (Rm 3.25; Hb 2.17j; 1Jo 2.2; 4.10). A cruz produziu esse resultado porque, em seu sofrimento, Cristo assumiu nossa identidade e suportou o juízo retributivo que pesava contra nós, isto é, “a maldição da lei” (Gl 3.13). Ele sofreu como nosso substituto, com o registro condenatório de nossas transgressões pregado por Deus na sua cruz, como a lista de crimes pelos quais ele morreu (Cl 2.14; conforme Mt 27.37; Is 53.4-6; Lc 22.37).

Fonte: Bíblia de Estudo de Genebra, Nota Teológica, página 1322.


MAIS SOBRE A EXPIAÇÃO

Podemos definir a expiação como segue: “Expiação é a obra, que Cristo realizou em sua vida e morte para obter nossa salvação” (Wayne Grudem). Geralmente a palavra “expiação” é usada em referência ao fato de Jesus morrer e pagar pelos nossos pecados. Grudem inclui em seu conceito os benefícios salvíficos que chegam até nós também pela vida de Cristo.

I- A CAUSA DA EXPIAÇÃO

A) O amor de Deus (Jo 3:16)

B) A justiça de Deus (Rm 3:25-26). A justiça de Deus exigia que ele encontrasse um meio pelo qual a pena pelos nossos pecados fosse paga. Deus perdoava os pecados no A.T., mas nenhuma pena havia sido paga. Deus não seria justo se perdoasse os pecados sem nenhum castigo; por isso Cristo recebeu o castigo pelos nossos pecados.

II- A NECESSIDADE DA EXPIAÇÃO

Haveria alguma outra maneira de Deus salvar os seres humanos além de enviar seu Filho para morrer em nosso lugar?

Uma vez que Deus em seu amor, decidiu salvar alguns seres humanos isso só poderia ser feito através da morte de Jesus. A expiação não era absolutamente necessária, mas como conseqüência da decisão divina de salva, a expiação era absolutamente necessária. 2Pe 2:4; Lc 24:27; Hb 2:17 ; 9:25 -26.

III- A NATUREZA DA EXPIAÇÃO

1- A OBEDIÊNCIA DE CRISTO POR NÓS.

Ele foi perfeitamente obediente à vontade de Deus Pai como nosso representante e satisfez às exigências da lei em nosso lugar (Fp 3:9; 1 Co 1:10; Rm 5:19; Mt 3:15).

2- OS SOFRIMENTOS DE CRISTO POR NÓS.

Ele recebeu o castigo pelos nossos pecados e, em conseqüência, morreu pelos nossos pecados.

a) Sofrimento por toda a sua vida. Não foi só na morte que cristo sofreu, mas em ter vivido com todas as implicações num mundo caído (Hb 5:8).

b) A dor da cruz (a física, a de carregar o pecado, a do abandono, a de suportar a ira de Deus).

IV- TERMOS DO NT QUE DESCREVEM DIFERENTES ASPECTOS DA EXPIAÇÃO

1- SACRIFÍCIO (Hb 9:26)

Cristo é tanto a vítima como o sacerdote que oferece o sacrifício.

2- PROPICIAÇÃO (1Jo 4:10).

A palavra significa “sacrifício que sofre a ira de Deus até o fim e, dessa maneira, transforma a ira de Deus contra nós em favor”. Na santidade e na justiça de Deus há uma exigência eterna e imutável de que o pecado seja pago (Lv 4:35).

3- SUSBTITUIÇÃO (IS 53:5,6,12; 1Pe 2:24). Jesus levou nossos pecados; os nossos pecados foram colocados sobre ele ou transferidos de nós para ele.

4- RECONCILIAÇÃO (2Co 5:18-19). A morte de cristo põe fim à inimizade e alienação entre Deus e a humanidade. Nossa hostilidade contra Deus é removida.

5- REDENÇÃO – Como pecadores estávamos escravizados ao pecado e a Satanás, precisávamos de alguém que nos proporcionasse redenção. Cristo veio e nos redimiu (1Jo 5:19; Cl 1:13; Hb 2:15).

V- AS TEORIAS SOBRE A EXPIAÇÃO

1- A TEORIA DO RESGATE

Era a forma pela qual Agostinho compreendia a expiação. O primeiro formulador importante dessa teoria foi Orígenes, teólogo de Alexandria. Segundo esse ponto de vista, o resgate que Cristo pagou para nos redimir foi dado a Satanás, em cujo reino se encontravam todas as pessoas devido ao pecado. Orígenes baseia-se em Mt 20:28; Mc 10:45. Mas a quem esse resgate foi pago? , perguntava Orígenes. Deus não poderia pagar resgate a si mesmo. Antes pagou a Satanás.

Essa teoria não encontra confirmação bíblica. A morte de Cristo não foi pagamento de resgate e sim propiciação oferecida a Deus Pai pelos nossos pecados.

2- A TEORIA DA INFLUÊNCIA MORAL

Desenvolvida inIcialmente por Pedro Aberlado, essa teoria não recebeu muito apoio até ser popularizada por Horace Bushnell (1802-1876), nos Estados Unidos e por Hastings Rashdall na Grã-Bretanha. Essa teoria sustenta que Deus não exige o pagamento de um castigo pelo pecado, mas que a morte de Cristo era simplesmente um modo pelo qual Deus mostrou o quanto amava os seres humanos ao identificar-se, até a morte, como os sofrimentos deles. A morte de cristo, então, torna-se um grande exemplo didático que mostra o amor de Deus por nós, amor que nos extrai uma resposta agradecida, de modo que somos pecadores ao amá-lo.

A grande dificuldade desse ponto de vista é que ele vai contra muitas passagens das Escrituras que falam em Cristo morrendo pelo pecado, carregando nosso pecado ou morrendo como propiciação. Se Cristo não morreu para pagar nossos pecados, não temos nenhum direito de confiar nele no que se refere ao perdão dos pecados.

3- A TEORIA SOCINIANA (DO EXEMPLO)

Ensinada pelos seguidores de Fausto Socino (1539-1604), tem seus melhores representantes nos unitaristas. Ela rejeita qualquer idéia de uma satisfação vicária e diz que a morte de Cristo simplesmente nos provê de exemplo de como devemos confiar em Deus e obedecer-lhe de modo perfeito, mesmo que essa confiança e obediência nos levem a uma morte horrível. Eles se apóiam em 1Pe 2:21.

Embora seja verdade que Cristo é um exemplo para nós mesmo em sua morte, isto não encerra o resgate, sacrifício, sacerdócio, expiação e coisas semelhantes na sua morte. Cf. 1Pe 2:22.

4- A TEORIA GOVERNAMENTAL

Ensinada pela primeira vez por Hugo Grotius (1583-1645). Essa teoria sustenta que Deus não tinha realmente de exigir castigo pelo pecado, mas, uma vez que ele era Deus onipotente, poderia deixar de lado essa exigência e simplesmente perdoar os pecados sem o pagamento de uma pena. Grotius viu a morte de Cristo apenas como um substituto da pena. O que deus fez por meio da morte de Cristo foi demonstrar aquilo que a justiça de Deus exigirá de nós caso continuemos pecando. Por causa da morte de Cristo, Deus tem condições de perdoar pecados sem romper a fibra moral do universo.

Nesse caso, qual foi o propósito da morte de Cristo?

a) não explica de modo adequado todas as passagens bíblicas que falam em cristo carregando nossos pecados sobre a cruz. b) Retira o caráter objetivo da expiação por tornar o seu propósito não a satisfação de Deus, mas apenas a influência sobre nós a fim de nos fazer perceber que Deus tem leis que devem ser guardadas. c) Implica em não podermos confiar de modo correto na obra completa de Cristo quanto ao perdão dos pecados, pois de fato não foram pagos por ele. Ela faz com que a conquista efetiva do perdão por nós seja algo que aconteceu na mente do próprio deus à parte da morte de Cristo sobre a cruz – ele já tinha decidido nos perdoar sem exigir de nós nenhum castigo e então puniu Cristo apenas para demonstrar que ainda era o governador moral do universo.

5- A TEORIA DA SATISFAÇÃO

Cristo morreu para satisfazer um princípio na própria natureza de Deus Pai. Anselmo coloca-a da seguinte maneira: O pecado é em essência deixar de render a Deus o que lhe é devido, tomar de Deus o que é dele por direito e desonrá-lo. Nós, pecadores, precisamos devolver a Deus o que tomamos dele. Mas não basta apenas devolver a Deus o que lhe tomamos, pois, ao tomar dele, nós o injuriamos; e mesmo depois de devolver-lhe o que foi tomado, ainda é preciso que haja alguma compensação complementar ou reparação pela injúria cometida.

Cristo, sendo tanto deus como homem sem pecado, não merecia a morte. Portanto, a oferta de sua vida a Deus, em favor da raça humana da qual ele fazia parte, ultrapassou aquilo que se exigia dele. O pagamento foi satisfatório, pois a morte do Deus-homem, considerando que ele, sendo deus, tinha poder sobre sua própria vida (Jo 10:18) e não precisava morrer, possui valor infinito.

Fonte: IPTC

http://www.geocities.com/ipbtc/estudos.html?UserID=%40iptc%2Eorg%2Ebr

Expiação Limitada / Definida
Mt 1.21; Jo 3.16; Jo 10.27-30; Jo 17.9-12; At 20.28; Rm 8.30

Ás vezes, as doutrinas distintivas da teologia reformada são resumidas em inglês pelo uso de acróstico T.U.L.I.P. [em Português seria D.E.E.G.P.]:

Total depravity = Depravação total
Unconditional election = Eleição incondicional
Limited atonement = Expiação limitada
Irresistible grace = Graça irresistível
Perseverance of the saints = Perseverança dos santos

Embora o acróstico seja útil para ajudar na memorização, também pode gerar confusão com respeito as doutrinas por causa da maneira como foi organizado para formar o acróstico "TULIP" [em inglês]. Isso é especialmente verdadeiro com referência ao terceiro ponto, ou seja, expiação limitada. Muitos, que se consideram calvinistas "de quatro pontos", estão dispostos a confirmar todos os pontos, menos a expiação limitada. Tiram o L do "TULIP".

Prefiro o termo expiação definida ao termo expiação limitada (embora tenha que converter tulip em tudip). A doutrina da expiação definida focaliza a questão no desígnio de Cristo. Isso tem a ver com o propósito de Deus em enviar Jesus à cruz.

Qualquer um que não seja universalista[aqueles que crêem que todos os homens do universo podem ser salvos] está disposto a concordar que o efeito da obra de Cristo na cruz é limitado aos que crêem. Isso é, a expiação de Cristo não tem validade para os não crentes. Nem todas as pessoas são salvas através de sua morte. Todos também concordam que o mérito de morte de Cristo é suficiente para pagar pelos pecados de toda a humanidade. Alguns colocam desta maneira: a expiação de Cristo é suficiente para todos, mas é eficiente somente para alguns.

Isso, entretanto, não é o âmago da questão da expiação definida. Os que negam a expiação definida insistem em que a obra expiatória de Cristo foi destinada por Deus para expiar os pecados de todo mundo. Tomou possível a salvação de todas as pessoas, mas não tomou certa a salvação de ninguém. Este desígnio, portanto, é ilimitado e indefinido.

A visão reformada sustenta que a expiação de Cristo foi destinada e tencionada só para eleitos. Cristo deu sua vida por sua ovelhas - é só por suas ovelhas. Além disso, a expiação garantiu a salvação para todos os eleitos. A expiação foi uma obra real de redenção e não simplesmente potencial. Nesta visão, não há possibilidade de que o desígnio e intenção de Deus para a expiação sejam frustrados. O propósito de Deus na salvação é infalível.

Os teólogos reformados diferem na questão da oferta da expiação para  a raça humana. Alguns insistem em que a oferta do evangelho é universal. A Cruz e seus benefícios são oferecidos a todo aquele que crê. Outros insistem em que este conceito de uma oferta universal é equivocado e que envolve um tipo de jogo de palavras. Visto que só os eleitos de fato irão crer, na verdade a oferta é  voltará só para eles. O beneficio da expiação de Cristo nunca é oferecido por Deus ao impenitente ou incrédulo. Já que fé e arrependimento são condições satisfeitas só pelos eleitos, em última análise a expiação é oferecida só a eles.

O apóstolo João escreve "E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo." (1 Jo 2.2). Este texto, mais que qualquer outro, é citado como a prova das Escrituras contra a expiação definida [ou também chamada expiação limitada]. à primeira vista, o teto parece argumentar que a morte de Cristo foi destinada a todas as pessoas (o mundo inteiro). Entretanto, se for tomado nesse sentido, o texto prova mais do que os cristãos não reformados querem que ele prove. Torna-se um texto prova para o universalismo. Se  Cristo de fato propiciou ou satisfez as exigências de Deus para a punição dos pecados de todas as pessoas, logo fica claro que todas as pessoas seriam salvas. Se Deus punisse pecados que já foram propiciados, então ele seria injusto. Se o texto for interpretado como significado como significando que os pecados de todos foram condicionalmente expiados (dependentes de fé e arrependimento, então voltamos à  questão original de que somente os eleitos satisfazem tais condições.

A outra maneira de interpretar este texto é vendo o contraste entre nossos pecados e os do mundo inteiro. Quem são as pessoas incluídas na palavra nossos? Se João está falando somente das pessoas crentes, então a interpretação anterior do texto se aplacaria. Mas esse é o único significado possível de nosso?

No Novo Testamento, com freqüência se faz um contraste entre a salvação experimentada pelos judeus e a experimentada pelos não-judeus. Um ponto crucial do evangelho é que ele não se limita aos judeus, mas se estende às pessoas de todo o mundo, às pessoas de todas as tribos e nações. Deus ama o mundo todo, mas não salva o mundo todos; ele salva pessoas de todas as partes do mundo. Neste texto, não pode estar simplesmente dizendo que Cristo não é a propiciação só pelos nossos pecados (dos crentes judeus), mas pelos eleitos que se encontram também em todas as partes do mundo.

Em qualquer caso, o plano de Deus foi decido antes de qualquer pessoas estivesse no mundo. A expiação de cristo não foi um pensamento divino de última hora. O propósito de Deus na morte de Cristo foi determinado desde a fundação do mundo. O desígnio não foi estabelecido por acaso, mas de acordo com um plano e um propósito específicos, os quais Deus está cumprindo soberanamente. Todo aquele por quem Cristo morreu é redimido por seu ato sacrifical.

Sumário

1. Expiação definida substitui o termo expiação limitada.

2.  Expiação definida refere-se ao alcance do designo de Deus na redenção e no propósito da cruz.

3. Todos os cristãos que não são universalistas concordam que a expiação de Cristo é suficiente para todos, mas eficaz somente para aqueles que crêem.

4.A expiação de Cristo foi uma propiciação real pelo pecado, e não uma propiciação potencial ou condicional.

5. A expiação, num sentido amplo, é oferecida a todos; num sentido mas restrito, é oferecida só aos eleitos.

6. O ensino de João de que Cristo morreu pelos pecados do mundo inteiro significa que os eleitos não estão confinados a Israel, mas se encontram em todas as partes do mundo.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 2º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre este livro em http://www.cep.org.br


A SANTIFICAÇÃO

A Santificação
O Cristão cresce em graça

"Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus?  E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus." 1 Co 6.9,11

Santificação, diz o Breve Catecismo de Westminister (P. 35), é "a obra da livre graça de Deus, pela qual somos renovados em todo o nosso ser, segundo a imagem de Deus, e habilitados a morrer cada vez mais para o pecado e a viver para a retidão". O conceito não é de ser o pecado totalmente  erradicado (o que seria exigir de demasiado) ou meramente contrabalançado (o que seria muito pouco), mas de uma mudança do caráter divinamente forjado, libertando-nos de hábitos pecaminosos e formando em nós afeições, disposições  e virtudes cristãs.

A santificação é uma transformação progressiva dentro de uma consagração que se mantém, e que produz uma justiça real emoldurada pela santidade relacional. A santificação relacional, o estado de estar permanentemente separado para Deus, emana da cruz, onde Deus por meio de Cristo nos comprou e reivindicou para si mesmo (At 20.28; 26.18; Hb 10.10). A renovação moral, pela qual estamos mudando de modo crescente em relação àquilo que fomos, decorre da agência do  Espírito Santo em nosso coração (Rm 8.13; 12.1,2; 1 Co 6.11,19,20; 2 Co 3.18; Ef 4.22-24; 1 Ts 2.13; Hb 13.20,21). Deus chama seus filhos para a santidade e dá-lhes  graciosamente o que Ele ordena (1 Ts 4.4; 5.23).

