Teologia Calvinista
Pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus Ef2.8
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February 4, 2012


Novo site Teologia Calvinista. Acesse

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O site Teologia Calvinista estava hospedado no Teu Ministério. Teu Ministério é uma parceira da SBB com For Ministry. Parece que eles abandonaram esse projeto, com isso este site Teologia Calvinista não esta funcionando muito bem, está lento e com alguns probleminhas, mas ainda todos os estudos podem serem lindos. Mas em função disso criamos um novo site e reorganizamos seu conteúdo em forma de estudos seqüencial. O novo site é mais leve e agora é possível baixar todos os estudos em pdf. Acesse http://sites.google.com/site/estudosbiblicossolascriptura/


*A Igreja

A DOUTRINA DA IGREJA por Louis Berkhof

I. Nomes Bíblicos da Igreja e a Doutrina da Igreja na História:
 A.Nomes Bíblicos da Igreja
 B.A Doutrina da Igreja na História

II. Natureza da Igreja:
 A.A Essência da Igreja
 B.O Caráter Multiforme da Igreja
 C.Várias Definições da Igreja
 D.A Igreja e o Reino de Deus
 E.A Igreja e as Diferentes Dispensações
 F.Os Atributos da Igreja
 GAs marcas da Igreja

III. O Governo da Igreja:
 A.Diferentes Teorias e Respeito do Governo da Igreja
 B.Os Princípios Fundamentais do Sistema Reformado ou Presbiteriano
 C.Os Oficiais da Igreja
 D.As Assembléias Eclesiásticas

IV. O Poder da Igreja:
 A.A Fonte do Poder da Igreja
 B.A Natureza Deste Poder
 C.Diferentes Espécies de Poder Eclesiástico

Click aqui para baixar estudo da DOUTRINA DA IGREJA de Louis Berkhof.

http://www.mediafire.com/?2mwmumgkqnw


A Igreja
1 Co 12.12-14; Ef 2.19-22; 4.1-6; Cl 1.18; Ap 7.9,10

"Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é Cristo também. Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito.Porque também o corpo não é um só membro, mas muitos." 1 Co 12.12-14

A Igreja refere-se a todas as pessoas que pertencem ao Senhor, aquelas que foram compradas pelo sangue de Cristo. Várias outras imagens e expressões são também usadas para definir ou descrever a Igreja. Ela é chamada o Corpo de Cristo, a família de Deus, o povo de Deus, os eleitos, a noiva de Cristo, a comunidade dos remidos, a comunhão dos santos, o novo Israel, entre outros.

A palavra do Novo Testamento para igreja, da qual extraímos nossa palavra eclesiástico significa "os chamados para fora". A igreja é vista como uma assembléia ou reunião dos eleitos, aqueles a quem Deus chama do mundo, separando-os do pecado, para um estado de graça.

A igreja na terra é sempre aquilo que Agostinho chamou de "um corpo misto"; por isso temos de fazer uma distinção entre a igreja visível e igreja invisível. Na igreja visível (que consiste dos que fazem profissão de fé, são batizados e arrolados como membros da igreja institucional), Jesus indicou que haveria joio crescendo junto com o trigo. Embora a igreja seja "santa", sempre há uma mistura profana nela nesta dispensação. Nem todos os que honram a Cristo com seus lábios o honram também com seu coração. Visto que só Deus pode lê o coração humano, os verdadeiros eleitos lhe são visíveis, mas em certa medida nos são invisíveis. A igreja invisível é transparente, mas completamente visível a Deus. È tarefa dos eleitos tornar visível a igreja invisível.

A igreja  é una, santa, católico e apostólica. A igreja é uma só. Embora fragmentados em denominações, os eleitos são unidos por um só Senhor, uma só fé e um só batismo. A igreja é santa porque é santificada por Deus e habitada no sentido em que seus membros estão espalhados por toda a terra, incluindo pessoas de todas as nações. A igreja é apostólica no sentido em que o ensino dos apóstolos, com o contido na Sagradas Escrituras, é o fundamento da igreja e a autoridade pela qual é governada.

É tarefa e privilégio de cada cristão viver unido à igreja de Cristo. É nossa responsabilidade solene não negligenciar a assembléia dos santos quando se reúnem em culto, viver sob a liderança e a disciplina da igreja e estar ativamente envolvidos como testemunhas em sua missão.

A igreja se caracteriza mais como um organismo do que como uma organização. Ela é formada por partes vivas. É chamada o Corpo de Cristo. Assim como o corpo humano é organizado para funcionar em unidade, pela cooperação e interdependência das muitas partes, assim também a Igreja, como  um corpo, revela a unidade e diversidade. Embora governado por uma "cabeça" - Cristo -, o corpo tem muitos membros, cada um deles dotados e investidos por Deus a fim de contribuir para a obra de todo o corpo.

Sumário

1. A Igreja é formada por aqueles que pertencem ao Senhor.

2. A palavra bíblica para igreja significa "aqueles que são chamados para fora".

3. A igreja na terra é sempre um corpo misto de crentes e não crentes.

4. A igreja invisível só é visível para Deus.

5. A igreja é una católica e apostólica.

6. A igreja é um organismo análogo ao corpo humano.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 3º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre este livro em http://www.cep.org.br.


Igreja

Deus Estabelece seu povo em uma nova comunidade

Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito.” Efésios 2.19-22

A igreja (grego: ecclesia, significando “assembléia”) existe em, por meio de e por causa de Jesus Cristo. Neste sentido, é uma realidade distintiva do Novo Testamento. Todavia é, ao mesmo tempo, uma continuação_ por meio de uma nova fase da história redentiva_ de Israel, a semente de Abraão, povo da aliança com Deus nos tempos do Velho Testamento. As diferenças entre a igreja e Israel estão enraizadas na novidade da aliança, pela qual Deus e seu povo estão ligados em ao outro. A nova aliança sob a qual a igreja vive (1 Co 11.25; Hb 8.7-13) é uma nova forma de relação mediante a qual Deus diz a uma comunidade escolhida: “Tomar-vos-ei por meu povo e serei vosso Deus”(Ex 6.7; Jr 31.33). Tanto a continuidade como a descontinuidade entre Israel e a igreja reflete esta mudança na forma da aliança, que teve lugar na vinda de Cristo.

As novas características da nova aliança são as seguintes: Primeiro, os sacerdotes, os sacrifícios e o santuário do Velho Testamento são substituídos pela mediação de Jesus, o Deus-homem crucificado, ressurgido e reinante (Hb 1-10), em quem os crentes encontram agora sua identidade como semente de Abraão e povo de Deus (Gl 3.29; 1 Pe 2.4-10).

Segundo, o exclusivismo étnico da velha aliança (Dt 7.6; Sl 147.19,20) é substituído pela inclusão em Cristo, em termos iguais, de todos os crentes de todas as nações (Ef 2-3; Ap 5.9,10).

Terceiro, o Espírito é derramado tanto sobre cada cristão como sobre a igreja, de modo que a comunhão com Cristo (1 Jo 1.3), ministério de Cristo (Jo 12.32; 14.18; Ef 2.17), antegozo do céu (2 Co 1.22; Ef 1.14) tornam-se realidades da experiência eclesiástica.

A descrença da maioria dos judeus (Rm 9-11) levou a uma situação explanada por Paulo como corte feito por Deus dos ramos naturais de sua oliveira (a comunidade histórica da aliança), substituídos por rebentos de oliveira brava (Rm 11.17-24). O caráter predominantemente gentio da igreja se deve não aos termos da nova aliança, mas à rejeição judaica deles, e Paulo ensinou que um dia isto será mudado (Rm 11.15,23-31).

O Novo Testamento define a igreja em termos do cumprimento das esperanças e modelos do Velho Testamento por meio de uma relação com todas as três Pessoas da Divindade, efetuada pelo ministério mediador de Jesus Cristo. A igreja é vista como a família e rebanho de Deus (Ef 2.18; 3.15; 4.6; Jo 10.16; 1 Pe 5.2-4); seu Israel (Gl 6.16); o corpo e noiva de Cristo (Ef 1.22,23; 5.25-28; Ap 19.7; 21.2,9-27); e o templo do Espírito Santo (1 Co 3.16; cf. Ef 2.19-22). Os que estão na igreja são chamados “eleitos” (escolhidos), “santos”(consagrados, separados para Deus), e “irmãos” (filhos adotivos de Deus).

Essencialmente, a igreja era, é e sempre será uma comunidade adoradora única, reunida permanentemente no verdadeiro santuário, que é a Jerusalém celestial (Gl 4.26; Hb 12.22-24), o lugar da presença de Deus. Aqui, todos os que estão vivos em Cristo, os vivos fisicamente e os mortos fisicamente (isto é, a igreja militante com a igreja triunfante), adoram continuamente. No mundo, porém, esta igreja aparece na forma de congregações locais, cada qual chamada a exercer o papel de um microcosmo ( uma amostra representativa em pequena escala) da igreja como um todo. Isto explica como, para Paulo, a única igreja universal é o corpo de Cristo (1 Co 12.12-26); Ef 1.22,23; 3.6; 4.4)), e assim também a congregação local (1 Co 12.27).
 
É comum caracterizar a igreja na terra como “uma”(porque assim ela é em Cristo, como mostra Ef 4.3-6, a despeito do grande número de igrejas locais e agremiações denominacionais), “santa”(porque é consagrada a Deus corporativamente, como o é cada cristão individualmente, Ef 2.21), “católica”(porque é universal em extensão e procura deter a plenitude da fé), e “apostólica”(porque foi fundada sobre o ensino dos apóstolos, Ef 2.20). Todas as quatro qualidades estão ilustradas em Efésios 2.19-22.
 
Há uma distinção que deve ser estabelecida entre a igreja como nós, humanos, a vemos e como somente Deus a vê. É a distinção histórica entre a “igreja visível”e a “igreja invisível”. Invisível significa não que não possamos ver  o sinal de sua presença, mas que não podemos saber (como Deus, que lê os corações, sabe, 2 Tm 2.19) quais dos que são batizados, membros professos da igreja como instituição organizada, são interiormente regenerados e, assim, pertencem à igreja como comunidade espiritual de pecadores que amam seu Salvador. Jesus ensinou que na igreja organizada haveria sempre pessoas que pensariam ser cristãos e passariam por cristãos, alguns certamente tornando-se ministros, mas que não foram renovados no coração e, portanto, seriam expostos e rejeitados no Juízo (mt 7.15-27; 13.24-30,36-43,47-50; 25.1-46). A distinção “visível-invisíve” é traçada para que se tenha isto em consideração. Não porque haja duas igrejas, mas porque a comunidade visível comumente contém falsos cristãos, que Deus sabe não serem reais (e que podem saber isso por si mesmos, se o quiserem, 2 Co 13.5).

O Novo Testamento admite que todos os cristãos desejam ter comunhão na vida de uma igreja local, reunindo-se para adorar (Hb 10.25), aceitando sua orientação e correção (Mt 18.15-20); Gl 6.1), e  participando de seu trabalho de testemunhador. Os cristãos desobedecem a Deus  e se empobrecem ao se recusarem a unir-se a outros crentes, quando há uma congregação local à qual podem pertencer.
 
Deus não prescreve para os cristãos a adoração segundo a forma minuciosa dos tempos do Velho Testamento, mas o Novo Testamento mostra claramente quais são os ingredientes da adoração cristã comunitária, a saber, louvor (“salmos, hinos e cânticos espirituais”, Ef 5.19), oração e pregação, com administração regular da Ceia do Senhor (At 20.7-11). Cantar louvores a Deus era evidentemente uma grande coisa na igreja apostólica, como tem sido em todos os movimentos de êxtase espiritual desde então: Paulo e Silas, ao lado de sua oração (em voz alta), cantaram hinos na prisão de Filipos (At 16.25), e o Novo Testamento contém um bom número do que parece ser fragmentos de hinos (Ef 5.14; Fp 2.6-11; 1 Tm 3.16; e outros), enquanto “novos cânticos”do Apocalipse são tanto numerosos como exuberantes, na verdade extáticos (Ap 4.8,11; 5.9,10,12,13; 7.10,12; 11.15,17,18; 12.10-12; 15.3,4; 19.1-8; 21.3,4). Qualquer igreja local que steja espiritualmente viva tomará, sem dúvida, muito seriamente seus cânticos, orações e pregações, e será zelosa destas três partes do culto.

Autor: J. I. Packer
Fonte: Teologia Concisa, Ed. Cultura Crista. Compre este livro em http://www.cep.org.br


A Natureza da Igreja

Como reconhecer uma verdadeira igreja?  Quais são os propósitos da igreja? O que torna uma igreja mais ou menos agradável a Deus?

EXPLICAÇÃO E BASE BÍBLICA

A natureza da igreja

A Definição: A igreja é a comunidade de todos os verdadeiros crentes em todas as épocas. Essa definição entende que a igreja seja composta de todos os que são verdadeiramente salvos. Paulo diz que “Cristo amou a igreja e entregou-se por ela” (Ef 5.25) . Aqui a palavra “igreja” aplica-se a todos aqueles por quem Cristo morreu a fim de redimi-los, todos os que são salvos pela morte de Cristo. Mas ela deve incluir todos os verdadeiros crentes de todas as épocas, tanto do período do NT como do período do AT. É tão grande o plano de Deus para a igreja que ele exaltou Cristo a uma posição elevada de autoridade por amor à sua igreja : “Deus colocou todas as coisas debaixo de seus pés e o designou cabeça de todas as coisas para a igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que enche todas as coisas, em toda e qualquer circunstância” (Ef 1.22,23).

O próprio Jesus Cristo edifica sua igreja chamando para si o seu povo. Ele prometeu: ”edificarei a minha igreja” (Mt 16.18) . Mas esse processo pelo qual Cristo edifica a igreja é apenas a continuação do padrão estabelecido por Deus no AT, quando ele chamou pessoas para si mesmo para serem uma assembléia adoradora perante ele. Há diversas indicações no AT de que Deus viu seu povo como “igreja”, o povo reunido com o propósito de adorá-lo. Quando Moises diz ao povo que o Senhor lhe havia dito : “Reúna o povo diante de mim para ouvir as minhas palavras, a fim de que aprendam a me temer enquanto viverem sobre a terra, e as ensinem a seu filhos” (Dt 4.10) , a LXX traduz a palavra “reunir” (heb. q ¯ ahal) usando o termo grego ekkl¯ esiaz ¯o, que significa “convocar uma assembléia” , um verbo que é cognato do substantivo grego do NT ekkl¯ esia , “igreja”

Não é de surpreender que os autores do NT falem do povo de Israel do AT como “igreja” (ekklēsia) . Por exemplo, Estêvão fala do povo de Israel no deserto como “a igreja (ekklēsia) no desertor (At 7.38, tradução do autor) . Da mesma forma o autor de Hebreus cita Cristo referindo-se a ele como quem haveria de louvar a Deus no meio da grande assembléia do povo de Deus no céu: “Proclamarei o teu nome a meus irmãos; na igreja (ekklēsia) te louvarei” (Hb 2.12, tradução do autor; o escritor de Hebreus está citando SL 22.22).

Portanto, o autor de Hebreus entende que os cristãos do tempo presente que constituem a igreja sobre a terra estão cercados por uma grande ”nuvem de testemunhas” (Hb 12.1) que abrange retroativamente as épocas do AT, incluindo Abel, Enoque, Noé, Abraão, Sara, Gideão, Baraque, Sansão, Jefté, Davi, Samuel e os profetas (Hb 11.4-32). Todas essas “testemunhas” rodeiam o povo de Deus do tempo presente, e parece apropriado pensar que elas, juntamente com o povo de Deus do NT, sejam a grande “assembléia” espiritual de Deus, ou seja, a “igreja” Portanto, muito embora haja certamente novos privilégios e novas bênçãos conferidas ao povo de Deus no NT, ambos os usos do termo igreja na Escritura e o fato de que por meio de toda a Escritura Deus sempre chamou seu povo para reunir-se para a adoração do seu nome indicam que é correto entender que a igreja é constituída de todo o povo de Deus de todas as épocas, tanto dos crentes do AT como do NT.

A igreja é invisível, todavia visível.

Em sua verdadeira realidade espiritual como a comunhão de todos os crentes genuínos, a igreja é invisível. Isso porque não podemos ver a condição espiritual do coração das pessoas. Podemos ver exteriormente os que freqüentam a igreja e observar evidências exteriores de mudanças espirituais interiores, mas realmente não podemos olhar para o coração das pessoas e ver o estado espiritual delas — somente Deus pode fazer isso. É por isso que Paulo diz: “O Senhor conhece quem lhe pertence” (2Tm 2.19) . Em nossas igrejas e em nossa vizinhança, somente Deus sabe com certeza (sem margem de erro) quem são os verdadeiramente crentes. Falando da igreja como invisível, o autor de Hebreus refere-se “à igreja dos primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus” (Hb 12.23) e diz que os cristãos do tempo presente se juntam a essa assembléia em adoração.

Podemos dar a seguinte definição: A igreja invisível é a igreja como Deus a vê. Tanto Martinho Lutero como João Calvino foram enfáticos em afirmar esse aspecto invisível da igreja contra o ensino de que a Igreja Católica Romana era a única organização visível que descendia dos apóstolos em linhagem ininterrupta de sucessão (por meio dos bispos da igreja). A Igreja Católica Romana argumentava que somente em sua organização visível poderíamos encontrar a verdadeira igreja, a única igreja verdadeira. Mesmo hoje tal pensamento é sustentado pela Igreja Católica Romana. Tanto Lutero como Calvino discordaram dessa idéia, asseverando que a Igreja Católica Romana possuía uma forma exterior, uma organização, mas que isso era apenas uma casca. Calvino argumentou que exatamente como Caifás (o sumo sacerdote do tempo de Jesus) descendia de Arão, mas não era um verdadeiro sacerdote, assim os bispos católicos romanos “descendiam” dos apóstolos segundo a linhagem de sucessão, mas não eram verdadeiros bispos da igreja de Cristo, pois haviam se desviado da verdadeira pregação do evangelho. Logo, sua organização visível não era a verdadeira igreja.

A verdadeira igreja de Cristo, no entanto, certamente também possui um aspecto visível. Podemos usar a seguinte definição: A igreja visível é a igreja como os cristãos a vêem. Nesse sentido, a igreja visível inclui todos os que professam a fé em Cristo e dão evidência dessa fé em sua vida.

Nessa definição, não estamos dizendo que a igreja visível é a igreja que qualquer pessoa no mundo (como um descrente ou alguém que sustenta ensinos heréticos) pode ver, mas estamos falando da igreja como ela é percebida por aqueles que são crentes genuínos e que têm um entendimento da diferença entre crentes e descrentes.

A igreja visível espalhada por todo o mundo sempre incluirá alguns descrentes, e as congregações individuais normalmente incluirão alguns descrentes, porque não podemos ver o coração como Deus vê. Paulo fala de Himeneu e Fileto: “O ensino deles alastra-se como câncer [...] Estes se desviaram da verdade li.] a alguns pervertem a fé” (2Tm 2.17,18). Mas ele está confiante de que “o Senhor conhece quem lhe pertence” (2Tm 2.19). Semelhantemente, Paulo adverte os presbíteros de Éfeso: “Sei que, depois da minha partida, lobos ferozes penetrarão no meio de vocês e não pouparão o rebanho. E dentre vocês mesmos se levantarão homens que torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos” (At 20.29,30). O próprio Jesus advertiu: “Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos” (Mt 7.15,16). Percebendo essa distinção entre a igreja invisível e a visível, Agostinho disse da igreja visível: “Muitas são as ovelhas do lado de fora, muitos os lobos do lado de dentro”.

Quando reconhecemos que há descrentes na igreja visível, há o perigo de nos tornarmos demasiadamente desconfiados e de começarmos a duvidar da salvação de muitos crentes verdadeiros. Calvino advertiu contra esse perigo dizendo que devemos fazer um “juízo de afeição” pelo qual reconhecemos como membros da igreja todos os que “pela confissão de fé, e pelo exemplo de vida, e pela participação dos sacramentos, conosco professam o mesmo Deus e Cristo”. Devemos tentar não excluir pessoas da comunhão da igreja até que elas por pecado público tragam disciplina sobre si mesmas. E óbvio, contudo, que a igreja não deveria tolerar em seu rol de membros “descrentes confessos” que, por profissão ou por vida, claramente se declaram fora da verdadeira igreja.

Autor: Wayne Grudem
Fonte: Teologia Sistemática do Autor, Ed, Vida Nova


Os propósitos da igreja

Podemos entender os propósitos da igreja em termos de ministério para com Deus, com os crentes e com o mundo.

1. Ministério para com Deus:

Adoração. Em relação a Deus, o propósito da igreja é adorá-lo. Paulo aconselha a igreja de Colossos:”Cantem salmos,hinos e cânticos espirituais com gratidão a Deus em seu coração” (Cl 3.16). Deus nos destinou em Cristo e nos separou “a fim de que nós sejamos para o louvor da sua glória” (Ef 1.12).A adoração na igreja não é meramente a preparação para algo mais; ela é em si mesma o cumprimento do maior propósito da igreja com referência ao seu Senhor. Essa é a razão pela qual Paulo exortou os efésios a aproveitar “ao máximo cada oportunidade”, associando isso com o mandamento para que se enchessem do Espírito e, então, falassem entre si com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de coração ao Senhor” (Ef 5.16-19).

2. Ministério para com os crentes:

Fortalecimento. Segundo a Escritura, a igreja tem a obrigação de fortalecer os que já são crentes e edificá-los para chegarem à maturidade da fé. Paulo disse que seu alvo não era simplesmente trazer pessoas à fé inicial, mas advertir e ensinar “a cada um com toda a sabedoria, para que apresentemos todo homem perfeito em Cristo” (Cl 1.28). E ele disse à igreja de Éfeso que Deus deu à igreja pessoas capacitadas “com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo” (Ef 4.12,13). É claramente contrário ao padrão do NT pensar que o nosso único objetivo com as pessoas é trazê-las à fé salvadora inicial. Nosso alvo como igreja deve ser apresentar perante Deus todo cristão “perfeito em Cristo” (CL 1.28).

3. Ministério para com o mundo:

Evangelização e misericórdia. Jesus disse aos discípulos que eles deveriam fazer “discípulos de todas as nações” (Mt 28.19). Essa obra evangelística de declarar o evangelho é o ministério primário que a igreja tem para com o mundo. Todavia, um ministério de misericórdia deve vir acompanhando o ministério de evangelização, um ministério que inclua a preocupação com os pobres e necessitados, em nome do Senhor. Embora a ênfase do NT seja sobre dar ajuda material aos que são parte da igreja (At 11.29; 2Co 8.4; lJo 3.17), há ainda a afirmação de que é justo ajudar os descrentes mesmo que eles não respondam com gratidão ou que não aceitem a mensagem do evangelho. Jesus nos diz: “Amem, porém, os seus inimigos, façam-lhes o bem e emprestem a eles, sem esperar receber nada de volta. Então, a recompensa que terão será grande e vocês serão filhos do Altíssimo, porque ele é bondoso para com os ingratos e maus. Sejam misericordiosos, assim como o pai de vocês é misericordio” (Lc 6.35,36).

O argumento da explicação de Jesus é que devemos imitar Deus em ser amáveis para os que são ingratos e maus.

Além disso, temos o exemplo de Jesus, que não buscou curar somente os que o aceitaram como Messias. Antes, quando grandes multidões vieram a ele, “ele os curou, impondo as mãos sobre cada um deles” (Lc 4.40). Isso deveria dar-nos encorajamento para praticar ações amáveis e orar pela cura e por outras necessidades na vida dos descrentes assim como na dos crentes. Tais ministérios de misericórdia ao mundo podem também incluir a participação em atividades cívicas ou a tentativa de influenciar a política governamental para torná-la mais compatível com os princípios morais da Bíblia. Nas áreas onde há sistematicamente injustiça manifestada no tratamento aos pobres, a grupos étnicos ou ainda a minorias religiosas, a igreja deveria também orar e — à medida que tem a oportunidade — pregar contra a injustiça. Todos esses são caminhos pelos quais a igreja pode suplementar o seu ministério evangelístico ao mundo e, de fato, embelezar o evangelho que professa. Mas tais ministérios de misericórdia ao mundo nunca devem tornar-se um substituto da genuína evangelização ou de outras áreas do ministério para com Deus e para com os crentes mencionados anteriormente.

4. Mantendo esses propósitos em equilíbrio:

Uma vez que mencionamos esses propósitos para a igreja, alguém poderia perguntar: “Qual é o mais importante?”. Ou outra pessoa perguntaria: “Poderíamos considerar um desses três menos importante que os outros?”.

Devemos responder que os três propósitos da igreja são ordenados por Deus na Escritura; portanto, todos são importantes e nenhum deles pode ser negligenciado. De fato, uma igreja forte terá ministérios eficazes nessas três áreas. Devemos nos precaver contra quaisquer tentativas de reduzir o propósito da igreja a somente um dos três e dizer que esse deveria ser o foco principal. De fato, tais tentativas de tornar um dos três propósitos mais importantes sempre resultarão em alguma negligência dos outros dois.

Contudo, diferentemente das igrejas, os indivíduos devem estabelecer uma prioridade em relação a um ou outro desses propósitos da igreja. Porque somos iguais a um corpo com diversos dons espirituais e capacidades, é correto colocarmos ênfase maior no cumprimento do propósito da igreja que está relacionado mais de perto com os dons e interesses que Deus nos deu. Quem tem o dom de evangelização deve naturalmente gastar algum tempo com a adoração e preocupação com os crentes, mas pode acabar gastando muito mais tempo na obra evangelística. Alguém que é líder capacitado em matéria de adoração pode dedicar 90% de seu tempo na igreja à preparação e à condução do culto. Essa é apenas uma resposta apropriada para a diversidade de dons que Deus nos deu.

Autor: Wayne Grudem.
Fonte: Teologia Sistemática do autor, Ed. Vida


A relação entre a Igreja e a Salvação

1Co 12:13 Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito.

É possível ser um cristão fiel e espiritualmente saudável sem fazer parte de uma igreja?  Não se deve desvalorizar a igreja visível, considerando-a como algo supérfluo para a vida cristã. A Igreja não é apenas um adereço cristão. E qual é o seu papel na vida cristã? Ela tem algum papel a desempenhar na aliança da graça? Em outras palavras, existe alguma relação entre a igreja e a salvação? O que a Bíblia tem a nos dizer sobre isso?

1 – Erro quanto ao Tema

O tema da relação entre a Igreja de Cristo e a salvação não é novo. Na verdade, esse assunto tem sido mais discutido do se imagina, e alguns erros cometidos nessa área são bem comuns em nossos dias. Veremos alguns desses erros agora, juntamente com seus resultados para a fé e a vida cristã.

A) Fora da Igreja [institucional] não há salvação

Esta é a posição católica sobre a relação entre a igreja e a salvação. Aqueles que acreditam que fora da igreja não há salvação crêem que a igreja é quem oferece a salvação graciosa ao pecador, tornado-se, assim, uma intermediaria entre Deus o pecador, de modo que o pecador só pode receber a salvação por meio dela. Ora, a Escritura nos ensina claramente que “há um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1Tm 2.5). Nenhuma igreja é proprietária da graça de Deus. Nenhuma igreja pode conceder a salvação como melhor lhe parecer. A graça de Deus pertence somente a Deus e é aplicada ao pecador por causa da eficácia do Sacrifício substitutivo de Cristo e mediante a ação soberana do Espírito. Contudo, na próxima divisão veremos o único sentido em que essa afirmação é verdadeira, referendo-se não à igreja institucional, mas à igreja como corpo de Cristo. 

Olhando por esse ponto de vista, é fácil percebermos o está errado. No entanto, há uma variação desse erro que é mais sutil e se infiltra pelas igrejas evangélicas. Trata-se de variação que diz que “fora da minha denominação não existe salvação”. Esse é um erro tão grosseiro quanto o erro católico, mencionado acima. O pior é que, às vezes, não chegamos a afira como quem acredita que, no fundo, só os presbiterianos ou só os batistas ou só os assembleianos serão salvos, perdendo, assim, a dimensão da unidade real e orgânica da Igreja de Cristo, que não se prende a denominações. Todos aqueles que foram alcançados pela graça salvadora de Cristo e, portanto, possuem um relacionamento filial com Deus, pertencem à Igreja de Cristo e são nossos irmãos. É muito triste vermos irmãos se separando por terem usos e costumes diferentes uns dos outros.

B) Não preciso me unir à igreja para ser salvo

O erro que funciona ao contrario do que acaba de ser descrito acima é aquele que diz que o que realmente importa é que a pessoa creia em Cristo para ser salva, não sendo necessário que ela se uma à igreja. Ora, é claro que a fé é individual e pessoal. No entanto, a Escritura nos ensina que é da vontade de Deus que aquele que foram redimidos pessoalmente pelo sacrifício substitutivo de Cristo se unam à igreja. A igreja é descrita como um corpo, no qual cada membro tem a sua função definida (1 Co 12.1-31; Ef 4.11,12). Além disso, os sacramentos da nova aliança, instituídos por Jesus, devem ser ministrados ao corpo de cristãos, o que demonstra a necessidade e a importância da igreja. O sacramento do batismo é sinal e selo do ingresso do crente no corpo de Cristo. Todos os discípulos devem ser batizados, isto é, devem ser inseridos no corpo (Mt 28.18,19). Do mesmo modo, a Santa Ceia é um sacramento comunitário. Todos aqueles que possuem um relacionamento filial com Cristo devem participar de sua mesa corpo.

Uma variação desse erro é a afirmação de que ser um bom cidadão e ter bom caráter é o suficiente para ser um cidadão do reino de Deus, o que faz com que o sacrifício de Cristo, a obra regeneradora do Espírito e a comunhão com aqueles que professam a mesma fé sejam totalmente dispensáveis. Certamente, o bom caráter e os valores da cidadania são muito importantes  na vida cristã. No entanto, o reino de Deus é o lar daqueles que crêem em Cristo como seu único e suficiente Salvador e, em virtude dessa fé, unem-se aos seus irmãos em um só corpo (Jo 1.12; Ef 4.1-6).

2 – O Ensino Bíblico

Observe que, quando o carcereiro de Filipos creu em Jesus, mediatamente ele foi batizado, ou seja, foi inserido na igreja (At 16.31-34). O mesmo aconteceu com o eunuco etíope que foi evangelizado por Filipe. Ele creu e foi batizado (At 8.34-38). E assim também no Pentecoste: todos os que creram foram batizados, isto é, inseridos na igreja (At 2.41). No entanto, creio não haver, na Escritura, passagem mais clara sobre esse assunto do que a de Atos 2.46,47: “Diariamente perseveravam unânimes no templo, partindo pão de casa em casa e tomavam suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos”. Ora, a quem o Senhor acrescenta àqueles que iam sendo salvos? Àqueles que reuniam no templo, para persevera na fé. Portanto, embora a igreja não seja mediadora da graça, todos os que são salvos inseridos nela por Deus, de modo que, nesse sentido, podemos certamente afirmar que fora da igreja não há salvação, isto é, todos os salvos são inseridos no corpo de Cristo.

Paulo nos ensina que “em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo” (1 Co 12.13). Ora, que corpo é esse? O corpo no qual fomos inseridos por termos sido salvos pela graça de Deus é a igreja, isto é, o corpo cuja cabeça é o próprio Cristo.

Atos tem muito a nos dizer sobre isso. A igreja tinha paz em toda a Judéia, Galiléia e Samária e crescia em numero (At 9.31), a igreja de Antioquia tinha seus profetas e enviou Paulo e Banarbé como missionário aos gentios (At13.1,2), elegia seus presbíteros (At 14.23; 20.17) e devia ser pastoreada pelos seus oficiais (At 20.24-28). Certamente, tudo isso nos mostra a importância da igreja na vida cristã dos nossos primeiros irmãos. No entanto, não foi só para  eles que a igreja foi importante. Ela mantém a mesma importância para nós hoje, pois é estando inseridos nela que desfrutamos das bênçãos que o Senhor tem para nós não apenas como indivíduos, mas como povo, como corpo. É na igreja que somos pastoreados, é nela que mantemos comunhão com nossos irmãos, é por meio dela que damos testemunhos da presença real de Deus no mundo e é nela que devemos inserir, pelo batismo aqueles que forem evangelizados e salvos (Mt 28.18-20). A grande comissão que Jesus nos deu não é apenas pregar o evangelho e fazer discípulos, ma também batizar-los em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, inserindo-os, assim, na Igreja, que é onde os sacramentos são ministrados.

Além disso, é certo que o Senhor, se quisesse, poderia edificar seus filhos diretamente, mas ele decidiu não agir assim. Aprouve a Deus utilizar o serviço de servos que ele mesmo chamou e capacitou para esse ministério, que são os profetas, pastores, evangelistas e mestres da igreja. Isso quer dizer que, embora a igreja  não seja, de modo algum, a detentora da salvação, ela tem um papel importante tanto na evangelização quanto no discipulado dos crentes.

Um outro elemento que precisa ser considerado quando tratamos dessa questão é que o afastamento da igreja, seja por que motivo for, atenta contra a validade dos sacramentos. Os sacramentos da igreja cristã, que são o batismo e a ceia, foram instituídos por Cristo e devem fazer parte da vida do seu povo até que ele volte.

O batismo é o sacramento que marca o ingresso do pecador na família da fé, no corpo de Cristo. Esse sacramento é parte integrante da vida do povo de Deus. Jesus, falando aos seus discípulos, ordenou-lhes que fizessem discípulos e os batizassem em nome da Trindade (ver Mt 28.19). Observe que o mandato de evangelizar e fazer discípulos é o mesmo que nos manda batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Do mesmo modo que a igreja não pode  deixar de fazer discípulos e pregar o evangelho, ela também não pode deixar de ministrar o sacramento do batismo. Mas que validade terá esse sacramento que marca a entrada na igreja se a pessoa não quiser se manter unida à igreja?

O outro sacramento é a ceia, sinal e selo da morte substitutiva de Jesus em favor do seu povo e também sinal e selo da união dos membros do corpo de Cristo, que é a igreja. Esse sacramento também deve acompanhar a vida dos filhos dela até o dia em que participaremos dele, com Cristo, no reino de Deus (Mt 26.29). Qual ser então, o valor desse sacramento, se a pessoa insistir em não se unir à igreja? Ora, ou anulamos o valor dos sacramentos (o que a Bíblia não nos permite fazer) ou somos levados a concluir que, embora seja verdade que cada cristão tem o dever de viver a sua fé em suas atividades cotidianas, também é verdade que ele precisa estar unido igreja. Não é a igreja que salva, mas ela foi instituída por Deus para reunir, edificar, discipular e fortalecer todos os que foram alcançados pela graça salvadora de Deus.

3 – A Igreja como Mestra da Aliança da Graça

Não há dúvida de que, se quisesse, Deus poderia dar a cada um dos seus filhos um conhecimento total e perfeito da aliança da graça para que pudesse firmar sua conduta diária no ensino da Palavra de Deus. No entanto, em sua soberania, ele decidiu não agir assim. Ele decidiu usar cada geração de crentes para instruir a geração seguinte, e resolveu usar os meios de graça para edificar, gradativamente, cada um de seus filhos. A igreja tem um papel importante nessa edificação, tanto no que diz respeito às crianças quanto no que diz respeito aos adultos.

A) A instrução cristã das crianças

A Escritura coloca uma grande ênfase na instrução piedosa das crianças. A permanência  de filhos de crentes na aliança não se dá por meio de herança genética. Os filhos podem herdar muitas coisas dos pais, mas não podem herdar a graça salvadora. Nascer num lar cristão é uma grande bênção, mas a continuação da aliança não automática. As crianças que nascem num lar cristão não se tornam adultos cristãos sem que participem dos meios de graça, isto sem que recebam uma instrução cristã sólida, que inclua doutrina, vida piedosa e herança cristã. Os filhos de pais crentes, quando chegam à idade do discernimento, precisam manter um relacionamento filial com Cristo para que permaneçam na aliança. Isso aconteceu com Timóteo (2 Tm 3.14,15), que foi educado, durante a infância, por sua mãe e por sua avó, nas “sagradas letras que podem tornar-se sábio para salvação pela fé em Cristo Jesus” (v.15). As crianças precisam ser instruídas na fé. Os pais têm uma grande parcela de responsabilidade na instrução cristã de seus filhos, mas a igreja também é uma peça fundamental nesse processo, pois ali que a criança aprende a desfrutar das bênçãos da aliança com povo, como corpo, como família da fé, como herdeira de uma história, de uma doutrina e de um modo de vida que são bênçãos na vida de cada membro da aliança.

Temos a grande bênção de instruir, nos caminhos do Senhor, crianças que não procedem  de um lar evangélico. Essas crianças, na idade adulta, também precisam ser instruídas quanto à doutrina e à vida cristã. O trabalho de evangelização e instrução cristã de crianças é sempre muito frutífero, pois, por meio dele, novas gerações de cristãos vão se formado ao longo dos tempos.

B. A instrução cristã dos adultos

Aqueles que pensam poder ter uma vida cristã saudável longe da igreja se esquecem de  algo muito importante. A obra de pregação do evangelho não termina quando a pessoa se converte. A ordem de Jesus é bastante clara: “Ide, portanto, fazei discípulos” (Mt 28.19). A pessoa que tenta viver a sua fé longe da igreja, além de deixar de ser discipulada, também não consegue discipular outras pessoas. Os cristãos adultos devem ser instruídos fortemente na fé cristã, de modo que possam ensinar outras pessoas  (2 Tm 2.2). Paulo censurou a imaturidade espiritual da igreja de Corinto, à qual ele só podia dar leite, mas não alimento solidão ( 1 Co 3.2). os destinatários da carta aos Hebreus receberam a mesma repreensão do autor da carta: “Com efeito, quando devíeis ser mestre, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim. Vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido” (Hb 5.2).

Os membros da igreja devem ser instruídos em “todo o desígnio de Deus” (At 20.27). Não  basta que aprendam várias doutrinas bíblicas isoladamente, eles precisam conseguir articular todas elas, formando um conjunto, uma unidade de fé. Só assim eles conseguirão aplicar de maneira sábia o ensino bíblico às diversas situações de sua vida diária.

Quando observamos o importante papel pedagógico exercido pela igreja na instrução cristã daqueles que foram graciosamente salvos por Jesus, compreendemos melhor a grande necessidade que temos de estar ligados a ela. Até mesmo aqueles que pretendem ser cristãos espiritualmente saudáveis longe da igreja precisam reconhecer que foram alcançados pelo evangelho por meio da ação evangelizadora de alguma igreja ou de algum cristão ligado a ela que ali aprendeu não somente as doutrinas bíblicas da graça, mas também  a maneira piedosa de viver na vida diária.

Conclusão

Embora a igreja não seja a mediadora entre Deus e o homem, ela possui um importante papel, que lhe foi atribuído pelo próprio Deus, na aliança da graça. Ela é a mestra da aliança, a educadora do povo de Deus, o grupo no qual os filhos de Deus se edificam mutuamente e glorificam, juntos, ao seu Senhor. A igreja não é algo supérfluo. Pelo contrario, ela faz parte da visa cristã e todos aqueles que foram evangelizados e alcançados pela graça salvadora devem unir-se ala pelo batismo, ser discípulos por ela e participar, com seus irmãos, da mesa do Senhor. Afastar-se da igreja é perniciosa e mortal.

Autor: Vagner Barbosa

Revista: Nossa Fé – As cartas a Igreja, lição 06, pg 20-23, editora Cep. Compre esta revista trimestral em www.cep.org.br.


Metáforas para a igreja

A fim de nos ajudar no entendimento da natureza da igreja, a Escritura usa uma variedade de imagens para nos descrever a que a igreja se assemelha. Há diversas imagens relacionadas com a família — por exemplo, Paulo vê a igreja como a família maior: “Não repreenda asperamente o homem idoso, mas exorte-o como se ele fosse seu pai; trate os jovens como a irmãos; as mulheres idosas, como a mães; e as moças, como a irmãs, com toda a pureza” (lTm 5.1,2). Deus é o nosso Pai celestial (Ef 3.14), e nós somos seus filhos e filhas, pois Deus nos diz: “Lhes serei Pai, e vocês serão meus filhos e minhas filhas, diz o Senhor todo-poderoso” (2Co 6.18). Somos, portanto, irmãos e irmãs uns dos outros na família de Deus (Mt 12.49,50; lJo 3.14-18). Uma metáfora de família um tanto diferente é vista quando Paulo se refere à igreja como a noiva de Cristo. Ele diz que o relacionamento entre marido e esposa refere-se “a Cristo e à igreja” (Ef 5.32); diz também que ele produziu o compromisso de noivado entre Cristo e a igreja em Corinto e que isso relembra compromisso entre a noiva e aquele que vai ser seu marido: “Eu os prometi a um único marido, Cristo, querendo apresentá-los a ele como uma virgem pura” (2Co 11.2) — aqui Paulo olha com expectativa para o tempo do retorno de Cristo como o tempo em que a igreja será apresentada a ele como sua noiva.

Em outras metáforas, a Escritura compara a igreja aos ramos de uma videira (Jo 15.5), a uma oliveira (Rm 11.17-24),a uma lavoura (lCo 3.6-9),a um edifício (lCo 3.9) e a uma colheita (Mt 13.1-30; lo 4.35). A igreja também é vista como um novo templo, não construído com pedras literais, mas construído com pessoas cristãs que são pedras vivas” (1 Pe 2.5), edificadas sobre a pedra fundamental” que é Cristo Jesus (lPe 2.4-8). Todavia, a igreja não é somente um novo templo para a adoração de Deus; é também um novo corpo de sacerdotes, um “sacerdócio santo” que pode oferecer”sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus”(lPe 2.5). Somos também vistos como casa de Deus (Hb 3.6), sendo o próprio Jesus Cristo visto como o “construtor” da casa (Hb 3.3). A igreja também é vista como “coluna e fundamento da verdade” (lTm 3.15).

Finalmente, outra metáfora familiar vê a igreja como o corpo de Cristo (lCo 12.12-27). Devemos reconhecer que Paulo de fato usa duas metáforas diferentes do corpo humano quando fala da igreja. Aqui em 1 Coríntios 12 o corpo inteiro é tomado como metáfora da igreja, porque Paulo fala do “ouvido”, do “olho” e do “olfato” (1 Co 12.16,17). Nessa metáfora, Cristo não é visto como a cabeça ligada ao corpo, porque os membros individuais são em si mesmos as partes individuais da cabeça. Cristo é nessa metáfora o Senhor que está “fora” desse corpo que representa a igreja e é a quem a igreja serve e adora.

Mas em Efésios 1.22,23; 4.15,16 e em Colossenses 2.19 Paulo usa uma metáfora diferente de corpo para referir-se à igreja. Nessas passagens, Paulo diz que Cristo é o cabeça e a igreja é como o restante do corpo, distinto da cabeça: “Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo. Dele todo o corpo, ajustado e unido pelo auxílio de todas as juntas, cresce edifica-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte realiza a sua função” (Ef 4.15,16). Não devemos confundir essas duas metáforas, a de lCoríntios 12 e a de Efésios 4, mas mantê-las distintas.

A ampla gama de metáforas usada para a igreja no *NT deveria nos lembrar de não enfatizar exclusivamente uma delas. A ênfase indevida em uma metáfora com a exclusão de outras certamente resultará em uma perspectiva desequilibrada da igreja. Além disso, cada uma das metáforas usadas para a igreja pode nos ajudar a apreciar mais as riquezas do privilégio que Deus nos deu incorporando-nos na igreja. O fato de que a igreja é como uma família deveria aumentar o nosso amor e comunhão uns com os outros. O pensamento de que a igreja é igual à noiva de Cristo deveria estimular-nos a lutar pela pureza e santidade maiores e também ao amor e submissão maiores a Cristo. A imagem da igreja como ramos da videira deveria levar-nos ao descanso mais pleno em Cristo. Essas são apenas algumas das muitas aplicações que poderiam ser feitas da rica diversidade de metáforas para a igreja usada na Escritura.

*NT = Novo Testamento
**AT = Antigo Testamento

Autor: Wayne Grudem
Fonte: Teologia Sistemática do Autor, Ed. Vida Nova


A igreja e Israel

 
Entre os protestantes evangélicos há diferentes perspectivas sobre a questão do relacionamento entre Israel e a igreja. Uma perspectiva é a dispensacionalista. De acordo com ela, Deus tem dois planos distintos para dois grupos diferentes de pessoas que redimiu. Por um lado, os propósitos e as promessas para Israel são bênçãos terrenas, e serão cumpridas nesta terra em algum tempo no futuro. Por outro lado, os propósitos e as promessas para a igreja são bênçãos celestiais, e essas promessas serão cumpridas no céu. Essa distinção entre os dois grupos diferentes que Deus salva será vista especialmente no milênio, pois naquele tempo Israel reinará sobre a terra como o povo de Deus e desfrutará o cumprimento das promessas do **AT, mas a igreja a essa altura já terá sido levada para o céu no tempo do retorno secreto de Cristo para os santos (“o arrebatamento”). Nessa perspectiva, a igreja não começou antes do Pentecoste (At 2), e não seria correto pensar nos crentes do AT junto com os crentes do *NT constituindo uma igreja.

Diversos líderes entre os dispensacionalistas mais recentes têm modificado muitos desses pontos, referindo-se à sua estrutura teológica como “dispensacionalismo progressivo”. Eles não vêem a igreja como um parêntese no plano de Deus, mas como o primeiro passo em direção ao estabelecimento do Reino de Deus. Há assim um propósito único para Israel e a igreja — o estabelecimento do Reino de Deus — de que ambos, Israel e a igreja, compartilham. Além disso, o dispensacionalismo progressivo não veria distinção alguma entre Israel e a igreja no futuro estado eterno, pois todos serão parte do mesmo povo.

Contudo, há ainda uma diferença entre os dispensacionalistas progressivos e o restante dos evangélicos sobre um ponto: eles diriam que as profecias do AT concernentes a Israel ainda serão cumpridas no milênio pelo povo étnico judeu que crerá em Cristo e que viverá na terra de Israel como “nação-modelo” para a qual todas as nações olhariam e com a qual todas aprenderiam. Portanto, eles não diriam que a igreja é o “novo Israel” ou que todas as profecias do AT a respeito de Israel serão cumpridas na igreja, pois essas profecias ainda serão cumpridas no Israel étnico.

A posição assumida neste livro difere muito das posições dispensacionalistas tradicionais. Contudo, deve ser dito aqui que as questões a respeito do modo exato em que as profecias bíblicas a respeito do futuro serão cumpridas são por natureza difíceis de decidir com segurança, e é sábio ter algumas hesitações em nossas conclusões sobre o assunto. Com isso em mente, pode ser dito o que se segue.

Tanto teólogos protestantes como católicos que estão fora do círculo dispensacionalista têm dito que a igreja inclui tanto crentes do AT como do NT em uma igreja ou um corpo de Cristo. Devemos observar primeiro os muitos versículos do NT que entendem que a igreja seja o “novo Israel” ou o novo “povo de Deus”. O fato de que “Cristo amou a igreja e entregou-se por ela” (Ef 5.25) sugere isso. Ademais, esta era atual da igreja, que tem trazido a salvação a muitos milhões de cristãos, não é uma interrupção ou um parêntese nos planos de Deus, mas a continuação do seu plano expresso por todo o AT chamando pessoas para si. Paulo diz: “Não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é meramente exterior e física. Não! Judeu é quem o é interiormente, e circuncisão é a operada no coração, pelo Espírito, e não pela Lei escrita” (Rm 2.28,29). Paulo reconhece que, embora haja um sentido natural ou literal no qual os que descenderam fisicamente de Abraão são chamados judeus, há também um sentido mais profundo ou espiritual no qual o “judeu verdadeiro” é aquele que é interiormente um crente e cujo coração foi purificado por Deus.

Paulo diz que Abraão não deve somente ser considerado o pai do povo judeu em sentido físico. Ele é também no sentido mais profundo e mais verdadeiro “o pai de todos os que crêem, sem terem sido circuncidados [...] e é igualmente o pai dos circuncisos que não somente são circuncisos, mas também andam nos passos da fé que teve nosso pai Abraão antes de passar pela circuncisão” (Rm 4.11,12; cf. v. 16,18). Portanto, Paulo pode dizer: “Não pensemos que a palavra de Deus falhou. Pois nem todos os descendentes de Israel são Israel. Nem por serem descendentes de Abraão passaram todos a ser filhos de Abraão. Ao contrário: ‘Por meio de Isaque a sua descendência será considerada’. Isto é, não são os filhos naturais que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa é que são considerados descendência de Abraão” (Rm 9.6-8). Paulo aqui sugere que os verdadeiros filhos de Abraão — “Israel” no sentido mais verdadeiro não é a nação de Israel por ascendência física de Abraão, mas os que creram em Cristo.

Longe de pensar na igreja como grupo separado do povo judeu, Paulo escreve aos crentes gentios de Éfeso dizendo-lhes que anteriormente eles estavam “sem Cristo, separados da comunidade de Israel, sendo estrangeiros quanto às alianças da promessa, sem esperança e sem Deus no mundo” (Ef2.12),mas que agora eles “foram aproximados mediante o sangue de Cristo” (Ef 2.13).E quando os gentios foram trazidos à igreja, judeus e gentios foram unidos em um só corpo. Paulo diz que Deus “destruiu a barreira, o muro de inimizade, anulando em seu corpo a Lei dos mandamentos expressa em ordenanças. O objetivo dele era criar em si mesmo, dos dois, um novo homem, fazendo a paz, e reconciliar com Deus os dois em um corpo, por meio da cruz, pela qual ele destruiu a inimizade” (Ef 2.14-16). Portanto, Paulo pode dizer que os gentios são “concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus Cristo como pedra angular”(Ef 2.19,20). Com essa consciência ampla do pano de fundo do AT para a igreja do NT, Paulo pode ainda dizer que “os gentios são co-herdeiros com Israel, membros do mesmo corpo, e co-participantes da promessa em Cristo Jesus” (Ef 3.6). A passagem toda fala fortemente da unidade de crentes judeus e gentios no corpo em Cristo e não dá indicação alguma de qualquer plano distintivo para a salvação do povo judeu independentemente do corpo de Cristo, a igreja. A igreja incorpora em si mesma todo o verdadeiro povo de Deus, e quase todos os títulos usados para o povo de Deus no AT são em um lugar ou outro aplicados à igreja do NT. Esses textos, juntamente com muitos outros, nos dão a segurança de que a igreja se tornou agora o verdadeiro Israel de Deus e vai receber todas as bênçãos prometidas a Israel no AT.


*NT = Novo Testamento
**AT = Antigo Testamento

Autor: Wayne Grudem
Fonte: Teologia Sistemática do Autor, Ed. Vida Nova


A marcas da verdadeira Igreja
Mt 18.15-17; Rm 11.13-24; 1 Co 1.10-31; Ef 1.22,23; 1 Pe 2.9,10

Visto que o mundo se acha semeado de milhares de instituições distintas chamadas igrejas e visto ser possível que instituições, assim como indivíduos, se tornem apóstatas, é importante sermos capazes de discernir as marcas essenciais de uma verdadeira e legítima igreja visível. Nenhuma igreja está isenta de erros ou pecados. A igreja só será perfeita no céu. Há, porém, uma importante diferença entre corrupção - que afeta todas as instituições - e apostasia. Portanto, para proteger o bem-estar e crescimento do povo de Deus, é importante definir as marcas da verdadeira igreja.

Historicamente, as marcas da verdadeira igreja têm sido definidas assim: (1) a genuína pregação da Palavra de Deus, (2) o uso dos sacramentos de acordo com sua instituição e (3) a prática da disciplina eclesiástica.

(1) A pregação da Palavra de Deus. Embora as igrejas difiram em detalhes teológicos e em níveis de pureza doutrinária, a verdadeira igreja afirma tudo aquilo que é essencial à vida cristã. Semelhantemente, uma igreja é falsa ou apóstata quando nega oficialmente um princípio essencial da fé cristã, tal como a divindade de Cristo, a Trindade, a justificação pela fé, a expiação ou outras doutrinas essenciais à salvação. A Reforma, por exemplo, não moveu um guerra sobre trivialidades, mas sobre uma doutrina fundamental da salvação.

(2) A administração dos sacramentos. Negar ou difamar os sacramentos instituídos por Cristo é falsificar a igreja. A profanação da Ceia do Senhor ou o oferecimento deliberado dos sacramentos a pessoas notoriamente não-crentes desqualificaria a igreja de ser reconhecida como igreja verdadeira.

(3) A disciplina eclesiástica. Embora o exercício da disciplina na igreja às vezes erre na direção ou da complacência ou da severidade, ele pode tornar-se tão pervertida a ponto de não mais ser reconhecida como legítima. Por exemplo, se uma igreja - pública e impenitentemente - endossa, pratica ou se recusa a disciplinar pecados grosseiros e hediondos, ela deixa de exibir esta marca de verdadeira igreja.

Embora os cristãos devem ser solenemente advertidos a não nutrirem um espírito cismático ou fomentarem divisões e conflitos, devem ser também advertidos quanto à obrigação de se separarem da falsa comunhão e da apostasia.

Toda igreja verdadeira exibe as genuínas marcas de uma igreja, em grau maior ou menor. A reforma da igreja é uma tarefa interminável. Buscamos mais ser fiéis à vocação bíblica para pregar, ministrar os sacramentos e a disciplina eclesiástica.

Sumário

1. A verdadeira igreja tem marcas visíveis que a distinguem de uma igreja falsa ou apóstata.

2. A pregação do evangelho é necessário para que uma igreja seja legítima.

3. A administração correta dos sacramentos, sem profanação, é uma marca da igreja.

4. Disciplina contra heresias e pecados grosseiros é uma tarefa necessária da Igreja.

5. A igreja é sempre carente de reforma de acordo com a Palavra de Deus.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 3º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre este Livro em http://www.cep.org.br


A Igreja e a Verdade

1 Timóteo 3.15

Introdução

Aprendemos, na Escritura, que a Palavra de Deus é a verdade 00 17.17), que o Salvador da igreja é a verdade (Jo. 14.6) e que a Deus a quem a igreja serve e em nome de quem ela se reúne é o Deus da verdade (Nm 23.19) e que a própria igreja é coluna e baluarte da verdade (1 Tm 3.15). Ora, diante desses fatos, e inegável que a igreja tem uma relação tão íntima e profunda com a verdade que podemos dizer que a verdade faz parte da natureza da verdadeira igreja de Deus. Mas a que quer dizer isso? Como a igreja se articula com a verdade? Qual e a relação que existe entre elas? É isso o que veremos nesta lição.

I. PRODUTO DA VERDADE

A relação da igreja com a verdade e bastante variada. Em primeiro lugar, é preciso dizer que a igreja é produto da verdade, isto é, a igreja veio a existência como fruto da verdade.

Em primeiro lugar, devemos observar que a aliança de Deus, sabre a qual se fundamenta a salvação e a própria igreja, é uma aliança verdadeira, confirmada no decorrer das gerações pela veracidade do próprio Deus. Deus fez uma aliança com Adão (Gn 3.15; Os 6.7), confIrmou-a a Abraão (Gn 17.6-8) e a seus descendentes Isaque e Jacó, reafirmou-a varias vezes no decorrer da história de Israel e cumpriu-a em Cristo. A fidelidade de Deus em cumprir a aliança e 0 fundamento da igreja. Nos existimos como povo do Senhor porque ele é Fiel e seus desígnios não podem ser frustrados. Em sua forma neotestamentária, a igreja teve origem no dia de Pentecostes, com a derramamento do Espírito. Essa foi uma promessa de Deus feita por meio do profeta Joel (Jl 2.28-32). Portanto, a fidelidade de Deus em cumprir suas promessas graciosas é o seguro fundamento sobre o qual repousa a igreja de Cristo.

Em segundo lugar, observamos que a igreja foi gerada pela palavra da verdade. O apóstolo Paulo diz aos crentes de Èfeso que eles foram selados pelo Espírito Santo depois que creram na palavra da verdade, que é o evangelho da salvação. De fato, o meio ordinário usado por Deus para chamar seu povo é a pregação da palavra da verdade. Tiago chega a dizer que fomos gerados pela palavra da verdade (Tg 1.18). De fato, embora as obras da criação e da providência revelem a existência de Deus (Sl 19.1-6), esse conhecimento natural não é Suficiente para nos revelar o nosso pecado, a nossa necessidade de salvação e a graça de Deus, que nos salva. Para isso, é necessária a revelação especial de Deus, feita por meio da palavra da verdade, a Bíblia. E na Bíblia que encontramos tudo o que precisamos saber a respeito de Deus, de sua relação com o ser humano e do fim glorioso que ele reservou para aqueles que o amam (Cl 1.5). E por isso que Paulo associa a diretamente a pregação e afirma que a vem pela pregação (Rm 10.13-17).

Em terceiro lugar, é necessário observar que quem aplica ao coração dos crentes a palavra da verdade e o Espírito da verdade Go 14.16,17; 1Jo 5.6). É ele quem nos chama a fé mediante a pregação do evangelho, aplicando a nossa vida aquilo que a mensagem nos ensina a respeito de Cristo e da salvação, isto e, tornando-nos espiritualmente sensíveis a mensagem graciosa de Deus e chamando-nos de modo eficaz a salvação e a igreja.

Em quarto lugar, a igreja é produto da verdade porque o seu Salvador é a Verdade (Jo.  14.6). Isso significa que ele realmente realizou tudo o que era necessário para a nossa salvação, consumando a sua obra e abrindo para a seu povo as portas do reino de Deus, como o Senhor havia prometido pela boca dos profetas. Alem disso, a obra de Cristo verdadeiramente nos conduz a salvação, e nada lhe falta nem lhe precisa ser acrescentado para que ela seja verdadeiramente eficaz na vida de todos aqueles que foram predestinados por Deus e chamados pelo Espírito, de modo que podemos dizer que a obra de salvação que teve inicio na eternidade, mediante a eleição e certamente será realizada em todos os eleitos de Deus, que podem, desde , ser visto como glorificados, por causa da fidelidade de Deus em levar adiante o seu propósito (Rm 8.28-30).

II. PORTADORA DA VERDADE

Nos tempos do Antigo Testamento, Deus algumas vezes usou anjos para anunciar a verdade ao seu povo ou a alguma pessoa específica. Isso aconteceu, por exemplo, quando o anjo falou com Hagar (Gn 21.17). No Novo Testamento, os anjos anunciaram tanto o nascimento de Jesus (Mt 1.20; 2.13) quanto a sua ressurreição (Mt 28.5,6). No entanto, embora seja livre para fazer uso dos anjos e até de uma mula (Nm 22.21-33), o modo ordinário pelo qual o Senhor escolheu anunciar a sua palavra, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, é usando seres humanos como portadores da verdade.

No Antigo Testamento, as pessoas que atuavam como portadoras da palavra de Deus eram chamadas de profetas. Eles eram mensageiros de Deus. Sua mensagem não pertencia a eles mesmas, nem tinha origem em sua criatividade humana ou na sua piedade. Ela vinha de Deus. A mensagem dos profetas tinha autoridade porque provinha do Senhor. Par isso, geralmente, ao iniciar uma profecia, eles usavam a expressão "assim diz o Senhor", deixando claro para a povo que Deus era a origem da profecia que seria anunciada, e eles eram apenas os portadores da verdade. Embora vivessem no tempo do Antigo Testamento, eram membros da igreja de Deus, pois sua estava depositada no Messias prometido, que e Cristo, o Salvador da igreja. Sendo assim, vemos que, no Antigo Testamento, a igreja era a portadora da verdade. Pedro, falando a respeito do oficio profético, diz que "nenhuma profecia da Escritura provem de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo" (2Pe 1.20,21 ).

No Novo Testamento, os portadores da verdade foram os apóstolos. Eles aprenderam sua mensagem diretamente de Jesus e receberam a promessa de que receberiam 0 Espírito da verdade, que os faria lembrar de tudo quanta tinham aprendido (Jo. 15.26; 16.13). Essa promessa se cumpriu no Pentecostes, quando teve origem a igreja neotestamentária. Sob a orientação do Espírito, os apóstolos, assim como os profetas, também não anunciavam a sua própria doutrina, mas a doutrina que receberam de Cristo. Até mesmo o apóstolo Paulo, que se apresenta como um apóstolo "nascido fora de tempo", afirma que não aprendeu a sua doutrina com os homens nem da parte homem de nenhum, mas diretamente de uma revelação de Jesus Cristo (GI 1.11,12).

Hoje não temos mais os profetas do Antigo Testamento nem os apóstolos, mas temos a verdade que eles nos deixaram e nossa responsabilidade é sermos os portadores da verdade para a nossa própria geração. Isso e feito quando aprendemos a verdade eterna enunciada na Escritura e a aplicamos ao nosso próprio contexto social, fazendo com que ela seja tão relevante para a vida crista hoje quanto o foi na vida dos nossos irmãos do passado.

III. GUARDIÃ DA VERDADE

No tempo do Antigo Testamento, os oráculos de Deus foram confiados aos israelitas (Rm 3.2). A lei de Deus foi dada a eles por intermédio de Moisés; os profetas eram israelitas, os sacerdotes eram israelitas, a aliança havia sido feita com 0 povo de Israel, 0 templo era em Jerusalém e a promessa do Messias foi feita a eles. Eles tinham a obrigação de preservar a revelação especial que tinham recebido de Deus e transmiti-la as gerações futuras. No Novo Testamento, essa função pertence a igreja. E por isso que ela é chamada de "coluna e baluarte da verdade" (1Tm 3.15). A função das colunas e dar sustentação a estrutura. A igreja tem a função de sustentar e preservar a Palavra de Deus. Baluarte e um lugar seguro, uma fortaleza, um refúgio. A igreja, de acordo com o apostolo Paulo, e responsável pela preservação da palavra da verdade. Isso tem um sentido tão profundo para a vida crista que, quando uma igreja local ou uma denominação deixa de batalhar "diligentemente pela uma vez entregue aos santos" (Jd 3), ela deixa de ser uma igreja verdadeira e, tomada pelo pecado e pela indiferença doutrinária, morre.

Ha períodos na história da Igreja cristã em que o apego a doutrina e mais forte do que em outros. Nos tempos da igreja primitiva e da Reforma, por exemplo, esse apego foi muito forte e produziu frutos que até hoje podem ser vistos no meio do povo de Deus. Um bom exemplo desses frutos somos eu e você. Ainda nos tempos da igreja primitiva, a igreja se espalhou pelo mundo conhecido, chegando, entre outros lugares, a Europa. No tempo da Reforma, a igreja chegou a América do Norte. Nós fomos evangelizados, primeiramente, por missionários americanos. Portanto, somos fruto do apego à verdade por parte da igreja primitiva e dos reformadores, mesmo vivendo tanto tempo depois deles.

No entanto, há períodos em que esse apego a verdade é tão pequeno e frágil que chega a ser surpreendente que a igreja não tenha deixado de existir. Ela é preservada, mesmo nos momentos de maior indiferença doutrinária porque o Espírito da verdade está e estará sempre com ela (João 14.16), mantendo um remanescente fiel segundo a eleição da graça. Uma ou outra denominação pode desaparecer por causa de sua incredulidade, mas o Senhor sempre preservara para si o seu povo, como fez no tempo de Elias, preservando os sete mil servos fieis, cujos joelhos não tinham se dobrado a Baal (1Re 19.18).

Como portadora e guardiã da verdade, a igreja tem a obrigação de se dedicar ao estudo e a interpretação da Escritura. Não se pode preservar e anunciar as futuras gerações aquilo que não se conhece. E fundamental que a igreja dedique suas mentes mais aguçadas e seus corações mais fervorosos e piedosos ao estudo e a pregação da Palavra de Deus. Não existe igreja forte em volta de um púlpito fraco, do mesmo modo que não existe igreja forte em volta de um seminário fraco. E preciso que a igreja leve a serio a sua missão de preservar e anunciar a verdade que uma vez por todas foi entregue aos santos.

 IV. PROCLAMADORA DA VERDADE

Não há dúvida de que a igreja e responsável pela pregação, muito embora, em muitos casos, essa pregação seja feita por indivíduos, não por igrejas. No entanto, até mesmo quando essa pregação e feita por indivíduos, esses indivíduos São membros da igreja de Cristo e estão organicamente ligados a ela e a Cristo, como seu Cabeça. O maior pregador da igreja primitiva foi o apóstolo Paulo. Suas viagens missionárias eram feitas em companhia de alguns irmãos, que colaboravam com o seu ministério, como Lucas, Timóteo, Marcos e Barnabé, e ele recebia colaboração de outros irmãos por onde passava, bem como das igrejas. Suas cartas estão repletas de referências a esses irmãos, que se contam às dezenas.

No entanto, o fato de Paulo ter exercido a seu ministério de modo itinerante não significa que ele fosse um pregador "independente", isento de vínculos eclesiásticos. Pelo contrario, ate mesmo a ministério missionário de Paulo estava relacionado a igreja de Cristo, sendo ele mesmo e Barnabé enviados como missionários pela igreja de Antioquia (At 13.1-3). A própria doutrina de Paulo deixa claro que ele tinha plena consciência de que tanto ele mesmo quanto seus colaboradores e as igrejas que ele fundava eram partes da igreja de Cristo, e estavam, portanto, relacionadas umas com as outras. Esse mesmo tipo de vinculo existe hoje no ministério dos missionários transculturais, mesmo que eles estejam em lugares muito distantes, humanamente sozinhos, isto é, sem a companhia de outros irmãos e sem a presença local de uma igreja que lhes apoio. Eles fazem parte da igreja de Cristo, são nossos irmãos e estão organicamente unidos a todos os crentes do mundo, formando com eles um corpo.

Outro ponto que precisa ser salientado aqui é que a igreja é proclamadora da verdade. A grande missão da igreja é proclamar o evangelho. A igreja que prega reformas sociais (que são necessárias) e normas de civilidade (que são indispensáveis), mas não prega as ensinos bíblicos sobre pecado, inferno, céu, salivação, perdão, graça, justificação, santificação, Trindade, Cristo, Messias e o retorno de Cristo não está cumprindo a sua missão de proclamadora da verdade. Pesa sobre a igreja a responsabilidade de proclamar "todo a desígnio de Deus" (At 20.27). Nossa pregação precisa ir além dos interesses humanos e locais; precisamos anunciar a boa-nova da salvação e o perdão de pecados.