Regeneração é nascimento; santificação é crescimento. Na regeneração, Deus implanta desejos onde antes não havia: desejo de Deus, de santidade, e de santificação e glorificação do nome de Deus neste mundo; desejo de orar, adorar, amar, servir, honrar e agradar a Deus, desejo de demonstras amor e prestar benefícios aos outros. Na santificação, o Espírito Santo "efetua em vós tanto o querer como o realizar", de acordo com o propósito de Deus; o que Ele faz é inspirar a "desenvolver a vossa salvação" (isto é, expressá-la em ações) pela realização desses novos desejos (Fp 2.12,13). Os cristãos se tornam cada vez mais identificados com Cristo à medida que  o perfil moral de Jesus (o "fruto do Espírito") se forma progressivamente neles (2 Co 3.18; Gl 4.19; 5.22-25). O uso que  Paulo faz da palavra glória em 2 Coríntios 3.18 mostra que para ele santificação do caráter é glorificação iniciada. Depois, a transformação física que nos dá um corpo como o de Cristo, o qual se identificará com nosso caráter totalmente transformado e será um meio perfeito de expressá-lo, será completada a glorificação (Fp 3.20,21; 1 Co 15.49-53).

A regeneração foi um ato monergista momentâneo para despertar os espiritualmente mortos. Como tal, foi uma obra exclusiva de Deus. A santificação, contudo, é em certo sentido sinérgica - é um processo cooperativo em progressão, no qual as pessoas regeneradas, vivas para Deus e libertas do domínio do pecado (Rm 6.11,14-18), são solicitadas a manifestar sólida obediência. O método de Deus para a santificação não  é nem ativismo (atividade autoconfiante) nem apatia (passividade confiante em Deus). mas sim esforço dependente de Deus (2 Co 7.1; Fp 3.10-14; Hb 12.14). Sabendo que se não nos tornar aptos, nada poderemos fazer, moralmente falando, como deveríamos, e que Ele está pronto a nos fortalecer em tudo o que temos por fazer (Fp 4.13), permanecemos em Cristo, suplicando constantemente sua ajuda, e a receberemos (Cl 1.11; 1 tm 1.12; 2 Tm 1.7; 2.1).

O padrão para o qual se dirige a obra divina de santificação os santos é sua própria lei moral revelada, como foi exposta e moldada pelo próprio Cristo. O amor, humildade e paciência de Cristo sob pressão devem ser conscientemente imitados ( Ef 5.2; Fp 2.5-11; 1 Pe 2.21), pois um espírito e atitude cristãos são parte do que a guarda da lei envolve.

Os crentes encontram dentro de si mesmo desejos que se opõem. O Espírito mantém seus desejos e propósitos regenerados; seus instintos adâmicos degenerados (a "carne"), que, embora destronados, não estão ainda destruídos, constantemente os desviam de executar a vontade de Deus e os fascinam ao longo dos caminhos que levam à morte (Gl 5.16,17; Tg 1.14,15). Para esclarecer a relação entre a lei e o pecado, Paulo analisa de forma pessoal e dramática a sensação de impotência para a completa guarda da lei, e a escravização ao comportamento reprovável, que a tensão Espírito-carne produz (Rm 7.14-25). Este conflito e frustração estarão com os cristãos enquanto eles estiverem no corpo. Entretanto, vigiando e orando contra a tentação, e cultivando virtude opostas,  eles podem com a ajuda do Espírito "mortificar" (isto é, exaurir a vida, enfraquecer como meio de matar) maus hábitos particulares, e neste sentido morre cada vez mais para o  pecado (Rm 8.13; Cl 3.5). Eles experimentarão muitos livramentos e vitória particulares em sua infindável batalha contra o pecado, além de nunca serem expostos a tentações que são impossíveis de resistir (1 Co 10.13).

Autor: J. I. Packer
Fonte: Teologia Concisa, pg. 159, Ed. Cultura Crista. Compre este livro em http://www.cep.org.br.


A Santificação é obra sobrenatural de Deus, mas cooperamos.
 

Alguns têm a equivocada noção de que a Santificação consiste meramente em induzir a nova vida implantada na alma pela regeneração, de maneira persuasiva, mediante a apresentação de motivos à vontade. Mas isto não está certo. Ela consiste, fundamental e primariamente, de uma operação divina na alma pela qual a Santa disposição nascida na Regeneração é fortalecida e os seus santos exercício são aumentados.
 
É essencialmente uma obra de Deus, embora, na medida em que Deus emprega meios, podemos esperar que o homem coopere, pelo uso adequado desses meios. [Cooperamos em obediência à Palavra de Deus, na oração, na participação dos sacramentos.]*
 
 A Escritura mostra claramente o caráter sobrenatural  da Santificação de diversas maneiras. Descreve-a como Obra de Deus 1 Ts 5.23; Hb 13.20,21, como obra da união vital com Jesus Cristo, Jo 15.4; Gl 2.20; 4.19, como uma Obra que é realizada no homem por dentro e que, por essa mesma razão, não pode ser obra do homem Ef 3.16; Cl 1.11, e fala da sua manifestação nas virtudes Cristãs como sendo Obra do Espírito, Gl 5.22 [Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança.]. Jamais deverá ser descrita como um processo meramente natural de desenvolvimento Espiritual do homem, nem tampouco deverá ser rebaixada ao nível de uma simples, realização humana, como se faz em grande parte da Teologia "liberal" moderna.
 
Autor: Louis Berkhof
Fonte: Teologia Sistemática do autor, p. 536,537 Ed Cultura Cristã (CEP) compre este livro em http://www.cep.org.br.

* Acrescemo do editor do site, base no que Berkhof diz mais andiante em sua Teologia.


A PERSEVERANÇA

A perseverança dos santos (permanecer cristão)
 

Nota: AT = Antigo Testamento; NT = Novo Testamento


Pode o verdadeiro cristão perder a salvação?
Como podemos saber se verdadeiramente nascemos de novo?
 
1. EXPLICAÇÃO E BASE BÍBLICA

Em nossa discussão anterior tratamos de muitos aspectos da salvação plena que Cristo obteve para nós e que o Espírito agora aplica à nossa vida. Mas como sabemos que continuaremos a ser cristãos por toda a vida? Há algo que nos impede de abandonar Cristo, algo que nos garante que sempre haveremos de permanecer cristãos até que morramos e que de fato viveremos com Deus no céu para sempre? Ou poderá acontecer de chegarmos a nos separar de Cristo e de perdermos as bênçãos de nossa salvação? O tópico da perseverança dos santos responde a essas perguntas.A perseverança dos santos significa que todos os que verdadeiramente nasceram de novo serão guardados pelo poder de Deus e perseverarão como cristãos até o fim da vida, e que somente os que perseverarem até o fim verdadeiramente nasceram de novo.

Essa definição tem duas partes. Ela indica primeiro que há uma certeza concedida aos que verdadeiramente nasceram de novo, pois ela lhes recorda que o poder de Deus os guardará como cristãos até o dia em que vierem a morrer e que eles certamente viverão com Cristo no céu para sempre. Por outro lado, a segunda metade da definição deixa claro que a permanência na vida cristã é uma das evidências de que a pessoa verdadeiramente nasceu de novo. É importante registrar também esse aspecto da doutrina na mente, para que evitemos passar falsa segurança às pessoas que nunca foram realmente crentes.

Devemos observar que esse é um assunto sobre o qual os cristãos evangélicos vêm discordando há longo tempo. Muitos dentro da tradição arminiana/wesleyana sustentam que é possível alguns que verdadeiramente nasceram de novo virem a perder a salvação, ao passo que os cristãos reformados defendem que isso não é possível. A maioria dos batistas segue a tradição reformada nesse ponto; contudo, muitas vezes usam o termo segurança eterna ou segurança eterna do crente em vez do termo perseverança dos santos.
“A doutrina da perseverança dos santos é representada pela letra “p” no acróstico TULIP, que muitas vezes é usado para sintetizar os chamados “cinco pontos do calvinismo”
 
A. Todos os que verdadeiramente nasceram de novo perseverarão até o fim

Muitas passagens ensinam que os que verdadeiramente nasceram de novo, os genuinamente cristãos, continuarão na vida cristã até a morte e, a seguir, ficarão com Cristo no céu. Jesus diz: “Pois desci dos céus, não para fazer a minha vontade, mas para fazer a vontade daquele que me enviou. E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, mas os ressuscite no último dia. Porque a vontade de meu Pai é que todo aquele que olhar para o Filho e nele crer tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.38-40). Aqui Jesus diz que todo o que crê nele terá vida eterna. Diz que ressuscitará essa pessoa no último dia — o que, nesse contexto de crer no Filho e ter vida eterna, claramente significa que Jesus ressuscitará a pessoa para a vida eterna com ele (não apenas a ressuscitará para ser julgada e condenada). Parece difícil evitar a conclusão de que quem verdadeiramente crê em Cristo permanecerá cristão até o dia da ressurreição final com bênçãos de vida na presença de
Deus. Além disso, esse texto enfatiza que Jesus faz a vontade do Pai, que é não perder nenhum dos que o Pai lhe dera (Jo 6.39). Uma vez mais, os que foram dados ao Filho pelo Pai não se perderão.

Outra passagem que salienta essa verdade é João 10.27-29, na qual Jesus diz: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna, e elas jamais perecerão; ninguém as poderá arrancar da minha mão. Meu Pai, que as deu para mim, é maior do que todos; ninguém as pode arrancar da mão de meu Pai”.

Aqui Jesus diz que os que o seguem, que são suas ovelhas, recebem vida eterna. Além disso, ele diz que “ninguém as poderá arrancar da minha mão” (v. 28). Ora, alguns têm argumentado que, mesmo que ninguém possa ser arrebatado da mão de Cristo, nós podemos escapar por nós mesmos das mãos de Cristo. Mas essa parece apenas uma disputa de palavras — a expressão “ninguém” não inclui também a pessoa que está nas mãos de Cristo? Além disso, sabemos que nosso coração está longe de ser digno de confiança. Portanto, se a possibilidade de nós próprios abandonarmos Cristo permanecesse, a passagem dificilmente daria a segurança que Jesus pretende transmitir nela.
Mais importante ainda, a frase mais vigorosa na passagem é “e elas jamais perecerão” (v. 28). A construção grega (ou mē mais o aoristo subjuntivo) é especialmente enfática e poderia ser traduzida mais explicitamente por: ”e eles com certeza não perecerão eternamente”. Isso enfatiza que os que são “ovelhas” de Jesus e o seguem, e a quem ele deu vida eterna, nunca perderão a salvação ou serão separados de Cristo — jamais “perecerão”.

Há muitas outras passagens que dizem que os que crêem têm “vida eterna”. Um exemplo é João 3.36: “Quem crê no Filho tem a vida eterna” (v. tb. Jo 5.24; 6.4-7; 10.28; 1Jo 5.13). Ora, se essa é verdadeiramente a vida eterna que os crentes possuem, então é a vida que dura para sempre com Deus. Ela é muitas vezes colocada em contraste com a condenação e com o juízo eterno (Jo 3.16,17,36; 10.28), e a ênfase nesse texto com o adjetivo eterna mostra adicionalmente que essa é a vida que dura para sempre na presença de Deus.

A evidência nos escritos de Paulo e em outras cartas do NT também indica que quem verdadeiramente nasceu de novo perseverará até o fim. Neles se ressalta igualmente que “agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). Portanto, seria injusto Deus atribuir qualquer espécie de punição eterna aos que são cristãos — nenhuma condenação permanece para eles, pois a penalidade total de seus pecados já foi paga.
Então, em Romanos 8.30, Paulo enfatiza a conexão clara entre os propósitos eternos de Deus na predestinação e o desenvolvimento desses propósitos na vida, juntamente com a realização final desses propósitos em “glorificar” ou dar corpos ressuscitados a quem ele colocou em união com Cristo: “E aos que predestinou, também chamou; aos que chamou, também justificou; aos que justificou, também glorificou”. Aqui Paulo vê o evento futuro da glorificação como uma certeza nos propósitos que Deus estabeleceu, de forma que ele pode falar sobre ele como se já houvesse se realizado (“também glorificou”). Isso é verdade a respeito de todos os que são chamados e justificados — ou seja, todos os que verdadeiramente se tornaram cristãos.
Evidência adicional de que Deus guarda os que nasceram de novo de modo seguro por toda a eternidade é o “selo” que Deus coloca sobre eles. Esse “selo” é o Espírito Santo dentro deles, que também atua como “garantia” de Deus de que receberemos a herança que nos foi prometida:
“Quando vocês ouviram e creram na palavra da verdade, o evangelho que os salvou, vocês foram selados em Cristo com o Espírito Santo da promessa, que é a garantia da nossa herança até a redenção daqueles que pertencem a Deus, para o louvor da sua glória” (Ef 1.13,14). A palavra grega traduzida por “garantia” nessa passagem (arrabōn) é um termo legal e comercial que significa “primeiro pagamento, depósito, entrada, prestação inicial” e representa “um pagamento que obriga a parte contratante a fazer os pagamentos restantes”. Quando Deus enviou o Espírito Santo para habitar em nós, ele se comprometeu a dar todas as bênçãos restantes da vida eterna e uma grande recompensa no céu com ele. Essa é a razão por que Paulo pode dizer que o Espírito Santo é a “garantia da nossa herança até a redenção daqueles que pertencem a Deus” (Ef 1.14). Todos os que têm o Espírito Santo dentro de si, todos os que verdadeiramente nasceram de novo, têm a promessa imutável e a garantia de que a herança da vida eterna no céu certamente será deles. A própria fidelidade de Deus o obriga a fazer isso.

Pedro diz a seus leitores que eles estão “protegidos pelo poder de Deus até chegar a salvação prestes a ser revelada no último tempo”(lPe 1.5).A palavra ”protegidos” (gr.,phroureō) pode significar tanto “guardados de escapar” quanto “protegidos de ataque”, e talvez esses dois significados estejam presentes aqui: Deus preserva os crentes de escaparem do seu Reino como os protege dos ataques externos. “Salvação” é usada aqui não em relação à justificação passada ou à santificação presente (falando em categorias teológicas), mas em referência à plena posse futura de todas as bênçãos de nossa redenção — ao cumprimento completo e final da salvação (cf. Rm 13.11; 1 Pe 2.2). Embora a salvação já esteja preparada ou pronta, ela não será “revelada” por Deus à raça humana em geral até o “último tempo”, o tempo do juízo final. Se essa proteção de Deus tem como propósito a preservação dos crentes até que recebam a plena salvação celestial, então é certo concluir que Deus cumprirá esse propósito e que eles, de fato, alcançarão a salvação final. Essa obtenção da salvação final em última instância depende do poder de Deus.

 
B. Somente os que perseverarem até o fim é que verdadeiramente nasceram de novo

Ao mesmo tempo em que a Escritura repetidamente enfatiza que quem verdadeiramente nasceu de novo perseverará até o fim e certamente terá a vida eterna no céu com Deus, há também outras passagens que falam sobre a necessidade de permanecer na fé no decorrer da vida. Elas nos fazem compreender que o que Pedro disse em lPedro 1.5 (“mediante a fé, são protegidos pelo poder de Deus“) é verdadeiro, a saber, que Deus não nos guarda independentemente de nossa fé nele. Desse modo, quem continua a confiar em Cristo recebe a segurança de que Deus opera nele e o guarda.
Um exemplo dessa espécie de passagem é João 8.31,32: “Disse Jesus aos judeus que haviam crido nele: ‘Se vocês permanecerem firmes na minha palavra, verdadeiramente serão meus discípulos. E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará”’. Jesus está aqui advertindo que uma evidência da fé genuína é a permanência na sua Palavra, isto é, a contínua confiança no que ele diz e uma vida de obediência aos seus mandamentos. Semelhantemente, Jesus diz: “aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt 10.22), como um meio de advertir as pessoas a não desistir nos tempos de perseguição.