Alem disso, e necessário ter em mente que a pregação da verdade envolve dois elementos igualmente importantes: a explicação da Palavra e a aplicação da Palavra. É responsabilidade da igreja ensinar os crentes a aplicar a ensino bíblico às situações da vida diária, tais como questões sociais, conduta cristã, relacionamento familiar e comunhão com Deus.

Essa proclamação da verdade deve ser feita a todas as classes de pessoas, indistintamente. É preciso anunciar a verdade nos condomínios de luxo, nas favelas, nas florestas, nas grandes metrópoles, em países ricos, em países pobres; enfim, é responsabilidade da igreja de Cristo anunciar o evangelho da salvação a todas as nações, povos, línguas e raças, sem qualquer distinção.

Conclusão

 A igreja que se afasta da verdade, que se torna indiferente a verdade ou que tolera heresias que negam o ensino básico e central da Palavra de Deus deixa de ser uma igreja verdadeira no exato momento em que esse afastamento, indiferença ou tolerância a heresia se toma a sua diretriz. Isso significa que a igreja de Cristo está de tal modo relacionada com a verdade que mesmo que uma igreja local possua um bom templo, uma membresia numerosa e uma boa organização eclesiástica, mas não possua a verdade, não pode ser reconhecida como parte verdadeira da igreja de Cristo. O que identifica a igreja de Cristo é a verdade que a produziu e que ela porta, guarda e proclama, não as paredes de tijolos.

Aplicação Individual

Que valor você tem dado, na prática, a verdade? Seu apego a verdade tem se limitado a opinião de que ela deve ser mantida ou você tem se empenhado pessoalmente em fazer isso? Na prática, como você tem zelado pela verdade da Palavra de Deus? Você Iê a Bíblia todos os dias? Faz culto doméstico? Tem um tempo reservado para a sua devocional diária? Qual foi o ultimo livro cristão que você leu? Se você tem a responsabilidade de ensinar na igreja, com que dedicação tem preparado suas lições? Pense no que tudo isso tem a ver com o zelo pela verdade e dedique-se ao estudo da Palavra do Senhor.

Autor: Vagner Barbosa

Fonte: Lição 8 da revista Nossa Fé – As cartas – A Igreja, pg. 27-30, editora Cultura Cristã.

Estudo digitado pelo caríssimo irmão e colaborado do site Teologia Calvinista: Davi Barrozo de Carvalho

Leitura do Texto Bíblico

Tg 1.16-18

Gerados pela palavra

CI 1 .3-8

Esperança e Palavra

Rm 10.13-17

A vem pela pregação

Jo 14.16,1 7

0 Espírito habita em nós

1 Jo 5.6

0 Espírito é a verdade

2Pe 1.20,21

Portadores da verdade

Jd 3, 4

Batalhar pela

 


A Igreja e a Sã doutrina

2 Coríntios 3.4-6

Introdução

Vivemos dias difíceis com relação a firmeza doutrinária. As heresias estão ameaçando bem de perto a integridade da doutrina bíblica. A igreja de Cristo se cada vez mais cercada por ensinos contrários a Palavra de Deus. Esses falsos ensinos, por sua vez, encontram na nossa sociedade um terreno fértil e produtivo para lançar suas raízes. Além disso, percebe-se em muitos círculos cristãos um menosprezo pela doutrina, como se ela fosse uma pedra de tropeço para a santificação. Se, por um lado, nunca houve tantos evangélicos no nosso pais, por outro lado o nosso povo nunca esteve tão carente de uma fiel pregação das Sagradas Escrituras e os evangélicos nunca tiveram uma vida crista tão pálida e sem vida quanto tem hoje. Uma das causas dessa vida cristã frágil observada no comportamento de muitos evangélicos dos nossos dias e a crença errada de que o Espírito Santo e a doutrina bíblica oudoutrina são duas coisas independentes entre si. Desse modo, um crente bem-intencionado crê ser possível andar no Espírito sem pautar a sua conduta e o seu relacionamento com Deus nas Escrituras. Em muitos casos, a doutrina chega a ser reputada como "letra morta" ou, pior ainda, "letra que mata". Essa heresia esta supostamente baseada em 2 Coríntios 3.6. Para complicar ainda mais a situação, esses irmãos que dizem andar no Espírito ao mesmo tempo em que negligenciam a sã doutrina arrogam para si uma santidade maior do que a daqueles que se firmam na Palavra. o que a Bíblia diz sobre isso?

I. O ESPIRITO OU A DOUTRINA?

Considerar o Espírito e a doutrina como duas coisas que se excluem mutuamente não é um equivoco; é um erro grosseiro e primário que chega as raias da heresia. Aqueles que acreditam que "andar no Espírito" seja algo diferente de orientar o seu relacionamento com Deus e sua vida pessoal pelo ensino claro das Escrituras revelam total ignorância tanto sobre a pessoa e obra do Espírito Santo quanto sobre a inspiração e a inerrância da Palavra de Deus. No entanto, é com muita tristeza que verificamos a existência de pessoas, dentro e fora de nossas igrejas, que afIrmam andar no Espírito e ensinar em nome do Espírito ao mesmo tempo em que desprezam a Escritura sob a alegação de que ela não passa de letra morta e, pior ainda, letra assassina. Quando questionamos que Espírito e esse, cuja inspiração lhes da tanta autoridade a ponto de colocarem a Escritura num patamar inferior ao que eles próprios ocupam, prontamente recebemos a resposta de que esse Espírito e 0 próprio Espírito de Cristo. será mesmo?

Ora, o Espírito Santo foi quem inspirou os apóstolos de Cristo, e nenhum deles aprendeu com o Espírito a menosprezar a Palavra de Deus ou a colocar-se acima dela. Pelo contrário, inspirados pelo Espírito, eles ensinavam que a Palavra de Deus tem a autoridade do seu autor (Gl 1.6-9; Rm 3.2; At 7.38; Sl19.7; 2Tm 3.16), que e o próprio Deus. A Escritura não é o resultado da especulação humana nem dos devaneios fantasiosos da criatividade humana (2Pe 1.20,21). Ela e obra do Espírito Santo, que inspirou servos escolhidos para fazer registrar de modo infalível e inerrante tudo o que lhe aprouve revelar ao homem e que jamais será mudado, pois, sendo Deus, o Espírito não está sujeito a mudanças (Sl 102.27; Ml 3.6; Hb 1.12; Tg 1.17). Ora, se a Escritura é fruto da ação do Espírito em favor da conservação do verdadeiro ensino a respeito de Deus e de nosso relacionamento com ele, que direito temos nos de imaginar que andar no Espírito e zelar pela sa doutrina São coisas opostas?

É oportuno lembrar também do testemunho do apóstolo Paulo que, mesmo tendo sido arrebatado até o terceiro céu (2Co 12.1-6), nunca baseou seus ensinos na sua experiência de arrebatamento. Pelo contrario, sempre os baseou na Lei e nos profetas (Rm 2.13; 3.21,31; 7.7,14,22,25; 8.2; 10.5; Gl 3.21-24; Ef 2.20; 1 Tm 1.8) e exortou Timóteo a que tivesse cuidado de si mesmo e da doutrina (1 Tm 4.16) e corrigisse, repreendesse e exortasse com toda longanimidade e doutrina (2Tm 4.2), pois ela é inspirada por Deus e, por isso, é útil tanto para a ensino quanto para a repreensão, para a correção e para a educação na justiça (2Tm 3.16), "a fim de que o homem de Deus seja perfeito" (2Tm 3.17). Veja que a sã doutrina está estreitamente relacionada com toda a vida cristã, que é a expressão da obra do Espírito no nosso coração. Como podemos observar, o ensino do Espírito par meio da Escritura é de que ela nos conduz a um firme compromisso com Deus (Sl 119.11,93,105).

Jesus Cristo também nos ensina sabre isso. Ele diz que "o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviara em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito" (Jo. 14.26). Nessa passagem, ele está dizendo que o Consolador nos ensinará e nos trará à lembrança as palavras de Jesus. Portanto, ao Espírito que Jesus prometeu e que Paulo recebeu não compete inventar revelações novas ou criar um novo tipo de doutrina (Gl 1.6-9) diferente daquela apresentada no evangelho. Sua função é selar e fortalecer no nosso coração a mesma doutrina ensinada na Palavra de Deus.

II. A ESCRITURA COMO PADRAO DO ESPIRITO

Pode parecer um pouco estranho falarmos num padrão do Espírito Santo; afinal de contas não nos parece certo, a primeira vista, que Aquele que sujeita a si todas as coisas necessite de um padrão, mesmo que esse padrão seja a Escritura. No entanto, podemos afirmar, com toda certeza, que a Escritura e o padrão do Espírito porque foi ele que inspirou os homens santos que a escreveram e ele não muda. o Espírito que inspirou as Escrituras no passado e o mesmo Espírito hoje. Sendo assim, a Escritura é a único padrão que possuímos para fazer a avaliação das doutrinas e mensagens apresentadas "em nome do Espírito". :É isso que o apóstolo João tem em mente quando exorta a igreja a provar "os espíritos, se procedem de Deus, pois muitos falsos profetas tem saído pelo mundo fora" (lJo 4.1). Certamente, que se quiséssemos avaliar as doutrinas por uma regra humana, estaríamos laborando em grande erro, pais as regras humanas sempre São sujeitas ao erro. No entanto, que erro pode haver quando avaliamos a doutrinas pelo padrão que o próprio Espírito ensinou na Escritura? Ele e a seu autor e, por isso, não pode ser diferente daquilo que revelou em suas páginas. Assim como se revelou nela, também permanecerá para sempre.

Se alguém, menosprezando a sabedoria contida na Palavra de Deus, quiser nos ensinar outra doutrina, como poderemos saber qual é a sã doutrina se a próprio Satanás pode se transformar em anjo de luz (2Co 11.14)? Que autoridade teria entre nós o Espírito Santo se nós não pudéssemos discerni-lo de modo inequívoco? É somente a Sagrada Escritura que torna possível esse discernimento, pois ela revela a própria mente de Deus, revelada pelo Espírito. É par meio dela que podemos conferir coisas espirituais com espirituais e assim encontrar um testemunho exato do Senhor Jesus Cristo (Jo. 5.39).

o Espírito Santo, sendo a grande responsável pelo registro infalível e totalmente isento de

erros da sã doutrina na Escritura, e, conseqüentemente, identificado pelo que nela esta contido, pois Aquele que é isento de qualquer variação ou sombra de mudança sempre será fiel aquilo que uma vez revelou para servir de orientação ao povo de Deus.

 III. A LETRA QUE MATA

Quando ouvimos alguém se referindo a Bíblia como a letra que mata, devemos saber que essa e uma interpretação errada de 2 Coríntios 3.6. Vejamos o que o apóstolo Paulo quis dizer quando afirmou que somos "ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica" (2Co 3.6). Nessa passagem, o apóstolo combate os falsos profetas, que enviavam cartas as igrejas apresentando-se como apóstolos (Gl 3.1). Esses falsos profetas pretendiam exaltar a Lei da antiga aliança sem fazer caso de Cristo, o que distanciava os crentes da graça da nova aliança, na qual o Senhor promete esculpir a Lei nas entranhas dos crentes e imprimi-la no coração deles (Jr 31.33; Hb 8.10). Portanto, o que Paulo ensina é que a Lei de Deus é letra morta e mata a todos os que a lêem quando não é acompanhada pela graça. Nesse caso, ela chega até aos ouvidos, mas não pode penetrar no coração. Por outro lado, sempre que ela é usada pelo Espírito para fazer com que a graça de Deus alcance o coração do pecador, é palavra de vida, capaz de restaurar-lhe a alma e alegrar-lhe o coração (Sl 19.7,8). Repare que "a vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo" (Rm 10.17). Mais uma vez podemos ver o ministério da Palavra intimamente associado ao ministério do Espírito, pois e ele quem convence o pecador "do pecado, da justiça e do juízo" 00 16.8-11).

Podemos ver, na postura dos fariseus, um claro exemplo da letra que mata. No dizer de Jesus, eles se assentavam "na cadeira de Moisés", ou seja, com base na lei de Moisés, eles se propunham a estabelecer normas para a vida cotidiana do povo, mas, apesar de todo o seu zelo pela conservação da letra da lei, eles negligenciavam o espírito dela, a saber, a justiça, a misericórdia e a , sendo, por esse motivo, censurados por Jesus, que repetidamente denunciou essa hipocrisia (Mt 23.1-36, especialmente vs. 2, 23). Observe que, na continuação da passagem de 2 Coríntios, o apóstolo chama a pregação da Palavra de "ministério do Espírito" (3.8), dando com isso a entender que o Espírito está de tal modo ligado a sua Palavra que executa o seu ministério exatamente quando essa Palavra é pregada com fidelidade. Como podemos ver, a Lei de Deus deixa de transmitir vida quando não e acompanhada pelo testemunho do Espírito ao nosso espírito. Podemos afirmar, portanto, com toda segurança, que nós podemos andar no Espírito quando reconhecemos o seu caminho revelado nas Sagradas Escrituras.

O apóstolo Paulo nos exorta: "Andai no Espírito e jamais satisfareis a concupiscência da carne" (Gl 5.16). Com essas palavras ele introduz o seu ensino sobre as obras da carne e 0 fruto do Espírito, no qual ele da uma lista de obras da carne (Gl 5.19-21) e ensina que essas obras não São realizadas por aquele que anda no Espírito, pois elas se opõem ao Espírito e o Espírito se opõe a elas. Em 1 Timóteo 1.9,10 ha um paralelo interessante a esse ensino. Nessa passagem, Paulo diz que as mesmas obras da carne de Gálatas 5.19-21 se opõem a sã doutrina, de modo que podemos concluir que o Espírito e a sã doutrina não se excluem. Pelo contrário, estão de tal modo unidos que se opõem as mesmas coisas.

Também merece registro o fato de que o apóstolo Paulo zela pela pregação do evangelho (1 Co 9.16). Ora, seria de muito se estranhar se um dos apóstolos do Senhor Jesus fosse zeloso da pregação da letra assassina. Mais estranho ainda seria se o próprio Jesus enviasse seus discípulos a todas as nações para pregar a Palavra que mata ou se o Espírito Santo os enviasse para pregar a letra que mata.

IV. O ESPIRITO QUE VIVIFICA

Quando Jesus tremava seus discípulos para a grande missão que teriam de realizar (Mt 28.19,20) ele não os ensinava a desconsiderar a Escritura e apegar-se ao Espírito que estava por vir. Pelo contrário, ele os ensinou que o Espírito os capacitaria a realizar a sua missão (At 1.8 - "recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas"), mas também os ensinou a estudar e esforçar-se por compreender as Escrituras e a tirar delas todos os seus recursos doutrinários (Lc 24.27).

Da mesma maneira age o apóstolo Paulo que, ao exortar os tessalonicenses a que não apagassem o Espírito, não lhes recomenda que multipliquem vãs especulações alheias a Palavra de Deus, mas que não desprezem as profecias, deixando claro que a luz do Espírito se apaga quando as profecias São desprezadas, ou seja, quando a sã doutrina e deixada de lado. Desse modo, o apóstolo mais uma vez deixa claro que o Espírito não age independentemente da doutrina nem de modo diferente dela. Em vez disso, ele esta vinculado a sã doutrina por ele mesmo apresentada nas Escrituras Sagradas. Esse ensino é muito diferente daquele apresentado pelos evangélicos "místicos", que querem nos fazer pensar que a mais perfeita iluminação do Espírito consiste em colocar de lado os perfeitos ensinos bíblicos e esforçar-se por realizar todas as fantasias que a mente humana pode criar.

Quando Paulo diz: " ... vede prudentemente como andais, não como néscios e sim como sábios ... e não vos embriagueis com vinho, no qualdissolução, mas enchei-vos do Espírito" (Bf 5.15,18), ele está ensinando a igreja de Éfeso a sobriedade que deve caracterizar o povo de Deus ao tratar de assuntos espirituais.

Essa sobriedade faz com que o povo de Deus procure andar no Espírito seguindo o caminho que o próprio Espírito traçou por meio das Escrituras. Nós não conhecemos outro Espírito diferente daquele que habitou nos apóstolos, falou por intermédio deles, chamou-nos a pelo ministério da Palavra e sustenta-nos pela sua sa doutrina.

Conclusão

A sã doutrina não e uma pedra de tropeço colocada por Deus diante da igreja para militar contra o Espírito, como algumas pessoas costumam dar a entender. Ela e a revelação do próprio Espírito de Deus. Ela nos ensina a ter um firme relacionamento com Deus e a andar nos caminhos do Senhor. Ela não forma um contraste com o Espírito Santo. Pelo contrário, ela é o principal instrumento usado pelo Espírito para guiar-nos em santidade. O ministério da Palavra e o ministério do Espírito estão ligados de modo tão íntimo que e impossível enxergar um sem enxergar o outro. Se, por um lado, a doutrina nos foi dada pela revelação do Espírito, por outro lado é da Escritura que o Espírito se utiliza para falar ao nosso coração. Portanto, Espírito e doutrina andam lado a lado.

APLICAÇÃO INDIVIDUAL

Diante do que foi estudado hoje, qual será o seu padrão de e conduta daqui por diante? E a quem você recorrerá para pedir capacitação para crescer em santidade? Como o salmo 119.11 se relaciona com a lição de hoje?

Autor: Vagner Barbosa

Fonte: Lição 9 da revista Nossa Fé – As cartas – A Igreja, pg. 31-34, editora Cultura Cristã. Compre esta revista em www.cep.org.br

Estudo digitado pelo caríssimo irmão e colaborado do site Teologia Calvinista: Davi Barrozo de Carvalho

Texto Bíblico

I Tm. 1. 3 -7

Não ensinem outra doutrina

I Tm 1. 12- 17

Fiel é a palavra

Ef. 4. 14

Os ventos de doutrina

Tt. 1. 15 – 2. 10

Convém a sã doutrina

II Jo. 7 -11

Permanecer na doutrina

Cl. 2. 20 - 23

Doutrinas dos homens

II Tm. 2. 14 - 26

Evita falatórios inúteis


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Teologia para a Igreja
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Acervo  do Blog Doutrina Calvinista

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Sacramentos

Os Sacramentos
Mt 28.19,20; At 2.40-47; Rm 6.1-4; 1 Co 11.23-34; Gl 3.26-29

Historicamente, a palavra sacramento era usada para designar algo sagrado.  O  termo latino, sacramentum, foi usado para traduzir a palavra "mistério" no Novo Testamento. Num sentido amplo, todos os rituais e cerimoniais religiosos eram chamados sacramentos. Com o tempo, o termo sacramento assumiu um sentido mais preciso e mais restrito. Um sacramento veio a ser definido como um sinal visível por meio do qual Deus oferece sua promessa de graça de uma forma externa. Os sinais externos selam e confirmam as promessas da aliança de Deus.Os sacramentos consistem de alguns elementos visíveis tais como  água, pão ou vinho; uma atividade definida ordenada por Deus em associação com o sinal; e um benefício redentor comunicado ao crente.

A igreja Católica Romana estabeleceu o número de sacramentos (num sentido especial) em sete. Eles são Batismo, Crisma, Eucaristia (a Ceia do Senhor), Penitência, Matrimônio, Ordem e Extrema-Unção. O protestantismo histórico limitou os sacramentos em dois: Batismo e Ceia do Senhor. Apesar de os protestantes reconhecerem outros rituais, tais como o matrimônio, como ordenanças especiais, não os reconhecem como se nivelando aos sacramentos. Os sacramentos são limitados a:

(1) ordenanças instituídas diretamente por Cristo,

(2) ordenanças que por sua própria natureza são significativas,

(3) ordenanças designadas para serem perpétuas e

(4) ordenanças designadas para representar, instruir e selar os crentes que as recebem pela fé.

Os sacramentos são meios reais de graça que comunicam as promessas de Deus. Seu poder não reside nos elementos em si, mas em Deus, de quem são sinais. Tampouco podem depender do caráter ou fé daqueles que os administram, mas da integridade de Deus.

Os sacramentos são formas não-verbais de comunicação. Nunca foram destinados a ficar isolados, sem referência à Palavra de Deus. Os sacramentos confirmam a Palavra de Deus, de modo que a administração deles e a pregação da Palavras vão juntas.

A salvação não se opera por meios dos sacramentos. A salvação é pela fé em Cristo. mas onde a fé está presente, os sacramentos não são ignorados nem negligenciados. São uma parte vital do culto divino e do desenvolvimento da vida cristã.

Embora os sacramentos envolvam a utilização de formas externas, não devem ser menosprezados com ritualismo ou formalidade vazio. Embora possam ser corrompidos e transformados em rituais vazios, não devem ser rejeitados. São de fato rituais, mas são ordenados por Deus e portanto devemos participar deles alegre e solenemente.

Sumário

1. Um sacramento é um sinal visível da promessa da graça de Deus aos crentes.

2. A igreja Católica Romana inclui sete sacramentos, enquanto a maioria das  igrejas protestante tem dois: Batismo e Ceia do Senhor.

3. Os sacramentos não comunicam automaticamente as coisas que representam. O conteúdo dos sacramentos é recebido pela fé.

4. Os sacramentos não são rituais vazios, mas foram ordenados por Jesus Cristo.

5. Os sacramentos devem estar conectados à pregação da Palavra de Deus.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 3º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre este livro em http://www.cep.org.br


Os Sacramentos em Geral

A. Relação Entre a Palavra e os Sacramentos.

Em distinção da Igreja Católica Romana, as igrejas da Reforma salientam a prioridade da Palavra de Deus. Enquanto aquela parte do pressupostos de que os sacramentos contêm tudo que é necessário para a salvação dos pecadores, não precisam de interpretação e, portanto, tornam a Palavra completamente supérflua como meio de graça, estas consideram a Palavra como absolutamente essencial, e apenas levantam a questão, por que se lhe deve acrescentar os sacramentos. Alguns luteranos alegam que uma graça específica, diferente da que é produzida pela Palavra é transmitida pelos sacramentos. Isso é quase universalmente negado pelos reformados (calvinistas), uns poucos teólogos escoceses e o doutor Kuyper formando exceções à regra. Eles assinalam o fato de que Deus criou o homem de tal maneira, que ele obtém conhecimento particularmente pelas avenidas dos sentidos da visão e da audição. A Palavra está adaptada aos ouvidos e os sacramentos aos olhos. E, desde que os olhos são mais sensíveis que os ouvidos, pode-se dizer que Deus, ao acrescentar os sacramentos à Palavra, vem em auxílio do pecador. A verdade dirigida aos ouvidos através da Palavra está representada simbolicamente nos sacramentos para os olhos. Deve-se ter em mente, porém, que, enquanto a Palavra pode existir e também é completa sem os sacramentos, os sacramentos nunca são completos sem a Palavra. Há pontos de semelhança e de diferença entre a Palavra e os sacramentos.

1. PONTOS DE SEMELHANÇA. Eles concordam: (a) no autor, visto que Deus mesmo instituiu ambos como meio de graça; (b) no conteúdo, pois Cristo é o conteúdo central tanto da Palavra como dos sacramentos; e (c) na maneira pela qual o conteúdo é assimilado, isto é, pela fé. Esta constitui o único modo pelo qual o pecador pode tornar-se participante da graça oferecida na Palavra e nos sacramentos.

2. PONTOS DE DIFERENÇA. Eles diferem: (a) em sua necessidade, sendo que a Palavra é indispensável, ao passo que os sacramentos não; (b) em seu propósito, desde que a Palavra visa a gerar e a fortalecer a fé, enquanto que os sacramentos servem somente para fortalecê-la; e (c) em sua extensão, visto que a Palavra vai pelo mundo inteiro, ao passo que os sacramentos só são ministrados aos que estão na igreja.

B. Origem e Sentido da Palavra “Sacramento”.

A palavra “sacramento” não se encontra na Escritura. É derivada do termo latino sacramentum , que originariamente denotava uma soma de dinheiro depositada por duas partes em litígio. Após a decisão da corte, o dinheiro da parte vencedora era devolvido, enquanto que a da perdedora era confiscada. Ao que parece, isto era chamado sacramentum porque objetivava ser uma espécie de oferenda propiciatória aos deuses. A transição para o uso cristão do termo deve ser procurada: (a) no uso militar do termo, em que denotava o juramento pelo qual um soldado prometia solenemente obediência ao seu comandante, visto que no batismo o cristão promete obediência ao seu Senhor; e (b) no sentido especificamente religioso que o termo adquiriu quando a Vulgata o empregou para traduzir o grego mysterion . É possível que este vocábulo grego fosse aplicado aos sacramentos por terem eles uma tênue semelhança com alguns dos mistérios das religiões gregas. Na Igreja Primitiva a palavra “sacramento” era empregada primeiramente para denotar todas as espécies de doutrinas e ordenanças. Por esta mesma razão, alguns se opuseram ao nome e preferiam falar em “sinais” ou “mistérios”. Mesmo durante e imediatamente após a Reforma, muitos não gostavam do nome “sacramento”. Melanchton empregava “signi” , e tanto Lutero como Calvino achavam necessário chamar a atenção para o fato de que a palavra “sacramento” não é empregada em seu sentido original na teologia. Mas o fato de que a palavra não se encontra na Escritura e de que não é utilizada em seu sentido original quando aplicada às ordenanças instituídas por Jesus, não tem por que dissuadir-nos, pois muitas vezes o uso determina o sentido de uma palavra. Pode-se dar a seguinte definição de sacramento: Sacramento é uma santa ordenança instituída por Cristo, na qual, mediante sinais perceptíveis, a graça de Deus em Cristo e os benefícios da aliança da graça são representados, selados e aplicados aos crentes, e estes, por sua vez, expressam sua fé e sua fidelidade a Deus.


C. Partes Componentes do Sacramento.

Devemos distinguir três partes nos sacramentos.

1. O SINAL EXTERNO OU VISÍVEL. Cada sacramento contém um elemento material, palpável aos sentidos. Num sentido bem livre, este elemento às vezes é chamado sacramento. Contudo, no sentido estrito da palavra, o termo é mais inclusivo e denota o sinal e aquilo que é significado ou simbolizado. Para evitar mal-entendido, deve-se ter em mente este uso diferente. Isto explica por que se pode dizer que um descrente pode receber, e, todavia, não receber o sacramento. Não o recebe no sentido pelo da palavra. O objeto externo do sacramento inclui, não somente os elementos que se usam, a saber, água, pão e vinho, mas também o rito sagrado, aquilo que se faz com estes elementos. Segundo este ponto de vista externo, a Bíblia denomina os sacramentos sinais e selos, Gn 9.12, 13; 17.11; Rm 4.11.

2. A GRAÇA ESPIRITUAL INTERNA, SIGNIFICADA E SELADA. Os sinais e selos pressupõem algo que é significado e selado e que geralmente é chamado matéria interna do sacramento. Esta é variadamente indicada na Escritura como aliança da graça, Gn 9.12, 13; 17.11, justiça da fé, Rm 4.11, perdão dos pecados, Mc 1.4: Mt 26.28, fé e conversão, Mc 1.4; 16.16, comunhão com Cristo em Sua morte e ressurreição, Rm 6.3, e assim por diante. Declarada resumidamente, pode-se dizer que consiste de Cristo e todas as Suas riquezas espirituais. Os católicos romanos a vêem na graça santificante acrescentada à natureza humana, capacitando o homem a praticar boas obras e a subir às alturas da visio Dei (visão de Deus). Os sacramentos não significam meramente uma verdade geral, mas uma promessa dada a nós e por nós aceita, e servem para fortalecer a nossa fé com respeito à realização dessa promessa, Gn 17.1-14; Ex 12.13; Rm 4.11-13. eles representam visivelmente e aprofundam a nossa consciência das bênçãos espirituais da aliança, da purificação dos nossos pecados e da nossa participação na vida que há em Cristo, Mt 13.11; Mc 1.4, 5; 1 Co 10.2, 3, 16, 17; Rm 2.28, 29; 6.3, 4; Gl 3.27. como sinais e selos, eles são meios de graça, isto é, meios pelos quais se fortalece a graça interna produzida no coração pelo Espírito Santo.

3. UNIÃO SACRAMENTAL ENTRE O SINAL E QUILO QUE É SIGNIFICADO. Geralmente se lhe chama forma sacramenti , forma dos sacramentos ( forma significando aqui essência), porque é exatamente a relação entre o sinal e a coisa significada que constitui a essência do sacramento. Segundo o conceito reformado (calvinista), esta (a) não é física , como pretendem os católicos romanos, como se a coisa significada fosse inerente ao sinal e o recebimento da matéria externa incluísse necessariamente a participação na matéria interna ; (b) nem local, como a descrevem os luteranos, como se o sinal e a coisa significada estivessem presentes no mesmo espaço, de sorte que tanto os crentes como os incrédulos recebessem o sacramento completo ao receberem o sinal; (c) mas espiritual , ou como o expressa Turretino, moral e relativa , de modo que, quando o sacramento é recebido com fé, a graça de Deus o acompanha. Conforme este conceito, o sinal externo torna-se um meio empregado pelo Espírito Santo na comunicação da graça divina. A estreita relação existente entre o sinal e a coisa significada explica o emprego daquilo que geralmente se chama “linguagem sacramental”, na qual o sinal é mencionado em lugar da coisa significada, ou vice-versa , Gn 17.10; At 22.16; 1 Co 5.7.

D. Necessidade dos Sacramentos.

Os católicos romanos afirmam que o batismo é absolutamente necessário para todos, para a salvação, e que o sacramento da penitência é igualmente necessário para aqueles que cometeram pecado mortal depois do batismo; mas que a confirmação, a eucaristia e a extrema unção são necessárias somente no sentido de que foram ordenadas e são eminentemente úteis. Por outro lado, os protestantes ensinam que os sacramentos não são absolutamente necessários para a salvação, mas são obrigatórios em vista do preceito divino. A negligência voluntária do seu uso redunda no empobrecimento espiritual e tem tendência destrutiva, precisamente como acontece com toda desobediência persistente a Deus. Que não são absolutamente necessários para a salvação, segue-se: (1) do caráter espiritual e livre da dispensação do Evangelho, na qual Deus não prende a Sua graça ao uso de certas formas externas, Jo 4.21, 23; Lc 18.14; (2) do fato de que a Escritura menciona unicamente a fé como condição instrumental da salvação, Jo 5.24; 6.29; 3.36; At 16.31; (3) do fato de que os sacramentos não originam a fé, mas a pressupõem, e são ministrados onde se supõe a existência da fé, At 2.41; 16.14, 15, 30, 33; 1 Co 11.23-32; e (4) do fato de que muitos foram realmente salvos sem o uso dos sacramentos. Pensemos nos crentes anteriores ao tempo de Abraão e no ladrão penitente na cruz.

E. Os Sacramentos do Velho e do Novo Testamentos Comparados.

1. SUA UNIDADE ESSENCIAL. Roma alega que há diferença essencial entre os sacramentos do Velho Testamento e os do Novo. Ela afirma que, à semelhança de todo o ritual da antiga aliança, seus sacramentos também eram meramente típicos. A santificação produzida por eles não era interna, mas apenas legal, e prefigurava a graça que haveria de ser conferida ao homem no futuro, em virtude da paixão de Cristo. Isso não significa que nenhuma graça interna acompanhava o uso deles, mas simplesmente que isso não era efetuado pelo sacramento propriamente ditos, como acontece na nova dispensação. Eles não tinham eficácia objetiva, não santificavam o participante ex opere operato , mas unicamente ex opere operantis , isto é, por causa da fé e caridade com que eram recebidos. Uma vez que a plena concretização da graça tipificada por aqueles sacramentos dependia da vinda de Cristo, os santos do Velho Testamento foram encerrados no Limbus Patrum (Limbo dos Pais) até Cristo os tirar de lá. A verdade, porém, é que não há diferença entre os sacramentos do Velho Testamento e os do Novo. Provam-no as seguintes considerações; (a) em 1 Co 10.1-4 Paulo atribui à igreja do Velho Testamento aquilo que é essencial nos sacramentos do Novo testamento; (b) em Rm 4.11 ele fala da circuncisão de Abraão como selo da justiça da fé; e (c) em vista do fato de que eles representam as mesmas realidades espirituais, os nomes dos sacramentos de ambas as dispensações são utilizados uns pelos outros: a circuncisão e a páscoa são atribuídas à igreja do Novo Testamento, 1 Co 5.7; Cl 2.11, e o batismo e a Ceia do Senhor à igreja do Velho Testamento, 1 Co 10.1-4.

2. SUAS DIFERENÇAS FORMAIS. Não obstante a unidade essencial dos sacramentos das duas dispensações, há certos pontos de diferença. (a) Em Israel os sacramentos tinham um aspecto nacional em acréscimo à sua significação espiritual como sinais e selos da aliança grega. (b) Ao lado dos sacramentos, Israel tinha muitos outros ritos simbólicos, tais como as ofertas e as purificações, que no essencial concordavam com os seus sacramentos, ao passo que os sacramentos do Novo Testamento estão absolutamente sós. (c) Os sacramentos do Velho Testamento apontavam para Cristo no futuro, e eram os selos da graça que ainda teriam que ser merecidas, ao passo que os do Novo testamento apontam para Cristo no passado e o Seu sacrifício de redenção já consumado. (d) Em harmonia com o conteúdo total da dispensação do Velho Testamento, a porção da graça divina que acompanhava o uso dos sacramentos do Velho Testamento era menor do que a que atualmente se obtém mediante o confiante recebimento dos sacramentos do Novo Testamento.