Paulo diz aos cristãos de Colossos que Cristo os havia reconciliado com Deus “para apresentá-los diante dele santos, inculpáveis e livres de qualquer acusação, desde que continuem alicerçados e firmes na fé, sem se afastarem da esperança do evangelho, que vocês ouviram e que tem sido proclamado a todos os que estão debaixo do céu” (Cl 1.22,23). É natural que Paulo e outros escritores do NT falem desse modo, pois embora estejam se dirigindo a grupos de pessoas que professam ser cristãs, não estão aptos a saber o real estado do coração das pessoas. Pode ser que houvesse pessoas em Colossos que se uniram na comunhão da igreja, professaram que tinham fé em Cristo e foram batizados na igreja, mas que nunca tiveram a verdadeira fé salvadora. Como Paulo distinguiria tais pessoas dos verdadeiros crentes? Como ele pode evitar dar-lhes a falsa segurança, a segurança de que eles serão salvos eternamente, quando na verdade eles não o serão, a menos que venham ao arrependimento e à fé? Paulo sabe que aqueles cuja fé não é real finalmente acabarão por abandonar a participação na comunhão da igreja. Portanto, ele diz a seus leitores que, em última análise, eles serão salvos se continuarem “alicerçados e firmes na fé” (Cl 1.23). Quem persevera mostra, desse modo, que é crente genuíno. Mas quem não persevera na fé demonstra que não houve nenhuma fé genuína em seu coração.
Ênfase similar é vista em Hebreus 3.14: “pois passamos a ser participantes de Cristo, desde que, de fato, nos apeguemos até o fim à confiança que tivemos no princípio”. Esse versículo proporciona uma perspectiva excelente da doutrina da perseverança. Como sabemos se passamos a ser participantes de Cristo? Como sabemos se essa união com Cristo realmente aconteceu em algum momento do passado? Um meio de sabermos que possuímos tal fé genuína em Cristo é se perseveramos com fé até o fim da vida.

Devemos nos lembrar de que há outras evidências em outras partes da Escritura que dão aos cristãos a segurança da salvação. Dessa forma, não devemos pensar que a segurança de que pertencemos a Cristo é impossível até que morramos. Contudo, a perseverança na fé é um meio de segurança que é mencionado aqui pelo autor de Hebreus. Além disso, nessa e em todas as outras passagens a respeito da necessidade de continuar na fé, o propósito nunca é deixar os que estão presentemente confiando em Cristo preocupados com o fato de que, em algum tempo, no futuro, possam cair. Nunca devemos usar essas passagens com tal intenção, pois seria criar uma causa injusta para preocupação de uma forma que a Escritura não pretende. Ao contrário, o propósito é sempre advertir os que estão pensando em abandonar a fé ou que já a abandonaram de que, se eles se portam assim, essa é uma forte indicação de que nunca foram salvos. Portanto, a necessidade de perseverar na fé deveria ser usada apenas como advertência contra abandonar a fé, advertência de que quem a abandona dão evidência de que sua fé nunca foi real.
 
C. Os que finalmente se afastam podem dar muitos sinais externos de conversão.

Sempre fica claro quais pessoas na igreja possuem a genuína fé salvadora e quais as possuem somente uma persuasão intelectual da verdade do evangelho, mas sem a genuína fé em seu coração? Nem sempre é fácil dizer isso, e a Escritura menciona em diversos lugares que descrentes em comunhão com a igreja visível podem apresentar alguns sinais externos ou indicações que os fazem parecer crentes genuínos. Por exemplo, Judas, que traiu Cristo, deve ter se comportado quase exatamente como os outros discípulos durante os três anos que esteve com Jesus. Tão convincente era a sua conformidade com a conduta padrão dos outros discípulos que, no fim dos três anos de ministério de Jesus, quando ele disse que um dos seus discípulos o haveria de trair, eles não suspeitaram de Judas, antes “começaram a dizer-lhe, um após outro: ‘Com certeza não sou eu, Senhor!”’ (Mt 26.22; cf. Mc 14.19; Lc 22.23; Jo 13.22). Contudo, Jesus sabia que não havia fé genuína no coração de Judas, porque ele disse a determinada altura: “Não fui eu que os escolhi, os Doze? Todavia, um de vocês é um diabo!” (Jo 6.70). João registrara anteriormente que “Jesus sabia desde o princípio quais deles não criam e quem o iria trair” (Jo 6.64), mas os discípulos não sabiam disso.
Paulo também fala que “falsos irmãos infiltraram-se em nosso meio” (Gl 2.4) e diz que em suas jornadas estivera em “perigos dos falsos irmãos” (2Co 11.26). Também diz dos servos de Satanás: “não é surpresa que os seus servos finjam que são servos da justiça” (2Co 11.15). Isso não significa que todos os descrentes na igreja que dão alguns sinais de verdadeira conversão são servos de Satanás que estão secretamente minando a obra da igreja, porque alguns realmente podem estar no processo de considerar as afirmações do evangelho e se dirigir à fé real, outros podem ter ouvido a explicação do evangelho de modo inadequado, e outros podem não ter vindo ainda à genuína convicção do Espírito Santo. Mas as afirmações de Paulo realmente significam que alguns descrentes na igreja serão falsos irmãos enviados para romper a comunhão, enquanto outros simplesmente serão descrentes que finalmente poderão vir à fé salvífica. Em ambos os casos, contudo, eles apresentam diversos sinais externos que os fazem parecer crentes genuínos.

Podemos ver isso também na afirmação de Jesus a respeito do que vai acontecer no julgamento final: “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal!” (Mt 7.21-23).
Embora essas pessoas tenham profetizado, expelido demônios e feito muitos milagres no nome de Jesus, a capacidade de fazer tais obras não era garantia de que fossem cristãos. Jesus diz: “Nunca os conheci”. Ele não diz: “Eu conheci vocês por um tempo, mas agora não os conheço mais”, ou “Eu conheci vocês por um tempo, mas vocês se extraviaram de mim”. Antes, ele diz: “Eu nunca conheci vocês”. Eles nunca haviam sido crentes genuínos.
Ensino semelhante é encontrado na parábola do semeador em Marcos 4. Jesus diz: “Parte dela caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra; e logo brotou, porque a terra não era profunda. Mas quando saiu o sol, as plantas se queimaram e secaram, porque não tinham raiz” (Mc 4.5,6). Jesus explica que a semente semeada no solo pedregoso representa as pessoas que “ouvem a palavra e logo a recebem com alegria. Todavia, visto que não têm raiz em si mesmas, permanecem por pouco tempo. Quando surge alguma tribulação ou perseguição por causa da palavra, logo a abandonam” (Mc 4.16,17). O fato de que elas “não têm raiz em si mesmas” indica que não há nenhuma fonte de vida dentro dessas plantas; semelhantemente, as pessoas representadas por elas não possuem vida genuína em seu interior. Elas possuem uma aparência de conversão e aparentemente se tornaram cristãs, porque recebem a palavra “com alegria”, mas, quando a dificuldade vem, elas não são encontradas — a conversão delas não era genuína e não havia sinal nenhum de fé salvadora em seu coração.

A importância de perseverar na fé é afirmada também na parábola de Jesus sobre a vinha, na qual os cristãos são retratados como ramos (Jo 15.1-7). Jesus diz: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, ele corta; e todo que dá fruto ele poda, para que dê mais fruto ainda. Se alguém não permanecer em mim, será como o ramo que é jogado fora e seca. Tais ramos são apanhados, lançados ao fogo e queimados” (Jo 15. 1,2,6).
Os arminianos argumentam que os ramos que não dão fruto são ainda verdadeiros ramos da videira — Jesus se refere a “todo ramo que, estando em mim, não dá fruto” (v. 2). Portanto, os ramos que são juntados, lançados no fogo e queimados devem se referir a verdadeiros crentes que em determinado tempo foram parte da videira, mas caíram e se tornaram sujeitos ao juízo eterno. Mas essa não é a implicação necessária do ensino de Jesus nesse ponto.A figura da videira usada nessa parábola é limitada na quantidade de detalhes que ensina. De fato, se Jesus tivesse querido ensinar que havia verdadeiros e falsos crentes associados com ele, então o único modo pelo qual ele poderia referir-se às pessoas que não possuíam vida genuína em si mesmas seria falar dos ramos que não davam fruto (logo após a analogia das sementes que caíram em solo pedregoso e não tinham “raiz em si mesmas”, em Mc 4.17). Aqui em João l5 os ramos que não dão fruto, embora estejam de algum modo relacionados com Jesus e tenham a aparência exterior de serem ramos genuínos, indicam seu verdadeiro estado pelo fato de que não produzem fruto. Isso é demonstrado de forma semelhante pelo fato de que, se uma pessoa “não permanecer” em Cristo (Jo 15.6), é cortada como um ramo e se seca. Se tentarmos pressionar a analogia para além disso, dizendo, por exemplo, que todos os ramos da videira são realmente vivos ou não estariam lá, então estamos simplesmente tentando forçar a figura a ir além do que ela é capaz de ensinar — e nesse caso não haveria nada na analogia que pudesse representar os falsos crentes. O ponto afirmado pela figura é simplesmente que os que produzem fruto desse modo dão evidência de que permanecem em Cristo; os que não produzem fruto, não estão permanecem nele.
Finalmente, há duas passagens em Hebreus que também afirmam que os que acabam caindo podem dar muitos sinais externos de conversão e podem parecer de muitas maneiras iguais aos cristãos. O primeiro deles, Hebreus 6.4-6, é muito usado pelos arminianos como prova de que crentes podem perder a salvação. Mas a análise mais criteriosa mostra que tal interpretação não é convincente. O autor escreve: “Ora, para aqueles que uma vez foram iluminados, provaram o dom celestial, tornaram-se participantes do Espírito Santo, experimentaram a bondade da palavra de Deus e os poderes da era que há de vir, e caíram, é impossível que sejam reconduzidos ao arrependimento; pois para si mesmos estão crucificando de novo o Filho de Deus, sujeitando-o à desonra pública” (Hb 6.4-6).
Neste momento podemos perguntar que espécie de pessoa é descrita por todos esses termos. Esse texto descreve alguém que genuinamente nasceu de novo? Tratavam-se sem dúvida de pessoas que estavam associadas intimamente com a comunhão da igreja. Haviam tido alguma espécie de tristeza pelo pecado (arrependimento). Haviam entendido claramente o evangelho (haviam sido iluminadas). Chegaram a apreciar o encanto da vida cristã e a mudança que acontece na vida das pessoas pelo fato de se tornarem cristãs, provavelmente obtiveram respostas de oração e sentiram o poder do Espírito Santo em operação, talvez até usando alguns dons espirituais do mesmo modo que os descrentes em Mateus 7.22 (haviam se associado à obra do Espírito Santo ou tinham se tornado “participantes” do Espírito, e tinham provado o dom celestial e os poderes vindouros). Elas haviam sido expostas à verdadeira pregação da Palavra e tinham aprovado muito dos seus ensinos (elas provaram a boa Palavra de Deus).
Mas, a despeito de tudo isso, se elas “caíram” em apostasia, “crucificando de novo o Filho de Deus” para si mesmas (Hb 6.6), então elas estão deliberadamente rejeitando todas essas bênçãos e se voltando decididamente contra elas. O autor nos diz que, se isso ocorre, será impossível restaurar essas pessoas novamente a qualquer espécie de arrependimento ou tristeza pelo pecado. O seu coração será endurecido e sua consciência, amortecida. A familiaridade repetida que elas tiveram com as coisas de Deus e sua experiência da influência do Espírito Santo em diversas ocasiões simplesmente serviram para endurecê-las para a verdadeira conversão.
É claro que houve alguns na comunidade aos quais essa carta foi escrita que estavam em perigo de cair da mesma maneira (v. Hb 2.3; 3.8,12,14,15; 4.1,7,11; 10.26,29,35,36,38,39; 12.3,15-17). O autor quer adverti-los de que, embora tenham participado da comunhão da igreja e experimentado muitas das bênçãos de Deus em sua vida, se caírem após tudo isso, não há salvação para eles. Ele quer usar a linguagem mais forte possível para dizer: “Neste caso, não importa o quanto uma pessoa experimente bênçãos temporárias, ela ainda não foi realmente salva”. Ele os está advertindo a serem cuidadosos, porque depender das bênçãos e experiências temporárias não é suficiente. Isso não quer dizer que ele pensa que os verdadeiros cristãos poderiam cair — [Para a discussão muito mais abrangente dessa passagem, v. Perseverance of the saints: a case study from Hebrews 6.4-6 and the other warning passages in Hebrews, de Wayne Grudem. In: Thomas Schreiner & Bruce Ware, orgs. The grace of God e the bondage ofthe will (Grand Rapids: Baker, 1995), 1:133-82.]

Hebreus 3.14 sugere exatamente o oposto. Antes ele quer dar-lhes a certeza da salvação por meio da perseverança na fé e dessa forma subentende que, se eles caírem, isso demonstrará que eles nunca foram realmente povo de Deus.

Por essa razão, imediatamente ele passa dessa descrição dos que cometem apostasia para uma analogia posterior que mostra que essas pessoas que caem nunca tiveram qualquer fruto genuíno em suas vidas. Os versículos 7 e 8 falam dessas mesmas pessoas em termos de “espinhos” e “ervas daninhas”, uma espécie de colheita que é produzida na terra que não tem vida que valha a pena em si mesma, muito embora receba repetidamente bênçãos de Deus (em termos da analogia, embora chova freqüentemente sobre ela). Devemos observar aqui que as pessoas que cometem apostasia não são comparadas a um campo que uma vez produziu bom fruto e que agora não produz, mas que são iguais à terra que nunca produziu bom fruto, mas somente espinhos e ervas daninhas. A terra pode parecer boa antes da colheita começar a aparecer, mas o fruto dá a evidência genuína, e ele é mau.
Forte apoio para essa interpretação de Hebreus 6.4-8 é encontrado no versículo imediatamente seguinte. Embora o autor tenha falado muito a respeito da possibilidade de cair, ele a seguir volta a falar sobre a situação da grande maioria de ouvintes que ele pensa que são cristãos genuínos. Ele diz: “Quanto a vós outros, todavia, ó amados, estamos persuadidos das coisas que são melhores e pertencentes à salvação, ainda que falamos desta maneira” (Hb 6.9, RA). Mas a questão é: Essas “coisas que são melhores” são melhores do que quais outras? As “coisas melhores” no plural formam um contraste apropriado às “coisas boas” que haviam sido mencionadas nos versículos 4-6; o autor está convencido de que a maioria de seus leitores experimentou as coisas que são melhores do que simplesmente as influências parciais e temporárias do Espírito Santo e da igreja mencionadas nos versículos 4-6.
De fato, o autor fala a respeito dessas coisas por dizer (literalmente) que elas são “coisas que são melhores e pertencentes à salvação” (gr., kai echomena sōtērias): Essas não são somente as bênçãos temporárias mencionadas nos versículos 4-6, mas são coisas melhores, que não têm apenas influência temporária, mas são “pertencentes à salvação”. Desse modo, a palavra grega kai, “e”, mostra que a salvação é algo que não fazia parte dos itens mencionados nos versículos 4-6. Portanto, a palavra kai — que é traduzida explicitamente na RA, na ECA e na ARC
— proporciona uma chave crucial para o entendimento da passagem. Se o autor quisesse dizer que as pessoas mencionadas nos versículos 4-6 eram verdadeiramente salvas, seria muito difícil entender por que ele diria no versículo 9 que está convencido de que há coisas melhores para eles e pertencentes à salvação. Essas coisas incluem a ”salvação” como um item adicional às coisas mencionadas anteriormente. Ele mostra, portanto, que pode dizer em uma frase breve que as pessoas “têm salvação”, caso queira (ele não precisa utilizar muitas frases), e, além disso, que as pessoas de quem ele fala nos versículos 4-6 não são salvas.
Quais são exatamente essas “coisas melhores?”. Em acréscimo à salvação mencionada no versículo 9, tratam-se de coisas que dão evidência real da salvação — um fruto genuíno na vida deles (v. 10), plena certeza de esperança (v. 11) e fé salvadora,do tipo mostrado por quem herda as promessas (v. 12). Desse modo, ele fortalece a certeza dos que são crentes genuínos — os que demonstram fruto em sua vida e amor por outros cristãos, que revelam esperança e fé genuína que persevera no tempo presente, que não abandonam o caminho. Ele quer dar segurança a esses leitores (que certamente são a grande maioria daqueles a quem escreve) ao mesmo tempo que lança uma forte advertência contra os que podem estar em perigo de apostasia.

Um ensino semelhante é encontrado em Hebreus 10.26-31. Ali o autor diz: “Se continuarmos a pecar deliberadamente depois que recebemos o conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados” (v. 26). Alguém que rejeita a salvação de Cristo e ”profanou o sangue da aliança pelo qual ele foi santificado” (v. 29) merece a punição eterna. Essa é novamente uma forte advertência contra a apostasia, mas não deveria ser tomada como prova de que alguém que verdadeiramente nasceu de novo possa perder a salvação. Quando o autor fala a respeito do sangue do pacto “pelo qual ele foi santificado”, a palavra santificado é usada simplesmente para referir-se à “santificação externa, igual à dos antigos israelitas, pela ligação exterior com o povo de Deus”. A passagem não fala a respeito de alguém que é genuinamente salvo, mas de alguém que recebeu certa influência moral benéfica por meio do contato com a igreja.
 
D. O que pode dar ao crente segurança genuína?

Se é verdade, como foi explicado na seção anterior, que os descrentes que finalmente deixarão a fé podem apresentar muitos sinais externos de conversão, então o que poderá servir de evidência da conversão genuína? O que pode dar segurança real ao verdadeiro crente? Podemos citar três categorias de perguntas que uma pessoa pode fazer a respeito de si mesma.
 
1. Posso ter no presente confiança em Cristo para ser salvo?

Paulo diz aos colossenses que eles seriam salvos no último dia, se continuassem “alicerçados e firmes na fé, sem se afastarem da esperança do evangelho, que [...] ouviram e que tem sido proclamado a todos os que estão debaixo do céu” (Cl 1.23). Além de dizer que “passamos a ser participantes de Cristo, desde que, de fato, nos apeguemos até o fim à confiança que tivemos no princípio” (Hb 3.14), o autor de Hebreus encoraja seus leitores a serem imitadores dos que “por meio da fé e da paciência, recebem a herança prometida” (Hb 6.12). De fato, o versículo mais famoso da Bíblia inteira usa o verbo no tempo presente, que pode ser traduzido por “para que todo aquele que continua crendo nele possa ter vida eterna” (Jo 3.16).

Portanto, cada um deveria perguntar a si mesmo: “Tenho hoje confiança em Cristo de que ele perdoou os meus pecados e que vai me levar inculpável para o céu para sempre? Tenho confiança em meu coração de que ele me salvou? Se eu morresse hoje à noite e comparecesse diante de Deus e ele me perguntasse a razão pela qual deveria me deixar entrar no céu, será que eu começaria a pensar a respeito de minhas boas ações e depender delas, ou sem hesitação diria que sou dependente dos méritos de Cristo e confio que ele é o Salvador suficiente?”.

Essa ênfase sobre a fé em Cristo no presente permanece em contraste com a prática de alguns “testemunhos” de igreja nos quais as pessoas repetidamente recitam detalhes de uma experiência de conversão acontecida mais de vinte ou trinta anos atrás. Se um testemunho de fé salvadora é genuíno, ele deve ser um testemunho de fé que é ativo no dia de hoje.
 
2. Há evidência da obra regeneradora do Espírito Santo em meu coração?

A evidência da obra do Espírito Santo em nosso coração vem de muitas formas diferentes. Embora não devamos colocar nossa confiança na demonstração de obras miraculosas (Mt 7.22) ou de longas horas e anos de trabalho em alguma igreja local (que pode simplesmente ser uma construção como madeira, feno ou palha “nos termos de lCo 3.12 para promover o poder ou o próprio ego ou tentar ganhar mérito com Deus), há muitas outras evidências de obra real do Espírito Santo no coração de uma pessoa.

Primeiro, há o testemunho subjetivo do Espírito Santo no nosso coração testificando que somos filhos de Deus (Rm 8.15,16; lJo 4.13). Esse testemunho regularmente será acompanhado pela percepção de ser conduzido pelo Espírito Santo nos caminhos da obediência à vontade de Deus (Rm 8.14).
Além disso, se o Espírito Santo está trabalhando genuinamente em nossa vida, ele haverá de produzir uma espécie de características de caráter que Paulo chama ”fruto do Espírito” (Gl 5.22). Ele menciona diversas atitudes ou características do caráter que são produzidas pelo Espírito Santo: “amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio” (Gl 5.22,23). Obviamente, a questão não é: “Exemplifico perfeitamente todas essas características em minha vida?”, e sim: “Essas coisas são características gerais de minha vida? Sinto essas atitudes em meu coração? Outras pessoas (especialmente as que estão mais próximas de mim) vêem essas características em minha vida? Elas têm se desenvolvido em minha vida nos últimos anos?”. Não há qualquer indício no NT de que qualquer pessoa não-regenerada ou não-cristã possa convincentemente fingir essas características de caráter, especialmente para os que a conhecem bem de perto.
Relacionada a essa espécie de fruto, há ainda outra: os resultados da vida e do ministério de uma pessoa segundo sua influência sobre outros e sobre a igreja. Há pessoas que professam ser cristãs, mas cuja influência sobre outros é para desencorajá-los, deprimi-los, trazer dano à sua fé e provocar controvérsias e divisões. O resultado da vida e do ministério dessas pessoas não é edificar os outros e a igreja, mas derrubar ou destruir. Em contraposição, há os que parecem edificar outras pessoas em cada conversa, em cada oração e em cada obra de ministério na qual colocam as mãos. Jesus disse, em relação aos falsos profetas: “Vocês os reconhecerão por seus frutos. [...] Semelhantemente, toda árvore boa dá frutos bons, mas a árvore ruim dá frutos ruins. [...] Assim, pelos seus frutos vocês os reconhecerão!” (Mt 7.16,17,20).

Outra evidência da obra do Espírito Santo é a perseverança na fé e a aceitação do ensino sadio na igreja. Os que começam a negar as principais doutrinas da fé dão sérias indicações negativas a respeito de sua salvação: “Todo o que nega o Filho também não tem o Pai [...] Quanto a vocês, cuidem para que aquilo que ouviram desde o princípio permaneça em vocês. Se o que ouviram desde o princípio permanecer em vocês, vocês também permanecerão no Filho e no Pai” (1 Jo 2.23,24). João também diz: “Nós viemos de Deus, e todo aquele que conhece a Deus nos ouve” (lJo 4.6). Já que os escritos do NT são a autoridade que substitui a presença de apóstolos como João, podemos também dizer que quem quer que conheça a Deus continuará a ler e a se deleitar na Palavra de Deus, e continuará a crer nela plenamente. Os que não crêem e não têm prazer na Palavra de Deus dão evidência de que não são “de Deus”.

Outra evidência da salvação genuína é um relacionamento contínuo no presente com Jesus Cristo. Jesus diz: “Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês”, e”Se vocês permanecerem em mim, e as minhas palavras permanecerem em vocês, pedirão o que quiserem, e lhes será concedido” (Jo 15.4,7). Essa permanência em Cristo incluirá não somente a confiança diária nele em várias situações, mas com certeza também a comunhão regular com ele na oração e na adoração. Essa permanência também incluirá obediência aos mandamentos de Deus. João diz:
“Aquele que diz: ‘Eu o conheço’, mas não obedece aos seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele. Mas, se alguém obedece à sua palavra, nele verdadeiramente o amor de Deus está aperfeiçoado. Desta forma sabemos que estamos nele: aquele que afirma que permanece nele, deve andar como ele andou” (lJo 2.4-6). Uma vida perfeita não é necessária, naturalmente. João antes está dizendo que em geral nossa vida deve ser de imitação de Cristo e de semelhança a ele naquilo que fazemos e dizemos. Se temos a genuína fé salvadora, haverá resultados claros de obediência em nossa vida (v.tb. lJo 3.9,10,24; 5.18).
 
3. Consigo ver o padrão de crescimento constante em minha vida cristã?

As primeiras duas áreas de certeza lidam com a fé atual e a evidência atual da obra do Espírito Santo em nossa vida. Mas Pedro nos dá mais uma espécie de teste que podemos usar para perguntar se somos genuinamente crentes. Ele nos diz que há algumas características de caráter que, se continuamos a crescer nelas, garantirão que nós “jamais” tropeçaremos (2Pe 1.10). Ele diz aos seus leitores para se empenharem “para acrescentar à sua fé a virtude [...] o conhecimento [...] o domínio próprio [...] a perseverança [...] a piedade [...] a fraternidade [...] o amor” (2Pe 1.5-7). A seguir ele diz que essas coisas devem pertencer aos seus leitores e estar continuamente crescendo na vidas deles (2Pe 1.8). Acrescenta que eles devem se empenhar “em consolidar o chamado e a eleição”, e então continua: “pois se agirem dessa forma [referindo-se à prática das características mencionadas nos versículos 5-7], jamais tropeçarão” (2Pe 1.10).
O modo pelo qual confirmamos nossa vocação e eleição, então, é continuar a crescer nesse processo. Isso sugere que a certeza de salvação pode ser algo que aumenta com o tempo em nossa vida. Cada ano que acrescentamos essas características em nossa vida, ganhamos segurança cada vez maior de nossa salvação. Assim, embora crentes novos na fé possam ter uma confiança muito firme em sua salvação, essa segurança pode aumentar em certeza ainda mais profunda com o passar dos anos, à medida que eles caminham para a maturidade cristã. Se continuam a acrescentar essas coisas, confirmarão a sua vocação e eleição, e “jamais tropeçarão”.

O resultado dessas três perguntas que podemos fazer a nós próprios deveria dar uma forte certeza para os que são genuinamente crentes. Desse modo, a doutrina da perseverança dos santos será uma doutrina tremendamente confortadora. Ninguém que tenha tal certeza deveria perguntar: “Serei capaz de perseverar até o fim da minha vida e, portanto, ser salvo?”. Cada pessoa que ganha segurança por meio desse auto-exame deveria antes pensar: “Eu verdadeiramente nasci de novo,portanto certamente perseverarei até o fim, porque estou sendo guardado ‘pelo poder de Deus’ operando por meio de minha fé (cf. IPe 1.5) e, portanto, eu nunca me perderei. Jesus vai me ressuscitar no último dia e eu vou entrar no seu Reino para sempre” (cfJo 6.40).
Por outro lado, a doutrina da perseverança dos santos, se corretamente entendida, deve causar preocupação genuína, e até mesmo temor, no coração de qualquer um que esteja “apostatando” ou se desviando de Cristo. Tais pessoas devem ser claramente advertidas de que somente quem persevera até o fim é que verdadeiramente nasceu de novo. Se elas se afastam de sua profissão de fé em Cristo e de uma vida de obediência a ele, elas podem realmente não ser salvas — de fato, a evidência que elas estão dando é de que não são salvas e nunca realmente foram salvas. Uma vez que parem de confiar em Cristo e de obedecer-lhe, elas não têm nenhuma certeza genuína de salvação, e devem considerar-se não-salvas, voltando-se para Cristo em arrependimento e pedindo-lhe perdão pelos pecados.

Neste momento, em termos de cuidado pastoral com os que se afastaram de sua profissão de fé em Cristo, devemos perceber que calvinistas e arminianos (os que crêem na perseverança dos santos e os que pensam que os cristãos podem perder a salvação) iriam aconselhar um “apóstata” do mesmo modo. Conforme o arminiano, esse indivíduo foi cristão durante certo tempo, mas agora não é mais. Conforme o calvinista, tal pessoa nunca foi realmente cristã e ainda não é. Mas em ambos os casos o conselho bíblico dado seria o mesmo: “Você não parece ser cristão agora —você deve se arrepender de seus pecados e confiar em Cristo para ser salvo”. Embora o calvinista e o arminiano discordem sobre a interpretação da história anterior dessa pessoa, hão de concordar sobre o que deve ser feito no presente.
Porém vemos aqui por que o termo segurança eterna, quando usado impropriamente, pode ser muito enganoso. Em algumas igrejas evangélicas, em vez de ensinarem a apresentação equilibrada e total da doutrina da perseverança dos santos, alguns pastores freqüentemente ensinam uma versão diluída dela, que de fato diz às pessoas que todos os que fizeram uma profissão de fé e foram batizados estão “eternamente seguros”. O resultado é que algumas que realmente não são genuinamente convertidas podem “ir à frente” no final de uma reunião evangelística para professar a fé em Cristo e serem batizadas pouco tempo depois, mas acabam deixando a comunhão da igreja e vivendo de modo que não é diferente da que tiveram antes de ganhar essa “segurança eterna”. Desse modo, uma falsa segurança é dada a essas pessoas, e elas estão sendo cruelmente enganadas por pensarem que estão indo para o céu quando, de fato, não estão.
 
Autor: Wayne Grudem
Fonte: Teologia Sistemática do Autor; Ed. Vida Nova. Compre este livro em http://www.vidanova.com.br


A Explicação para os Aparentes Casos de Perda de Salvação

por

Wayne Grudem



Será sempre fácil distinguir os membros da igreja que têm autêntica fé salvífica daqueles que tem apenas um convencimento intelectual da verdade do Evangelho, mas não a autentica fé no coração? Não, nem sempre é fácil, e a Bíblia afirma em várias passagens que descrentes em aparente comunhão com a igreja podem dar alguns sinais ou indicações exteriores que os façam parecer crentes verdadeiros. Por exemplo, Judas, que traiu Cristo, deve ter agido quase exatamente como os outros discípulos durante os três anos em que esteve com Jesus. Tão convincente era a sua conformidade à conduta dos outros discípulos, que, ao final dos três anos de ministério de Jesus, quando ele declarou que um dos seus discípulos o trairia, nem todos suspeitaram de Judas, mas “começaram um por um a perguntar-lhe: Porventura, sou eu, Senhor?” (Mt 26.22; cf. Mc 14.19; Lc 22.23; Jo 13.22). Porém, Jesus sabia que não havia fé genuína no coração de Judas, pois disse a certa altura: “Não vos escolhi eu em número de doze? Contudo, um de vós é diabo” (Jô 6.70). João mais tarde escreveu no seu evangelho que “Jesus sabia, desde o principio, quais eram os que não criam e quem o havia de trair” (Jo 6.64). Mas os discípulos mesmos não sabiam.

Paulo fala dos “falsos irmãos que se entremeteram” (Gl 2.4), e afirma que nas suas viagens esteve “em perigos entre falsos irmãos” (2 Co 11.26). Afirma também que os servos de Satanás se transformam “em ministros de justiça” (2 Co 11.15). Isso não significa que todos os descrentes da igreja que dão alguns sinais de verdadeira conversão sejam servos de Satanás agindo secretamente para minar a obra da igreja, pois alguns podem estar ainda ponderando as declarações do Evangelho e avançando rumo à verdadeira fé, outros podem ter ouvido uma explicação incorreta da mensagem evangélica, e outros podem não ter ainda alcançado a verdadeira convicção do Espírito Santo. Mas as declarações de Paulo significam que alguns descrentes dentro da igreja são falsos irmãos e irmãs enviados para perturbar a comunhão, enquanto outros são simplesmente descrentes que acabarão alcançando a genuína fé salvífica. Nos dois casos, porém, eles podem dar diversos sinais exteriores que os façam parecer crentes autênticos.

Podemos ver isso também na declaração de Jesus sobre o que acontecerá no juízo final:

Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de me dizer: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade.” (Mateus 7.21-23)

Embora essas pessoas profetizassem, expulsassem demônios e fizessem “muitos milagres” em Nome de Jesus, a capacidade de fazer tais obras não garantia que eram cristãs. Diz Jesus: “Nunca vos conheci”. Não diz: “Eu vos conheci um dia, mas já não vos conheço” nem “Eu vos conheci um dia, mas vos afastastes de mim”, e sim: “Nunca vos conheci”. Nunca foram crentes de verdade.

Ensinamento semelhante se encontra na parábola do semeador em Marcos 4. Diz Jesus: “Outra caiu em solo rochoso, onde a terra era pouca, e logo nasceu, visto não ser profunda a terra. Saindo, porem, o Sol, a queimou; e, porque não tinha raiz, secou-se” (Mc 4.5-6). Jesus explica que a semente plantada em solo rochoso representa aqueles que “ouvindo a palavra, logo a recebem com alegria. Mas eles não têm raiz em si mesmos, sendo, antes, de pouca duração; em lhes chegando a angústia ou a perseguição por causa da palavra, logo se escandalizam” (Mc 4.16-17). O fato de eles não terem “raiz em si mesmos” indica que não avia fonte de vida dentro dessas plantas; do mesmo modo, as pessoas representadas por tais plantas não têm vida genuína em si. Exibem uma aparência de conversão e aparentemente se tornam cristas, pois aceitaram a palavra “com alegria”, mas, quando vem a dificuldade, elas não são mais encontradas em lugar nenhum – a sua conversão aparente não foi genuína fé salvífica no seu coração.