F. Número dos Sacramentos.

1. NO VELHO TESTAMENTO. Durante a antiga dispensação havia dois sacramentos, quais sejam, a circuncisão e a páscoa. Alguns teólogos reformados (calvinistas) eram de opinião que a circuncisão originou-se em Israel e foi auferido deste povo da aliança por outras nações. Mas agora é patentemente claro que esta posição é insustentável. Desde os tempos mais primitivos, os sacerdotes egípcios eram circuncidados. Além disso, a prática da circuncisão se acha em muitos povos da Ásia, da África e até da Austrália, e é muito improvável que todos a tenham derivado de Israel. Todavia, somente em Israel ela se tornou um sacramento da aliança da graça. Como pertencente à dispensação do Velho Testamento, era um sacrifício cruento, simbolizando a excisão da culpa e da corrupção do pecado, e constrangendo as pessoas a deixarem que o princípio da graça de Deus penetrasse suas vidas completamente. A páscoa também era um sacrifício cruento. Os israelitas escaparam do destino dos egípcios com sua substituição por um sacrifício, que foi um tipo de Cristo, Jo 1.29, 36; 1 Co 5.7. A família salva comeu o cordeiro que fora imolado, simbolizando assim um ato assimilativo de fé, muito parecido com o ato de comer o pão na Ceia do Senhor.

2. NO NOVO TESTAMENTO. A igreja do Novo Testamento também tem dois sacramentos a saber, o batismo e a Ceia do Senhor. Em harmonia com a nova dispensação em seu conjunto global, eles são sacramentos incruentos. Contudo, simbolizam as mesmas bênçãos espirituais que eram simbolizadas pela circuncisão e pela páscoa na antiga dispensação. A igreja de Roma aumentou para sete o número dos sacramentos de maneira totalmente infundada. Aos dois que foram instituídos por Cristo ela acrescentou a confirmação, a penitência, a ordenação, o matrimônio e a extrema unção. Ela procura base bíblica para a confirmação em At 8.17; 14.22; 19.6; Hb 6.2; para a penitência em Tg 5.16; para a ordenação em 1 Tm 4.14; 2 Tm 1.6; para o matrimônio em Ef 5.32; e para a extrema unção em Mc 6.13; Tg 5.14. Pressupõe-se que cada um destes sacramentos comunica, em acréscimo à graça geral da santificação, uma graça sacramental especial, diferente em cada sacramento. Esta multiplicação dos sacramentos criou uma dificuldade para a igreja de Roma. Geralmente se admite que, para serem válidos, precisam ter sido instituídos por Cristo; mas Cristo instituiu apenas dois. Conseqüentemente, ou os outros não são sacramentos, ou o direito de instituí-los terá que ser atribuído aos apóstolos também. Na verdade, antes do Concílio de Trento, muitos asseveravam que os cinco adicionais não foram instituídos diretamente por Cristo, mas por meio dos apóstolos. Todavia, aquele concílio declarou ousadamente que todos os sete sacramentos foram instituídos pessoalmente por Cristo, e, desse modo, impôs à teologia da sua igreja uma tarefa impossível. É um ponto que tem que ser aceito pelos católicos romanos com base no testemunho da igreja, mas que não de vê ser comprovado.

Autor: Louis Berkhof
Fonte: Teologia Sistemática do autor, Ed LCP ou Cultura Cristã (CEP). Compre está classica e excelente obra em www.cep.org.br.


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        Ceia do Senhor

A ceia do Senhor

Nota: AT = Antigo Testamento; NT= Novo Testamento; ES = Espírito Santo.

Qual é o significado da ceia do Senhor?
Como ela deve ser realizada?

 1. EXPLICAÇÃO E BASE BÍBLICA

O Senhor Jesus instituiu duas ordenanças (ou sacramentos) para serem observados pela igreja. O capítulo anterior discutiu o batismo, ordenança que é observada somente uma vez como sinal do começo da vida cristã de uma pessoa. Este capítulo vai dissertar sobre a ceia do Senhor, ordenança que deve ser observada repetidamente ao Longo de toda a nossa vida cristã como sinal de continuidade na comunhão com Cristo.
 
A. Comer na presença de Deus: uma bênção especial por toda a Bíblia Jesus instituiu a ceia do Senhor do seguinte modo:
 
Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, deu graças, partiu-o, e o deu aos seus discípulos, dizendo:

“Tomem e comam; isto é o meu corpo”. Em seguida tomou o cálice, deu graças e o ofereceu aos discípulos, dizendo: ”Bebam dele todos vocês. Isto é o meu sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos, para perdão de pecados. Eu lhes digo que, de agora em diante, não beberei deste fruto da videira até aquele dia em que beberei o vinho novo com vocês no Reino de meu Pai” (Mt 26.26-29)

Paulo acrescenta as seguintes frases da tradição que recebeu (lCo 11.23): “Este cálice é a nova aliança no meu sangue; façam isso, sempre que o beberem em memória de mim” (1 Co 11.25)

Há alguns antecedentes dessa cerimônia no AT? Parece que há, pois houve exemplos de comer e de beber na presença de Deus na antiga aliança também. Por exemplo, quando o povo de Israel estava acampado diante do Monte Sinai, exatamente após Deus ter dado os Dez Mandamentos, Deus chamou os líderes de Israel para subirem à montanha a fim de se encontrarem com ele:

“Moisés, Arão, Nadabe, Abiú e setenta autoridades de Israel subiram e viram o Deus de Israel [...] eles viram a Deus, e depois comeram e beberam” (Êx 24.9,11).

Além disso, cada ano o povo de Israel devia dizimar (dar o dízimo) de todas as suas colheitas. Então a lei de Moisés especificava: “Cotam o dízimo do cereal, do vinho novo e do azeite, e a primeira cria de todos os seus rebanhos na presença do SENHOR, o seu Deus, no local que ele escolher como habitação do seu Nome, para que aprendam a temer sempre o Senhor, o seu Deus. [...] Então juntamente com suas famílias comam e alegrem-se ali, na presença do SENHOR, o seu Deus” (Dt 14.23,26).

Porém mesmo antes disso Deus havia colocado Adão e Eva no jardim do Éden e lhes havia dado tudo de sua abundância para comer (exceto o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal). Desde que não havia nenhum pecado naquela época e como Deus os tinha criado para companheirismo com ele mesmo e para sua própria glória, cada comida que Adão e Eva comiam deve ter sido uma refeição festiva na presença do Senhor.

Quando essa comunhão na presença de Deus foi quebrada posteriormente pelo pecado, Deus ainda permitiu que algumas refeições (como o dízimo dos frutos mencionados anteriormente) fossem feitas em sua presença. Essas refeições eram uma restauração parcial da comunhão com Deus que Adão e Eva desfrutaram antes da queda, muito embora ela fosse deteriorada pelo pecado. Mas a comunhão do comer na presença do Senhor que encontramos na ceia do Senhor é muito melhor. As comidas sacrificais no AT apontavam continuamente para o fato de que os pecados não haviam sido pagos ainda, porque os sacrifícios eram repetidos ano após ano e porque eles olhavam para o Messias que estava por vir para lhes retirar os pecados (v. Hb l0.1-4). A ceia do Senhor, contudo, nos lembra do pagamento completo que Jesus já fez por nossos pecados, de forma que podemos agora comer na presença do Senhor com grande regozijo.

Todavia, mesmo a ceia do Senhor anseia pela refeição comunitária ainda mais maravilhosa na presença do Senhor no tempo futuro, quando a comunhão do Éden será restaurada e haverá alegria muito maior, porque os que comerem na presença do Senhor serão pecadores perdoados confirmados em justiça, capazes de nunca mais pecar. O tempo futuro desse comer na presença de Deus é sugerido por Jesus quando ele diz: “Eu lhes digo que, de agora em diante, não beberei deste fruto da videira até aquele dia em que beberei o vinho novo com vocês no Reino de meu Pai (Mt 26.29). Apocalipse nos fala mais explicitamente a respeito da ceia das bodas do Cordeiro: “E o anjo me disse: ‘Escreva: Felizes os convidados para o banquete do casamento do Cordeiro!’ E acrescentou: ‘Estas são as palavras verdadeiras de Deus” (Ap 19.9). Esse será um tempo de grande regozijo na presença do Senhor, assim como será um tempo de reverência e de temor diante dele.

Do Gênesis ao Apocalipse, portanto, o alvo de Deus tem sido levar seu povo à comunhão com ele, e uma das grandes alegrias de experimentar essa comunhão é o fato de que podemos comer e beber na presença do Senhor. Seria saudável para a igreja hoje reconquistar um senso mais vívido da presença de Deus na mesa do Senhor.

B. O significado da ceia do Senhor


O significado da ceia do Senhor é complexo, rico e amplo. Há diversos símbolos afirmados na ceia do Senhor.

1. A morte de Cristo.

Quando participamos da ceia do Senhor, simbolizamos a morte de Cristo, porque nossas ações delineiam um quadro de sua morte por nós. Quando o pão é partido, simboliza o partir do corpo de Cristo; e quando o conteúdo do cálice é derramado, simboliza o sangue de Cristo vertido por nós. Essa é a razão pela qual a participação na ceia do Senhor é também uma espécie de proclamação: “Porque, sempre que comerem deste pão e beberem deste cálice, vocês anunciam a morte do Senhor até que ele venha” (lCo 11.26).

2. Nossa participação nos benefícios da morte de Cristo.

Jesus ordenou aos discípulos: Tomem e comam; isto é o meu corpo” (Mt 26.26). Quando individualmente tomamos o cálice, um de nós está, por meio dessa ação, proclamando: “Estou me apropriando dos benefícios da morte de Cristo”. Quando fazemos isso, estamos fornecendo um símbolo do fato de que participamos ou partilhamos dos benefícios obtidos pela morte de Cristo por nos.

3. Nutrição espiritual.

Do mesmo modo que a comida comum nutre o corpo, assim o pão e o vinho da ceia do Senhor nos trazem nutrição. Mas eles também ilustram o fato de que há alimento e uma refeição espiritual que Cristo dá à nossa alma — de fato, a cerimônia que Jesus instituiu é, em sua verdadeira natureza, designada para nos ensinar isso. Jesus disse: “Se vocês comerem a carne do Filho do homem e não beberem o seu sangue, não terão vida em si mesmos. Todo aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida. Todo aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Da mesma forma como o Pai que vive me enviou e eu vivo por causa do Pai, assim aquele que se alimenta de mim viverá por minha causa” (Jo 6.53-57).

Certamente Jesus não está falando de comer literalmente sua carne e seu sangue. Mas, se não de comer e beber literalmente, então ele deve ter em mente uma participação espiritual nos benefícios da redenção que adquiriu para nós. Essa nutrição espiritual, tão necessária para a alma é tanto simbolizada como experimentada em nossa participação na ceia do Senhor.

4. A unidade dos crentes.

Quando os cristãos participam juntos da ceia do Senhor, também dão um sinal claro de sua unidade um com o outro. De fato, Paulo diz: “Como há somente um pão, nós, que somos muitos, somos um só corpo, pois todos participamos de um único pão” (1 Co 10.17).

Quando colocamos essas quatro coisas juntas, começamos a perceber alguns dos significados mais ricos da ceia do Senhor. Quando participo, venho à presença de Cristo, lembro que ele morreu por mim, participo dos benefícios de sua morte, recebo nutrição espiritual e me sinto unido com todos os outros crentes que participam dessa ceia. Que grande motivo de ação de graças e alegria deve ser achado nessa ceia do Senhor!

Mas além dessas verdades visivelmente ilustradas pela ceia do Senhor, o fato de que Cristo instituiu essa cerimônia para nós significa que por meio dela ele está também nos prometendo ou afirmando certas coisas. Quando participamos da ceia do Senhor, devemos nos lembrar repetidamente de duas afirmações que Cristo está nos fazendo.

5. Cristo afirma seu amor por mim.

O fato de que sou capaz de participar da ceia do Senhor - na verdade, Jesus me convida a vir — é um lembrete vivido e um sinal visível e seguro de que Jesus me ama individual e pessoalmente. Quando venho participar da ceia do Senhor, encontro desse modo uma certeza renovada do amor pessoal de Cristo por mim.

6. Cristo afirma que todas as bênçãos da salvação estão reservadas para mim.

Quando o convite de Cristo para participar da ceia do Senhor, o fato de que sou convidado à sua presença me assegura de que ele tem bênçãos abundantes para mim. Nessa ceia, estou realmente comendo e bebendo um antepasto do grande banquete do Rei. Venho a essa mesa como membro de sua família eterna. Quando o Senhor me dá boas-vindas a essa mesa, ele me assegura que me receberá com todas as demais bênçãos da terra e do céu, e especialmente para a grande ceia das bodas do Cordeiro, na qual um lugar foi reservado para mim.

7. Eu afirmo a minha fé em Cristo.

Finalmente, enquanto como o pão e bebo o cálice, com essas ações estou proclamando: “Preciso de ti e confio em ti, Senhor Jesus, para perdoar os meus pecados e dar vida e saúde para a minha alma, porque somente pelo teu corpo partido e pelo teu sangue vertido eu posso ser salvo”. De fato, quando participo do partir do pão e o como e quando participo do verter do sangue e o bebo, proclamo repetidamente que os meus pecados foram parte da causa dos sofrimentos e morte de Jesus. Desse modo a tristeza, a alegria, a ação de graças e o profundo amor por Cristo são ricamente misturados na beleza da ceia do Senhor.

C. Como Cristo está presente na ceia do Senhor?


1. Posição católica romana: transubstanciação.
 De acordo com o ensino da Igreja Católica Romana, na eucaristia o pão e o vinho realmente se tornam o corpo e o sangue de Cristo. Isso acontece no momento em que o sacerdote diz “isto é o meu corpo, durante a celebração da missa. Ao mesmo tempo em que o sacerdote diz isso, o pão é elevado e adorado. Essa ação de elevar o pão e pronunciá-lo como o corpo de Cristo pode unicamente ser feita por um sacerdote. Quando isso acontece, de acordo com o ensino católico romano, a graça é comunicada aos presentes ex opere operato, a saber, ”pela obra representada”, mas a quantidade de graça dispensada é proporcional à disposição subjetiva do destinatário da graça. Além disso, cada vez que a missa é celebrada, o sacrifício de Cristo é repetido (em algum sentido), e a Igreja Católica Romana é zelosa em afirmar que tal sacrifício é real, ainda que não seja o mesmo sacrifício que Cristo efetuou na cruz.

Com respeito ao sacrifício real de Cristo na missa, a obra de Ludwig Ott, Fundamentals of catholic dogma, ensina o seguinte:
 
A santa missa é um sacrifício apropriado e verdadeiro (p. 402).

O propósito do sacrifício é o mesmo tanto no sacrifício da missa como no sacrifício da cruz; primariamente a glorificação de Deus, secundariamente a expiação, ação de graças e apelo (p. 408).

Como um sacrifício propiciatório [...] o sacrifício da missa efetua a remissão de pecados e a punição pelos pecados; como um sacrifício de apelo [...] produz a concessão de dons naturais e sobrenaturais. O sacrifício de propiciação da eucaristia pode ser oferecido, como o Concílio de Trento expressamente asseverou, não meramente para os vivos, mas também para as pobres almas no purgatório (p. 412-3).

[A palavra eucaristia significa simplesmente a ceia do Senhor. Ela é derivada da palavra grega (eucharistia), “ação de graças”. O termo eucaristia é muitas vezes usado também pelos anglicanos (episcopais). Entre muitas igrejas protestantes o termo mais usado para referir-se à ceia do Senhor é comunhão. [No Brasil, a designação protestante mais comum é santa]

Em resposta ao ensino da Igreja Católica Romana sobre a ceia do Senhor, deve ser dito primeiramente que ele falha em reconhecer o caráter simbólico das afirmações de Jesus quando declarou “isto é o meu corpo , ou isto é o meu sangue”. Jesus falou de modo simbólico muitas vezes quando se referiu a si mesmo. Ele disse, por exemplo: “Eu sou a videira verdadeira” (Jo 15.1), ou “Eu sou a porta; quem entra por mim, será salvo” (Jo 10.9), ou “Eu sou o pão que desceu do céu” (Jo 6.4 1). De modo similar, quando Jesus diz “isto é o meu corpo”, ele está falando de modo simbólico, não de modo literal, físico. De fato, quando ele estava junto aos discípulos segurando o pão, o pão estava na sua mão, mas esse pão era distinto do seu corpo, e isso, é claro, era evidente para os discípulos. Eles naturalmente teriam entendido a afirmação de Jesus de modo simbólico. Semelhantemente, quando Jesus disse: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue, derramado em favor de vocês” (Lc 22.20), ele certamente não quis dizer que o cálice era realmente uma nova aliança, mas que o cálice representava a nova aliança.

Ademais, a posição católica romana falha em reconhecer o ensino claro do NT sobre a finalidade e a perfeição do sacrifício de Cristo feito uma única vez pelos nossos pecados. O livro de Hebreus enfatiza isso muitas vezes, quando diz: ”Pois Cristo [...] entrou nos céus [...] não, porém, para se oferecer repetidas vezes, à semelhança do sumo sacerdote que entra no Santo dos Santos todos os anos, com sangue alheio. Se assim fosse, Cristo precisaria sofrer muitas vezes, desde o começo do mundo. Mas agora ele apareceu uma vez por todas no fim dos tempos, para aniquilar o pecado mediante o sacrifício de si mesmo. Da mesma forma, como o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo, assim também Cristo foi oferecido em sacrifício uma única vez, para tirar os pecados de muitos; e aparecerá segunda vez, não para tirar o pecado, mas para trazer salvação aos que o aguardam” (Hb 9.24-28). Dizer que o sacrifício de Cristo continua ou é repetido na missa tem sido, desde a Reforma, uma das doutrinas católicas mais questionáveis de acordo com a perspectiva protestante. Quando percebemos que o sacrifício de Cristo pelos nossos pecados está terminado e completo (“Está consumado”, Jo 19.30; cf. Hb 1.3), isso nos dá a grande certeza de que os nossos pecados foram todos pagos e que não permanece nenhum sacrifício a ser pago. Mas a idéia da continuação do sacrifício de Cristo destrói a segurança de que o pagamento foi feito por Cristo, aceito por Deus Pai e de que “já não há condenação” (Rm 8.1) sobre nós.

2. Posição luterana:
 “em, com e sob”. Martinho Lutero rejeitou a posição católica sobre a ceia do Senhor, todavia insistiu em que a frase “isto é o meu corpo” tinha de ser tomada em algum sentido como afirmação literal. Sua conclusão não foi que o pão realmente se transforma no corpo físico de Cristo, mas que o corpo físico de Cristo está presente “em, com e sob” o pão da ceia do Senhor. Os elementos não são transformados em corpo e sangue de Cristo, mas estes estão presentes com os elementos. O exemplo algumas vezes sugerido é dizer que o corpo de Cristo está presente no pão como a água está presente em uma esponja — a água não é a esponja, mas está presente “em, com e sob” a esponja, e está presente onde quer que a esponja esteja. outros exemplos dados são o do magnetismo no magneto ou o da alma no corpo. Uma passagem que pode ser usada para dar apoio a essa posição é lCoríntios 10.16: “Não é verdade que [...] o pão que partimos é uma participação no corpo de Cristo?”.

Em resposta à posição luterana pode ser dito que ela também falha em perceber que Jesus está falando de uma realidade espiritual, más usando objetos físicos para ensinar-nos, quando trata da expressão “isto é o meu corpo”. Devemos tomá-la não mais literalmente que tomamos a frase correspondente: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue, derramado em favor de vocês” (Lc 22.20). De fato, Lutero realmente não faz justiça às palavras de Jesus em um sentido literal. Berkhof corretamente objeta que Lutero de fato faz com que as palavras de Jesus signifiquem “isto acompanha o meu corpo”. Sobre esse assunto ajudaria ler novamente João 6.27-59, onde o contexto mostra que Jesus está falando em termos literais e físicos sobre o pão, mas o está explicando continuamente em termo; de realidade espiritual.

3. O restante do protestantismo:
presença simbólica e espiritual de Cristo. Diferentemente de Martinho Lutero, João Calvino e outros reformadores argumentaram que o pão e o vinho da ceia do Senhor não se transformaram em corpo e sangue de Cristo, nem de algum modo contêm o corpo e o sangue de Cristo. Ao contrário, o pão e o vinho simbolizavam o corpo e o sangue de Cristo e deram um sinal visível do fato de que o próprio Cristo estava verdadeiramente presente. Calvino disse:
 
Confesso, naturalmente, que a [fração] do pão é um símbolo, não a própria cousa. Mas, isto posto, concluiremos corretamente que pela exibição do símbolo, no entanto, a própria cousa é exibida, Pois, a menos que haja alguém de querer chamar a Deus enganador, nunca ouse dizer ser por Ele proposto um símbolo [vazio]. [...] E aos pios esta regra é absolutamente de suster-se: que vezes quantas vêem os símbolos instituídos pelo Senhor, aí cogitem e se persuadam por certo estar presente a verdade da cousa representada. Pois, a que propósito à mão te estenda o Senhor o símbolo de Seu corpo, senão para que mais certo te faça de sua verdadeira participação?
 
Todavia, Calvino foi cuidadoso em diferir tanto do ensino católico romano (que dizia que o pão se tornava o corpo de Cristo) como do ensino luterano (que dizia que o pão continha o corpo de Cristo).

...Porém, nos importa na Ceia tal presença de Cristo [estabelecer] que [...] nem O afixe ao elemento do pão, nem no pão [O] encerre, nem de qualquer modo [O] circunscreva, [cousas estas] todas que manifesto é derrogarem-1he à celeste glória...

Hoje a maioria dos protestantes diria, em adição ao fato de que o pão e o vinho simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, que Cristo está também presente espiritualmente de modo especial quando participamos do pão e do vinho. De fato, Jesus prometeu estar presente onde quer que os crentes adorassem: “Pois onde se reunirem dois ou três em meu nome, ali eu estou no meio deles” (Mt 18.20). E se ele está especialmente presente quando os cristãos se reúnem para adorar, então devemos esperar que ele estará presente de modo especial na ceia do Senhor. Nós o encontramos na sua mesa, à qual ele vem para dar-se a si mesmo a nós. À medida que recebemos os elementos do pão e do vinho na presença de Cristo, assim participamos dele e de todos os seus benefícios. Nós nos “alimentamos dele em nosso coração” com ação de graças. De fato, mesmo uma criança que conhece Cristo vai entender isso sem que lhe seja dito e vai esperar receber uma bênção especial do Senhor durante a cerimônia, porque o significado dela está bastante implícito nas simples ações de comer e beber. Todavia, não devemos dizer que Cristo está presente independentemente de nossa fé pessoal, mas somente nos encontra e nos abençoa de acordo com a nossa fé nele.

De que modo, então, Cristo está presente? Certamente há uma presença simbólica de Cristo, mas ela é também uma presença espiritual genuína e há bênção espiritual genuína nessa cerimônia.

D. Quem deve participar na ceia do Senhor?

A despeito das diferenças sobre alguns aspectos da ceia do Senhor, a maioria dos protestantes haverá de concordar, primeiro, que somente os que crêem em Cristo devem participar dela, porque ela é um sina de que a pessoa é cristã e continua firme na vida cristã. Paulo adverte que quem come e bebe indignamente enfrenta conseqüências sérias: “Pois quem come e bebe sem discernir o corpo do Senhor, come e bebe para sua própria condenação. Por isso há entre vocês muitos fracos e doentes, e vários já dormiram” (1 Co 11. 29,30).

A segunda qualificação para a participação na ceia é o auto-exame: “Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpado de pecar contra o corpo e o sangue do Senhor. Examine-se cada um a si mesmo, e então coma do pão e beba do cálice. Pois quem come e bebe sem discernir o corpo do Senhor, come e bebe para sua própria condenação”(lCo 11.27-29). No contexto de lCoríntios 11, Paulo repreende os coríntios por seu egoísmo e conduta irrefletida quando eles se reuniam como igreja: “Quando vocês se reúnem, não é para comer a ceia do Senhor, porque cada um come sua própria ceia sem esperar pelos outros.Assim, enquanto um fica com fome, outro se embriaga” (1 Co 11.20,21). Isso nos ajuda a entender o que Paulo quer dizer quando fala a respeito daqueles que comem e bebem “sem discernir o corpo” (lCo 11.29). O problema em Corinto não era uma falha em entender que o pão e o cálice representavam o corpo e o sangue do Senhor —eles certamente sabiam disso. Ao contrário, o problema era o egoísmo deles, a conduta irrefletida que uma pessoa tinha para com a outra enquanto estavam diante da mesa do Senhor. Eles não estavam entendendo ou “discernindo” a verdadeira natureza da igreja como corpo. Essa interpretação de “sem discernir o corpo” é apoiada pela menção que Paulo faz da igreja como o corpo de Cristo exatamente um pouco antes, em lCoríntios 10.17: “Como há somente um pão, nós, que somos muitos, somos um só corpo, pois todos participamos de um único pão”. Assim, a frase “sem discernir o corpo” significa “o não entendimento da unidade e interdependência das pessoas na igreja, que é o corpo de Cristo”. Significa negligenciar nossos irmãos e irmãs quando vamos à ceia do Senhor, diante da qual devemos refletir o caráter dele.

O que significa, então, comer ou beber “indignamente” (1Co 11.27)? A princípio podemos pensar que essa palavra se aplica estritamente e diz respeito apenas ao modo como nos conduzimos quando realmente comemos e bebemos o pão e o vinho. Mas quando Paulo explica que a participação indigna envolve “não discernir o corpo”, ele está dizendo que devemos refletir sobre todos os nossos relacionamentos dentro do corpo de Cristo: Estamos agindo de um modo pelo qual retratamos vividamente não a unidade de um pão e de um corpo, mas desunião? Estamos nos conduzindo deforma a proclamar não o sacrifício da auto-entrega ao Senhor, mas a inimizade e o egoísmo? Em um sentido mais amplo, então, “examine-se cada um a si mesmo” significa que devemos perguntar se os nossos relacionamentos no corpo de Cristo estão de fato refletindo o caráter do Senhor com quem nos encontramos na ceia e a quem representamos.

Com relação a isso, o ensino de Jesus a respeito de vir para adorar também deveria geralmente ser mencionado: “Portanto, se você estiver apresentando sua oferta diante do altar e ali se lembrar de que seu irmão tem algo contra você, deixe sua oferta ali, diante do altar, e vá primeiro reconciliar-se com seu irmão; depois volte e apresente sua oferta” (Mt 5.23,24). Jesus aqui nos diz que onde quer que venhamos a adorar devemos estar certos de que os nossos relacionamentos com os outros estão corretos e. se não estão, devemos agir rapidamente para corrigi-los e, então, vir para adorar a Deus. Essa admoestação deveria ser especialmente verdadeira quando nos apresentamos para a ceia do Senhor.
 
E. Outras interrogações

Quem deve administrar a ceia do Senhor? A Escritura não traz nenhum ensino explícito sobre essa matéria, de forma que somos encarregados de decidir de forma sábia e apropriada para o benefício dos crentes na igreja. Para guardar-se do abuso da ceia do Senhor, um líder responsável deve assumir o encargo de administrá-la, mas não parece que a Escritura requeira que somente os ministros ordenados ou os oficiais escolhidos pela igreja possam fazer isso. Em situações normais é natural que o pastor ou outro líder que em geral dirige os cultos de adoração da igreja oficie a cerimônia da comunhão. Certas igrejas podem sentir igualmente que a função de liderança da igreja está tão claramente ligada à distribuição dos elementos que preferem manter essa restrição na prática da cerimônia. Mas, fora isso, parece não haver razão alguma para que somente os oficiais ou somente líderes ou somente homens possam distribuir os elementos. Não haveria a demonstração muito mais clara da nossa unidade e igualdade espiritual em Cristo se tanto homens como mulheres, por exemplo, servissem na distribuição dos elementos da ceia do Senhor?

Com que freqüência a ceia do Senhor deve ser celebrada? A Escritura não nos diz nada a respeito disso. Jesus simplesmente disse: “sempre que comerem deste pão e beberem deste cálice.’ (lCo 1 l.26).A orientação de Paulo aqui com respeito ao culto deveria também ser levada em consideração: “Tudo seja feito para a edificação da igreja” (lCo 14.26). Na realidade, tem sido a prática da maioria da igreja através de toda sua história celebrar a ceia do Senhor semanalmente, quando os crentes se reuniam. Contudo, em muitos grupos protestantes desde a Reforma tem havido uma celebração menos freqüente da ceia do Senhor — normalmente uma vez por mês ou duas vezes, ou, em muitas igrejas reformadas, somente quatro vezes por ano. Se a ceia do Senhor for planejada, explicada e levada a efeito de tal modo que seja um tempo de auto-exame, de confissão, de ação de graças e de louvor, então não parece que celebrá-la uma vez por semana seja um exagero, e certamente ela poderia ser observada de forma mais freqüente “para a edificação da igreja”.

Autor: Wayne Grudem
Fonte: Teologia do autor, Ed. Vida Nova


A Ceia do Senhor

 

1 Coríntios 11:23: “Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão”.


A Ceia do Senhor é um ato de culto que tem a forma de uma refeição cerimonial, na qual os servos de Cristo participam do pão e do vinho, para comemorar a morte de Cristo e celebrar o novo relacionamento segundo a aliança que eles desfrutam com Deus.

Na noite em que foi traído, nosso Senhor Jesus Cristo instituiu o sacramento de seu corpo e sangue, chamado Ceia do Senhor, para ser observado em sua igreja até o fim do mundo, para ser uma lembrança perpétua do sacrifício que em sua morte ele fez de si mesmo; para selar, aos verdadeiros crentes, todos os benefícios provenientes desse sacrifício para o seu nutrimento espiritual e crescimento nele, e seu compromisso de cumprir todos os seus deveres para com ele; e ser um vínculo e penhor de sua comunhão com ele e uns com os outros, como membros do seu corpo místico (Confissão de Fé de Westminster, XXIX.1).

Os textos bíblicos que tratam da Ceia e nos quais se baseia a declaração acima são: mt 26.26-29; Mc 14.22-25; Lc 22.17-20; 1Co 10.16-21; 11.17-34. O sermão de Jesus (Jo 6.35-38) a respeito de si mesmo como o pão da vida e da necessidade de alimentar-se dele, comendo a sua carne e bebendo o seu sangue, foi pregado antes da instituição da Ceia e é melhor entendido como tratando daquilo que a Ceia significa, ou seja, a comunhão com Cristo pela fé, ao invés da Ceia em si.

Nos tempos da Reforma, questões a respeito da natureza da presença de Cristo na Ceia e da relação da Ceia com sua morte vicária foram assunto de intensa controvérsia. A Igreja Católica Romana ensina que Cristo está presente na Ceia pela transubstanciação, como definida pelo Quarto Concílo Lateranense em 1215. “Transubstanciação” significa que a substância do pão e do vinho é miraculosamente transformada em corpo e sangue de Cristo. O pão e o vinho não são mais pão e vinho, embora pareçam ser. A doutrina de Lutero, depois chamada de “consusbtanciação”, ensina que o corpo e o sangue de Cristo estão presentes “em, com e sob” a forma de pão e vinho, que, em si mesmos, permanecem sendo pão e vinho. As Igrejas Ortodoxas Orientais e algumas Igrejas Anglicanas têm uma crença semelhante. Zuínglio negou que o Cristo glorificado, agora no céu, esteja presente de qualquer modo que palavras tais como “corporalmente”, “fisicamente” ou “localmente” possam sugerir. Calvino ensinou que, enquanto o pão e o vinho permanecem imutáveis, o Espírito eleva o crente através da fé, para gozar da presença de Cristo de um modo que é glorioso e real, ainda que indescritível.

Todos os Reformadores insistiram no fato de, na Mesa de Comunhão, darmos graças a Cristo pela obra da expiação acabada e aceita. Denunciaram a doutrina Católica Romana da Missa, porquanto nela se dizia que o sacrifício da cruz é repetido, renovado, ou reapresentado de um modo que obscurecia a sua suficiência.

A Ceia do Senhor tem uma referência passada à morte de Jesus e tem uma referência presente à nossa participação corporativa em Cristo, mediante a fé. E tem uma referência futura pelo fato de ser uma garantia da sua segunda vinda. Encoraja o fiel em sua caminhada diária e em sua expectação. Esse serviço de culto, no qual os cristãos recordam o sofrimento que Cristo suportou por eles, é uma marca distintiva da religião cristã por todo o mundo.

Fonte: Bíblia de Estudo de Genebra, Nota Teológica, página 1360.

 

 


O significado da ceia do Senhor

Nota: AT = Antigo Testamento ; NT = Novo Testamento

Qual é o significado da ceia do Senhor?

 
O Senhor Jesus instituiu duas ordenanças (ou sacramentos) para serem observados pela igreja. O capítulo anterior [da Teologia Sistemática do autor] discutiu o batismo, ordenança que é observada somente uma vez como sinal do começo da vida cristã de uma pessoa. Este capítulo vai dissertar sobre a ceia do Senhor, ordenança que deve ser observada repetidamente ao Longo de toda a nossa vida cristã como sinal de continuidade na comunhão com Cristo.
 