A importância de persistir na fé é também confirmada na parábola de Jesus como videira, na qual os cristãos são retratados como ramos (Jo 15.1-7). Diz Jesus:

Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta; e todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda. Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam.” (João 15.1,2,6)

Os arminianos alegam que os ramos que não dão fruto são ainda assim ramos genuínos da videira – Jesus fala de “todo ramo que, estando em mim, não der fruto” (v.2). Portanto, os ramos que são apanhados, lançados no fogo e queimados devem representar crentes autênticos que foram um dia parte da videira, mas caíram e ficaram sujeitos à condenação eterna. Mas essa questão não é uma implicação necessária do ensinamento de Jesus sobre essa questão. O símile da videira usado nessa parábola é limitado quanto ao volume de detalhes que pode dar. Na verdade, se Jesus quisesse ensinar que associados a ele havia crentes verdadeiros e falsos, e se quisesse usar a analogia da videira e seus ramos, então o único modo de se referir às pessoas que não tinham vida genuína em si seria falar de ramos que não dão fruto (lembrando a analogia das sementes que caíram no solo rochoso: “eles não têm raiz em si mesmos” [Mc 4.17]). Aqui em João 15, os ramos que não dão fruto, embora estejam de certo modo ligados a Jesus e exibam uma aparência de ramos legítimos, assim mesmo dão indicação da sua verdadeira condição pelo fato de não dar fruto. Isso é igualmente indicado pelo fato de a pessoa “não permanecer” em Cristo (Jo 15.6) e ser lançada fora para secar como ramo arrancado da videira. Se tentamos esticar a analogia um pouco mais, dizendo – por exemplo – que todos os ramos de uma videira estão de fato vivos, senão nem estaria ali, então o que fazemos é estender a metáfora além daquilo que ela é capaz de ensinar – e nesse caso nada haveria na analogia que pudesse representar os falsos crentes. O objetivo da metáfora é simplesmente dizer que aqueles que dão fruto, dão, portanto, provas de que permanecem em Cristo; aqueles que não dão fruto, não permanecem nele.

Finalmente, há duas passagens de Hebreus que também afirmam que aqueles que acabam se afastando podem dar muitos sinais exteriores de conversão e parecer cristãos em muitos aspectos. A primeira delas, Hebreus 6.4-6, foi muitas vezes usada pelos arminianos como prova de que os crentes podem perder a salvação. Mas num exame mais detido essa interpretação não se revela convincente. Escreve o autor:

É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus, e expondo-o à ignomínia.” (Hebreus 6.4-6)

O autor continua com um exemplo extraído da agricultura:

Porque a terra que absorve a chuva que freqüentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivada recebe bênção da parte de Deus; mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada.” (Hebreus 6.7-8)

Nessa metáfora agrícola, os condenados no juízo final são comparados à terra que não produz vegetação ou fruto útil, mas só espinhos e abrolhos. Quando lembramos outras metáforas bíblicas em que o bom fruto é sinal de verdadeira vida espiritual e a ausência de frutos denuncia os falsos crentes (por exemplo: Mt 3.9-10; 7.15-20; 12.33-35), já temos uma indicação de que o autor está falando de pessoas cuja prova mais confiável da sua condição espiritual (o fruto que produzem) é negativa, sugerindo que o autor fala de pessoas que não são verdadeiramente cristãs.

Alguns já objetaram que a longa descrição de coisas que aconteceram a essas pessoas que se afastaram significa que elas devem ter nascido de novo. Mas essa não é uma objeção convincente quando se examinam os termos usados. O autor diz que “uma vez foram iluminados” (Hb 6.4). Mas essa iluminação significa simplesmente que eles compreenderam as verdades acerca do Evangelho, não que tenham respondido a essas verdades com genuína fé salvífica.

Do mesmo modo, a expressão uma vez, usada para falar daqueles que “uma vez foram iluminados”, traduz o termo grego hapax, que é usado, por exemplo, em Filipenses 4.6 (quando os filipenses enviam doações a Paulo “não somente uma vez, mas duas”) e em Hebreus 9.7 (que fala da entrada no Santo dos Santos “uma vez por ano”. Portanto, essa palavra não significa que algo acontece “uma vez” somente e não pode ser repetida, mas simplesmente que aconteceu uma vez, sem especificar se será ou não repetida.

O texto diz ainda que essas pessoas “provaram o dom celestial” e que “provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro” (Hb 6.4-5). Inerente à idéia de provar é o fato de ser esse provar algo temporário e de a pessoa poder ou não decidir aceitar a coisa provada. Por exemplo, a mesma palavra grega (geuomai) é usada em Mateus 27.34 para dizer que aqueles que crucificaram Jesus “deram-lhe a beber vinho com fel; mas ele, provando-o, não o quis beber”. A palavra também é usada em sentido figurado com o significado de “vir a conhecer algo”. Se interpretamos a palavra nesse sentido figurado, como deve ser entendida aqui, pois a passagem não fala de provar comida de verdade, então isso significa que essas pessoas compreenderam o dom celestial (o que provavelmente significa que experimentaram parte do poder do Espírito Santo em ação) e conheceram parte da Palavra de Deus e parte dos poderes do mundo vindouro. Não significa necessariamente que tiveram (ou não) genuína fé salvífica, mas pode significar simplesmente que a compreenderam e tiveram alguma evidência do seu poder espiritual.

O texto também diz que essas pessoas “se tornaram participantes do Espírito Santo” (Hb 6.4). A questão é o significado exato da a palavra metochos, que é aqui traduzida como “participante”. Nem todos os leitores das traduções da Bíblia sabem que esse termo tem uma ampla gama de significados e pode sugerir participação e apego bem íntimos, ou então meramente uma associação mais tênue com a outra pessoa ou pessoas citadas. Por exemplo, o contexto mostra que Hebreus 3.14 torna-se participante de Cristo significa ter uma participação bem íntima com ele numa relação salvífica. Por outro lado, a palavra metochos pode também ser usada num sentido muito mais livre, referindo-se meramente a associados ou companheiros. Lemos que quando os discípulos pegaram grandes quantidades de peixes, a ponto de as redes estarem já se rompendo, “fizerem sinais aos companheiros do outro barco, para que fossem ajudá-los” (Lc 5.7). Aqui, o termo define os que eram meramente parceiros ou companheiros de Pedro e dos outros discípulos na pesca. Efésios 5.7 usa uma palavra muito próxima (symmetochos, composta de metochos e da preposição syn [“com]) quando Paulo exorta os cristãos a ficar atentos aos atos pecaminosos dos descrentes: “... Não sejais participantes com eles” (Ef 5.7). Ele não está preocupado com a possibilidade de a própria natureza deles se transformar pelo contato com os descrentes, mas simplesmente com a hipótese de o testemunho deles ficar comprometido, de a própria vida deles vir a ser influenciada pelos descrentes.

Por analogia, Hebreus 6.4-6 fala das pessoas que “se associaram ao” Espírito Santo e que, portanto, tiveram a vida influenciada por ele, mas isso não implica que eles vivenciaram a obra redentora do Espírito Santo, nem que foram regenerados. Aplicando analogia semelhante ao exemplo dos companheiros de pesca de Lucas 5.7, Pedro e os discípulos poderiam estar associados a eles e até ser influenciados por eles, sem sofrer uma completa mudança de vida por conta dessa associação. A própria palavra metochos possibilita uma gama de influencia que vai da razoavelmente fraca à razoavelmente forte, pois significa somente “aquele que participa de, partilha de ou acompanha alguém numa atividade”. Foi aparentemente isso que aconteceu a essas pessoas mencionadas em Hebreus 6, que participaram da igreja e portanto tiveram contato com a obra do Espírito Santo, sendo sem dúvida nenhuma influenciados por ele de algum modo.

Por outro lado, diz o texto que é impossível renovar “para arrependimento” as pessoas que experimentaram essas coisas e depois cometeram apostasia. Alguns já argumentaram que se esse é um arrependimento ao qual elas precisam ser renovadas, então deve ser um arrependimento autêntico. Mas isso não é necessariamente verdadeiro. Primeiro, é preciso que esse “arrependimento” (gr. metanoia) não implica necessariamente arrependimento íntimo do coração para a salvação. Por exemplo, Hebreus 12.17 usa essa palavra para falar da mudança de idéia que fez Esaú buscar desfazer a venda do seu direito de primogenitura e refere-se a ela com o termo “arrependimento” (metanoia). Esse não seria um arrependimento para salvação, mas simplesmente uma mudança de idéia e o cancelamento da venda do direito de primogenitura. (Repare também o exemplo do arrependimento de Judas, em Mateus 27.3 – conquanto com uma palavra grega distinta.)

O verbo cognato “arrepender-se” (gr. metanoeó) é às vezes usado para indicar não arrependimento salvífico, mas meramente pesar por ofensas individuais, em Lucas 17.3-4: “Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe. Se, por sete vezes no dia, pecar contra ti e, sete vezes, vier ter contigo, dizendo: Estou arrependido, perdoa-lhe”. Concluímos que “arrependimento” significa simplesmente pesar por atos realizados ou pecados cometidos. Nem sempre será possível dizer se é ou não genuíno arrependimento salvífico, “arrependimento para salvação”. O autor de Hebreus não se preocupa em especificar se se trata ou não de arrependimento genuíno. Diz simplesmente que se alguém sente pesar pelo pecado, compreende o Evangelho e experimenta as várias bênçãos da obra do Espírito Santo (se dúvida em comunhão com a igreja), mas depois se afasta, não será possível restaurar tal pessoa novamente a uma atitude de pesar pelo pecado. Mas isso não implica que o arrependimento foi genuíno arrependimento salvífico.

A esta altura podemos perguntar que tipo de pessoa se define com todos esses termos. São sem dúvida pessoas que estiveram intimamente ligadas à comunhão da igreja. Sentiram algum pesar pelo pecado (arrependimento). Compreenderam claramente o Evangelho (foram iluminadas). Apreciaram os atrativos da vida cristã e a mudança que acontece na vida das pessoas quando se tornam cristãs, e provavelmente foram atendidas nas suas orações e sentiram o poder do Espírito Santo em ação, talvez até usando alguns dons espirituais, como os descrentes de Mateus 7.22 (“uniram-se” à obra do Espírito Santo, ou se tornaram “participantes” do Espírito Santo e provaram o dom celestial e os poderes do mundo vindouro). Ouviram a verdadeira pregação da Palavra e apreciaram muitos dos seus ensinamentos (provaram a bondade da Palavra de Deus).

Mas, depois, apesar de tudo isso, se “caíram [...] crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia” (Hb 6.6), então rejeitaram deliberadamente todas essas bênçãos e se voltaram decididamente contra elas. É possível que todos conheçamos (às vezes pela sua própria confissão) pessoas que estão há muito tempo na comunhão da igreja sem ser cristãs nascidas de novo. Há muito tempo ponderam o Evangelho, mas continuam a resistir ao chamado do Espírito Santo, talvez por causa da relutância em entregar a sua soberania a Jesus, preferindo apegar-se a si mesmas.

Ora, o autor nos diz que se essas pessoas deliberadamente rejeitam todas essas bênçãos temporárias, então é impossível renová-las para algum tipo de arrependimento ou pesar pelo pecado. O seu coração estará endurecido, a sua consciência, insensível. Que mais se poderia fazer para trazê-las à salvação? Se lhes dissermos que a Bíblia é a verdade, elas dirão que já a conhecem, mas que resolveram rejeitá-la. Se lhes dissermos que Deus atende a oração e transforma a vida do crente, elas responderão que também já sabem disso, mas que não querem nada disso. Se lhes dissermos que o Espírito Santo tem poder para agir nas pessoas e que o dom da vida eterna é indescritivelmente bom, elas dirão que compreendem, mas não querem nada disso. A sua constante familiaridade com as coisas de Deus e a forte influencia do Espírito Santo só serviu para endurecê-las contra a conversão.

Ora, o autor de Hebreus sabe que na comunidade à qual ele escreve há alguns em perigo de cair dessa maneira (ver Hb 2.3; 3.8,12,14015; 4.1,7,11; 10.26,29,35-36,38-39; 12.3,15-17). Ele quer alertá-los de que, embora tenham participado da comunhão da igreja e experimentado várias bênçãos divinas, ainda assim, se caírem depois de tudo isso não haverá salvação para eles. Isso não implica que ele pense que os verdadeiros cristãos possam se perder – Hebreus 3.14 implica bem o contrário. Mas ele quer que essas pessoas alcancem a certeza da salvação mediante a persistência na fé, e, portanto, sugere que, se vierem a cair, isso mostraria que jamais foram pessoas de Cristo (ver Hb 3.6: “...mas Cristo é fiel como filho sobre a casa de Deus; e esta casa somos nós, se nos apegarmos firmemente à confiança e à esperança da qual nos gloriamos). Portanto o autor quer fazer um grave alerta àqueles em perigo de cair da fé cristã. Ele quer usar a linguagem mais forte possível para dizer: “Vejam aqui até onde a pessoa pode chegar na experiência das bênçãos temporárias, sem no entanto realmente estar salvas”. Ele os exorta a vigiar, pois não basta depender de bênçãos e experiências temporárias. Para isso, ele fala não de uma verdadeira mudança no coração ou de algum bom fruto, mas simplesmente das bênçãos e experiências temporárias que essas pessoas tiveram e que lhes deram uma compreensão parcial do Cristianismo.

Por essa razão, ele imediatamente passa da descrição desses que cometem apostasia a outra analogia que mostra que tais pessoas que se afastam jamais deram fruto autêntico. Como já explicamos acima, os versículos 7-8 falam dessas pessoas usando a metáfora dos “espinhos e abrolhos”, tipo de frutos que nascem no solo que não tem em si vida prestável, ainda que receba repetidas bênçãos de Deus (nos termos da analogia, ainda que a chuva freqüentemente o regue). Convém notar aqui que as pessoas que cometem apostasia não são comparadas a um campo que um dia deu bom fruto e agora já não dá, mas sim a uma terra que jamais deu bom fruto, porém apenas espinhos e abrolhos. A terra pode parecer boa antes do surgimento dos brotos, mas o fruto dá a prova incontestável de que a terra é ruim.

Forte apoio a essa interpretação de Hebreus 6.4-8 se encontra no versículo imediatamente seguinte. Embora o autor venha falando com muita dureza sobre a possibilidade de apostasia, ele agora volta a falar da situação da grande maioria dos leitores, que ele julga serem cristãos de verdade. Diz: “Quanto a vós outros, todavia, ó amados, estamos persuadidos das coisas que são melhores e pertencentes à salvação, ainda que falamos desta maneira” (Hb 6.9). Mas a questão é: “coisas que são melhores” que o quê? O plural “coisas que são melhores” forma um contraste apropriado com “boas coisas” mencionadas nos versículos 4-6: o autor está convencido de que a maioria dos seus leitores experimentou coisas melhores que as meras influências parciais e temporárias do Espírito Santo e da igreja, mencionadas nos versículos 4-6.

De fato, o autor fala dessas coisas dizendo (literalmente) que se trata de “coisas que são melhores e pertencentes à salvação” (gr. kai echomena sótérias). Essas não são somente as bênçãos temporárias mencionadas nos versículos 4-6, mas coisas melhores, coisas que não têm somente influência temporária, mas que são também “pertencentes à salvação”. Assim, a palavra grega kai (“também”) mostra que a salvação é algo que não fazia parte das coisas mencionadas nos versículos 4-6 acima. Portanto, a palavra kai, que não é traduzida explicitamente nas versões RSV e NVI (mas a NASB chega perto), proporciona uma chave vital à compreensão da passagem. Se o autor quisesse dizer que as pessoas mencionadas nos versículos 4-6 estavam realmente salvas, então seria muito difícil compreender por que ele diria no versículo 9 que estava persuadido de coisas que são melhores para elas, coisas pertencentes à salvação, ou que carregam em si a salvação além das coisas mencionadas acima. Ele assim mostra que, se quiser, pode usar uma curta expressão para dizer que as pessoas “têm salvação” (ele não precisa enfileirar muitas expressões) e mostra, além do mais, que as pessoas de quem fala nos versículos 4-6 não estão salvas.

O que são exatamente essas “coisas que são melhores”? Além da salvação mencionada no versículo 9, são coisas que dão real prova de salvação – fruto genuíno (v. 10), plena certeza de esperança (v. 11) e fé salvífica, do tipo exibido por aqueles que herdam as promessas (v. 12). Dessa forma ele tranqüiliza os verdadeiros crentes – aqueles que dão fruto e demonstram amor pelos outros cristãos, que exibem esperança e fé genuína que perdura até o tempo presente, e que não estão prestes a se perder. Ele quer tranqüilizar esses leitores (que certamente são a maioria), ao mesmo tempo lançando um forte alerta aos que dentre eles possam estar em perigo de perdição.

Ensinamento semelhante se encontra em Hebreus 10.26-31. Ali diz o autor: “Se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados” (v. 26). A pessoa que rejeita a salvação de Cristo e que “profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado” (v. 29) merece castigo eterno. Isso, novamente, é um grave alerta contra a apostasia, mas não deve ser tomado como prova de que alguém que verdadeiramente nasceu de novo possa perder a salvação. Quando o autor fala sobre o sangue da aliança “com o qual foi santificado”, a palavra santificado é usada simplesmente para denotar a santificação exterior, como a dos antigos israelitas, por uma ligação exterior com o povo de Deus. A passagem não fala de alguém genuinamente salvo, mas de alguém que recebeu alguma influencia moral benéfica mediante o contato com a igreja.