A. Comer na presença de Deus: uma bênção especial por toda a Bíblia Jesus instituiu a ceia do Senhor do seguinte modo:
 
Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, deu graças, partiu-o, e o deu aos seus discípulos, dizendo:

Tomem e comam; isto é o meu corpo”. Em seguida tomou o cálice, deu graças e o ofereceu aos discípulos, dizendo: ”Bebam dele todos vocês. Isto é o meu sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos, para perdão de pecados. Eu lhes digo que, de agora em diante, não beberei deste fruto da videira até aquele dia em que beberei o vinho novo com vocês no Reino de meu Pai” (Mt 26.26-29)

Paulo acrescenta as seguintes frases da tradição que recebeu (lCo 11.23): “Este cálice é a nova aliança no meu sangue; façam isso, sempre que o beberem em memória de mim” (1 Co 11.25)

Há alguns antecedentes dessa cerimônia no Antigo Testamento? Parece que há, pois houve exemplos de comer e de beber na presença de Deus na antiga aliança também. Por exemplo, quando o povo de Israel estava acampado diante do Monte Sinai, exatamente após Deus ter dado os Dez Mandamentos, Deus chamou os líderes de Israel para subirem à montanha a fim de se encontrarem com ele:

Moisés, Arão, Nadabe, Abiú e setenta autoridades de Israel subiram e viram o Deus de Israel [...] eles viram a Deus, e depois comeram e beberam” (Êx 24.9,11).

Além disso, cada ano o povo de Israel devia dizimar (dar o dízimo) de todas as suas colheitas. Então a lei de Moisés especificava: “Cotam o dízimo do cereal, do vinho novo e do azeite, e a primeira cria de todos os seus rebanhos na presença do SENHOR, o seu Deus, no local que ele escolher como habitação do seu Nome, para que aprendam a temer sempre o Senhor, o seu Deus. [...] Então juntamente com suas famílias comam e alegrem-se ali, na presença do SENHOR, o seu Deus” (Dt 14.23,26).

Porém mesmo antes disso Deus havia colocado Adão e Eva no jardim do Éden e lhes havia dado tudo de sua abundância para comer (exceto o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal). Desde que não havia nenhum pecado naquela época e como Deus os tinha criado para companheirismo com ele mesmo e para sua própria glória, cada comida que Adão e Eva comiam deve ter sido uma refeição festiva na presença do Senhor.

Quando essa comunhão na presença de Deus foi quebrada posteriormente pelo pecado, Deus ainda permitiu que algumas refeições (como o dízimo dos frutos mencionados anteriormente) fossem feitas em sua presença. Essas refeições eram uma restauração parcial da comunhão com Deus que Adão e Eva desfrutaram antes da queda, muito embora ela fosse deteriorada pelo pecado. Mas a comunhão do comer na presença do Senhor que encontramos na ceia do Senhor é muito melhor. As comidas sacrificais no AT apontavam continuamente para o fato de que os pecados não haviam sido pagos ainda, porque os sacrifícios eram repetidos ano após ano e porque eles olhavam para o Messias que estava por vir para lhes retirar os pecados (v. Hb l0.1-4). A ceia do Senhor, contudo, nos lembra do pagamento completo que Jesus já fez por nossos pecados, de forma que podemos agora comer na presença do Senhor com grande regozijo.

Todavia, mesmo a ceia do Senhor anseia pela refeição comunitária ainda mais maravilhosa na presença do Senhor no tempo futuro, quando a comunhão do Éden será restaurada e haverá alegria muito maior, porque os que comerem na presença do Senhor serão pecadores perdoados
confirmados em justiça, capazes de nunca mais pecar. O tempo futuro desse comer na presença de Deus é sugerido por Jesus quando ele diz: “Eu lhes digo que, de agora em diante, não beberei deste fruto da videira até aquele dia em que beberei o vinho novo com vocês no Reino de meu Pai (Mt 26.29). Apocalipse nos fala mais explicitamente a respeito da ceia das bodas do Cordeiro: “E o anjo me disse: ‘Escreva: Felizes os convidados para o banquete do casamento do Cordeiro!’ E acrescentou: ‘Estas são as palavras verdadeiras de Deus” (Ap 19.9). Esse será um tempo de grande regozijo na presença do Senhor, assim como será um tempo de reverência e de temor diante dele.

Do Gênesis ao Apocalipse, portanto, o alvo de Deus tem sido levar seu povo à comunhão com ele, e uma das grandes alegrias de experimentar essa comunhão é o fato de que podemos comer e beber na presença do Senhor. Seria saudável para a igreja hoje reconquistar um senso mais vívido da presença de Deus na mesa do Senhor.

O significado da ceia do Senhor

O significado da ceia do Senhor é complexo, rico e amplo. Há diversos símbolos afirmados na ceia do Senhor.

1. A morte de Cristo.

Quando participamos da ceia do Senhor, simbolizamos a morte de Cristo, porque nossas ações delineiam um quadro de sua morte por nós. Quando o pão é partido, simboliza o partir do corpo de Cristo; e quando o conteúdo do cálice é derramado, simboliza o sangue de Cristo vertido por nós. Essa é a razão pela qual a participação na ceia do Senhor é também uma espécie de proclamação: “Porque, sempre que comerem deste pão e beberem deste cálice, vocês anunciam a morte do Senhor até que ele venha” (lCo 11.26).

2. Nossa participação nos benefícios da morte de Cristo.

Jesus ordenou aos discípulos: Tomem e comam; isto é o meu corpo” (Mt 26.26). Quando individualmente tomamos o cálice, um de nós está, por meio dessa ação, proclamando: “Estou me apropriando dos benefícios da morte de Cristo”. Quando fazemos isso, estamos fornecendo um símbolo do fato de que participamos ou partilhamos dos benefícios obtidos pela morte de Cristo por nos.

3. Nutrição espiritual.

Do mesmo modo que a comida comum nutre o corpo, assim o pão e o vinho da ceia do Senhor nos trazem nutrição. Mas eles também ilustram o fato de que há alimento e uma refeição espiritual que Cristo dá à nossa alma — de fato, a cerimônia que Jesus instituiu é, em sua verdadeira natureza, designada para nos ensinar isso. Jesus disse: “Se vocês comerem a carne do Filho do homem e não beberem o seu sangue, não terão vida em si mesmos. Todo aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida. Todo aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Da mesma forma como o Pai que vive me enviou e eu vivo por causa do Pai, assim aquele que se alimenta de mim viverá por minha causa” (Jo 6.53-57).

Certamente Jesus não está falando de comer literalmente sua carne e seu sangue. Mas, se não de comer e beber literalmente, então ele deve ter em mente uma participação espiritual nos benefícios da redenção que adquiriu para nós. Essa nutrição espiritual, tão necessária para a alma é tanto simbolizada como experimentada em nossa participação na ceia do Senhor.

4. A unidade dos crentes.

Quando os cristãos participam juntos da ceia do Senhor, também dão um sinal claro de sua unidade um com o outro. De fato, Paulo diz: “Como há somente um pão, nós, que somos muitos, somos um só corpo, pois todos participamos de um único pão” (1 Co 10.17).

Quando colocamos essas quatro coisas juntas, começamos a perceber alguns dos significados mais ricos da ceia do Senhor. Quando participo, venho à presença de Cristo, lembro que ele morreu por mim, participo dos benefícios de sua morte, recebo nutrição espiritual e me sinto unido com todos os outros crentes que participam dessa ceia. Que grande motivo de ação de graças e alegria deve ser achado nessa ceia do Senhor!

Mas além dessas verdades visivelmente ilustradas pela ceia do Senhor, o fato de que Cristo instituiu essa cerimônia para nós significa que por meio dela ele está também nos prometendo ou afirmando certas coisas. Quando participamos da ceia do Senhor, devemos nos lembrar repetidamente de duas afirmações que Cristo está nos fazendo.

5. Cristo afirma seu amor por mim.

O fato de que sou capaz de participar da ceia do Senhor - na verdade, Jesus me convida a vir — é um lembrete vivido e um sinal visível e seguro de que Jesus me ama individual e pessoalmente. Quando venho participar da ceia do Senhor, encontro desse modo uma certeza renovada do amor pessoal de Cristo por mim.

6. Cristo afirma que todas as bênçãos da salvação estão reservadas para mim.

Quando o convite de Cristo para participar da ceia do Senhor, o fato de que sou convidado à sua presença me assegura de que ele tem bênçãos abundantes para mim. Nessa ceia, estou realmente comendo e bebendo um antepasto do grande banquete do Rei. Venho a essa mesa como membro de sua família eterna. Quando o Senhor me dá boas-vindas a essa mesa, ele me assegura que me receberá com todas as demais bênçãos da terra e do céu, e especialmente para a grande ceia das bodas do Cordeiro, na qual um lugar foi reservado para mim.

7. Eu afirmo a minha fé em Cristo.

Finalmente, enquanto como o pão e bebo o cálice, com essas ações estou proclamando: “Preciso de ti e confio em ti, Senhor Jesus, para perdoar os meus pecados e dar vida e saúde para a minha alma, porque somente pelo teu corpo partido e pelo teu sangue vertido eu posso ser salvo”. De fato, quando participo do partir do pão e o como e quando participo do verter do sangue e o bebo, proclamo repetidamente que os meus pecados foram parte da causa dos sofrimentos e morte de Jesus. Desse modo a tristeza, a alegria, a ação de graças e o profundo amor por Cristo são ricamente misturados na beleza da ceia do Senhor.

Autor: Wayne Grudem
Fonte: Teologia Sistemática do autor, Ed. Vida Nova


A Transubstanciação  - A presença de Cristo na Ceia
Mc 14.22-25; 1 Co 11.23-26

Não há momento mais sagrado ou mais solene na vida  da igreja do que a celebração da Ceia do Senhor. Ela é chamada de Santa Comunhão porque durante esta refeição um encontro especial entre Cristo e seu povo. Naquele momento Jesus está presente conosco de uma maneira única.

A pergunta é: Como é que Cristo está presente no momento da Cei do Senhor? Esta pergunta  tem sido o tema de intermináveis controvérsias entre os cristãos. Não tem sido apenas um ponto de atrito entre o protestantismo e o  catolicismo romano, foi também um área de conflito que os líderes da Reforma: Lutero, Calvino e Zuínglio não puderam resolver entre si.

A igreja Católica Romana ensina a doutrina da transubstanciação, a qual significa que durante a missa ocorre um milagre, pelo qual a substância dos elementos originários do pão e do vinho se transforma na substância do corpo e  do sangue de Cristo. Aos sentidos humanos, o pão e o vinho não exibem nenhuma mudança perceptível. Entretanto, os católicos romanos crêem que embora os  elementos ainda pareçam pão e vinho, tenham sabor de pão e vinho, tenham cheiro de pão e vinho, etc., se tornam o corpo e o sangue reais de Cristo.

Para entender essa idéia requer-se que conheçamos um pouco da filosofia de Aristóteles. Ele ensinava, em termos simples, que todo objeto (entidade) é  feito de substância e acidentes. A substância é a essência mais profunda, ou "a matéria" de uma coisa. Os acidentes se referem à aparência externa, superficial de um objeto. Refere-se às qualidades de um objeto que podemos ver, sentir, provar ou cheirar.

Para Aristóteles, sempre havia uma relação inseparável entre o objeto e seus acidentes. Um carvalho, por exemplo, sempre tem a substância e os acidentes pertinentes a um carvalho. Para que algo tenha a substância de uma coisa,  e os acidentes de outra coisa, é necessário que haja um milagre.

Este é o alegado milagre da transubstanciação. Os elementos do pão e do vinho se transformariam na substância do corpo de Cristo. Ao mesmo tempo, os acidentes do pão e do vinho permanecem. Portanto, na Eucaristia teríamos a substância do corpo e do sangue de Cristo sem os acidentes do corpo e do sangue, e temos os acidentes do pão e do vinho sem a substância do pão e do vinho.

Sem um suposto milagre acontecer, temos a substância e os acidentes do pão e do vinho.

Depois do milagre, teríamos a substância do corpo e do sangue de Cristo com acidentes do pão e do vinho.

Mais importante do que a controvérsia em trono da transubstanciação era a questão concernente à natureza humana de Jesus. Corpo e sangue pertecem à humanidade de Jesus, não à sua divindade. Visto que a Eucaristia(Ceia do Senhor) é celebrada em diferentes partes do mundo em diferentes partes do mundo ao mesmo tempo, a pergunta é: como a natureza humana de Jesus(corpo e sangue) pode estar em mais de um lugar ao mesmo tempo?

O poder de ser onipresente, de estar presente em todos os lugares, é um atributo da divindade e não da humanidade. Para que a natureza humana de Jesus pudesse se espalhar por várias partes do mundo ao mesmo tempo teria de haver a deificação da natureza humana.. Tanto Lutero quanto os católicos romanos ensinavam que a natureza divina de Cristo (a qual possuía o atributo da onipresença) comunica seu poder à natureza humana, de maneira que esta, embora normalmente permaneça num lugar, pode estar presente em mais de um lugar ao mesmo tempo.

Para Calvino e outros, porém, esta idéia da comunicação dos atributos divinos à natureza humana era vista como uma violação  do Concílio de Calcedônia (ano de 451), o qual afirmou que as duas naturezas de Cristo, a humana e a divina, eram unidas de tal maneira que não tinham mistura, confusão, separação ou divisão, cada natureza mantendo seus próprios atributos. Assim, para Calvino e a maioria dos reformadores, a transubstanciação manifestava uma forma dessa heresia.

Sumário
1. Transubstanciação significa que, durante a Eucaristia(Ceia do Senhor), o pão e vinho são milagrosamente transformados no corpo e no sangue de Cristo, embora continuem parecendo, aos sentidos humanos, pão e vinho.

2. Substância se refere à essência de um objeto, enquanto os acidentes se referem às suas qualidades exteriores perceptíveis.

3. A transubstanciação requer a capacitação da natureza humana de Cristo com atributos divinos para que seu corpo e sangue possam estar em mais de um lugar ao mesmo tempo.

4. Calvino rejeitou a transubstanciação como uma violação do Concílio de Calcedônia.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 3º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã.


Nova pagina 1

        Batismos

O Batismo
Romanos 4.11,12; 6.3,4; 1 Coríntios 12.12-14; Colossenses 2.11-15; Tito 3.3-7

O batismo é o sinal sacramental da Nova Aliança. É um sinal por meio do qual Deus sela aos eleitos sua garantia de que estão incluídos na aliança da graça.

O batismo tem vários significados. Em primeira instância, é um sinal de limpeza e de remissão de nossos pecados. Também significa ser regenerado pelo Espírito Santo, ser sepultado e ressuscitado com Cristo, ser revestido pelo Espírito Santo, ser adotado na família de Deus e ser santificado pelo Espírito Santo.

O batismo foi instituído por Cristo e deve ser administrado no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O sinal exterior não comunica automática ou magicamente as realidades que são simbolizadas. Por exemplo, embora o batismo simbolize a regeneração, ou o novo nascimento, não comunica automaticamente o novo nascimento. O poder do batismo não está na água, mas no poder de Deus.

A realidade para a qual o sacramento aponta pode estar presente antes ou depois que o sinal do batismo é dado. No Antigo Testamento, o sinal da aliança era a circuncisão, a qual era, entre outras coisas, um sinal de fé. No caso doas adultos, como Abraão, a fé veio antes do sinal da circuncisão. Com os filhos dos crentes, contudo, o sinal da circuncisão era dado antes da profissão de fé, como foi o caso de Isaque. Semelhantemente, na Nova Aliança, a teologia reformada requer que os convertidos adultos sejam batizados depois de fazer a profissão de fé, enquanto que os filhos recebem o batismo antes que professem sua fé.

Batismo significa lavagem com água. O mandamento de batizar pode ser obedecido por imersão, aspersão ou afusão. A palavra grega batizar inclui as tre possibilidades.

A validade do batismo não se baseia no caráter do ministro que o realiza ou no caráter da pessoa que recebe. O batismo é um sinal da promessa de Deus da salvação para todo aquele que crê em Cristo. Sendo ele uma promessa de Deus, a validade da promessa repousa na confiabilidade do caráter divino.

Visto o batismo ser um sinal da promessa de Deus, ele não deve ser administrado mais de uma vez a uma pessoa. Ser batizado mais de uma vez significa lançar uma sobra de dúvida na integridade e na sinceridade da promessa de Deus. Certamente, os que foram batizados  duas ou mais vezes não pretendem lançar dúvida sobre a integridade de Deus, mas a ação, se compreendida corretamente, transmitiria tal dúvida. Todo cristão, contudo, deve ser batizado. O batismo não é um ritual sem sentido, mas um sacramento ordenado por nosso Senhor.

Sumário

1. O batismo é um sinal sacramental da Nova Aliança.
2. O batismo tem múltiplos significados.
3. O batismo foi instituído por Cristo e deve ser administrado com água no nome do pai, do Filho e do Espírito Santo.
4. O batismo não comunica automaticamente o novo nascimento.
5. o batismo pode ser administrado por imersão, aspersão ou afusão com água.
6. A validade do batismo repousa na integridade da promessa de Deus e deve ser administrado só uma vez a uma pessoas.

Autor: R.C. Sproul
Fonte: Verdades Essenciais da Fé Cristã, 3º Caderno – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre este Livro em http://www.cep.org.br


Batismo
  
Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte?”. Romanos 6:3:

O batismo cristão, que tem a forma de uma lavagem cerimonial (como o batismo pré-cristão de João Batista), é um sinal de Deus para significar purificação interior e remissão de pecado (At 22.16; 1Co 6.11; Ef 5.25-27), regeneração operada pelo Espírito e uma nova vida (Tt 3.5) e a permanente presença do Espírito Santo, como selo de Deus testificando e garantindo que aquele que o recebe está seguro em Cristo para sempre (1Co 12.13; Ef 1.13-14). Fundamentalmente, o batismo significa união com Cristo na sua morte, sepultamento e ressurreição (Rm 6.3-7; Cl 2.11-12), e essa união com Cristo é a fonte de cada elemento de nossa salvação (1Jo 5.11-12). Receber o sinal do batismo com fé assegura aos batizados que o dom divino da nova vida em Cristo lhes é dado gratuitamente. Ao mesmo tempo, os incumbe de viver de modo novo, como discípulos de Jesus.

Cristo ordenou aos seus discípulos que batizassem em nome do Pai , do Filho e do Espírito Santo (Mt 28.19). Essa fórmula significa que o relacionamento de aliança que o batismo formalmente confere é com as três Pessoas da Divindade. Quando Paulo diz que os israelitas foram batizados “com respeito a Moisés” (1Co 10.2), ele quer dizer que os israelitas foram colocados sob o controle e direção de Moisés. O batismo em nome do Deus trino significa ficar sob o controle e direção de Deus.

Os sinais exteriores não conferem automática ou magicamente as bênçãos interiores que eles representam. No Novo Testamento não há nenhuma prescrição de um modo específico de batizar. A determinação de batizar pode ser cumprida por imersão, afusão os aspersão. Todos esses três modos satisfazem o sentido do verbo grego baptizo e a exigência simbólica de passar sob a água purificadora e emergir dela.

[Sobre a forma do batismo, imersão, afusão e aspersão, há entre os cristãos desacordos. Os Batistas consideram somente válidos os batismos por imersão, ao passo que os Presbiterianos e outras denominações aceitam as três formas batismais, mas na prática utilizam a afusão e a aspersão.]

O texto entre [  ] e acréscimo do editores deste site.

Fonte: Bíblia de Estudo de Genebra, Nota Teológica, página 126.


A Instituição do Batismo Cristão (Autoridade Divina e Fórmula Batismal)

1. Foi Instituído com Autoridade Divina.

O batismo foi instituído por Cristo depois que Ele consumou a obra de reconciliação e depois que esta recebeu a aprovação do Pai na ressurreição. É digno de nota que Ele prefaciou a grande comissão com as palavras: "Ide, portanto (isto é, porque todas as nações estão sujeitas a Mim), fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as cousas que vos tenho ordenado". Mt 28.19,20. A forma complementar de Mc 16..15,16 tem esta redação:"Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado." Assim, nesta ordem repassada de autoridade estão claramente indicados os seguintes elementos:

(a) Os discípulos deveriam ir por todo o mundo e pregar o Evangelho a todas as nações, a fim de levar as pessoas ao arrependimento e ao reconhecimento de Jesus como o Salvador prometido;

(b) Os que aceitavam a Cristo pela fé deveriam ser batizados em nome do Deus triúno, como sinal e selo do fato de que tinham entrado numa nova relação com Deus e, nesta qualidade, estavam obrigados a viver de acordo com as leis do reino de Deus;

(c) Deveriam ser colocados sob o ministério da Palavra, não meramente como proclamação das boas novas, mas como exposição dos mistérios, privilégios e deveres da nova aliança. Para encorajamento dos discípulos, Jesus acrescentou as palavras: "E (Eu, que estou revestido de autoridade para dar esta ordem) eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século".

2. A Formula Batismal.

Os apóstolos receberam instruções específicas para batizarem eis to onoma tou patros kai tou hyiou kai tou hagiou pneumatos (para uma relação com o nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo). A Vulgata traduziu as primeiras palavras, "eis to onoma" pela expressão latina "in nomine" (em nome), tradução seguida pela de Lutero, "im namen".* Dá-se-lhes assim o sentido de "sobre a autoridade do trino Deus", Em sua Gramática do Novo Testamento (Grammar of the Greek New Testament), p. 649, Robertson lhes atribui este sentido, mas não apresenta nenhuma prova em seu favor. O fato é que esta interpretação é exegeticamente insustentável. A idéia de "sobre a autoridade de" é expressão pela frase en toi onomati, ou pela frase mais curta en onomati, Mt 21.9; Lc 10.17; Jo 14.26; At 3.6; 9.27, etc. A preposição eis (para dentro de) é mais indicativa de um fim e, portanto, pode ser interpretada no sentido de "em relação a", ou "para a profissão de fé em alguém e sincera obediência a alguém". Está em completa harmonia com isso o que Allen diz em su comentário de Mateus: "A pessoa batizada era simbolicamente introduzida "no nome de Cristo", isto é, tornava-se Seu discípulo,  isto é, entrava num estado de lealdade a Ele e de comunhão com Ele". Este é o sentido dado por Thayer, Robinson e, substancialmente, também por Cremer-Koegel e Baljon, em seus léxicos. É também o sentido adotado por comentadores como Meyer, Alford, Allen, Bruce, Grosheide e Van Leeuwen. Este significado do termo é plenamente confirmado por expressões paralelas com eis ton Mousen, 1 Co 10.2; eis to onoma Paulou, 1 Co 1.13 eis hen soma, 1 Co 1213; e eis Christon, Rm 6.3; Gl 3.27. O argumento do doutor Kuyper tocante a este ponto acha-se em Uit het Woord, Eerste Serie, Eerste Bundek**.  Ao que parece, devemos traduzir a preposição esi por "para dentro de" ou "para" (isto é, "em relação a") o nome. O vocábulo onoma (nome) é empregado no sentido do hebraico shem como indicativo de todas as qualidades pelas quais Deus se faz conhecido e que constituem a soma total de tudo quanto Ele é para os Seus adoradores. Em sua obra intitulada Bible Studies (Estudos Bíblicos)***, Deissman se refere a exemplos interessantes deste uso particular da palavra onoma nos papiros. Interpretado sob esta luz, a fórmula batismal indica que, pelo batismo (isto é, por aquilo que é significado ou simbolizado no batismo), o participante é colocado num relacionamento especial com a auto-revelação divina, ou com Deus como Ele se revelou e revelou o que  deseja ser para o Seu povo, e, ao mesmo tempo, torna-se dever imperativo vive à luz dessa revelação.

Não é necessário presumir que, quando Jesus empregou estas palavras, Ele tencionava tê-las como uma fórmula a ser utilizada para sempre. Ele as empregou apenas como descritivas do caráter do batismo que Ele instituiu exatamente como expressões similares se prestam para caracterizar outros batismos, At 19.3; 1 Co 1.13; 10.2; 12.13. Ás vezes se diz, com recurso a passagens como At 2.48; 8.16; 10.48; 19.5, e também Rm 6.3 e Gl 3.27,  que os apóstolos evidentemente não usaram a fórmula trinitária; mas esta não é uma dedução necessária, embora seja inteiramente possível, desde que eles não compreenderam as palavras de Jesus na grande comissão como prescrevendo uma fórmula definida. Também é possível, porém, que as expressões utilizadas nas passagens indicadas servissem para acentuar certas particularidade concernentes ao batismo ministrado pelos apóstolos. Devemos notar que as preposições variam. At 2.38 [E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo;] fala de um batismo epi toi anomati Iesou Christou, que provavelmente se refere a um batismo baseado na confissão de Jesus como o Messias. Segundo At 10.18 [E mandou que fossem batizados em nome do SENHOR. Então rogaram-lhe que ficasse com eles por alguns dias.], os que se achavam presentes na casa de Cornélio foram batizados en onomati Iesou Christou, para indicar que foram batizados sobre a autoridade de Jesus. Todas as passagens restantes mencionam um batismo eis to anoma Iesou Christou (ou tou Kyriou Iesou), ou simplesmente um batismo eis Christon. Talvez as expressões sirvam apenas para salientar o fato de que os participantes foram colocados numa relação especial com Jesus, a quem os apóstolos estavam pregando, e, por isso, Lhe estavam sujeitos como seu Senhor. Mas qualquer que tenha sido a prática na era apostólica, é evidente que quando, mais tarde, a igreja sentiu a necessidade de uma fórmula, não pôde achar outra melhor do que a contida nas palavras de instituição do batismo. Esta fórmula já estava em uso quando o Didaquê (O Ensino dos Doze Apóstolos) foi escrita (c. 100.A.D.)****.

Notas:
* Seguida geralmente pelas versões na língua portuguesa. Nota do tradutor.
** P. 263 e segtes.
*** P. 146.
**** Capítulo VII.1 [Quanto ao batismo, faça assim: depois de ditas todas essas coisas, batize em água corrente, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.]

Autor: Louis Berkhof
Fonte: Teologia Sistemática do autor, p. 629 -631, Ed Cultura Cristã (CEP).


A Doutrina do Batismo na História

1. Antes da Reforma.

Os chamados "pais primitivos" consideravam o batismo como o rito de iniciação na igreja, e normalmente o consideravam como estritamente ligado ao perdão de pecados e à comunicação da nova vida. Algumas das suas expressões parecem indicar que eles criam na regeneração batismal. Ao mesmo tempo, deve-se notar que, no caso dos adultos, eles não consideravam o batismo como eficaz independentemente da correta da alma, e não viam o batismo como absolutamente essencial para a iniciação da nova vida, mas, antes, consideravam-no como o elemento de consumação do processo de renovação. O batismo de criança já era corrente nos dias de Orígenes e Tertuliano, embora este último o desestimulasse, com base em questões de conveniências.

A opinião geralmente era que o batismo nunca devia ser repetido, mas  não havia unanimidade quando à validade do batismo ministrado por hereges. No transcorrer do tempo, porém, veio a ser um principio estabelecido não rebatizar os que foram batizados em nome do Deus triúno. O modo do batismo não estava em discussão. Do segundo século em diante, aos poucos ganhou terreno a idéia de que o batismo age mais ou menos magicamente. Até mesmo Agostinho parece ter considerado o batismo como eficiente ex opere operato, no caso das crianças. Ele considerava absolutamente necessário o batismo e afirmava que as crianças não batizadas estão perdidas. Segundo ele, o batismo elimina a culpa original, mas não remove totalmente a corrupção da natureza. Os escolásticos a princípios partilhavam o conceito de Agostinho, que, no caso do batismo de adultos, pressupõe fé, mas gradualmente outra idéia ganhou predominância, a saber, que o batismo é sempre eficaz ex opere operato. A importância das condições subjetivas foi menosprezada. Assim, a característica concepção católica romana do sacramento, de acordo com a qual o batismo é o sacramento da regeneração e da iniciação na igreja, aos poucos ganhou proeminência. Ele contém a graça que simboliza e a confere a todos quantos não ponham obstáculo no caminho. Esta graça era considerada muito importante, visto que (a) marca indelevelmente o participante como membro da igreja;    (b) livra da culpa do pecado original e de todos os pecados atuais cometidos até à hora do batismo, remove a corrupção do pecado, embora permaneça a concupiscência, e liberta o homem da punição eterna e de todas as punições temporais positivas;   (c) produz renovação espiritual pela infusão da graça santificante e das virtudes sobrenaturais da fé, da esperança e do amor, e    (d) incorpora o participante na comunhão dos santo e na igreja visível.

2. Desde a Reforma.

A Reforma Luterana não se desfez inteiramente da concepção romana dos sacramentos. Para Lutero, a água do batismo não é água comum, mas uma água que, mediante a Palavra com seu poder divino inerente, veio a ser uma água da vida, cheia de graça, um lavamento de regeneração. Por esta eficácia divina da Palavra, o sacramento efetua a regeneração. No caso doas adultos, Lutero colocava o efeito do batismo na dependência da fé presente no participante. Percebendo que não podia pensar desse modo no caso de crianças, que não podem exercer fé, ele, certa vez, afirmou que Deus, por Sua graça proveniente, produz fé na criança ainda sem discernimento, mas posteriormente confessou ignorância sobre este ponto. Teólogos luteranos mais recentes houve que retiveram a idéia de uma fé infantil como pré-condição para o batismo, ao passo que outros entendiam que o batismo produz essa fé imediatamente. Nalguns casos, isto levou à idéia de que o sacramento age ex opere operato.

Os anabatistas cortaram o nó górdio de Lutero negando a legitimidade do batismo de criaça. Eles insistiam em batizar todos os candidatos à admissão no seu círculo que tinham recebido o sacramento na infância, e não consideravam isto um rebatismo, mas, sim, o primeiro batismo verdadeiro. Para eles, as crianças não têm lugar nenhum na igreja.

Calvino e a teologia reformada partiam da pressuposição de que o batismo foi instituído para os crentes, e não produz, mas fortalece a nova vida. Naturalmente, eles se defrontaram com a questão sobre como as crianças poderiam ser consideradas crentes, e sobre como poderiam ser fortalecidas espiritualmente, visto não poderem exercer fé. Alguns simplesmente assinalavam que as crianças nascidas de pais crentes são filhos da aliança e, como tais, herdeiros das promessas de Deus, incluindo-se também a promessa de regeneração; e que a eficácia espiritual do batismo não se limita à hora da sua ministração, mas continua durante a vida toda. A Confissão Belga também expressa essa idéia com as seguintes palavras:"Tampouco este batismo nos é útil somente na ocasião em que a água é derramada sobre nós e recebida por nós, mas também no transcurso de toda a nossa vida"(art. XXXIV). Outros foram além dessa posição e afirmavam que os filhos de aliança devem ser considerados presumivelmente regenerados. Isto não equivale a dizer que todos eles são regenerados quando são apresentados para o batismo, mas que se presume que são regenerados, enquanto não se deduza das suas vidas o contrário. Havia ainda alguns que consideravam o batismo como nada mais que o sinal de uma aliança externa. Sob a influência dos socianos, dos arminianos, dos anabatistas e dos racionalistas, tornou-se costume em muitos círculos negar que o batimo seja um selo da graça divina, e considerá-lo como um simples ato de profissão da parte do homem. Em nossos dias, muitos cristãos professos perderam completamente a consciência da significação espiritual do batismo. Tornou-se mera formalidade.

Autor: Louis Berkhof
Fonte: Teologia Sistemática do autor, p. 631 -633, Ed Cultura Cristã (CEP).


O Batismo dos Filhos dos Crentes
Gênesis 17:1-14; Atos 2:38,39; Atos 16:25-34

Embora o batismo de crianças tenha sido uma prática importante no cristianismo histórico, sua validade tem sido solenemente desafiada por cristãos piedosos de várias denominações. A questão em torno do batismo de crianças baseia-se em vários aspectos. O Novo Testamento não ordena explicitamente que as crianças sejam batizadas, nem explicitamente proíbe que sejam batizadas. O debate se concentra em questões que geram em torno do significado do batismo e do grau de continuidade entre a Antiga e a Nova Aliança.

A mais crucial objeção por parte daqueles que se opõem ao batismo de crianças é que o sacramento do batismo pertence aos membros da igreja, e que a igreja é uma companhia de crentes. Visto que as crianças são incapazes de exercer fé, não devem ser batizadas. Enfatiza-se também que dos batismos registrados no Novo Testamento não há nenhuma referência específica a crianças. Uma outra objeção é que a Antiga Aliança, embora não comunique a salvação por via biológica, pela linhagem de sangue, não obstante envolvia uma ênfase étnica à nação de Israel. A aliança era transmitida através dos laços familiares e nacionais. No Novo Testamento a aliança tornou-se mais abrangente, admitindo os gentios na comunidade da fé. Este sinal de descontinuidade estabelece uma diferença entre a circuncisão e o batismo.

Por outro lado, aqueles que são favoráveis ao batismo de crianças enfatizam seu paralelo com a circuncisão. Embora o batismo e a circuncisão não sejam idênticos, têm pontos cruciais em comum. Ambos são sinais da aliança e ambos são sinais da fé. No caso de Abraão, ele abraçou a fé depois de adulto e fez uma profissão de fé antes de ser circuncidado. Ele tinha fé antes de receber o sinal desta fé. Seu filho Isaque, por outro lado, recebeu o sinal da fé antes que tivesse a fé que o sinal simbolizava (como foi o caso de todos os outros filhos da aliança).

O ponto crucial é que no Antigo Testamento Deus ordenou que o sinal da fé fosse dado antes que a fé estivesse presente. Visto que esse era claramente o caso, seria um equívoco argumentar em princípio que é errado administrar um sinal de fé antes que a fé esteja presente.

É também importante observar que os relatos de batismos no Novo Testamento foram de adultos que anteriormente eram incrédulos. Pertenciam à primeira geração de cristãos. Além disso, sempre tem sido a regra que convertidos adultos (que não eram filhos de crentes em sua infância) devem primeiro fazer a profissão de fé antes de receberem o batismo, o qual é o sinal de sua fé.

Certa de um quarto dos batismos mencionados no Novo Testamento indica que famílias inteiras foram batizadas. Isso sugere fortemente, embora não o prove, que as crianças eram incluídas entre os que eram batizados. Visto que o Novo Testamento não exclui explicitamente as crianças do sinal da aliança (e foram incluídas por milhares de anos enquanto o sinal da aliança era a circuncisão), naturalmente podemos presumir que na igreja primitiva as crianças deviam receber o sinal da aliança.

A história testemunha a favor dessa suposição. A primeira menção direta ao batismo de criança aconteceu por volta da metade do segundo século. O que é digno de nota nessa referência é que ela pressupõe que o batismo de crianças era uma prática universal da igreja. Se o batismo de crianças não fosse uma prática na igreja do primeiro século, como e por que este afastamento da ortodoxia aconteceu tão rápido e de forma tão prevalecente? Não só a difusão foi rápida e universal, como também a literatura remanescente daquela época não reflete qualquer controvérsia concernente a esta questão.

Em geral, a Nova Aliança é mais inclusiva do que a Antiga Aliança. Aqueles que contestam a validade do batismo de crianças estão tornando a Nova Aliança menos inclusiva com relação às crianças, a despeito da ausência de qualquer proibição bíblica contra o batismo de crianças.

Sumário
1. O Novo Testamento não ordena nem proíbe explicitamente o batismo de crianças.

2. Os defensores do batismo de filhos de crentes apontam para a continuidade entre a circuncisão e o batismo como sinais da fé.

3. A maioria dos batismos registrados no Novo Testamento era de adultos convertidos, da primeira geração de cristãos, os quais, é claro, não poderiam ter sido batizados quando crianças.

4. O registro dos batismos no Novo Testamento inclui batismo de "famílias", as quais provavelmente incluíam as crianças.

5. A história da igreja testifica quanto à prática universal, sem controvérsias, do batismo de filhos de crentes no segundo século.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 3º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã.


O Modo Próprio do Batismo

Os batistas divergem do restante do mundo cristão em sua posição,* segundo a qual o mergulho ou a imersão, seguida da emersão, é o único modo próprio do batismo; e segundo a qual este modo é absolutamente essencial ao batismo, porque este rito pretende simbolizar a morte e ressurreição de Jesus Cristo, e a conseqüente morte e ressurreição do batizando com Ele. Portanto, surgem duas questões, e é melhor considerá-las na seguinte ordem: (1) O que é essencial no simbolismo do batismo? E (2) Será que a imersão é o único modo próprio do batismo? Esta ordem é a preferível porque a primeira questão é a mais importante das duas, e porque a resposta à segunda dependerá em parte da que for dada à primeira.

1. O QUE É ESSENCIAL NO SIMBOLISMO DO BATISMO?

Segundo os batistas, a imersão, seguida pela emersão, é o essencial no simbolismo do batismo. A capitulação disto equivaleria à rendição do próprio batismo. A verdadeira idéia batismal, dizem eles, se expressa no afundar na água e no sair dela. Naturalmente, é puramente acidental que essa imersão devolva certo lavamento ou purificação. O batismo continuaria sendo batismo, ainda que a pessoa fosse imersa nalguma coisa destituída de propriedades purificadoras. Eles baseiam sua opinião em Mc 10.38, 39; Lc 12.50; Rm 6.3, 4; Cl 2.12. Mas as duas primeiras passagens expressam meramente a idéia de que Cristo seria oprimido pelos sofrimentos que lhe sobreviriam, e absolutamente não falam do sacramento do batismo. As duas últimas são as únicas que oferecem algum ponto de apoio ao assunto, e mesmo estas não vão ao ponto, pois não falam diretamente de nenhum batismo com água, mas, sim, do batismo espiritual representando por aquele. Elas descrevem a regeneração com a figura de um morrer e um ressuscitar. Sem dúvida, é perfeitamente óbvio que elas não fazem menção do batismo como símbolo da morte e ressurreição de Cristo. Se o batismo fosse descrito como algum símbolo, seria como símbolo do morrer e ressurgir do crente. E, visto que este é apenas um modo figurado de descrever a sua regeneração, faria do batismo uma figura de uma figura.

A teologia reformada (calvinista) tem uma concepção inteiramente diversa daquilo que é essencial no simbolismo do batismo. Ela o vê na idéia de purificação. O Catecismo de Heidelberg indaga, na Pergunta 69: “Como é que está simbolizado e selado em seu favor no santo batismo que você participa do sacrifício de Cristo na cruz?” E responde: “Assim: que Cristo determinou o lavamento externo com água e acrescentou a promessa de que eu sou lavado com o Seu sangue que me purifica da corrupção da minha alma, isto é, de todos os meus pecados, tão certamente como a água me lava exteriormente, pela qual a sujeira do corpo comumente é removida”. Esta idéia de purificação era a coisa pertinente em todas as abluções do Velho testamento, e também no batismo de João, Sl 51.; Ez 36.25; Jo 3.25, 26. E podemos admitir que, neste sentido, o batismo de Jesus estava em completa harmonia com os batismos anteriores. Se fosse Sua intenção que o batismo que Ele instituiu simbolizasse uma coisa inteiramente diferente, teria indicado isso com muita clareza, para evitar todo e qualquer mal-entendido. Além disso, a Escritura deixa muitíssimo claro que o batismo simboliza a limpeza ou purificação espiritual, At 2.38; 22.16; Rm 6.4, 5; 1 Co 6.11; Tt 3.5; Hb 10.22; 1 Pe 3.21; Ap 1.5. é este exatamente o ponto no qual a Bíblia coloca toda a ênfase, ao passo que ela nunca descreve o ir ao fundo e subir como algo essencial.

2. SERÁ QUE A IMERSÃO É O ÚNICO MODO PRÓPRIO DO BATISMO?
A opinião geralmente predominante fora dos círculos batistas ou imersionistas é que, desde que a idéia fundamental, a saber, a de purificação, ache expressão no rito, o modo do batismo é deveras insignificante. Pode ser igualmente ministrado por imersão, derramamento, afusão ou aspersão. A Bíblia simplesmente emprega a palavra genérica para denotar uma ação destinada a produzir certo efeito, qual seja, limpeza ou purificação, mas em parte nenhuma determina o modo específico pelo qual o efeito há de ser produzido. Jesus não prescreve um determinado modo de batismo. Evidentemente, Ele não deu a isso tanta importância como a que os imersionistas dão. Tampouco os exemplos bíblicos de batismo acentuam algum modo em particular. Não há um único caso em que se nos diga explicitamente como se deve ministrar o batismo.

Todavia, os batistas asseveram que o Senhor ordenou o batismo por imersão, e que todos quantos o ministram de maneira diferente estão agindo em franca desobediência à Sua autoridade. Para provarem sua afirmação, recorrem às palavras bapto e baptizo, que são empregadas na Escritura com o sentido de “batizar”. Vê-se que a segunda palavra é uma forma intensiva ou freqüentativa da primeira, embora no uso geral nem sempre se mantenha a distinção. Bapto é empregado muitas vezes no Velho Testamento, mas no Novo Testamento só ocorre quatro vezes, a saber, em Lc 16.24; Jo 13.26; Ap 19.13, e, nestes casos, não se refere ao batismo cristão. Houve tempo em que os batistas estavam muito confiantes em que o único sentido deste verbo é “imergir”; mas muitos deles mudaram de opinião desde quando Carson, uma das suas maiores autoridades, chegou à conclusão de que o referido verbo tem também um sentido secundário, qual seja, o de “morrer”, de sorte que veio a significar “morrer por submersão” e ainda “morrer de qualquer maneira”, caso em que deixou de ser indicativo do modo [7]. Surgiu ainda a questão sobre se o verbo baptizo, que é utilizado 76 vezes e que é empregado pelo Senhor nas palavras da instituição, é derivado de bapto em seu sentido primário ou em seu sentido secundário. E o doutor Carson responde que é derivado de bapto no sentido de “imergir”. Diz ele: “Já demonstrei que bapto possui dois sentidos, e somente dois, “imergir” e “morrer”. Baptizo, asseverei, tem apenas uma significação. Esta se encontra no sentido primário da raiz, e nunca admiti o secundário. Minha posição é que ele sempre significa imergir, jamais expressando nada senão modo” [8]. Os imersionistas têm que afirmar isso, se querem provar que o Senhor ordenou o batismo por imersão.

Mas os fatos, como aparecem tanto no grego clássico como no grego do Novo Testamento, não oferecem base para essa posição. Mesmo o doutor Gale, talvez o autor mais culto dos que procuram sustentar isso, sentiu-se constrangido pelos fatos a modificá-la. Wilson, em sua esplêndida obra sobre o Batismo de Crianças (Infant Baptism), que, em parte, é uma réplica à obra do doutor Carson, cita estes dizeres de Gale: ”A palavra baptizo pode não expressar tão necessariamente a ação de colocar debaixo d’água, como se daria em geral com uma coisa nessa condição, não importando como chegou a ficar assim, se foi mergulhada na água, ou se a água veio sobre ela; se bem que, na verdade, mergulhar na água é o modo mais natural e mais comum, e, portanto, este modo está implícito usual e muito constantemente, mas não necessariamente” [9]. Wilson demonstra conclusivamente que, de acordo com o uso do grego, o batismo é efetuado de vários modos. Diz ele: “Deixe-se o elemento batizante circundar o seu objeto, e, no caso dos líquidos, seja que esta condição relativa tenha sido produzida por imersão, afusão ou absorção, ou de qualquer outro modo, o uso grego o reconhece como batismo válido.” Ele prossegue e mostra pormenorizadamente que é impossível manter a posição de que, no Novo Testamento, a palavra baptizo sempre significa imersão. [10]

É mais que evidente que ambos as apalavras, bapto e baptizo, tinham outros sentidos, como os de “lavar”, “banhar-se” e “purificar mediante lavamento”. A idéia de lavamento ou purificação aos poucos se tornou a idéia proeminente, ao passo que a da maneira pela qual isto se realizava foi-se afastando para os fundos do cenário. Que esta purificação às vezes era efetuada por aspersão, é evidente em passagens como Nm 8.7; 19.13, 18, 19, 20; sl 51.7; Ez 36.25; Hb 9.10. No apócrifo Judite 12.7 e em Mc 7.3, 4 não temos a menor possibilidade de pensar em imersão. Tampouco é possível isso no contexto das seguintes passagens do Novo Testamento: Mt 3.11; Lc 11.37, 38; 12.50; Rm 6.3; 1 Co 12.13; Hb 9.10 (cf. os versículos 13, 14, 19, 21); 1 Co 10. 1, 2. Visto que a palavra baptizo não significa necessariamente “imergir”, e uma vez que em nenhum caso o Novo Testamento afirma explicitamente que o batismo era feito por imersão, o peso da prova (o onus probandi) permanece sobre os imersionistas.

João Batista seria capaz de realizar a enorme tarefa de fazer imergir as multidões que se ajuntavam em torno dele às margens do rio Jordão, ou ele simplesmente derramava água sobre elas, como indicam algumas das inscrições primitivas?** Os apóstolos teriam achado água suficiente em Jerusalém e teriam as facilidades necessárias para batizar por imersão três mil pessoas num só dia? Onde estão as evidências que provam que eles seguiram algum outro método, e não o modo dos batismos do Velho Testamento? Acaso Atos 9.18 mostra de algum modo que Paulo saiu do lugar em que Ananias o encontrara, para deixar-se imergir nalgum lago ou rio? O relato do batismo de Cornélio não dá a impressão de que a água teve que ser trazida e que as pessoas presentes foram batizadas na casa mesmo? (At 10.47, 48). Há alguma prova de que o carcereiro de Filipos não foi batizado na prisão ou perto dela, mas levou seus prisioneiros até o rio, para que pudessem fazer-se imergir? Teria ele ousado levá-los para fora da cidade, quando lhe fora ordenado que os mantivesse presos com segurança? (At 16.22-33). Até a narrativa do batismo do eunuco, em At. 8.36, 38, que muitas vezes é vista como a mais forte prova bíblica do batismo por imersão, não pode ser considerada como evidência conclusiva. Um cuidadoso estudo de uso que Lucas faz da preposição eis mostra que ele a empregava, não somente no sentido de para dentro de, mas também no sentido de a ou para, de modo que é inteiramente possível ler a significativa informação dada no versículo 38 como segue: “ambos desceram à água e Filipe batizou o eunuco”. E mesmo que as palavras estivessem destinadas a transmitir a idéia de que eles desceram dentro da água, isto ainda não provaria o ponto, pois, de acordo com representações feitas em gravuras dos primeiros séculos, os que eram batizados por afusão muitas vezes ficavam de pé dentro d’água, durante o batismo. É inteiramente possível, por certo, que na era apostólica alguns tenham sido batizados por imersão, mas o fato de que em parte alguma o Novo Testamento insiste nisso, prova que a imersão não era essencial. A imersão é um bom modo do batismo, mas também o é o batismo por afusão ou por aspersão, desde que todos eles simbolizam purificação. As passagens aludidas acima provam que muitas abluções veterotestamentárias (batismos)eram feitas por aspersão. Numa profecia a respeito da renovação espiritual do dia do Senhor no Novo Testamento, diz o Senhor: “Então aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados”, Ef 36.25. O elemento simbolizado no batismo, a saber, o Espírito purificador, foi derramado sobre a igreja, Jl 2.28, 29; At 2.4, 33. E o escritor de Hebreus fala dos seus destinatários como tendo os seus corações purificados (aspergidos) de má consciência, Hb 10.22.***

NOTAS:
* Acompanhados em geral pelos movimentos pentecostais, que tiveram desenvolvimento maior nas últimas décadas. Nota do tradutor.

7 - Carson, Baptism in its Mode and Subjects, p. 44 e segtes.

8 - Op. cit., p. 55.

9 - P. 97.

10 - Quanto aos vários significados possíveis de baptizo, consultem-se, além do tratado de Wilson, acima referido, obras como as de Armstrong, The Doctrine of Baptisms; Seiss, The Baptist System Examibed; Ayres, Christian Baptism; e Hibbard, Christian Baptism.

** Haja vista o quadro que representa João Batista e Jesus de pé dentro do rio Jordão, e João derramando água sobre a cabeça do Mestre. O referido quadro é do segundo século e atualmente se acha em Ravena, região de Emília, Itália. Nota do tradutor.

*** No original grego, “tendo sido aspergidos os corações de má consciência”. Nota do tradutor.

Autor: Louis Berkhof
Fonte: Teologia Sistemática do autor, pg. 633 Ed CEP.


Os Objetos do Batismo

O batismo visa unicamente a seres racionais propriamente qualificados, a saber, a crentes e seus filhos. Roma perde isso de vista, na medida em que aplica o sacramento também a relógios, edifícios, etc. Há duas classes de seres humanos a que se deve aplicar o batismo, quais sejam, adultos e crianças pequenas.

1.O BATISMO DE ADULTOS.

No caso dos adultos, o batismo tem que ser precedido por uma profissão de fé, Mc 16.16; At 2.41; 8.37 (ausente de alguns MSS); 16.31-33. Daí insistir a igreja em tal profissão antes de batizar adultos. E quando essa profissão é feita, esta é aceita pelo que ela vale nominalmente, a não ser que tenha boas razões objetivas para duvidar da sua veracidade. Não lhe compete espiar os segredos do coração e assim inspecionar a genuinidade de tal profissão. A responsabilidade pesa sobre a pessoa que a faz. O método de investigar a condição interna do coração com o fim de determinar a genuinidade da profissão de fé que a pessoa faz é labadista* e não está em harmonia com a prática das igrejas reformadas. Desde que o batismo não é apenas um sinal e selo, mas também um meio de graça, levanta-se a questão quanto à natureza da graça produzida por ele. Esta questão é levantada aqui unicamente com relação ao batismo de adultos.

Em vista do fato de que, segundo a nossa concepção reformada (calvinista), este batismo pressupõe a regeneração, a fé, a conversão e a justificação, não se pode conceber que estas são produzidas por ele. Neste aspecto divergimos da Igreja de Roma. Mesmo os luteranos, que atribuem ao batismo como meio de graça um poder maior do que o que os reformados lhe atribuem, concordam com estes sobre este ponto. Tampouco o batismo produz uma graça sacramental especial que consista nisto, que o participante é implantado no corpo de Jesus Cristo. A incorporação do crente numa união mística com Cristo também é pressuposta. A Palavra e o sacramento produzem exatamente a mesma espécie de graça, exceto que a Palavra, em distinção do sacramento, também serve de instrumento para a originação da fé. O sacramento do batismo fortalece a fé e, porque a fé desempenha um importante papel em todas as outras operações da graça divina, estas também são grandemente beneficiadas por ele. O batismo representa primordialmente um ato da graça de Deus, mas, visto que o cristão professante deve submeter-se voluntariamente a ele, este também pode ser considerado do lado do homem. Há nele um oferecimento e um dom de Deus, mas também uma aceitação por parte do homem. Conseqüentemente, o batismo significa também que o homem aceita a aliança e assume as obrigações próprias dela. É um selo, não meramente de uma aliança oferecida, mas de uma aliança oferecida e aceita, isto é, decidida.

2. O BATISMO DE CRIANÇAS.

É sobre a questão do batismo de crianças que se acha a mais importante divergência entre nós e os batistas. Estes afirmam, como o Dr. Hovey, escritor batista o expressa, “que somente os crentes em Cristo têm direito ao batismo, e somente os que dão uma confiável prova da fé nele devem ser batizados”. Quer dizer que as crianças são excluídas do sacramento. Contudo, em todas as demais denominações** elas o recebem. Vários pontos requerem consideração em conexão com este assunto.

a. Base bíblica do batismo de crianças.
Pode-se dizer de início que não há nenhuma ordem explícita na Bíblia para batizar crianças, e que não há um único exemplo no qual se nos diga claramente que crianças foram batizadas. Mas isto não torna necessariamente antibíblico o batismo. O fundamento escriturístico do batismo de crianças acha-se nos seguintes dados:

(1) A aliança feita com Abrão era primariamente uma aliança espiritual, embora também tivesse um aspecto nacional, e desta aliança espiritual a circuncisão era um sinal e selo. É um procedimento infundado dos batistas partir esta aliança em duas ou três alianças diferentes. A Bíblia se refere à aliança com Abraão diversas vezes, mas sempre no singular, Ex 2.24; Lv 26.42; 2 Rs 13.23; 1 Cr 16.16; Sl 105.9. Não há sequer uma única exceção a esta regra. A natureza espiritual desta aliança é comprovada pela maneira segundo a qual suas promessas são interpretadas no Novo Testamento, Rm 4.16-18; 2 Co 6.16-18; Gl 3.8, 9, 14, 16; Hb 8.10; 11.9, 10, 13. decorre também do fato de que evidentemente a circuncisão era um rito que tinha significação espiritual, Dt 10.16; 30.6; Jr. 4.4; 9,25, 26; At 15.1; Rm 2.26-29; 4.11; Fp 3.2, e do fato de que a promessa da aliança é até denominada “o evangelho”, Gl 3.8.

(2) Esta aliança ainda está em vigência, e é essencialmente idêntica à “nova aliança” da presente dispensação. A unidade e continuidade da aliança em ambas as dispensações segue-se do fato de que o Mediador é o mesmo, At 4.12; 10.43; 15.10, 11; Gl 3.16; 1 Tm 2.5, 6; 1 Pe 1.9-12, a condição é a mesma, a saber, a fé, Gn 15.6 (Rm 4.3); Sl 32.10; Hb 2.4; At 10.43; Hb 11, e as bênçãos são as mesmas, quais sejam, a justificação, Sl 32.1, 2, 5; Is 1.18; Rm 4.9; Gl 3.6, a regeneração, Dt 30.6; Sl 51.10, dons espirituais, Jl 2.28, 32; At 2.17-21; Is 40.31, e a vida eterna, Ex 3.6; Hb 4.9; 11.10. Aos que foram levados à convicção no dia de Pentecostes Pedro deu a certeza de que a promessa era para ele e para os seus filhos, At 2.39. Paulo argumenta em Rm 4.13-18 e Gl 3.13-18 que a dádiva da lei não anulou a promessa, de sorte que ela ainda permanece na nova dispensação. E o escritor de Hebreus assinala que a promessa a Abraão foi confirmada com juramento, de modo que os crentes neotestamentários podem haurir consolo da sua imutabilidade, Hb 6.13-18.

(3) Pela determinação de Deus, as crianças participavam dos benefícios da aliança, e, portanto, recebiam a circuncisão como sinal e selo. Segundo a Bíblia, a aliança é, evidentemente, um conceito orgânico, e sua realização segue linhas orgânicas e históricas. Há um povo ou nação de Deus, um conjunto orgânico tal que só pode constituir-se de famílias. Naturalmente, esta idéia de nação é muito proeminente no Velho Testamento, mas o notável é que ela não desapareceu depois da nação de Israel ter servido ao seu propósito. Ela foi espiritualizada e, assim, passou para o Novo Testamento, de modo que o povo de Deus, no Novo Testamento, também é apresentado como nação, Mt 21.43; Rm 9.25, 26 (comp. Oséias 2.23); 2 Co 6.16; Tt 2.14; 1 Pe 2.9. Durante a antiga dispensação, as crianças eram consideradas parte integrante de Israel como o povo de Deus. Estavam presentes quando era renovada a aliança, Dt 29.10-13; Js 8.35; 2 Cr 20.13, tinham um lugar na congregação de Israel e, portanto, estavam presentes em suas assembléias religiosas, 2 Cr 20.13; Jl 2.16. Em vista de promessas ricas como as de Is 54.13; Jr 31.34; Jl 2.28, dificilmente esperaríamos que os privilégios de tais crianças fossem reduzidos na nova dispensação, e, certamente, não procuraríamos sua exclusão de todo e qualquer lugar na igreja. Jesus e os apóstolos não as excluíram, Mt 19.14; At 2.39; 1 Co 7.14. A referida exclusão por certo exigiria uma declaração muito explícita a respeito.

(4) Na nova dispensação o batismo, pela autoridade divina, substitui a circuncisão como o sinal e selo iniciatório da aliança da graça. A Escritura insiste vigorosamente em que a circuncisão não pode mais servir como tal, At 15.1, 2; 21.21; Gl 2.3-5; 5.2-6; 6.12, 13, 15. Se o batismo não lhe tomou o lugar, o Novo Testamento não tem nenhum rito iniciatório. Mas Cristo o estabeleceu como tal substituto, Mt 28.19, 20; Mc 16.15, 16. Seu sentido espiritual corresponde ao da circuncisão. Como a circuncisão se referia à eliminação do pecado e à mudança do coração, Dt 10.16; 30.6; Jr 4.4; 9.25, 26; Ez 44.7, 9, assim o batismo se refere ao lavamento purificador do pecado., At 2.38; 1 Pe 3.21; Tt 3.5, e à renovação espiritual, Rm 6.4; Cl 2.11, 12. esta última passagem claramente liga a circuncisão ao batismo e, ensina que a circuncisão de Cristo, isto é, a circuncisão do coração, simbolizada pela circuncisão da carne, é realizada pelo batismo, isto é, por aquilo que o batismo simboliza. Cf. também Gl 3.27, 29. Mas, se as crianças recebiam o sinal e selo da aliança na antiga dispensação, a pressuposição é que certamente elas têm direito de recebê-lo na nova, a qual os fiéis do Velho Testamento eram ensinados a aguardar como sendo uma dispensação muito mais completa e muito mais rica. Sua exclusão dela requereria uma declaração clara e inequívoca com esse fim, mas exatamente o oposto é que se vê, Mt 19.14; At 2.39; 1 Co 7.14.

(5) Como acima foi assinalado, o Novo Testamento não contém nenhuma evidência direta em favor da prática do pedobatismo nos dias dos apóstolos. Lambert, após considerar e sopesar todas as evidências à mão, expressa a sua conclusão com as seguintes palavras: “Então, as evidências do Novo Testamento parecem apontar para a conclusão de que o batismo de crianças, para dizer o mínimo, não era costume geral na era apostólica” [1]. Mas não há necessidade de ninguém se surpreender com o fato de não haver menção direta do batismo de crianças, pois num período missionário como o da era apostólica, naturalmente a ênfase recairia sobre o batismo de adultos. Além disso, nem sempre as condições eram favoráveis ao batismo de crianças. Os conversos não teriam de imediato uma adequada concepção dos seus deveres e responsabilidades pactuais. Às vezes somente um dos pais se convertia e é perfeitamente concebível que o outro se opusesse ao batismo dos filhos. Muitas vezes não havia razoável certeza de que os pais educariam os seus filhos piedosa e religiosamente, e, todavia, era necessária essa certeza. Ao mesmo tempo, a linguagem do Novo Testamento é perfeitamente coerente com uma continuação da administração orgânica da aliança, que exigia a circuncisão das crianças, Mt 19.14; Mc 10.13-16; At 2.39; 1 Co 7.14. Ademais, o Novo Testamento fala repetidamente do batismo de famílias, e não dá indicação de que isto seja considerado fora do comum, mas, antes, refere-se a esse fato como natural, At 16.15, 33; 1 Co 1.16. È, por certo, inteiramente possível, mas não muito provável, que nenhuma dessas famílias tivesse crianças. E se havia crianças, é moralmente certo que eram batizadas junto com seus pais. O certo é que o Novo Testamento não contém nenhuma prova de que pessoas nascidas e criadas em famílias cristãs não possam ser batizadas antes de chegarem à idade da discrição e de haverem professado sua fé em Cristo. Não há a mais ligeira alusão a alguma prática desse tipo.

(6) Wall, na introdução da sua História do pedobatismo (History of Infant Baptism), mostra que no batismo de prosélitos os filhos dos prosélitos muitas vezes eram batizados junto com seus pais; mas Edersheim diz que havia uma diferença de opiniões sobre este ponto [2]. Naturalmente, mesmo que isso acontecesse, nada provaria quanto ao batismo cristão, mas mostraria que não havia nada de estranho nesse procedimento. A mais antiga referência histórica ao batismo de crianças acha-se nos escritos da segunda metade do segundo século. A obra Didaquê fala do batismo de adultos, mas mão do pedobatismo; e conquanto Justino faça menção de mulheres que eram discípulas de Cristo desde a infância (ek paidon), esta porção dos seus escritos não menciona o batismo, e a expressão ek paidon não significa necessariamente infância. Irineu, falando de Cristo, diz: “Ele veio salvar por meio de Si próprio todos os que, por meio dele, nascem de novo para Deus, crianças e criancinhas, e meninos, e jovens e idosos” [3]. Este trecho, embora não mencione explicitamente o batismo, é considerado como a mais antiga referência ao batismo de crianças, visto que os chamados “pais primitivos” associavam tão estritamente o batismo à regeneração, que empregavam o termo”regeneração” em lugar de “batismo”. Que o batismo de crianças era praticado mui geralmente, é evidenciado pelos escritos de Tertuliano, embora ele próprio considerasse mais proveitoso protelar o batismo [4]. Orígenes o descreve como uma tradição dos apóstolos. Diz ele: “Pois isto havia também que a igreja tinha dos apóstolos uma tradição (ou, ordem) de dar o batismo até mesmo às crianças” [5]. O Concílio de Cartago (253 A.D.) toma o batismo de crianças como certo e simplesmente discute a questão sobre se elas deveriam ser batizadas antes dos oito dias de idade. Do segundo século em diante, o batismo de crianças é reconhecido normalmente, embora às vezes negligenciado na prática. Agostinho inferiu do fato de que ele era praticado pela igreja no mundo inteiro, apesar de não instituído nos concílios, que, com toda a probabilidade, foi estabelecido pela autoridade dos apóstolos. Sua legitimidade não foi negada até aos dias da Reforma, quando os anabatistas se opuseram a ele.

b. Objeções ao batismo de crianças.

Algumas das objeções mais importantes ao pedobatismo reclamam breve consideração.

(1) A circuncisão era apenas uma ordenança carnal e típica, e, como tal, esta destinada a extinguir-se. Colocar o batismo no lugar da circuncisão é simplesmente dar continuidade à ordenança carnal. Ordenanças carnais que tais não têm lugar legítimo na igreja no Novo Testamento. Em nossos dias, esta objeção é levantada por alguns dispensacionalistas, como Bullinger e O’Hair, que alegam que o batismo instituído por Jesus está relacionado com o Reino, e que somente o batismo do Espírito tem um lugar próprio na igreja. O Livro de Atos marca a transição do batismo com água para o batismo com o Espírito. Naturalmente, este argumento provaria que todo batismo, o de adultos e o de crianças, é ilegítimo. Nesta apresentação do assunto, as dispensações judaica e cristã são postas em antagonismo uma contra a outra, como carnal e espiritual, dizendo-se que a circuncisão pertence à primeira delas. Mas este argumento é falaz. Não há base para por a circuncisão inteiramente ao nível das ordenanças carnais da lei mosaica. Diz Bannerman: “A circuncisão independia, quer da introdução que da abolição da lei de Moisés, e teria continuado de pé como ordenança para admissão na igreja de Deus como selo da aliança da graça, se o batismo não tivesse sido designado expressamente como seu substituto” [6]. Pode-se admitir que a circuncisão adquiriu certa significação típica no período mosaico, mas era primordialmente sinal e selo da aliança já feita com Abraão. Enquanto tipo, naturalmente cessou com o surgimento do antítipo, e mesmo como um selo da aliança, abriu alas para um sacramento incruento expressamente instituído por Cristo para a igreja e reconhecido como tal pelos apóstolos, visto que Cristo dera fim, uma vez por todas, ao derramamento de sangue referente à obra de redenção. À luz da Escritura, é inteiramente insustentável a posição segundo a qual o batismo se relaciona com o Reino, e não com a igreja, posição que, portanto, é judaica e não cristã. As próprias palavras da instituição condenam esse conceito, e o mesmo se dá com o fato de que, por ocasião do nascimento da igreja do Novo Testamento, Pedro exigiu dos que foram acrescentados a ela que fossem batizados. E se se disser que Pedro, sendo judeu, ainda seguia o exemplo de João Batista, pode-se assinalar que Paulo, o apóstolo dos gentios, também exigia que os seus conversos fossem batizados, At 1615, 33; 18.8; 1 Co 1.16.

(2) Não há ordem explícita para que as crianças sejam batizadas. Isto é perfeitamente certo, mas não refuta a validade do batismo de crianças. Deve-se observar que esta objeção se baseia numa regra de interpretação que os próprios batistas não seguem fielmente quando afirmam que os cristãos têm o dever obrigatório de celebrar o primeiro dia da semana como o seu Sabbath, ou seja, como o seu dia semanal de santo repouso, e que as mulheres também podem participar da Santa Ceia; pois estas coisas não foram ordenadas explicitamente. Poderia o silêncio da Escritura ser interpretado em prol do batismo de crianças, e não contra? Durante vinte séculos as crianças tinham sido iniciadas formalmente na igreja, e o Novo Testamento não diz que isto agora deve cessar, ao passo que de fato ensina que a circuncisão não serve mais para aquela finalidade. O Senhor Jesus instituiu pessoalmente outro rito, e no dia de Pentecostes Pedro disse aos que se ajuntaram à igreja que a promessa era para eles e para os seus filhos, e a quantos mais o Senhor chamasse. Esta declaração de Pedro prova, no mínimo, que ele continua tendo em mente a concepção orgânica da aliança. Além disso, pode-se levantar a questão sobre como os batistas podem provar que a sua posição é correta citando uma ordem expressa da Escritura. A Bíblia ordena em algum lugar que as crianças sejam excluídas do batismo? Ordena ela que todos os que nascem e são criados em famílias cristãs professem sua fé antes de serem batizados? É mais que patente que não existem essas ordens na Bíblia.

(3) Uma objeção estreitamente relacionada com a anterior é que não há exemplo de batismo de crianças no Novo Testamento. É certo que a Bíblia não diz explicitamente que foram batizadas crianças, embora nos informe que o rito foi ministrado a famílias inteiras. A ausência de referências definidas ao batismo de crianças tem explicação, ao menos em boa medida, no fato de que a Escritura nos dá um registro histórico da obra missionária dos apóstolos, e não da obra empreendida nas igrejas organizadas. Aí também o feitiço vira contra o feiticeiro, quanto aos batistas. Poderão mostrar eles algum exemplo de batismo de um adulto nascido e criado num lar cristão? Não há risco nenhum de que algum dia o façam.