Outra passagem, esta dos escritos de João, é usada para sustentar a possibilidade da perda da salvação. Em Apocalipse 3.5, diz Jesus: “O vencedor será assim vestido de vestiduras brancas, e de modo nenhum apagarei o seu nome do Livro da Vida”. Alguns sustentam que, dizendo isso, Jesus sugere que é possível que ele venha a apagar os nomes de algumas pessoas do Livro da Vida, pessoas que já tinham seus nomes escritos ali e que portanto já estavam salvas. Mas o fato de Jesus afirmar enfaticamente que não fará algo não pode ser usado para pregar que fará a mesma coisa nos outros casos! O mesmo tipo de construção grega é usada para exprimir uma negação enfática em João 10.28, onde Jesus diz: “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão”. Isso não significa que algumas das ovelhas de Jesus não ouvem a sua voz nem o seguem, e por isso perecerão; afirma simplesmente que as suas ovelhas com certeza não perecerão. Do mesmo modo, quando Deus diz – “De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei” (Hb 13.5) – não sugere que deixará ou abandonará outras pessoas; apenas declara enfaticamente que não deixará nem abandonará o seu povo. Ou, numa analogia ainda mais próxima, de Mateus 12.32, Jesus diz: “Se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será isso perdoado, nem neste mundo nem no porvir”. Isso não significa que alguns pecados serão perdoados no porvir (como alegam os católicos romanos para sustentar a doutrina do purgatório) – isso não passa de um erro de raciocínio: dizer que algo não irá acontecer no porvir não implica que pode acontecer no porvir! Do mesmo modo, Apocalipse 3.5 é apenas uma firme garantia de que aqueles que estiverem trajando vestes brancas e que permanecerem fieis a Cristo não terão os seus nomes apagados do Livro da Vida.

Finalmente, certa passagem do Antigo Testamento é muitas vezes usada para argumentar que as pessoas podem perder a sua salvação: a história do Espírito Santo que se aparta do rei Saul. Mas Saul não deve ser tido como exemplo de ninguém que perdeu a salvação, pois o “Espírito do Senhor” se retirou de Saul (1 Sm 16.14) imediatamente depois de Samuel ter ungido Davi rei, ocasião em que o “Espírito do Senhor se apossou de Davi” (1 Sm 16.13). na verdade, a descida do Espírito do Senhor até Davi é relatada no versículo imediatamente anterior àquele em que se narra que o Espírito saiu de Saul. Esse vínculo estreito significa que a Bíblia não fala aqui de perda total da obra do Espírito Santo na vida de Saul, mas simplesmente do afastamento do Espírito Santo como meio de consagrar Saul como rei. Porém isso não significa que Saul foi condenado por toda a eternidade. É simplesmente muito difícil dizer com base nas páginas do Antigo Testamento se Saul, ao longo de sua vida, foi (a) um homem não regenerado que tinha liderança e foi usado por Deus como demonstração do fato de que alguém digno de ser rei aos olhos do mundo não era só por isso apto para ser rei do povo do Senhor, ou (b) um homem regenerado, mas falto de entendimento, levando uma vida que cada vez mais se afastava do Senhor.

[Título original: “Aqueles Que Acabam Se Afastando Podem Dar Muitos Sinais Exteriores de Conversão”]



Fonte:
Wayne Grudem. Teologia Sistemática. 1ª Edição. São Paulo, Edições Vida Nova, 1999. pp. 664-671.

A CERTEZA DE SALVAÇÃO

A Certeza da Salvação
Mt 7.21-23; Jo 3.1-21; Rm 8.15-17;  1 Co 1.12; 1 Jo 2.3-6; 1 Jo 5.13

É possível alguém ter certeza de que está salvo? Alguém declarar que tem certeza da própria salvação pode parecer uma atitude de tremenda arrogância.  Mesmo assim, a Bíblia nos desafia a fazer de nossa salvação uma questão de certeza absolita. Pedro ordena: "irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição..." (2 Pe 1.10).

É nosso dever buscar com diligência a certeza de nossa salvação. Isso não é feito a partir de uma curiosidade indolente quanto ao estado da alma, mas por meio da promoção de nosso crescimento em santificação. Os cristãos que permanecem sem ter certeza da própria salvação estão sujeitos a toda sorte de dívidas que paralisam seu caminhar com Cristo. Tropeçam nas dúvidas e ficam vulneráveis aos ataques de Satanás. Por isso temos de buscar ter plena certeza de nossa salvação. Existem quatro posições com relação à certeza de salvação.

Posição Um: Há pessoas que não estão salvas e sabem que não estão salvas. Tais pessoas são conscientes da inimizade que mantêm em seu coração contra Deus e claramente não querem nenhuma ligação com Cristo como seu Salvador. Têm a ousadia de declarar que não precisam de Cristo. Tais pessoas com freqüência são fracamente hostis ao evangelho,

Posição Dois: Há pessoas que estão salvas, mas não sabem que estão salvas. Estão realmente num estado de graça, mas não têm certeza disso. Talvez estejam lutando contra o pecado em suas vidas e duvidam de sua própria salvação por causa de uma consciência perturbada. Neste grupo estão aqueles que ainda não têm certeza de que estão entre os eleitos.

Posição Três: Há pessoas que estão salvas e sabem que estão salvas. Este é o grupo dos que têm certeza de sua eleição e vocação. Têm um entendimento claro e sólido do que a salvação requer e sabem que cumpriram as exigências. Elas crêem no testemunho do Espírito Santo quando ele testificou em seu espírito de que são filhos de Deus (Rm 8.16)

Posição Quatro: Há pessoas que não estão salvas, mas confiantemente acreditam que estão salvas. Tais pessoas têm certeza sem possuírem  a salvação. A segurança delas é falsa.

Visto ser possível nutri uma falsa certeza de salvação, como podemos saber se estarmos no grupo três ou no grupo quarto? Para responder, temos de olhar mais atentamente para o grupo quatro e perguntar como é possível nutrir um falso senso de certeza.

A maneira mais fácil de nutrir uma falsa certeza de salvação é formar falsa doutrina da salvação. Por exemplo. se uma pessoas defende a visão universalista da salvação, pode raciocinar assim:

Todas as pessoas são salvas.
Eu sou uma pessoa.
Portanto, estou salvo.

Visto que esta doutrina é equivocada, sua certeza não tem um base sólida.

Outra maneira pela qual as pessoas garantem falsamente a si próprias que têm salvação é acreditando que irão para céu pela tentativa de viver uma vida boa. Aqueles que pensam que estão vivendo uma vida suficientemente boa para satisfazer as exigências de um Deus santo estão simplesmente se iludindo ao pensar que estão salvos.

E quanto ás pessoas que têm uma sólida doutrina da salvação? Ainda é possível que tenham uma falsa certeza? Temos de responder que sim. Uma pessoa pode crer que tem a fé salvadora, sem realmente tê-la. O teste para a certeza autêntica é duplo. Por um lado, temos de examinar nosso próprio coração para ver se temos a verdadeira fé em Cristo. É preciso ver se temos ou não um amor genuíno pelo Cristo da Bíblia, pois sabemos que tal amor por ele seria impossível sem a regeneração.

Segundo, temos de examinar o fruto de nossa fé. Não precisamos do fruto perfeito para termos certeza, mas é preciso haver algumas evidências do fruto da obediência para nossa profissão de fé tenha credibilidade. Se não há nenhum fruto presente, não há fé presente. Onde se encontra a fé salvadora o fruto da fé também se encontra presente.

Finalmente buscamos nossa certeza na Palavra de Deus, por meio da qual o Espírito Santo testifica com nosso espírito que somos filhos de Deus.

"O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus." (Rm 8.16)

Sumário

1. É nosso dever cultivar diligentemente a certeza de salvação.

2. A certeza da salvação promove nossa santificação.

3. Há quatro grupos ou posição possíveis com relação à certeza de salvação:

(a) Aqueles que não estão salvos e sabem que não estão salvos.

(b) Aqueles que estão salvos, mas não têm certeza de que estão salvos

(c) Aqueles que estão salvos e sabem que estão salvos.

(d) Aqueles que não estão salvos, mas acreditam que estão salvos.

4. A falsa certeza primariamente se baseia numa falsa doutrina da salvação.

5. Para adquirir uma certeza autêntica temos de sondar nosso próprio coração e examinar o fruto de nossa fé.

6. A plena certeza emana da Palavra de Deus juntamente com o testemunho do Espírito Santo.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 2º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre este livro em http://www.cep.org.br


LEI, GRAÇA E AS OBRAS

A Lei de Deus
Êxodo 20. 1-17;  Salmo 115.3;  Mateus 5.17- 20;  Romanos 7.7-25; Gálatas 3.23-29

Deus governa por meio de leis. A natureza tem leis que mantém a sua perfeita ordem e, estas leis, são as maneiras de Deus estabelecer a ordem em seu universo. Elas anunciam Sua soberana vontade.

Deus é infinitamente Santo, Ele é qualitativamente absoluto em perfeição (Rm 11.33-36). Deus não segue nenhuma lei fora de Si mesmo, Deus é a sua própria Lei. Todas a leis partiram do Senhor para organizar as coisas criadas por suas mãos. Deus faz sempre as coisas certas, de acordo com Seu perfeito caráter moral. Suas criaturas precisam de lei para indicar o caminhão da retidão, porém Sua espontânea ação sempre é perfeita e santa em todas suas obras.

Assim como Ele faz, e o faz naturalmente, também deseja que nós façamos o que é certo. Por isso Deus criou leis para que o homem seguisse e vivesse um padrão moral, e criou também as punições aos que não seguissem esse padrão. A Sua lei é o padrão supremo de Justiça. Suas leis estão descritas por todas as Escrituras Sagradas(Bíblia).

A Lei de Deus é única, mas com bases morais, sociais e cerimoniais. Os judeus a chamam de "Torá" que quer dizer em Hebraico: Lei, ensinamento. A Torá são os cincos primeiros livros da Bíblia: Gêneses, Êxodo, Levítico, Numero e Deuteronômio. Por isso também receberam o nome de Pentateuco (cinco volumes).

A parte moral da Lei tem como base o perfeito caráter de Deus.  Por ser o caráter Divino a base, esta nunca mudará, por que Deus não muda (Mal 3.6).Um exemplo de leis com bases morais contidas na Escrituras é os Dez Mandamentos, escritos pelos Seus próprios dedos e entregue a Moises (Êxodo 20; 31.18; Deut. 5.22). Nos Dez Mandamentos encontram os princípios de toda a Lei contidas nas Escrituras.

As partes sociais da lei foram criadas por Deus para organizar a nação de Israel e por isso são exclusivas desta nação. Muitos dos princípios sociais (casamento, bens pessoais, herança, criminais...) por todo mundo são semelhantes a elas.

As partes cerimoniais da Lei eram baseadas em cerimônias que simbolizavam a presença de Deus e a obra salvadora do Messias. Os símbolos destas cerimônias foram cumpridos em Jesus, o Messias.

Atualmente, somente as partes morais da Lei são obrigações dos cristãos. Ainda somos obrigados a fazer a vontade de Deus por meio delas. Mas a parte social e cerimonial da Lei de Deus se tornou a cultura de Israel e não constituem nenhuma obrigação ou princípios morais para os cristão.

Os seres humanos, assim como tudo o que Deus criou, não podem fazer e nem seguir leis feitas por si mesmo. A Bíblia ensina que pecado é não guardar a sua Lei (1º João 3.4), portanto nós somos dependentes da lei de Deus. Quando nós guardamos a sua lei, demonstramos que o amamos (João 14.15).
 
Autor:  N.Mascolli F.    -  Baseado no estudo “A Lei de Deus” de R. C. Sproul, capítulo cinco, 1ª Caderno, Verdade essências da fé Cristã, ed. Cep.


A Graça e a Lei

Escreveu o apóstolo João: “Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (João 1:17). Na economia de Deus, a lei foi exposta em primeiro lugar e a graça posteriormente. O Antigo Testamento é dominado pela grande realidade da lei de Deus, tal como o Novo Testamento é dominado pela graça de Deus. Porém, como relacionar a graça com a lei, visto que a lei veio antes da graça? O Novo Testamento revela dois pontos de vista que erram quanto a isso, a saber: o legalismo e o antinomianismo.

O legalismo (abordado em Romanos 4 e 9-11; Gálatas 2-5 e Colossenses 2) fruta a graça divina, por buscar a retidão mediante a religiosidade e as obras da lei, encarando-as como parte do fundamento de nossa aceitação diante de Deus, justamente com os méritos de Cristo. Paulo, todavia, insistia contra isso, dizendo que a fé em Cristo para a salvação é uma confiança exclusiva, de tal modo que uma professa confiança em Cristo que não exclua totalmente a autoconfiança não é fé real, aos olhos de Deus. Por esta causa veio a advertência pauliana aos gálatas judaizantes, os quais achavam que precisavam suplementar a sua fé em Cristo com o ato de serem circuncidados: “De Cristo vos desligastes, vós que procurais justificar-vos na lei, da graça decaístes” (Gálatas 5:4). A observância da lei não desempenha qualquer papel na justificação. Esta se realiza exclusivamente pela fé, pois acha-se somente em Cristo e através dEle, e é somente pela graça. Confiar nas próprias obras, juntamente com a obra de Cristo, desonra-O, frustra a graça e priva a pessoa da vida eterna (cf. Gálatas 2:21 e 5:2).

No outro extremo o antinomianismo (abordado em Romanos 6; 2Pedro 2 e 1João) erra por transformar “em libertinagem a graça de nosso Deus” (Judas 4). Enquanto o legalista exalta de tal modo a lei que chega a excluir a graça, o antinomiano é fascinado pela graça ao ponto de perder de vista a lei, como uma regra de vida. Ele argumenta que, visto que os crentes estão “libertados da lei” (Romanos 7:6) e não debaixo da lei, e, sim, da graça (Romanos 6:15), com o perdão eterno já em sua possessão, não mais importa que tipo de vida eles levem. Embora o legalismo e o antinomianismo, segundo certo ponto de vista, sejam pólos opostos de erro, há, na teologia, e freqüentemente na experiência, um elo de ligação entre eles: ambos procedem da mesma fala suposição de que o único propósito da observância da lei é obter justiça diante de Deus. Assim sendo, o legalista ocupa-se em estabelecer sua própria justiça, ao passo que o antinomiano, regozijando-se no dom gratuito da justificação pela fé, não vê razão alguma para guardar a lei. Muitos dos antinomianos, na história, têm saído do legalismo por reação ao mesmo. Ambos os erros, porém, são respondidos assim que percebemos que a lei moral expressa a vontade de Deus para o homem em sua condição de homem. Jamais teve a finalidade de servir como um método de salvação (e, de qualquer forma, é inútil para esse propósito). A lei foi dada para guiar os homens na vida de piedade. E a graça, ao mesmo tempo que condena a justiça própria, estabelece a lei como regra de conduta. Escreveu Paulo: “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos no presente século, sensata, justa e piedosamente” (2 Timóteo 2:11,12). Essa é a resposta final ao antinomianismo: a graça estabelece a lei.

Uma variante do recuo antinomiano em relação à lei é a reivindicação de que os crentes não têm qualquer necessidade ou dever de regularem suas vidas pela lei, visto que seus recursos em Cristo são suficientes para guiá-los. Assim, Lutero asseverou que a fé cristã naturalmente produz boas obras (ou seja, amor e serviço), por meio do impulso instantâneo. J. A. T. Robinson afirmou que o amor cristão traz embutida uma bússola moral, de tal modo que não precisa firmar-se sobre regras bíblicas, nem precisa necessariamente ser guiado por elas. Muitos têm falado sobre isto como se o impulso do Espírito, na consciência do crente, suplantasse inteiramente as instruções da lei.

Aqueles que tomam essa posição, frisam corretamente a espontaneidade interior da vida cristã genuína, bem como a criatividade ética do amor. Porém, eles separam o que Deus uniu, a saber, a obra do Espírito Santo em ensinar e a Palavra pela qual Ele o faz. O Espírito continua a gravar a lei de Deus em nossos corações durante toda nossa vida, instruindo-nos pelas Escrituras nos padrões de Deus e fazendo-nos julgar quão distante temos ficado da perfeição moral e espiritual que esses padrões incorporam. Em suas cartas, Paulo não só nos ensina acerca de Cristo e do Espírito Santo, mas, normalmente na segunda metade delas exercita crentes nos princípios éticos — isto é, na lei, conforme ela se aplica aos crentes (cf. Romanos 12-15; Gálatas 5-6; Efésios 4:17-6:9; Colossenses 3:1-4:6). Seria arriscado tentar ser mais sábio do que Paulo, em nossa maneira de ensinar a vida cristã.

Se nos lembrarmos que, como crentes, servimos a Deus não para adquirirmos a vida, mas por já termos a vida, como seus filhos e filhas já justificados e adotados, então não cairemos no legalismo que esses mestres temem; antes, veremos a lei de Deus como o código de normas da família e nos regozijaremos em procurar vivê-la desta forma, agradando ao nosso Pai celeste, que nos amou e nos salvou.

Paulo escreveu: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não de obras para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dEle, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Efésios 2:8-10). A doutrina paulina da graça gratuita e soberana tanto humilha a soberba dos legalistas, que são justos aos seus próprios olhos, como condena a lassidão preguiçosa e irresponsável dos antinomianos. Entendido corretamente, esse ensino gera uma jubilosa segurança e uma incansável energia no serviço de nosso Salvador. Foi dito com muita propriedade que, no Novo Testamento, a doutrina é a graça, a ética é a gratidão (Romanos 12:1); e nosso Senhor ensinou que a pessoa que mais ama é aquela que é mais consciente do amor por ela demonstrado (Lucas 7:40ss.). O mundo veria muito mais piedade prática do que está vendo, se os crentes de nossos dias conhecessem mais acerca da graça de Deus.

Autor: J. I. Packer
Fonte: Extraído do livro “Vocábulos de Deus” de J. I. Packer, publicado no Brasil pela Editora Fiel. Compre este livro em http://www.editorafiel.com.br
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O Tríplice uso da Lei
Sl 19.7-11; Sl 119.9-16; Rm 7.7-25; Rm 8.3,4; 1 Co 7.19; Gl 3.24

Todo cristão enfrenta a pergunta: "Como as lei do Antigo Testamento se aplicam à minha vida?" As leis do Antigo Testamento são irrelevantes para o cristão, ou existe algum aspecto em que ainda estamos presos a porções delas? Como a heresia do antinominianismo* tem sido cada vez mais penetrante em nossa cultura, a  necessidade de se responderem essas questões torna-se cada vez mais urgente.

A Reforma se fundamentou na graça e não na lei. Mesmo assim, a Lei de Deus não foi repudiada pelos reformadores.João Calvino, por exemplo, escreveu o que ficou conhecido como "O tríplece uso da lei", para mostrar a importância da lei na vida cristã.

O primeiro propósito da lei é ser ela um espelho. Por um lado, a lei de Deus reflete a perfeita justiça de Deus.  A lei nos diz muito sobre quem é Deus. Talvez o mais importante seja que a lei revela a pecaminosidade humana. Agostinho escrever: “A lei ordena que, depois de tentarmos fazer o que foi ordenado e sentirmos nossa fraqueza debaixo da lei, apelamos a implorar a ajuda da graça". A lei revela nossa fraqueza para que busquemos a força que se encontra em Cristo. Neste aspecto a lei funciona como um severo inspetor escolar que nos conduz a Cristo.

O segundo propósito da lei é restringir o mal. A lei, em si e por si mesma não pode mudar o coração humano. Ela pode, entretanto, proteger o justo do injusto. Calvino diz que este propósito, "por meio das suas temíveis ameaças e o conseqüente medo da punição, a lei restringe aqueles que, se não forem forçados, não levam em conta a retidão e a justiça". A lei permite que haja um mínimo de justiça na terra, até que o juízo final se concretize.

O terceiro propósito da lei é revelar o que agrada a Deus. Como filhos de Deus nascidos de novo, a lei nos ilumina quanto ao que agrada a nosso Pai, a quem buscamos servir. O cristão tem prazer na lei da mesma forma que Deus mesmo se deleita nela. Jesus disse: "Se me amais, guardareis os meus mandamentos" (Jo 14.15). Esta é função mais importante da lei: servir como um instrumento para que o povo de Deus lhe dê honra e glória.

Ao estudar ou meditar na lei de Deus, estamos freqüentando a escola da  justiça. Aprendemos o que agrada a Deus e o que o ofende. A lei moral que Deus revela nas Escrituras nos é sempre obrigatória. Nossa  redenção é da maldição da lei de Deus e não da obrigação de obedecê-la. Somos justificados não devido à nossa obediência à lei, mas para que possamos nos tornar obedientes à lei de Deus. Amar a Cristo é guardar seus mandamentos. Amar a Deus é obedecer sua lei.

*O Antinominianismo é a heresia que diz que o crente não tem qualquer obrigação de obedecer a Lei de Deus. Leia mais...

Sumário
1. Atualmente a igreja tem sido invadida pelo antinomianismo, o  qual enfraquece, rejeita ou distorce a lei de Deus.

2 A lei de Deus reflete sua santidade e nossa injustiça. Serve para nos revelar a necessidade que temos de um salvador.

3 A lei de Deus restringe o pecado.

4. A lei de Deus revela o que o agrada e o ofende.

5. O cristão deve amar a lei do Senhor e obedecer suas leis morais.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 3º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre este livro em http://www.cep.org.br 


Mérito e Graça
Jo 15.1-8; Rm 4.1-8; Rm 5.1-5; 2 Co 5.17-19; Ef 2.8,9; Tt 3.4-7

"Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie;" (Ef 2.8,9)

A questão do mérito e da graça é o cerne do debate histórico entre a teologia católica romana e o protestantismo. Uma das principais declarações da Reforma foi sola gratia - a salvação é somente pela graça de Deus. Os crentes não levam nenhum mérito propriamente diante do tribunal de Deus, mas confiam unicamente em sua misericórdia e graça.

Mérito é definido como aquilo que é devido ou merecido. A justiça exige que o mérito seja dado onde ele é merecido. Mérito é algo devido a uma pessoa por seu desempenho. Se não é recebido, uma injustiça é cometida.

A teologia católica romana fala três tipos distintos de mérito. Fala de mérito condigno, o qual é tão meritório que impõe uma obrigação de recompensa. Fala também de mérito congruente, o qual, embora não seja tão elevado como o mérito condigno, contudo é "apropriado ou congruente" para Deus recompensá-lo. O mérito congruente é alcançado pela prática das boas obras, em  conjunção com o sacramento de penitência. O terceiro tipo de mérito é o  super-rogatório, que é o mérito acima e além do chamado para dever. É o mérito excessivo conquistado pelos santos. Este mérito é depositado no tesouro do qual a Igreja pode tirar para aplicar na conta daqueles que não têm mérito suficiente para progredir do purgatório para o céu.

A teologia protestante nega e "protesta" contra todas essas três formas de méritos, declarando que o único mérito que temos à nossa disposição é o mérito de Cristo, o qual chega até nós pela graça, por meio da fé. A graça é o favor não merecido de Deus. É uma ação ou disposição de Deus em nosso favor. Graça não é uma substância que pode habitar nossas almas. Crescemos na graça, não por uma medida quantitativa de alguma substância dentro de nós, mas pela assistência misericordiosa do Espírito Santo que nos habita, o qual age graciosamente em nosso favor e sobre nós. Os meios de graça que Deus dá para  nos assistir na vida cristã incluem as Escrituras, as ordenanças, a oração, a comunhão e o nutrição da igreja.

Sumário

1. Nossa salvação é sola gratia - somente pela graça.

2. Não temos nenhum mérito pelo qual Deus seja obrigado a nos salvar.

3. A teologia católica romana faz distinção entre mérito condigno, congruente e  super-rogatório. Todos o três são rejeitados pelos protestantes.

4. Graça é o favor ou a misericórdia de Deus em nosso favor, que não merecemos.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 2º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre este livro em http://www.cep.org.br


A Fé e as Obras
Rm 3.9 - 4.8; Fp 2.12,13; Tg 2.18-24; 2 Pe 1.5-11; 1 Jo 2.3-6; 1 Jo 4.7-11

Muitas pessoas supõem que ao tentar viver uma vida boa, já fizeram tudo o que é necessário para obterem o céu. Põe sua confiança nas boas obras que fazem com o fim de satisfazer as demandas da justiça de Deus.

Esta é uma esperança fútil. A Lei de Deus requer perfeição. Visto que não somos perfeitos, não temos a bondade necessária para entrarmos no céu. Desta maneira, nunca podemos sentir-nos realizados vivendo uma vida boa. Só podemos concretizá-lo confiando ma justiça de Cristo. Seu mérito é perfeito e é colocado à nossa disposição por meio da fé.

Crer que somos justificados por nossas boas obras à parte da fé e abraçar a heresia do legalismo. Crer que somos justificado por um tipo de fé que não produz obras é abraçar a heresia do antinominianismo.

A relação de fé e boas obras não acrescentam nenhum mérito à nossa fé diante de Deus e apesar da única condição de nossa justificação ser nossa fé em Jesus Cristo, se as boas obras não seguem nossa profissão de fé, isto é uma clara indicação de que não possuímos a fé que justifica. A fórmula da Reforma ´´e: "Somos justificados só pela fé, mas não por uma fé que está só". A verdadeira justificação sempre resulta no processo da santificação. Se há justificação, a santificação inevitavelmente se seguirá. Se a santificação não resulta, é certo que a justificação não se fez realmente presente. Isso não significa que a justificação dependa ou se apóia na santificação. A justificação depende da verdadeira fé, a qual por sua vez inevitavelmente conduz às obras de obediência.

Quando Tiago declara que a fé sem obras é morta, está dizendo que tal "fé" não pode justificar ninguém, porque não é viva. A fé viva produz boas obras, mas essas boas obras são a base da justificação. Somente o mérito conquistado por Jesus Cristo pode justificar o pecador.

É um grande erro e de fato uma forma moderna da heresia do antinominianismo sugerir que uma pessoa pode justificada aceitando Jesus como Salvado, mas não como Senhor. A verdadeira fé aceita Cristo como Salvador e Senhor. Confiar só em Cristo para a salvação é reconhecer a total dependência dele e arrepender-se dos pecados. Arrepender-nos dos pecados significa submeter-nos à autoridade de Cristo. Negar seu senhorio é buscar justificação com uma fé impenitente, a qual na verdade não é fé.

Embora nossa boas obras não no proporcionem salvação, elas são a base sobre a qual Deus promete distribuir recompensas no céu. Nossa entrada no Reino de Deus é pela fé somente. Nossa recompensa no Reino será de acordo com nossa boas obras, as quais são, conforme disse Agostinho, um caso de graciosa coroação de Deus de seus próprios dons.

Sumário

1. Ninguém pode ser justificado por boas obras.Somente por meio da fé em Cristo podemos ser justificados.

2. Fé e boas obras devem ser distinguidas, mas nunca separadas. A verdadeira fé sempre produz obras de obediência.

3. A justificação é só pela fé, mas não por uma fé que está só.

4. A fé morta não pode justificar.

5. Fé em Cristo significa confiar nele como Salvador e submeter-se a ele como Senhor.

6. Seremos recompensados no céu de acordo com nossa boas obras, embora esta recompensa seja uma obra de graça.

Obras = Justificação   -   Falso

Fé + Obra    =    Falso

Fé = Justificação - Obras   -   Falso

Fé = Justificação + Obras   -  Verdadeiro

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 2º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre este Livro em http://www.cep.org.br


Liberdade
A SALVAÇÃO TRAZ LIBERDADE

Para a liberdade foi que Cristo nos libertou.
Permanecerei, pois, firmes e não vos submetais
de novo a jugo de escravidão
”. Gálatas 5.1

O Novo Testamento vê a salvação em Cristo como libertação e a vida cristã como vida de liberdade _ Cristo nos libertou para a liberdade (Gl 5.1; Jo 8.32,36). A ação libertadora de Cristo não é uma questão de desenvolvimento sócio-político-econômico, como algumas vezes se insinua atualmente, mas diz respeito aos três pontos seguintes:

Primeiro, os cristãos foram libertados da lei como sistema de salvação. Sendo justificados pela fé em Cristo, eles não mais estão sob a lei de Deus, mas debaixo da graça (Rm 3.19; 6.14,15; Gl 3.23-25). Isto significa que sua posição perante Deus (a “paz” e o “acesso” de Rm 5.1,2) repousa totalmente no fato de terem sido aceitos e adotados em Cristo. Isto não depende e jamais dependerá do que eles fazem; e nunca estará sujeito a risco pelo que eles deixarem de fazer. Eles vivem, e enquanto estiverem neste mundo viverão, não por serem perfeitos, mas por serem perdoados.
 
Toda religião natural, portanto, é negada, porque o instinto natural do homem pecador, expresso em todas as formas de religião que o mundo já imaginou, é supor que se alcança e mantém uma relação justa com a realidade suprema (seja ela concebida como um Deus pessoal ou em outros termos) por disciplinas de observância à lei, ritual correto e ascetismo. É assim que as crenças que há no mundo preceituam a instituição de sua própria justiça _ a mesma coisa que Paulo viu os judeus não-crentes tentando fazer (Rm 10.3). A experiência de Paulo ensinou-lhe que esta é uma iniciativa frustrante. Nenhum desempenho humano é suficientemente bom, pis sempre há desejos errados no coração, além da falta de impulsos exteriores do indivíduo (Rm 7.7-11; cf Fp 3.6), e é primeiro para o coração que Deus olha.
 
Tudo o que a lei pode fazer é caracterizar, expor e condenar o pecado que permeia nossa estrutura moral, e assim nos tornar cônscios de sua realidade, profundidade e culpa (Rm 3.19; 1 Co 15.56; Gl 3.10). Portanto, a futilidade de tratar a lei como um pacto de obras, e procurar a justiça por meio dela, torna-se evidente (Gl 3.10-12; 4.21-31), como a penúria de não saber o que mais fazer. Este é o julgo da lei de que Cristo nos liberta.
 
Segundo, os cristãos foram libertados da escravidão do pecado (Jo 8.34-36; Rm 6.14-23). Eles foram regenerados de forma sobrenatural e tornados vivos para Deus mediante a união com Cristo em sua morte e vida ressurreta (Rm 6.3-11), e isto significa que agora o desejo mais profundo de seu coração é servir a Deus pela prática da justiça (Rm 6.18,22). O domínio do pecado envolveu não somente atos constantes de desobediência, mas também uma falta constante de zelo na observância da lei, suscitando às vezes ressentimento e ódio para com a lei. Agora, porém, sendo mudados no coração, motivados pela gratidão para a aceitação por meio da livre graça, e animados pelo Espírito Santo, eles servem “em novidade de espírito e não na caducidade da letra” (Rm 7.6). Isto significa que seus esforços para obedecer são agora alegres e integrados de uma forma que não era verdadeira antes. O pecado não os governa mais. Neste sentido, também, foram libertados da escravidão.
 
Terceiro, os cristãos foram libertados da superstição que trata a matéria e o prazer físico como intrinsicamente maus. Contra esta idéia, Paulo insiste que os cristãos são livres para desfrutar como dádivas de Deus todas as coisas criadas e os prazeres que elas proporcionam (1 Tm 4.1-5), contanto somente que não transgridam a lei moral em seus prazeres ou estorvem seu próprio bem-estar ou de outrem (1 Co 6.12,13; 8.7-13). Os Reformadores reiteraram esta ênfase contra várias formas de legalismo medieval.

Autor: J. I. Packer
Fonte: Teologia Concisa, Ed. Cultura Crista. Compre este livro em http://www.cep.org.br


A RESSURREIÇÃO FINAL E A GLORIFICAÇÃO

A Ressurreição Final
Rm 8.11; 1 Co 2.9; 1 Co 15.1-58; Fp 3.20,21; 1 Ts 4.13-18

Uma pergunta cuja resposta todo crente gostaria de saber é como será nossa aparência no céu. Seremos capazes de reconhecer nossos entes queridos? Nossos corpos ressurretos terão as características de ancião ou de jovem?

Muitas dessas questões permanecem um mistério para nós. A Bíblia só fornece pequenas pistas dessas respostas. Sabemos que qualquer que seja nosso estado depois  da ressurreição, excederá muitíssimo às nossa mais elevadas expectativas atuais. A Bíblia diz: "... As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, E não subiram ao coração do homem, São as que Deus preparou para os que o amam." (1 Co 2.9). Paulo nos diz que nos presente "Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido." (1 Co 13.12).

A Bíblia ensina claramente uma ressurreição final dos corpos dos santos. A ressurreição de Jesus é declarada ser as primícias daqueles que também participarão desta ressurreição.

Há uma continuidade entre o corpo terreno que morre e o corpo ressurreto que nos será dado. Nossos corpos atuais são corruptíveis e de fato sofrerão decomposição, ou em alguns casos serão despedaçados ou fragmentados na morte. Entretanto, assim como Jesus retornou da sepultura com o mesmo corpo, embora transformado, assim nossos corpos ressuscitarão, ainda que transformados. Um corpo pode mudar seu estado sem com isso mudar sua identidade.