(4) A objeção mais importante ao pedobatismo levantada pelos batistas é que, de acordo com a Escritura, o batismo está condicionado a uma fé ativa, que se revela numa profissão digna de crédito. Ora, é bem certo que a Bíblia apresenta a fé como um requisito do batismo, Mc 16:16; At 10.44-48; 16.14, 15, 31, 34. Se isto significar que todo aquele que recebe o batismo deve, em todos os casos, apresentar manifestações de fé ativa antes do batismo, naturalmente as crianças estarão excluídas. Mas, embora a Bíblia indique claramente que somente os adultos que criam eram batizados, em parte nenhuma firma a regra de que uma fé ativa é absolutamente essencial para receber-se o batismo. Os batistas nos remetem à grande comissão, nos termos de Mc 16.15, 16. em vista do fato de que este é um mandado missionário, podemos partir da suposição de que o Senhor tinha em mente uma fé ativa, ao dizer aquelas palavras. E, apesar de não vir exposto explicitamente, é inteiramente provável que Ele considerasse esta fé como um requisito da ministração do batismo às pessoas em vista. Quem são estas, porém?

Evidentemente, os adultos das nações que deviam ser evangelizadas, e, daí, os batistas não têm base para entendê-lo como argumento contra o pedobatismo. Se, não obstante, insistirem em fazê-lo, dever-se-á assinalar que, em sua interpretação, aquelas palavras provam demais em favor deles, e, portanto, nada provam. As palavras do nosso Salvador implicam que a fé é um requisito do batismo daqueles que, graças aos esforços missionários da igreja, seriam levados a Cristo, e não implicam que também é um requisito do batismo de crianças. Os batistas generalizam essa declaração do Salvador ensinando que ela torna todo batismo dependente da fé ativa do batizando. Seu argumento vai como segue: A fé ativa é o requisito do batismo. As crianças não podem exercer fé. Portanto, as crianças não devem ser batizadas. Mas, dessa maneira, essas palavras também podem ser elaboradas como argumento contra a salvação de crianças, visto que elas não somente implicam, mas afirmam explicitamente que a fé (fé ativa) é a condição para a salvação. Assim, o batista que for coerente ver-se-á sob o peso do seguinte silogismo: A fé é a conditio sine qua non (condição indispensável) da salvação. As crianças ainda não podem exercer fé. Logo, as crianças não podem ser salvas. Mas esta é uma conclusão da qual o próprio batista recua.***

c. Base do batismo de crianças.

(1) Posição dos nossos padrões confessionais. A Confissão Belga declara no Art. XXXIV que os filhos pequenos de pais crentes “devem ser batizados e selados com o sinal da aliança, como anteriormente as crianças de Israel eram circuncidadas com base nas mesmas promessas feitas às nossas crianças”. O Catecismo de Heidelberg responde a pergunta, “As crianças também devem ser batizadas?”, como segue: “Sim, pois, desde que elas estão, como os adultos, incluídas na aliança e na igreja de Deus, e desde que tanto a redenção do pecado como o Espírito, o Autor da fé, lhes são prometidos não menos que aos adultos, mediante o sangue de Cristo, elas também devem, pelo batismo, como sinal da aliança, ser enxertadas na igreja cristã, e devem ser distinguidas dos filhos dos descrentes, como se fazia na antiga dispensação ou testamento pela circuncisão, em lugar da qual o batismo foi instituído na nova aliança” [7]. E os Cânones de Dort contêm a seguinte declaração em I, Art. 17: “Uma vez que devemos discernir a vontade de Deus em Sua Palavra, que atesta que os filhos dos crentes são santos, não por natureza, mas em virtude da aliança da graça, que os abrange juntamente com seus pais, os pais crentes não devem duvidar da eleição e salvação dos seus filhos, a quem praza a Deus chamar desta vida em sua infância (Gn 17.7; At 2.39; 1 Co 7.14)”. estas declarações dos nossos padrões confessionais estão em plena harmonia com a posição de Calvino, segundo a qual, os filhos pequenos de pais crentes, ou aqueles que têm somente um dos pais crentes, são batizados com base em sua relação pactual [8]. A nossa Forma para o Batismo de Crianças (Form for the Baptism of Infants) toca na mesma tecla: “Então, desde que o batismo tomou o lugar da circuncisão, as crianças devem ser batizadas como herdeiras do reino de Deus e da Sua aliança”. Observe-se que todas essas declarações se baseiam no mandamento de Deus que manda circuncidar os filhos da aliança, pois, em última análise, o mandamento é a base do batismo de crianças.****

Com fundamento em nossos padrões confessionais, pode-se dizer que os filhos pequenos de pais crentes são batizados com base em que são filhos da aliança e, como tais, são herdeiros das amplíssimas promessas pactuais de Deus, que incluem também a promessa de perdão dos pecados e da dádiva do Espírito Santo para a regeneração e a santificação. Na aliança Deus lhes dá certa concessão ou dádiva de maneira formal e objetiva, exige deles que, no devido tempo, aceitem isto pela fé, e promete fazer disso uma vívida realidade nas vidas deles, pela operação do Espírito Santo. E, em vista deste fato, a igreja deve considerá-los como herdeiros prospectivos da salvação, deve considerá-los como estando na obrigação de andar nas veredas da aliança, tem o direito de esperar que, sob uma fiel administração pactual, eles, falando em termos gerais, vivam segundo a aliança, e é seu dever considerá-los como infratores da aliança, se não cumprirem as exigências desta. É unicamente deste modo que se faz plena justiça às promessas de Deus, que em toda a sua plenitude deverão ser assimiladas pela fé por aqueles que chegarem à maturidade. Assim, a aliança, incluindo as promessas pactuais, constitui a base legal e objetiva do batismo de crianças. O batismo é sinal e selo de tudo quanto as promessas abrangem.

(2) Diferenças de opinião entre os teólogos reformados (calvinistas).

Nem todos os teólogos reformados concordavam no passado, e mesmo agora não são todos unânimes em sua apresentação da base do batismo de crianças. Muitos teólogos dos séculos dezesseis e dezessete assumiram a posição descrita no item anterior, a saber, que os filhos pequenos dos crentes são batizados porque estão na aliança e, nesta qualidade, são herdeiros das ricas promessas de Deus, que incluem o direito, não somente à regeneração, mas também a todas as bênçãos da justificação e das influências renovadoras e santificantes do Espírito Santo. Outros, porém, embora reconhecendo a veracidade dessa apresentação, não se satisfaziam inteiramente com ela. Acentuavam o fato de que o batismo é algo mais que sinal e selo de uma promessa, ou mesmo de todas as promessas da aliança, e que não é apenas o selo de um bem futuro, mas também de posses espirituais no presente. Prevaleceu o conceito de que o batismo é ministrado a crianças com base na regeneração presuntiva. Mas mesmo entre os que esposavam este conceito não havia pleno acordo. Alguns combinavam esta idéia com outra, enquanto outros substituíam aquela por esta. Alguns partiam do pressuposto de que todas as crianças apresentadas para o batismo são regeneradas, ao passo que outros só admitiam isto em conexão com as crianças eleitas. A diferença de opiniões entre os que criam que os filhos dos crentes são batizados com base em seu relacionamento pactual e na promessa da aliança, e os que viam esta base na regeneração presuntiva persistiu até os dias atuais e foi causa de vigorosa controvérsia, principalmente na Holanda, durante o último período do século dezenove e o princípio do século vinte.

A princípio, o doutor Kuyper falava da regeneração presuntiva como a base do batismo de crianças, e muitos aceitaram prontamente essa idéia. G. Kramer escreve sua esplêndida tese sobre Het Verband van Doop em Wedergeboorte especialmente em defesa dessa posição. Posteriormente, o doutro Kuyper deixou de usar de vez essa expressão, e alguns dos seus seguidores sentiram necessidade de uma discriminação mais cuidadosa e falavam da relação pactual como base legal do batismo de crianças, e da regeneração presuntiva como sua base espiritual. Mas, até mesmo esta ainda não é uma posição satisfatória. O doutor Honig, que também é um discípulo e admirador de Kuyper, está na pista certa quando diz, em seu recente***** Manual de Dogmática Reformada (Handboek van de Gereformeerde Dogmatiek) [9]: “Não batizamos os filhos pequenos dos crentes baseados numa pressuposição, mas numa ordem e num ato de Deus. As crianças devem ser batizadas em virtude da aliança de Deus” (versão inglesa de Berkof, do original holandês). A regeneração presuntiva naturalmente não pode ser considerada como a base legal do pedobatismo; esta só pode ser encontrada na promessa pactual de Deus. Além disso, ela não pode ser considerada a base em nenhum sentido da palavra, desde que o batismo tem que ser algo objetivo, como os próprios defensores do conceito em foco e sentem constrangidos a admitir. Se lhes perguntam por que presumem a regeneração das crianças apresentadas para o batismo, eles só podem responder: “Porque elas nasceram de pais crentes, isto é, porque nasceram na aliança”. Naturalmente, negar que a regeneração presuntiva é a base do batismo de crianças não equivale a dizer que é inteiramente destituído de base presumir que as crianças nascidas de pais crentes são regeneradas. Esta é uma questão que deve ser considerada com base em seus próprios méritos.

Talvez seja bom citar neste contexto a primeira metade do quarto ponto das Conclusões de Ultrecht, adotadas por nossa igreja em 1908. Traduzimo-la da seguinte maneira: “E finalmente, no que concerne ao quarto ponto, o da regeneração presuntiva, o Sínodo declara que, de acordo com a confissão das nossas igrejas, deve-se presumir que a semente da aliança, em virtude da promessa de Deus, é regenerada e santificada em Cristo, enquanto o contrário não aparecer em sua vida ou doutrina, quando crescer; que, todavia, é menos correto dizer que o batismo é ministrado aos filhos pequenos dos crentes com base em sua regeneração presuntiva, visto que a base do batismo é a ordem e a promessa de Deus; e que, ademais, o juízo de amor como qual a igreja presume que a semente da aliança é regenerada, de modo nenhum tenciona dizer que, portanto, cada criança é realmente regenerada, desde que a Palavra de Deus ensina que nem todos os de Israel são de fato israelitas, e de Isaque se diz: Nele será chamada a tua semente – ou descendência (Rm 9.6, 7), de modo que na pregação é sempre necessário insistir no sério exame próprio uma vez que somente os que crêem e são batizados serão salvos”. [10]

(3) Objeção à idéia de que as crianças são batizadas com base em sua relação pactual.
Tem-se dito que, se as crianças são batizadas com base em que elas nascem na aliança e, portanto, são herdeiras da promessa, são batizadas com base diferente da dos adultos, visto que estes são batizados com base em sua fé ou em sua profissão de fé. Mas isto a rigor não é certo, como Calvino já o demonstrou em seus dias. O grande Reformador respondeu eficientemente a esta objeção. O que vem a seguir é tradução do que Kramer diz a respeito da posição de Calvino sobre este ponto: “Com relação ao batismo de crianças, Calvino vê ocasião aqui, agora que ele tomou a perspectiva da aliança, para traçar linha mais longa. Até este ponto, ele não chamou a atenção para o fato de que os adultos também são batizados de acordo com a regra da aliança. E, daí, poderia parecer que há uma diferença entre o batismo de adultos e o de crianças. Os adultos seriam batizados com base em sua fé, as crianças com base na aliança de Deus. Não, declara o Reformador, a única regra segundo a qual, e a única base legal sobre a qual a igreja pode ministrar o batismo, é a aliança. Isto é verdade, tanto no caso de crianças como no de adultos. Se estes devem primeiro fazer uma confissão de fé e passar pela conversão, é porque se acham fora da aliança. Para serem admitidos à comunhão da aliança, devem aprender primeiro quais as exigências da aliança, e, depois, a fé a conversão abrem caminho para a aliança.” [11] Exatamente a mesma opinião é expressa por Bavinck.. Quer dizer que, depois que os adultos adentram a aliança pela fé e conversão, recebem o sacramento do batismo com base nessa relação pactual. Também para eles o batismo é sinal e selo da aliança.

d. O batismo de crianças como meio de graça.

 O batismo é sinal e selo da aliança da graça. Não simboliza uma coisa e sela outra, mas põe o selo de Deus naquilo que simboliza. Segundo os nossos padrões confessionais e a nossa forma para a ministração do batismo, este simboliza o lavamento dos nossos pecados, e esta é apenas uma breve expressão usada em lugar da remoção da culpa do pecado na justificação, e da remoção da corrupção do pecado na santificação, que, contudo, é imperfeita nesta vida. E se o que é simbolizado é isto, então é também o que é selado. E se se disser, como às vezes ocorre em nossa literatura reformada (calvinista), que o batismo sela a(s) promessa(s) de Deus, isto não significa meramente que ele atesta a veracidade da promessa, mas, sim, que garante aos batizandos que eles são os designados herdeiros das bênçãos prometidas. Isto não significa necessariamente que eles já estão, em princípio, de posse do bem prometido, embora isto seja possível e até provável, mas certamente significa que eles são designados herdeiros e receberão a herança, a não ser que se mostrem indignos dela e a recusem. Dabney chama a atenção para o fato de que muitas vezes selos são apensos as alianças promissórias, nas quais a concessão do benefício prometido é condicional.

Mas o batismo é mais que sinal e selo; também é, como tal, um meio de graça. De acordo com a teologia reformada (calvinista), ele não é, como os católicos romanos pretendem, o meio pelo qual se inicia a obra da graça no coração, mas, sim, é um meio para o seu fortalecimento, ou, como muitas vezes é expresso, para o crescimento da graça. Isto dá surgimento a uma questão muito difícil, em conexão com o batismo de crianças. Pode-se ver prontamente como batismo pode fortalecer a obra da fé no batizando adulto, mas não é assim tão perceptível como pode operar como meio de graça no caso de crianças, as quais não têm absolutamente nenhuma consciência da significação do batismo e ainda não podem exercer fé. A dificuldade que defrontamos aqui naturalmente não existe para o pequeno número de eruditos reformados que negam que o batismo apenas fortaleça uma condição de graça antecedente, e alegam que ele “é um meio para a comunicação da graça de maneira específica, e para o específico fim da nossa regeneração e da nossa implantação em Cristo” [12]. Decerto que todos os demais têm que enfrentar o problema. Lutero também lutou com esse problema. Para ele a eficácia do batismo depende da fé do batizando; mas quando refletiu no fato de que as crianças não podem exercer fé, sentiu-se inclinado a acreditar que Deus, por Sua graça preveniente, produz nelas uma fé incipiente por meio do batismo; e, finalmente, ele remeteu o problema aos doutores da igreja. Os teólogos reformados resolvem o problema chamando a atenção para três coisas, que podem ser consideradas como alternativas, mas também podem ser combinadas entre si. (1) É possível partir da pressuposição (não do conhecimento certo) de que as crianças apresentadas para o batismo são regeneradas e, portanto, estão de posse da semen fidei (semente da fé); e afirmar que Deus, pelo batismo, de algum modo místico que não compreendemos, fortalece na criança esta semente da fé. (2) Também se pode chamar a atenção para o fato de que a operação do batismo como meio de graça não se limita necessariamente ao momento da sua ministração, nem um pouco mais que a operação da Ceia do Senhor se limita à hora da sua celebração. Pode, naquele exato momento, servir de algum modo misterioso para aumentar a graça de Deus no coração, se presente, mas também pode ser instrumento para aumentar a fé posteriormente, quando a significação do batismo for claramente compreendida. Isso é ensinado com clareza tanto na Confissão Belga como na Confissão de Westminster. (3) Pode-se assinalar, ainda, como foi feito por alguns teólogos (por exemplo, Dabney e Vos), que o batismo de crianças também é um meio de graça para os pais que apresentam seu filho para o batismo. Serve para fortalecer-lhes a fé nas promessas de Deus, para produzir neles a certeza de que a criança pela qual se responsabilizaram tem direito de propriedade quanto à aliança da graça, e para fortalecer neles o senso de sua responsabilidade pela educação cristã do seu filho ou filha.

e. Extensão do batismo a filhos de descrentes. Naturalmente, só os filhos pequenos dos crentes são os objetos próprios do batismo de crianças. Todavia, o círculo tem-se ampliado de várias maneiras. (1) Os católicos romanos e os ritualistas da Igreja Anglicana partem da suposição de que o batismo é absolutamente essencial para a salvação, visto comunicar uma graça que, segundo eles, não pode ser obtida doutro modo. Daí, consideram seu dever batizar todas as crianças ao seu alcance, sem inquirir coisa alguma quanto à condição espiritual dos seus pais. (2) Alguns chamam a atenção para o fato de que a promessa se aplica aos pais, aos filhos e aos filhos dos filhos, até à milésima geração, Sl 105.7-10; Is 59.21; At 2.39. Em vista destas promessas, eles sustentam que as crianças cujos pais deixaram a igreja, não perderam por isso os seus privilégios como filhos da aliança. (3) Existem aqueles que exteriorizam a aliança, comensurando-a com o estado numa igreja-estado. Uma criança inglesa tem, nessa qualidade, igual direito ao batismo e à proteção do estado, independentemente da questão se os pais são crentes ou não. (4) Alguns assumiram a posição segundo a qual o fato de os pais serem batizados assegura aos seus filhos o direito ao batismo. Eles consideram a relação pessoal dos pais com a aliança como deveras insubstancial. Ocasionalmente as igrejas agiam em função desse princípio, e finalmente abrigaram uma classe de membros que não assumiam pessoalmente a responsabilidade da aliança, e, todavia, buscavam o selo da aliança para os seus filhos. Na Nova Inglaterra isto se tornou conhecido como aliança do meio caminho. (5) Finalmente, tem-se aplicado o princípio da adoção, com o fim de se obter batismo para crianças que doutro modo não teriam direito de recebê-lo. Se os pais não eram aptos ou não estavam dispostos a garantir a educação cristã dos seus filhos, outros podiam apresentar-se para garanti-la. Buscava-se a principal base para isto em Gl 17.12.

NOTAS:

* Referente à doutrina de Jean de Labadie (1610-1674), teólogo protestante que propugnava a transformação das igrejas reformadas em comunidades semelhantes à dos cristãos primitivos. Nota do tradutor.

** Excetuadas as igrejas pentecostais em geral, que tiveram maior desenvolvimento nas décadas recentes. Nota do tradutor.

[1] - The Sacraments in the New Testament, p. 204.

[2] - Life and Times of Jesus the Messiah II, p. 746.

[3] - Adv. Haereses II, 22, 4.

[4] - De Baptismo, c. XVIII.

[5] - Comm. In Epist. Ad Romanos, lib. B.

[6] - The Church of Christ II, p. 98.

*** Na expressão do tradutor desta obra, esse é um “silogismo, que é o busílis acabrunhador dos batistas” (opúsculo intitulado O Batismo Cristão, de Odayr Olivetti, Nanuque, MG, 6/10/1954, p. 15). Também é bom transcrever aqui as palavras finais do referido opúsculo: “Não façamos da Lógica trapézio, nem da Bíblia, mãe de sofismas. Busquemos nela a verdade e a vontade de Deus, e não a mentira e a vontade dos homens. Deus permita que os batistas sinceros possam ver a grande comissão de Jesus a Seus discípulos (Mc 16.15, 16), não uma fonte de discussões, confusões e contendas com outros cristãos, mas sim a ordem de evangelização, de pregação do Evangelho puro e repleto de amor, porque, como diz o Espírito Santo, pela boca do profeta e do apóstolo: ‘Quão suaves são sobre os montes os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, que anuncia o bem, que faz ouvir a salvação, que diz a Sião: O teu Deus reina!’ (Is 52.7); e ‘Quão formosos os pés dos que anunciam a paz, dos que anunciam coisas boas!’ (Rm 10.15)”. Nota do tradutor.

[7] Lord’s Day XXVII. Perg. 74.

[8] Inst. IV 16:6, 15.

**** Os símbolos de fé da Igreja Presbiteriana (que são os de Westminster) tratam do pedobatismo nas seguintes partes: Confissão de Fé, Capítulo XXVIII, Seções IV a VI; Catecismo Maior, Perguntas 166 e 167; e Breve Catecismo (ou Catecismo Menor), Pergunta 95. Nota do tradutor.

***** 1938. Nota do Tradutor.

[9] - P. 655.

[10] - Acts of Synod, 1908, p. 82, 83.

[11] - Het Verband van Doop em Wedergeboorte, p. 122, 123.

[12] - Geref. Dogm. IV, p. 581.

Autor: Louis Berkhof
Fonte: Teologia Sistemática do autor, pg. 637 Ed CEP.


Culto

Adorando a Deus do Modo Estabelecido Por ele

Deus dá o Primeiro passo na forma como ele deve e quer ser adorado (Ex 29:38-46). Devemos ter a convicção de que o culto é oferecido a ele, isso pode soar estranho, visto que podemos simplesmente pensar que o culto que prestamos é obviamente dirigido a Deus; não adoramos imagens, nem outros seres criados, estamos cumprindo rigorosamente os primeiros mandamentos (Ex 20:3-5). Podemos, quem sabe, pensar de forma aliviada: deste pecado estamos livres! Contudo, há outras formas de cometer o mesmo pecado. E para essas é necessário que estejamos mais atentos.

Jesus mostra que muitas orações dirigidas a Deus eram vãs (Mt 6:5-6,9). Muitos Judeus Ofereciam Orações aos homens mesmo usando o nome de Deus. Usar este nome não é garantia de estarmos nos dirigindo ele. Do mesmo modo, podemos estar tão atentos com a forma de nossas orações que nos esquecemos do Pai; é a ele que a oração é destinada; portanto, se cabe a ele julga-la. Nossa oração não necessita de publicidade para que Deus a ouça; ele vê em secreto e nos recompensa conforme o que vê (Mt 6:6) isso se aplica perfeitamente ao culto e á advertência feita por Deus: “Oferece a Deus sacrifício de ações de graça...” (Sl 50:14).

Mediante Isaías, Deus recrimina os judeus dizendo que eles sacrificavam porque gostavam de fazê-lo, não porque quisessem lhe agradar a pessoas ou a satisfazer nossos desejos pecaminosos de apresentar uma “aeróbica cultual” ou um “show-culto”. Deus julgará nossa oferta: devemos buscar o prazer de Deus, sua santa satisfação. Portanto a criatividade humana deve estar submissa a instituição divina. Assim a forma do Culto não pode ser determinada por um critério puramente estético ou sentimental, mas espiritual, teológico e racional: o culto deverá ser sempre na liberdade do Espírito e dentro dos parâmetros da Palavra (Jo 4.23-24; Fp 3.3). O  culto ao Senhor não pode ser a nosso bel-prazer, como quis Jeroboão e, de certa forma, Uzias, pois Deus o rejeita (1 Rs 12.33-13.5; 2Cr 26.16-210. Se queremos agradar ao Senhor, devemos procurar saber através da sua Palavra como ele deseja ser cultuado.

Comentando João 4.24, Calvino distingue entre o Deus que é “Espírito” e nós que somos “carne”, mostrando que não podemos simplesmente querer agradar a Deus com o que nos apraz, visto que “as coisas que agradam a maioria são objetos da Sua repugnância e aversão”; devemos ser modestos em juízos e atos, considerando “com suspeita tudo o que nos está satisfazendo de acordo com a carne.”[1]

Mas Deus seria mais espiritual no Novo Testamento que no Antigo, quando ele mesmo prescreveu diversos rituais para seu culto? Obviamente não. Devemos observar primariamente que, no aspecto litúrgico, a diferença entre o Antigo e o Novo Testamento estava mesmo no aspecto ritual, externo. A integridade exigida por Deus permanece a mesma: sempre desejou um culto responsável, sincero e comprometido com seus preceitos.

Portanto, podemos concluir: a adoração a Deus permite a adaptação cultural; no entanto, esta deverá ser sempre regulada pelos princípios explícitos das Escrituras, a palavra final para nosso pensar, agir e decidir.

Antes de o povo de Israel entrar na Terra Prometida, Deus o advertiu para que não imitasse o modelo pagão. Então, ele o exortou estabelecendo um princípio positivo que a nação deveria seguir: “Tudo o que eu te ordeno, observarás; nada lhe acrescentarás nem diminuirás” (Dt 12.32). Este é o princípio que deve governar nosso relacionamento com Deus: a obediência. O conhecimento de Deus é uma experiência de amor, que se revela em nossa obediência aos seus mandamentos. O que Deus requer unicamente de nós é a fidelidade aos seus preceitos: nada acrescentemos, nada tiremos.

Nota:

[1] Calvin’s Commentaries, vol. XVII, p. 164. Cf. O Livro dos Salmos, vol. 2, p. 226-227.

[2] Veja O Livro dos Salmos, vol. 1, p. 53. Cf. tb. As Institutas, I.17.5

Autor: Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

Fonte: Fundamentos da teologia reformada, pg. 132-133, Editora Mundo Cristão. Compre este Maravilhoso livro em www.mundocristao.com.br.

 


Liturgia

A palavra “liturgia” provoca arrepios em muitos evangélicos. Lembra um culto rígido, engessado, excessivamente formal, carente de espontaneidade e espiritualidade. No entanto, originalmente o termo não possuía essa conotação negativa. Ele vem do grego leitourgia (pronuncia-se “leiturguia”) e de início significava qualquer serviço prestado à coletividade ou a uma pessoa. Na versão grega do Antigo Testamento (a Septuaginta) referia-se ao ministério dos sacerdotes ou aos atos de culto realizados por eles. No Novo Testamente o substantivo aparece seis vezes, o verbo três e dois termos correlatos outras seis vezes. Em geral se refere ao culto da velha dispensação ou à assistência material aos irmãos (Lc 1.23;  Rm 15.27; 2 Co 9.12). Quase metade das ocorrências está na carta aos Hebreus, aludindo ao ministério de Cristo ou dos antigos sacerdotes judeus (Hb 8.6; 9.21; 10.11). Um uso mais especificamente cristão ocorre em Atos 13.2 e Fp 2.17. No Cristianismo antigo, passou a significar o serviço espiritual prestado a Deus cuja expressão mais nobre e elevada era oculto público.

Na igreja apostólica, como quase tudo o que se fazia naquele período inicial, o culto era singelo e informal. O Novo Testamento quase nada diz sobre uma forma de culto, ou seja, uma seqüência dos atos de adoração. Somente encontramos informações sobre os elementos cúlticos: leitura do texto sagrado, cânticos, orações, pregação, celebração da Ceia e invocação da bênção. Um dos testemunhos mais antigos e valiosos a respeito de uma ordem de culto é encontrado a Primeira Apologia de Justinho Mártir, em meados do 2º século: “No dia denominado dia do sol há uma reunião de todos aqueles que vivem tanto nas cidades como no campo. Ali se dá a leitura das memórias dos apóstolos ou das Escrituras dos profetas, até onde o tempo permite. Terminada a leitura, o presidente faz uso da palavra para nos admoestar e nos exortar à imitação e prática dessas coisas admiráveis. Logo nos levantamos e oramos juntos”. Em seguida, Justino descreve a celebração da Ceia e o recolhimento de ofertas para pessoas carentes.

Algumas décadas após o período apostólico, no final do 1º século ou inicio do 2º, começaram a surgir formas de culto mais elaboradas. Era natural que isso ocorresse, à medida que a igreja crescia e se consolidava. Uma das principais motivações para tal fato era de natureza estética. Entre outras características, o culto ao Todo-Poderoso devia ser belo e harmonioso, conforme a exortação do salmista: “Entoai-lhe novo cântico, tangei com arte e com júbilo” (Sl 33.3). A Didaquê, um manual eclesiástico do início do 2º século, dá testemunho desse fato. Ao se referir à celebração da Ceia do Senhor, esse documento menciona as mais antigas orações eucarísticas conhecidas, caracterizadas por seu rico conteúdo bíblico. Diz o texto: “No tocante à eucaristia, dareis graças desta maneira – primeiramente sobre o cálice: ‘Damos-te graça, Pai nosso, pela santa vinha de Davi, teu servo, que nos deste a conhecer por meio de Jesus, teu servo. A ti seja a glória eternamente’”. A seguir, vinham as palavras a serem ditas sobre o pão partido e, por último, a belíssima oração de ação de graças, que assim começava: “Damos-te graças, Pai nosso, por teu santo nome, que fizeste habitar em nossos corações, e pelo conhecimento, pela fé e pela imortalidade que nos revelaste mediante Jesus, teu servo. A ti seja a glória eternamente”.

Com o passar dos séculos, a liturgia foi se tornando cada vez mais complexa e ritualística. Foram introduzidos no culto elementos estranhos à Escritura, como invocações e louvores a Maria e aos santos, o entendimento da Eucaristia como um sacrifício e a adoração dos seus elementos. Todavia, os reformadores protestantes, apesar de sua critica das tradições religiosas sem fundamento bíblico, reconhecem a importância da liturgia. A tradição reformada foi particularmente enfática nesse sentido. Embora o culto zuingliano[Úlrico Zwínglio] na cidade de Zurique fosse extremamente sóbrio (“quatro paredes lisas e um sermão”), Calvino teve uma preocupação diferente.

Ele compôs para a Igreja de Genebra belíssimos “modelos de orações” para o culto dominical, para a celebração da Ceia do Senhor e para devoção domésticas. Inspirados pelo exemplo de Genebra, os reformados elaboraram sugestivas liturgias na França, Escócia, Inglaterra, Holanda e Alemanha, que foram utilizadas por muitas gerações de crentes (ver Charles W. Baird, As liturgias reformadas, Socep). Geralmente essas liturgias estavam associadas à observância do calendário cristão e ás leituras prescritas para todos os domingos do ano eclesiástico (o lecionário).

Hoje, as ordens de culto praticadas em muitas igrejas presbiterianas são podres e pouco criativas. Com freqüência, pessoas não-treinadas anunciam mecanicamente os atos do programa: “agora vamos ler em... agora vamos cantar o hino.. agora pedimos ao irmão tal para orar”. Poucos dirigentes de cultos estão conscientes da grande riqueza litúrgica legada pelo passado. Muitos pastores nem mesmo seguem os “Princípios de Liturgia” oficialmente aceitos pela denominação ou as sugestões do Manual de Culto.

È necessário que esse tema seja objeto de estudo, reflexão e debate, para que o culto público e a celebração dos sacramentos se tornem mais significativos e edificantes em nossas igrejas, refletindo as convicções bíblicas e teológicas da tradição reformada, e os bons exemplos da nossa história.

Autor: Rev. Alderi Souza de Matos – Pastor Presbiteriano e historiador oficial da IPB.

Fonte: Jornal Brasil Presbiteriano, pg. 5, edição 643, Maio de 2008. Assine este excelente jornal mensal em www.ipb.org.br.

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Refletindo sobre a Adoração e o Culto Cristão

 Introdução

Até mesmo uma análise simples e rápida sobre o tema em foco é suficiente para convencer-nos de que a "verdadeira adoração é a mais alta e nobre atividade da qual o homem, pela graça de Deus, é capaz."1 O tema "adoração" possui profundas implicações escatológicas, pois "desde que a adoração será central na vida do céu (Ap 4.8-11; 5.9-14; 7.9-17; 11.15-18; 15.2-4 e 19.1-10), ela deve ser central na vida da igreja na terra."2 Além do mais, o puritano John Owen nos lembra que a verdadeira adoração, ainda que oferecida na terra, é conectada nos céus.3 Outro elemento de importância da adoração é resultante da aplicação da máxima cristã lex orandi, lex credendi, cuja tradução pode ser "o que se ora, é o que se crê." Segundo este princípio, adoração e teologia caminham juntas e grande parte de nossa teologia (certa ou errada), é influenciada por nossa liturgia (forma de adoração).4 

Charles R. Swindoll e Mark Earey corretamente chamam nossa atenção para importantes efeitos interiores da verdadeira adoração. Swindoll relembra-nos que a adoração alarga nossos horizontes e nos descentraliza de nosso ego, enfraquece nossos temores, altera nossas perspectivas e nos mostra o lado digno do nosso trabalho diário.5 Neste sentido, Earey afirma que a adoração é potencialmente uma experiência de cura.6 Potencialmente, porque uma adoração corrompida traz mais enfermidades do que geralmente percebemos (1 Co 11.30). Finalmente, a verdadeira adoração é o objetivo e o combustível da atividade missionária.7 Ela é o objetivo no sentido de que missões almejam trazer pessoas ao regozijo e à adoração do verdadeiro Deus. Também, real comprometimento na obra missionária é fruto de um coração devotado ao Senhor. Portanto, missões começam e terminam com adoração.

Qualquer pesquisa sobre a adoração evidencia um renovado interesse neste assunto nos últimos dias.8 A grande força motora para a transferência de membros entre igrejas já não é mais o aspecto doutrinário, geográfico ou o ensino bíblico, mas o estilo de adoração e culto. Mark Earey lembra-nos que vivemos em uma cultura consumista e todos nós "assumimos que escolhemos nosso local de adoração da mesma maneira que escolhemos nosso local de compras ou de assistir a um filme…é tudo baseado nos nossos direitos ao invés de em nossas responsabilidades."9 Como resultado imediato, nada mais parece estável ou sólido em relação ao tópico da adoração cristã, mas a controvérsia domina nossa conversação sobre o assunto.10 Tudo isto nos leva a concluir que havia um elemento profético na afirmação do pastor canadense A. W. Tozer de que a verdadeira adoração "é a jóia perdida da igreja cristã."11 

O presente artigo propõe uma reflexão tridimensional sobre a adoração e o culto cristão. Tal reflexão envolve: 1) uma visão geral sobre o ensinamento bíblico a respeito do assunto, 2) uma análise de alguns dos principais fatores que têm desviado o foco cristão da verdadeira adoração, e 3) uma proposta de volta aos princípios teocêntricos existentes na adoração cristã. A pressuposição básica do autor, de que "a forma aceitável de se adorar o verdadeiro Deus é instituída por ele mesmo,"12 vem do Puritanismo inglês do século XVII. Assim, como em qualquer outro assunto relevante para a igreja cristã, o supremo juíz neste caso é o Espírito Santo falando nas Escrituras.13 Além disso, como o tema adoração é muito abrangente,14 nossa reflexão será focalizada sobre a adoração pública, ou seja, o culto cristão.