Todo corpo ressurreto será completo tanto em quantidade quanto em qualidade. Nada estará faltando, embora muito terá sido acrescentado. Seremos reconhecíveis em nossos corpos ressurretos. Não sabemos como isso será feito pelo poder de Deus - só sabemos que será feito.

Nossos novos corpos serão especialmente adaptados à vida eterna no Reino de Deus. Nossos corpos atuais não são assim adaptados. Qualquer mudança que seja necessária será feita pelo poder de Deus. Sabemos que nossos corpos ressurretos ainda serão humanos e finitos. Não seremos deificados. Nossos novos corpos serão incorruptíveis - sem degeneração, enfermidade, dor ou morte. Haverá um acréscimo de poder aos nossos corpos atuais, quando ressuscitarem em honra, poder e glória. Nossos corpos serão como o corpo glorificado de Jesus.

O novo corpo do santo será um corpo espiritual e celestial. Será adaptado para uma ordem de vida mais elevada, talvez brilhante e radiante em seu semblante, não muito diferente de Cristo em sua transfiguração.

Sumário

1. Nosso estado futuro na ressurreição do corpo está envolto em mistério.

2.Haverá uma continuidade entre nosso corpo atual e nosso corpo ressurreto.

3. Seremos capazes  de reconhecer uns aos outros no céu.

4. Nosso novo corpo será apropriado e adaptado para a vida celestial.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 2º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre este livro em http://www.cep.org.br


A Glorificação
Jo 17.13-23; Rm 3.29-30; 1 Co 15.50-54; 2 Co 3.18

Lembro-me de um momento crucial antes de um jogo do campeonato de basquetebol do colégio quando eu e os outros jogadores do time nos reunimos para ouvir as últimas instruções do técnico. Tentando nos inspirar para a vitória, o técnico disse: "Garotos, este é o momento pelo qual temos trabalhado. Agora vão lá e cubram-se de glória". Nós obedecemos. Vencemos o cobiçado campeonato e nos expusemos alegremente à glória. Esse tipo de glória, porém, é muito passageiro. Uma nova busca por ele começa com o início da cada temporada ou de cada campeonato.

Há uma glória maior, permanente e muito mais satisfatória que aguarda ps santos no  final de sua peregrinação espiritual. É o que a Bíblia chama de "glorificação" - é a apoteose do processo da redenção, segundo a "corrente áureas" de Paulo.

"Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou." Rm 8.29,30

A doutrina da glorificação refere-se àquele tempo quando, na segunda vinda de Cristo, os verdadeiros crentes, tanto os vivos quantos os mortos, terão a redenção plena e final de seus corpos e atingirão seu estado final. A salvação dos eleitos estará completa. Conforme Paulo escreveu aos Coríntios "é necessário que este corpo corruptível  se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade" (1 Co 15.53). Finalmente, a morte, o último inimigo, será tragada pela vitória. O processo de santificação alcançará seu objetivo.

A glorificação, pois, é a grande esperança do crente para o futuro. Deus corrigirá todas as coisas e as manterá assim por toda a eternidade. A glorificação, porém, é um conforto também no presente. Neste mundo corrupto, onde experimentamos o pecado dentro e fora de nós, há conforto e saber que Deus já está agindo, desde agora, para purificar seus santos, preparando-os para a glória futura. O crente, em certo sentido, já está glorificado, selado para a eternidade, sendo para sempre um filho de Deus.

Sumário

1. A glorificação é o ponto final da Salvação.

2. A glorificação completará nossa santificação

3. A promessa da futura glorificação nos traz conforto e inspiração no presente.

Autor:  R.C. Sproul
Fonte: 2º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre em http://www.cep.org.br


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A Ressurreição do Corpo
Rev. Ronald Hanko
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Outros estudos relacionados com Salvação

A Soberania graciosa de Deus na Salvação

A liberdade de Deus na manifestação de sua graça

A liberdade é um dos atributos da soberania. Deus é soberano, e por isso é livre na manifestação da sua graça. Se a graça não fosse livre, não seria graça; se fosse compulsória, seria obrigação.17  Deus tem misericórdia de quem lhe aprouve (Êx 33:19). Deus nos olha com graça porque assim o decidiu. O homem não pode exercer nenhuma influência sobre isso. Deus, todavia, é gracioso para com o homem, porque determinou considerar a necessidade do seu povo. Se Deus, soberana e livremente, estabelece a lei como o caminho da graça, a graça continuaria sendo graça. Todavia, não haveria salvação para o homem, já que o padrão de Deus é a perfeição. A graça reina livremente justamente por ser soberana! : “A fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 5:21). “Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna” (Hb 4:16; cf. Tb. 1Rs 8:23; Is 55:3; Jr 9:24; Rm 3:24; 9:15-18).18

Definição de graça

Graça pode ser definida como favor imerecido, manifestado livre e continuamente por Deus aos pecadores que se encontravam num estado de depravação e miséria espirituais, merecendo o justo castigo pelos seus pecados (Rm 4:4/Rm 11:6; Ef 2:8-9).

A graça e a salvação

Calvino diz que a graça é um antídoto contra a corrupção de nossa natureza.19 E mais: “O acesso à salvação a ninguém é vetado. Por mais graves e ultrajantes sejam seus pecados”.20 Nossa salvação é decorrente do pacto da graça, através do qual Deus confiou seu povo ao seu Filho, para que este viesse entregar sua vida por ele. Cristo deu sua vida em favor de todos os que o Pai lhe confiara na eternidade (Is 42:6/2Tm 1:9; 17:1,6-26). Assim, todos os homens – judeus e gentios -, tanto no antigo como no novo Testamento, foram salvos pela graça (At 15:11).

Mérito e graça são conceitos que se excluem: “E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça (Rm 11:6). “A graça divina e o mérito das obras humanas são tão opostos entre si que, se estabelecermos um, destruiremos o outro”, argumenta Calvino.21 De fato, a graça tem sempre como pressuposto a indignidade daquele que a recebe. A graça brilha nas trevas do pecado; dessa forma, a idéia de merecimento está totalmente excluída da salvação por graça (Ef 2:8-9; 2Tm 1:9). A palavra de Deus ensina que nossa salvação é por Deus, porque é ele quem faz tudo; por isso, o homem não pode criar a graça; antes, ela lhe é ortogada, devendo ser recebida sem torná-la vã em sua vida. (2Co 6:1; 8:1/1Co 15:10). A graça da salvação, passando a desejá-la ardemente; promove a paz interior através da nossa reconciliação com Deus (Rm 5:1; 2Co 5:18-21/Rm1:7; 1Co 1:3; 2Co 1:2). Em paz com Deus, somos agenciadores desta paz através da proclamação do evangelho (Sl 34:14; Mt 5:9; Rm 12:18; 2Co 13:11; Hb12:14/2Co 5:20) e também da nossa conduta. Agora vivemos na esfera do reino da graça, estando sob a graça, num estado de graça, numa nova posição em Cristo (Rm 5:2; 6:14; Ef 1:20; 2:6; Cl 1:13).

O Novo Testamento ensina claramente que nossa salvação é resultado da graça de Deus. Podemos encontrar ainda a relação de vários elementos da “ordem da salvação”.

Eleição

Nossa eleição caracteriza o reino da graça de Deus como antecedendo à história (Rm 11:5-6; Gl 1:15; 2Tm 1:9). Ela não é condicionada por nossas “boas obras” nem depende delas, nem da fé ou mesmo da previsão de fé, mas do beneplácito de Deus (At 13:48; Rm 9:11,16,23; 11:4-7; Ef 1:7,12; 2Tm 1:9; 1Pe 1:2). Se a fé as obras são resultados da eleição, obviamente não podem ser a condição de nossa salvação (At 15:11; 1Co 4:7; Ef 2:8-10). Em contrapartida, se Deus nos escolheu para sermos santos (Ef 1:4; 2Ts 2:13), é porque de fato não éramos; logo, não foi devido às nossas obras que Ele nos escolheu. Assim, não pode haver qualquer centelha de orgulho por parte do suposto eleito (cf. 1 Co 1:26-31).

Arrependimento

O arrependimento envolve mente, sentimento e vontade. Consiste numa mudança de mente, ocasionando sentimento de tristeza pelos nossos pecados, que se caracteriza de forma concreta no seu abandono.  O arrependimento  sincero é uma “concessão de Deus: “...Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento [metanoia] para a salvação...” (2Co 7;10/2Tm 2:25). “a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento [metanoia]” (Rm 2:4/Hb 12:17).

    O conceito de arrependimento envolvendo mudança radical é de um conceito cristão sem paralelo. Consiste em voltar-se total e integralmente para Deus. Envolve atitude de abandono do pecado e prática da palavra de Deus, que consiste nos “frutos do arrependimento” (leia At 26:19,20; cf. Tb: At. 20:21).

   Arrependimento e fé são passos iniciais da vida cristã como resposta ao chamado divino. Ambos devem acompanhar nossa vida: devemos continuar crendo em Deus em todas as circunstâncias e cultivar, pelo Espírito, uma atitude de arrependimento pelas nossas falhas. Deus deseja que procuremos agradar-lhe em todas as coisas. Sabemos, porém, que pecamos, falhamos e não atingimos o alvo proposto por Deus. Por isso, conscientes de nossos pecados, devemos nos arrepender, buscando o perdão de Deus e o reparo para o erro.

Adoção

A Bíblia diz: “Deus enviou o se filho [...] a fim de que recebêssemos a adoção de filhos” (Gl 4:4-5; cf. Jó 1:12; Rm 8:14-17). Também afirma que esse ato histórico amparou-se no decreto eterno, livre, soberano e bondoso de Deus: “Nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef 1:5). Quando falamos de nossa filiação, devemos ter em mente que ela é um dom de Deus, um ato da sua livre graça (Jo 3:3, 5; Rm 8:15; Gl 4:3-6; Ef 1:5-6). “Todas as demais bênçãos que recebemos decorrem da graciosa adoção divina como sua causa primeira”.22 “Entre todos os dons da graça, a adoção é o maior.”23 A paternidade divina é entendida como um ato de intenso amor para com os homens que se encontravam num estado de total depravação e miséria (Jo 3:16; 1Jo 3:1).

Justificação

Jesus é o único que cumpriu perfeitamente a justiça divina. Somente nele podemos ser, e de fato somos, declarados justos. A graça nos justifica na justiça de Cristo. Não existe justificação sem a pessoa e obra de Cristo (Rm 3:24; Tt 3:7).24

A justificação é o fundamento judicial da santificação. Há uma mudança na nossa condição legal. Na justificação, Deus nos declara justos, perdoando todos os nossos pecados, pagos definitivamente por Cristo; por isso, já não há condenação sobre nós; estamos em paz com Deus amparados pela justiça de Cristo (cf. Rm 5:1; 8:1,31-33).

Declara que não há mais culpa em nós. Passamos a ter vida de fato. Mudamos da situação de um condenado que aguardava a terrível sentença condenatória para a condição de filho de Deus, na expectativa da sua majestosa herança (Rm 8:14-18). É importante enfatizar que na justificação “Deus não declara que o ímpio é santo; ele declara que, não obstante sua pecaminosidade e indignidade pessoal, ele é aceito como justo com base no que Cristo fez por ele”.25

A justificação, que ocorre fora de nós, não produz nenhuma transformação espiritual em nosso ser. No entanto, é uma vocação incondicional à santificação, conforme a vontade de Deus. A justificação nos livra da condenação do pecado. Somos justificados pela graça mediante a fé (Gl 3:11; Fp 3:9; Tt 3:4-7).

Estabelecendo analogia entre “adoção” e “justificação”, J. I. Packer diz: “A justificação é a benção básica, sobre a qual a adoção se fundamenta; a adoção é a bênção do coroamento, para a qual a justificação abre o caminho.”26

A capacidade de crer: Deus é quem abre nosso coração e mente, para que possamos entender salvadoramente a mensagem do evangelho (At 3:16; 16:14; 18:27; Rm 4:16; 1 Co3:5, Fp 1:29). Deus não nos elegeu na eternidade porque um dia teríamos fé, mas que tivéssemos fé. Sem a graça não haveria fé. A fé é essencial à salvação, como uma evidência da nossa eleição. Só os que crêem serão salvos; só os que crêem os eleitos! (1Ts 1:3-4; 2Ts 2:13; Tt 1:1). A fé não tem méritos salvadores; é apenas o instrumento gracioso de Deus para a apropriação da salvação preparada pelo Trino Deus para seu povo escolhido ( Lc 8:12; At 16:31; 1Co 1:21; Ef 2:8; 2Ts 2:13). Francis Schaffer: “Minha fé é simplesmente as mãos vazias com as quais aceito a dádiva de Deus “. 27

Redenção e remissão dos pecados: Cristo redimiu-nos, levando sobre si a maldição de nossos pecados, pagando o alto preço do nosso resgate (Rm 3:24; Ef 1:7/1Pe 1:18-19; At 20:28/Hb 8:12). Cristo, com seu sangue, reconciliou-nos com Deus, sendo assunto aos céus, como nosso eterno e perfeito mediador.

Vocação:Deus nos chama eficazmente por sua livre graça (Gl 1:15; 2Tm 1:9). A vocação de Deus permanece e nos sustenta até o fim (Fp 1:6).

Conversão: É Deus quem converte do pecado o homem do domínio de Satanás para o seu reino   (At26:18/At 11:21,23/1Tm 1:12-14). A conversão se evidencia na caminhada com Cristo, que deve se coadunar com nossa natureza transformada pelo Espírito Santo. As coisas velhas passaram.

Perseverança: Aquele que começou a boa obra a nosso favor (elegendo, justificando, concedendo-nos fé, adotando etc.) nos confirmará pela sua graça até o fim (Fp 1:6/Jo 10:28; 1Pe 1:5). Ninguém será deixado no meio do caminho! Todos aqueles chamados eficazmente não podem cair nem total nem definitivamente. Deus os preservará até o fim. Essa convicção repousa em Deus, em seu imutável e invencível propósito. A certeza da salvação é uma bendita esperança e nos “enche de alegria, de modo que não tenhamos que ir para a cama todas às noites repassando os eventos do dia e perguntando-nos “será que eu ainda continuo salvo, ou será que eu me perdi”.28

Salvação eterna: A salvação é obra exclusiva de Deus (At 15:11; Rm 6:23; Ef 2:5,8; 2Tm 1:9; Tt 2:11). Ele é poderoso para nos salvar se assim o determinar. Portanto, a salvação é decorrente primeiramente da vontade soberana de Deus (Mt 19:23; Hb 7:25; Tg 4:12). Ele age através da sua palavra (Rm 1:16; 9:16-18; 10:17; 1Co 1:18), conduzindo-nos a Cristo (Jo 6:44,65), confessando-o como nosso Senhor (1Co 12:3).

Deus dá-nos a certeza de que fomos salvos pelo poder da sua graça (Jo 10:27-29), confirmado (Rm 16:25-27), selando (Ef 1:13; 4:30), edificado (At 20:32), santificando (2Ts 2:13) e preservando-nos (Jd 24-25) até à conclusão do seu propósito em nós: a salvação eterna para sua glória (Fp 1:6; 2Ts 1:11-12). Nossa salvação não repousa sobre nossa frágil fé, antes, no poder de Deus que nos chamou, regenerou e nos sustenta com seu poder eterno.

Nota:

[17] Veja Abraham Booth, Somente pela graça, p.14. Veja também John Gill, “A Complete Body of doctrine and Practical  Divinity” The Collected Writings of: John Gill [CD-ROM], 113, P196.

[18] Veja Confissão de Westminster, III. 5; XV.3; Catecismo Menor, pergs. 33-35. Cf. Tb. O conhecimento de Deus.

[19] Romanos, p.111.

[20] As pastorais, p. 43.

[21] Exposição de Romanos, p. 388.

[22] J. CALVINO, Exposição de Romanos, p. 294.

[23] J. I. PACKER, O conhecimento de Deus, p. 197.

[24] Veja Herman Bavinck, Teologia sistemática, p. 499.

[25] Charles HODGE, Teologia sistemática, p.1115.

[26] Teologia concisa, p. 157.

[27] O Deus que intervém, p. 208.

[28] Francis SCHAEFFER, A obra consumada de Cristo, p. 232.

[29] Evangelização e soberania de Deus, p. 84-85 (cf. Tb. P. 66-67; 74-75). Cf. Jo 15:5; 16:33; 1Co 15:57-58; Fp 4:13.   Cf. R. B. KUIPER, Evangelização teocêntrica, p. 50-51.

Autor: Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

Fonte: Fundamentos da Teologia Reformada, Editora Mundo Cristão. Compre este Maravilhoso livro em www.mundocristao.com.br

Estudo digitado pelo caríssimo irmão e colaborador do site Teologia Calvinista: Marcelo Aires dos Santos Romão.


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