I. Adoração nas Escrituras

Adoração é um assunto dominante em toda a Escritura. No Éden, a recusa do homem em obedecer a Deus incondicionalmente foi, num certo sentido, a recusa a uma adoração incondicional ao Senhor com base em sua vontade revelada (Gn 3.1-6). Por outro lado, o livro do Apocalipse descreve o destino final da igreja como uma comunidade adoradora na presença do Senhor (Ap 19.1-8). A adoração como uma responsabilidade universal é um dos principais temas dos Salmos (22.27; 29.2; 66.4; 86.9; 95.6; 96.9, etc). Além do mais, os dois primeiros dos dez mandamentos convidam e dão as diretrizes para uma verdadeira adoração (Ex 20.1-6). A adoração corrompida e a idolatria estão entre as causas principais da manifestação do julgamento divino (2 Rs 17.7-20; 2 Cr 26.16-20; Is 1.11-17; Am 4.4-11; Rm 1.21-32, etc.).

No Antigo Testamento, portanto, a adoração era um dos alvos centrais na vida do povo de Deus. A construção e o lugar do Tabernáculo em Israel, por exemplo, evidenciam a ênfase na prioridade da adoração. Neste sentido, é interessante observar que cerca de 40 capítulos das Escrituras são dedicados à descrição, construção, dedicação e uso do Tabernáculo, enquanto que apenas dois são dedicados ao relato da criação. Além do mais, o Tabernáculo era posicionado no centro do acampamento israelita (Nm 1.52-53 e 2.1-2), como referência à centralidade do culto para a nação. Podemos concordar, portanto, que a "tipologia do Antigo Testamento dá um lugar proeminente à adoração."15 

No Novo Testamento, o anúncio e nascimento do Messias é respondido com adoração por Maria (Lc 1.46-56), Zacarias (Lc 1.68-79), os pastores e a milícia celestial (Lc 2.8-16), os magos (Mt 2.11) e Simeão (Lc 2.28-35). Em recusa à proposta de Satanás, Jesus cita enfaticamente as Escrituras: "Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele darás culto" (Lc 4.8). Jesus também evidenciou zelo pelo local dedicado ao culto público através da purificação do templo (Jo 2.13-17 e Mt 21.12-17). Ele ainda ensinou à samaritana que a verdadeira adoração deve ser em espírito e em verdade (Jo 4.23-24), ultrapassando barreiras geográficas e culturais. E, mais uma vez, confirmando sua divindade aos discípulos, ele aceitou adoração (Jo 20.28).

A Igreja Primitiva continuou olhando para a adoração como uma atividade diária e constante (At 2.42-47). Para os primeiros discípulos, como diz Mark Earey, "a adoração não era um tempo separado na vida diária; ela era a própria vida diária."16 Os acontecimentos imediatos à conversão de Paulo também nos ensinam que somos salvos para adorar (At 9.11).17 O próprio apóstolo Paulo referiu-se mais tarde à vida cristã como um contínuo ato de adoração (Rm 12.1-2). E em Hebreus temos explícito mandamento quanto à necessidade da adoração pública do povo de Deus (Hb 10.25). Por fim, o imperativo "adora a Deus" é uma das últimas admoestações do livro do Apocalipse (Ap 22.9).

Estes dados da Bíblia conduzem-nos a uma série de conclusões com respeito à adoração. Primeiro, Deus deseja adoração. Na verdade, ele ordena que o adoremos (Mt 4.10), e ele próprio busca seus adoradores (Jo 4.23). É no contexto de adoração que o Senhor se revela como um Deus ciumento (Ex 20.4-5). Em vista disto, Everett F. Harrison afirma que "nenhuma ofensa a Deus se compara com o ato de negar sua singularidade e transferir a outro o reconhecimento [adoração] devido a ele."18 Em segundo lugar, somente Deus deve ser adorado. Esta verdade foi ressaltada por Jesus (Mt 4.10) e é a essência dos dois primeiros mandamentos (Ex 20.3-5). Neste sentido, Clowney nos lembra que "a adoração torna-se primeiramente corrompida, não com a prostituição cultual ou rituais de sangue e sensualidade, mas na recusa humana em reconhecer o único e digno de absoluta e incondicional devoção."19 Posto que é tão fácil cair nesse erro, a existência de uma adoração cristã corrupta é uma possibilidade sempre presente.

Uma terceira conclusão sobre a Bíblia e a adoração é o fato de que a verdadeira adoração é uma marca da fé salvadora. Um claro exemplo dessa verdade encontra-se em Filipenses 3.3, em que Paulo descreve três características da fé cristã: 1) a independência da carne, 2) a glória em Cristo, e 3) a adoração a Deus no Espírito. Intimamente relacionado com este princípio é o fato de que a adoração é uma atividade privada e corporativa. As duas coisas não são mutuamente exclusivas, mas recebem ênfase semelhante nas Escrituras (Mt 6.6 e Hb 10.25). A salvação é individual, mas não nos confina ao individualismo nem ao isolamento. Como disse Matthew Henry: "A adoração pública não nos dispensa da adoração privada."20 O culto público é apenas uma porção da nossa vida de adoração.

O quarto princípio explicitamente mencionado nas Escrituras é o de que nem toda adoração agrada a Deus. Há sempre o perigo de trazermos um "fogo estranho" diante do altar e trono do Senhor (Lv 10.1-2) e contra o mesmo devemos estar sempre em guarda. Não apenas a adoração a falsos deuses é proibida nas Escrituras, mas também a adoração ao verdadeiro Deus com uma atitude errada (Ml 1.7-10; Is 1.11-15; Os 6.4-6; Am 5.21; Mt 5.23-26, etc.). Foi o entendimento dessa verdade que levou o reformador João Calvino a classificar a adoração distorcida como uma das necessidades de reforma da igreja cristã.21 

II. Riscos de Distorções

Em Levítico 10 temos o registro não apenas da morte de Nadabe e Abiú, mas também somos instruídos sobre o fato de que o "fogo estranho" que eles trouxeram perante o Senhor consistia naquilo que era contrário aos mandamentos divinos quanto à adoração. Paulo repreendeu os cristãos de Corinto porque eles não se ajuntavam "para melhor, e sim para pior" (1 Co 11.17), e o mesmo fez Amós com a nação de Israel (Am 4.4). Referências como essas — sobre a ira divina quanto a uma adoração distorcida — podem ser facilmente multiplicadas.

Atualmente o grande interesse sobre o tema da adoração, as divergências sobre o assunto e as feridas causadas por discussões passadas são fortes indícios de que o enfoque cristão desse assunto tem sido distorcido em grande escala. John H. Amstrong, o editor da revista Reformation and Revival, acusa grande parte da adoração moderna de ser "McAdoração," ou seja, comparando-a a um lanche popular, a algo produzido em escala industrial.22 Concordando com esta opinião, Earey afirma que o público evangélico atual espera que as igrejas "providenciem um menu de diferentes e divergentes estilos de adoração e experiência."23 Porém, a perspectiva cristã bíblica e histórica sobre adoração não vê o culto público como focalizado na esperteza ou criatividade humana, mas na santidade de Deus.24 É imprescindível corrigir o que temos feito de errado em termos de adoração; não apenas ter uma visão panorâmica sobre o assunto, mas também uma diagnose dos elementos de erro em nosso meio.

Mencionaremos apenas alguns dos erros mais comuns entre o povo cristão, no que diz respeito à adoração. Uma mente zelosa e observadora certamente será capaz de diagnosticar outros tantos em seu próprio contexto imediato. A importância desse exercício pode ser vista, em parte, na conexão existente entre adoração e teologia. Assim como nossa teologia é influenciada por nossa liturgia (adoração), nossa liturgia, em certo ponto, é um reflexo de nossa teologia. Como resultado direto, uma teologia corrompida produzirá uma adoração distorcida. E como disse Calvino, "a adoração divina marcada por tantas opiniões falsas, e pervertida por tantas superstições ímpias e tolas, insulta a majestade sagrada de Deus com atrocidades, profana seu nome e sua glória."25

Um dos erros explícitos no meio cristão, especialmente refletido em nossa adoração, vem da influência do existencialismo. Ainda que o existencialismo seja uma filosofia abrangente e complexa, podemos afirmar que sua essência consiste na ênfase na experiência, antes que na razão.26 A porta de entrada desta filosofia no meio protestante tem sido atribuída ao trabalho de Heidegger, Schleiermacher e até mesmo ao movimento carismático nos anos recentes.27 A influência existencialista na adoração cristã é evidenciada pela atual ênfase aos sentimentos. Neste sentido, a liturgia contemporânea tem sido fortemente acusada de ser um meio para se atingir emoções.28 Assim é que grande parte dos nossos cânticos e hinos são instrumentos de auto-ajuda e auto-aceitação, e muitas das nossas orações são meios de auto-reconciliação. O resultado final é que podemos ir para casa "descarregados" e nos sentindo bem, mas sem termos adorado verdadeiramente.

Outro elemento estranho presente na adoração contemporânea é a ênfase humanística. James M. Boice corretamente afirma que nossa geração é centralizada no homem e infelizmente "a igreja, traiçoeiramente, tem se tornado egocêntrica."29 Um dos meios pelos quais essa ênfase humanística em nosso meio se manifesta é através de nossa busca frenética por entretenimento. Vivemos em uma era tecnológica onde a distração e o entretenimento tornaram-se a ordem do dia.30 Como filhos desta nossa geração, exigimos que cada momento do culto venha satisfazer nossas necessidades. Neste contexto, o culto foi transformado em um "programa" e o desejo de se obter "felicidade" é certamente maior do que o de se obter "santidade." Queremos avidamente alegria, mas o comprometimento tornou-se secundário. Julgamos o culto como "agradável," não com base na instrução bíblica apresentada, mas no grau de "satisfação" pessoal alcançada. Assim, nossa pregação tornou-se uma homilética de consenso, na qual a boa mensagem não é a que confronta nossos pecados, mas a que nos faz sentir melhor. Além do mais, os sermões tornaram-se mais curtos porque nossa atenção e memória são curtas.31 Neste sentido, J. I. Packer observa: "Geralmente reclamamos que os ministros não sabem como pregar; mas não é igualmente verdade que nossas congregações não sabem mais como ouvir?"32 Temos que concordar com Mark Earey que o grande perigo dessa adoração é o de "usar a Deus, antes que atribuir-lhe" a devida glória.33 

Um terceiro elemento de erro em nosso meio é a presença deísta em nossa praxis christiana. Popularmente falando, o deísmo é identificado como a filosofia do "criador remoto" que não interfere na criação, mas a governa através de leis pré-estabelecidas.34 Esta filosofia tem visitado o meio cristão em diferentes roupagens ao longo dos anos: gnosticismo,35 teologia do processo,36 etc. Nos últimos dias, porém, ela tem ressurgido no meio cristão sob a presunção de que, uma vez tendo "tomado posse" das promessas divinas para nós, podemos "reclamar" nossos direitos junto ao trono do Pai. A idéia é que, uma vez cumpridos os requisitos (as leis espirituais), Deus passa a estar à nossa mercê. Com isto, acreditamos na ilusão de que nossas palavras têm poder e o que "declaramos," ou "profetizamos" sobre a vida uns dos outros, e mesmo sobre a nossa vida individual, certamente acontecerá.

Por último, nossa liturgia e adoração são marcadas por uma forte dose de pragmatismo. A pressuposição central da filosofia pragmatista é que nenhuma verdade é auto-evidente. Assim, verdade e significado são dependentes de verificações empíricas, ou seja, de um teste prático.37 Se um princípio "funciona" (atende à função desejada), julgamos ser verdadeira a proposição. Uma decisão sob bases pragmáticas é uma decisão tomada não pela essência, mas pelo efeito (resultado) causado na maioria do povo cristão. John MacArthur, Jr. é um dos que levantam a voz para denunciar a influência pragmática em nossa adoração pública. Segundo ele, tudo o que queremos saber neste sentido é "se funciona…queremos fórmulas… e em algum lugar nesse processo, deixamos aquilo para o que Deus tem nos chamado."38 No que diz respeito à adoração, como em tantas outras áreas, a aplicação deste princípio pode ser desastrosa, pois o juiz supremo passa a ser um grupo de pessoas e não o Espírito Santo. Além do mais, ainda que um estilo "funcione" em um determinado grupo, a decisão com base nos resultados é nada mais que uma conformação ao presente século (Rm 12.2).

A presença destes elementos de erro em nossa adoração produz dois resultados imediatos. A adoração, que deveria ocupar o centro de nossa vida cristã, "sendo secularizada, é incapaz de nutrir, edificar, desafiar, inspirar ou formar" nossa espiritualidade.39 E como outros no passado, podemos estar atraíndo sobre nós maldições e não bênçãos ao apresentarmos "fogo estranho" diante do Senhor em adoração.

III. Redescobrindo a Jóia Perdida

Em alguns lugares a verdadeira adoração tem sido há muito uma jóia perdida na igreja.40 Mas essa preciosidade não precisa continuar perdida.41 Redescobri-la, porém, pode ser mais difícil do que parece. Como nos lembra James M. Boice, "o desastre que tem tomado a igreja em nossos dias, com respeito à adoração, não será curado de um dia para o outro."42 Há, porém, certos passos básicos que contribuirão para o sucesso final do nosso esforço neste sentido.

Primeiro, é mister que se entenda o que estamos perdendo com uma adoração distorcida. Segundo as Escrituras, o que perdemos não é uma congregação numerosa, nem uma cerimônia mais elaborada, mas a presença do próprio Deus em nossa adoração (Is 1.15). A presença de Deus na adoração é uma das maiores bênçãos do povo cristão (2 Cr 5.13-14). É neste contexto da presença divina na adoração que o salmista declara: "A minha alma suspira e desfalece pelos átrios do Senhor; o meu coração e a minha carne exultam pelo Deus vivo!" (Sl 84.2). E ainda: "Um dia nos teus átrios vale mais que mil, prefiro estar à porta da casa do meu Deus, a permanecer nas tendas da perversidade" (v. 10). É sempre importante lembrar que após a manifestação da graça, esta bênção assumiu dimensões maiores e "pelo novo e vivo caminho" que Jesus nos consagrou, somos exortados a nos aproximar da presença do Senhor com "sincero coração e plena certeza de fé" (Hb 10.19-22). Como dizia John Owen, "na primeira entrega da lei, na instituição legal da adoração, as pessoas foram instruídas a guardar certa distância." Sob o pacto da graça, "a adoração é o nosso acesso, o nosso aproximar de Deus sem nenhum véu."43 O escritor de Hebreus diz que no ato da adoração chegamos à cidade do Deus vivo (Hb 12.22).44 

Assim, a maior perda envolvida em uma adoração distorcida é a presença do Adorado. Esta perda resulta em outras, segundo as Escrituras. Por exemplo, perdendo a presença de Deus na adoração perdemos, além de outras coisas, a plenitude de alegria (Sl 16.11), o socorro divino (2 Cr 20.21-22) e o elemento eficiente no testemunho evangelístico de que Deus está em nosso meio (1 Co 14.25). Além do mais, quando esta perda ocorre, há o sentimento constante da reprovação divina sobre nossos atos de culto (Is 1.11-15). O só meditar nestas coisas deveria levar-nos a um profundo lamento (1 Sm 4.21-22).

Em segundo lugar, a tentativa de redescobrir a jóia perdida implica em uma volta aos princípios teocêntricos da adoração bíblica. Paul Basden nos lembra que "a adoração que é digna de seu nome deve ser teocêntrica."45 Nesta mesma linha de raciocínio, Manson afirma que "no coração da adoração cristã está o próprio Deus."46 Este aspecto teocêntrico na adoração pode ser resumido em dois sub-tópicos claramente ensinados nas Escrituras: 1) é a glória divina que requer nossa adoração, e 2) é a vontade divina que normatiza nossa adoração.

Com relação ao primeiro aspecto, Edmund Clowney corretamente afirma que "nem religião nem adoração podem ser definidas à parte de Deus, pois a adoração é a resposta da criatura à glória revelada do Criador."47 Idolatria é deixar de glorificar a Deus e mudar "a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível" (Rm 1.21 e 23). Logo, a fim de redescobrirmos a verdadeira adoração cristã é imprescindível que tenhamos em mente os meios pelos quais Deus revela sua glória a nós. Neste sentido, as Escrituras primeiramente afirmam que "os céus proclamam a glória de Deus" (Sl 19.1). Um simples trovão manifesta o seu poder (Sl 29.3) e desde o princípio do mundo pode-se reconhecer sua divindade, poder e sabedoria por meio das coisas criadas (At 14.15-17; 17.24-28 e Rm 1.20-21). Além do mais, Deus manifesta sua glória através de seus muitos nomes registrados nas Escrituras. Ele é o Altíssimo (Sl 83.18), o Deus-que-vê (Gn 16.13), um escudo (Sl 84.11), o Senhor dos Exércitos (1 Sm 4.4), etc. Como diz Clowney, "os nomes de Deus são símbolos para adoração."48 

O Senhor também manifesta sua glória através de seus atos salvadores. Em resposta à libertação do povo hebreu do cativeiro egípcio, a nação adorou ao Senhor (Ex 15). E em forma de canto, a história da salvação divina era passada às novas gerações em diferentes ocasiões (Sl 105). No Novo Testamento, a glória divina é maravilhosamente demonstrada na "grande salvação" que ele nos proporciona em Cristo Jesus (Hb 2.3). Mas a glória divina é supremamente manifesta na revelação de sua graça em Jesus (Jo 1.14-18). Neste contexto da graça revelada, à medida que contemplamos, "como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito" (2 Co 3.18). Cada um desses meios de manifestação da glória divina é um convite aberto à verdadeira adoração.

Os princípios teocêntricos da adoração cristã nos ensinam que a vontade divina normatiza a verdadeira adoração. Com este princípio em mente, os puritanos enfatizaram que em adoração, assim como em doutrina, a igreja não pode ultrapassar a verdade de Deus revelada nas Escrituras.49 É interessante observar que no Antigo Testamento Israel não foi proibido de adquirir métodos agrícolas ou arquitetônicos dos cananeus, mas houve explícita proibição de que copiasse qualquer aspecto da adoração pagã (Dt 12.30-32). Com base neste fato, Clowney observa que "a igreja tem autoridade para estabelecer a ordem da adoração (1 Co 14.40), mas não tem a liberdade de introduzir novos elementos além dos que Deus tem ordenado."50 Neste sentido Boice sugere que adorá-lo em "Espírito e em verdade" está relacionado com: 1) um profundo exercício de sinceridade, 2) uma aproximação baseada na revelação bíblica, e 3) uma aproximação cristocêntrica.51 Em outras palavras, temos que sempre lembrar que Deus nos convida à adoração nos seus termos, não nos nossos.

Outro meio que temos para redescobrir a verdadeira adoração é olhar para os santos do passado. A urgência desta atividade encontra-se em acusações como a de Robert Webber de que a adoração cristã "curvou-se à cultura ao invés de ter-se mantido fiel às tradições bíblica e histórica."52 Como nossa intenção neste artigo não é cobrir variados períodos da história da igreja, nos deteremos no puritanismo inglês do século XVII desde que há um consenso geral de que o mesmo deu "forte ênfase na pureza da adoração bíblica e política eclesiástica."53 Leland Ryken nos lembra que o "nome puritano refere se primeiramente ao desejo de purificar a Igreja da Inglaterra dos vestígios católicos na adoração e na forma de governo da igreja."54 De acordo com J. I. Packer, os puritanos apresentavam-se para a adoração pública como que apresentando-se ao próprio Deus.55 É certo que eles tiveram algumas divergências internas neste tópico,56 mas mesmo tais divergências não os fizeram perder de vista o essencial na adoração.57 

Desde que a adoração no Puritanismo era vista como uma aproximação a Deus, toda a liturgia era formulada visando edificação (1 Co 14.26). Como resultado, o culto puritano era caracterizado por dois princípios: simplicidade e biblicidade. Referindo-se à simplicidade no culto puritano, diz Ryken: "O culto puritano como um todo era marcado pelo esforço em despojar-se do supérfluo e concentrar-se no essencial, o que evidenciava o ideal de edificação."58 Naquele contexto, a exposição bíblica era a mais solene e exaltada atividade, sendo também o teste supremo do ministro.59 Assim, a simplicidade era para eles uma proteção contra as vaidades da alma, e as Escrituras, uma proteção contra as distorções fantasiosas. Com respeito à ordem do culto, Alan Clifford afirma que no culto puritano a pregação, o conteúdo das orações, o cântico dos Salmos e a guarda do domingo constituíam elementos de distinção especial na época.60 Além do mais, porque na adoração o cristão não apenas busca a Deus, mas também o encontra, a adoração era vista pelos puritanos como um meio de graça, onde o faminto é alimentado.61 John Owen evidencia este ponto ao dizer que na adoração, Cristo "toma os adoradores pelas mãos e os conduz à presença de Deus; e apresentando-os lá ele diz: ‘Eis-me aqui, e os filhos que Deus me deu’."62 Tal abordagem da adoração cristã sempre deveria nos motivar e instruir.

Finalmente, uma redescoberta da verdadeira adoração inclui a aplicação do amor cristão para solucionar divergências secundárias. O refomador Calvino entendeu que nesta matéria, como em vários outros assuntos importantes para a igreja cristã, há aspectos primários e aspectos secundários. Quanto aos aspectos primários da adoração, ou seja, aqueles que dizem respeito à retidão do cristão, à majestade de Deus, e qualquer outro assunto necessário à salvação, "somente o Mestre deve ser ouvido."63 Em aspectos secundários, ou seja, assuntos que não são necessários à salvação e costumes de diferentes povos e gerações, não deveria haver imposição de mudanças, por causas insuficientes. Assim ele conclui dizendo que o "amor julgará melhor entre o que danifica e o que edifica; e se deixarmos o amor ser o nosso guia, tudo estará salvo."64 Outro exemplo deste mesmo princípio vem de John Owen em seu tratado sobre divisões entre cristãos. Naquela obra Owen confessa: "Eu preferiria gastar todo o meu tempo e meus dias curando as feridas e divisões entre os cristãos do que gastar uma hora procurando justificá-las."65 Tais ilustrações de sabedoria são não apenas bem-vindas, mas urgentemente necessárias em nossa discussão sobre adoração.

Conclusão

Nesta nossa reflexão sobre adoração e culto cristão temos procurado mostrar que o assunto é essencialmente espiritual e digno de nossa atenção especial. Por sua natureza espiritual, a verdadeira adoração só é possível quando impulsionada pela obra do Espírito Santo dentro de nós (Jo 4.23-24). Além do mais, os passos a serem tomados para uma redescoberta da verdadeira adoração são exercícios altamente espirituais e contradizem profundamente nossa natureza e impulsos carnais. Mas a verdadeira adoração sempre exaltará Cristo (Ap 5.12), transformará o adorador (2 Co 3.18-19), convencerá o incrédulo da presença do adorado entre os adoradores (1 Co 14.24-25) e invocará o "amém" de cada um dos servos de Deus. Ainda, a verdadeira adoração nos capacita para o testemunho e o serviço diário na seara do Mestre. Como diz Armstrong: "Não estamos no negócio de construir mosteiros evangélicos, mas congregações que servirão o verdadeiro Deus como resultado direto da adoração."66

Finalmente, temos que admitir que, de acordo com as Escrituras e a história cristã, adorar a Deus corretamente exige tempo e humildade. Preparação é essencial. Examinar nossas intenções e avaliar nossas ações devem ser exercícios constantes em nossa vida de adoradores (Sl 66.18 e 131). Além do mais, nosso coração deve ser continuamente guardado contra o egocentrismo a fim de que possamos dizer: "Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória" (Sl 115.1). É somente adorando o Senhor de modo verdadeiro que seremos encontrados por ele e, como disse Richard Baxter: "Se é a Deus que você está buscando em sua adoração, você não ficará satisfeito sem Deus."67 

 English Abstract

The author begins by emphasizing the importance of adoration in Christian worship and its positive effects on spiritual life. After a survey of the biblical data on the subject, Santos concludes that: 1) God wants to be worshipped; 2) only God should be worshipped; 3) true worship is the mark of saving faith; and 4) worship is both private and public. Then, he expounds the main distortions in Christian worship and adoration caused by the impact of existentialism, humanism, deism and pragmatism on evangelicals today. He ends by suggesting a few steps for recovering the lost jewel of worship, which include: 1) consciousness of what we lose when we distort biblical worship; 2) a return to the theocentric principles of worship prescribed in Scripture; 3) an examination of church history in order to see how saints of the past worshipped God – especially the Puritans; 4) an attempt to deal with our secondary differences regarding worship in a loving spirit. Santos is convinced that true worship requires time, humility, and self-examination.

Notas

1 John R. W. Stott, Christ the Controversialist: A Study in Some Essentials of Evangelical Religion (Londres: Tyndale, 1970), 160. 

2 J. I. Packer, Concise Theology (Wheaton: Tyndale, 1993), 99.

3 John Owen, The Works of John Owen (Carlisle: The Banner of Truth, 1990), IX: 77.

4 Maiores detalhes em Don E. Saliers, Worship as Theology (Nashville: Abingdon, 1994).

5 Charles R. Swindoll, Growing Deep in the Christian Life (Portland: Multnomah, 1977), 397.

6 Mark Earey, "Worship – What Do We Think We Are Doing," em Evangel 16 (Primavera 1998), 10.

7 John Piper, Let the Nations be Glad! (Grand Rapids: Baker, 1993), 11.

8 A abundante literatura sobre esse tópico é suficiente para desestimular qualquer pretenção de se dar uma resposta precisa a todas as perguntas levantadas sobre o mesmo. Ver maiores detalhes em Ronald Allen, Worship: Rediscovering the Missing Jewel (Portland: Multnomah, 1982).

9 Earey, "Worship," 8.

10 Edmund P. Clowney, The Church (Downers Grove: Intervarsity Press, 1995), 117.

11 Ver A. W. Tozer, The Best of A. W. Tozer (Grand Rapids: Baker, 1995), 217-222.

12 Confissão de Fé de Westminster, XXI.i.

13 Ibid., I.x.

14 O termo "adoração" pode ser usado em um triplo sentido: 1) público, 2) familiar e 3) individual. D. S. Whitney, Spiritual Disciplines for the Christian Life (Colorado Springs: Navpress, 1991), 79-91.

15 A. P. N. D. Gibbs, Worship (Kansas City: Walterick, s. d.), 69.

16 Earey, "Worship," 11.

17 Nesse caso, uma das evidências usadas para confirmar a Ananias a conversão de Paulo foi o fato de que ele estava orando.

18 Everett F. Harrison, "Worship," em Baker’s Dictionary of Theology (Grand Rapids: Baker, 1960), 561.

19 Clowney, The Church, 118.

20 Citado por John Blanchard, Gathered Gold (Welwyn: Evangelical, 1984), 344.

21 João Calvino, The Necessity of Reforming the Church (Dallas: Protestant Heritage, 1995), 16.

22 John H. Armstrong, "How Should We Then Worship?," Reformation and Revival 2 (Inverno 1993), 9.

23 Earey, "Worship," 8.

24 Armstrong, "How Should We Then Worship?," 11.

25 Calvino, Necessity of Reforming the Church, 151.

26 E. D. Cook, "Existencialism," em New Dictionary of Theology (Downers Grove: Intervarsity Press, 1988), 243.

27 David L. Smith, A Handbook of Contemporary Theology (Wheaton: BridgePoint, 1992), 117-132.

28 John Leach, "Scripture and Spirit in Worship," Evangel 16 (Primavera 1998), 13.

29 J. M. Boice, "Whatever Happened to God?" em Modern Reformation (Jul-Ago 1996), 13.

30 Armstrong, "How Should We Then Worship?," 9-10.

31 Boice, "Whatever Happened to God?," 14.

32 J. I. Packer, A Quest for Godliness (Wheaton: Crossway, 1990), 254.

33 Earey, Worship, 11.

34 S. N. Williams, "Deism," em New Dictionary of Theology, 190.

35 Ronald H. Nash, Christianity and the Hellenistic World (Grand Rapids: Zondervan, 1984), 203-61.

36 Smith, Handbook of Contemporary Theology, 150-164.

37 M. E. Alsford e S. E. Al, "Pragmatism," em New Dictionary of Christian Ethics and Pastoral Theology (Downers Grove: Intervarsity Press, 1995), 682.

38 John MacArthur Jr., The Ultimate Priority (Chicago: Moody, 1983), 21.

39 Robert E. Webber, "Preconditions for Worship Renewal," Evangelical Journal 9 (1991): 5.

40 Swindoll, Growing Deep, 390.

41 Allen, Worship, 18-19.

42 Boice, "Whatever Happened to God?," 15.

43 Owen, Works, IX: 58.

44 O v. 28 deste capítulo revela que esta afirmação foi feita em um contexto sobre adoração. O termo grego latreomen é um dos termos traduzidos por "adoração" no Novo Testamento e na Septuaginta.

45 Paul Basden, "The Theology and Practice of Worship," The Theological Educator 57 (Primavera 1998): 85.

46 P. D. Manson, "Worship," New Dictionary of Theology, 730.

47 Clowney, The Church, 118.

48 Ibid., 119.

49 Confissão de Fé de Westminster, XX.2.

50 Clowney, The Church, 122.

51 J. M. Boice, Foundations of the Christian Faith (Downers Grove: Intervarsity Press, 1986), 592.

52 Webber, "Preconditions for Worship Renewal," 4.

53 I. Breward, "Puritan Theology," em New Dictionary of Theology, 550.

54 Leland Ryken, Wordly Saints (Grand Rapids: Zondervan, 1990), 111.

55 Breward, "Puritan Theology," 245.

56 Alan Clifford, "The Westminster Directory of Public Worship (1645)," em The Reformation of Worship (Londres: The Westminster Conference, 1989), 54-56.

57 Packer, A Quest for Godliness, 246.

58 Ryken, Wordly Saints, 120.

59 William Perkins, The Art of Prophesying (Carlisle: Banner, 1996), 3.

60 Clifford, "Westminster Directory," 65-70.

61 Packer, A Quest for Godliness, 252.

62 Owen, Works, IX: 58. Ver Isaías 8.18.

63 João Calvino, Institutes of Christian Religion (Filadélfia: Westminster, 1960), IV.x.30.

64 Ibid., IV.x.30.

65 Owen, Works, XIII: 95.

66 Armstrong, "How Should We Then Worship?," 16.

67 Richard Baxter, A Christian Directory (Morgan: Soli Deo Gloria, 1996), 551.

Autor: Rev. Valdeci dos Santos 

Fonte: Third millenniem Ministries – português - http://thirdmill.org/portuguese/  


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Vox Dei: A Teologia Reformada da Pregação

Rev. Paulo R. B. Anglada

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Disciplina

A Excomunhão
Mt 7.1-5; 1 Co 5.1; 1 Co 11.27-32; 1 Tm 1.18-20; 1 Tm 5.19,20; 1 Pe 4.8

Ser excluído da igreja de Cristo é um fato lamentável. Contudo só existe um pecado tão grave que autoriza a deposição do corpo de Cristo. É o pecado da impenitência*. Há uma multidão de pecados suficientemente graves para requererem disciplina eclesiástica. Entretanto, visto que a disciplina eclesiástica é um processo de vários passos, sendo a excomunhão o último, o único pecado que pode levar-nos a esse ponto é recusa em arrepender-se do pecado que iniciou todo o processo.

A excomunhão é a mais  extrema medida disciplinar da igreja. Impõe a exclusão do pecador impenitente da comunhão com fiéis. A doutrina derivasse do ensino de Jesus sobre ligar e desligar (Mt 16.19; 18.15.15-20; Jo 20.23). A responsabilidade pela disciplina foi dada à igreja. A passagem de Mateus 18, contudo relaciona três passos que devem ser dados antes da excomunhão. Primeiro, o pecador deve ser corrigido em particular. Se tal procedimento falhar, ele  deve ser corrigido na presença de testemunhas. Isso assegura que o acusador, no primeiro estágio, não esteja equivocado nem pronuncie acusações caluniosas. Terceiro, o pecador deve ser levado diante de toda a comunidade dos crentes. Se isso também fracassar, a igreja deve interromper a comunhão com o ofensor.

Devemos notar que a excomunhão jamais deve ser aplicada com sentimento de retaliação. Todo o processo, inclusive a excomunhão, é uma forma de  disciplina destinada a levar o impenitente de volta ao aprisco. No caso de excomunhão, a parte culpada é entregue ao diabo. A intenção não é punir, mas despertar o culpado para o seu pecado. João Calvino defenda que a disciplina eclesiástica é a "melhor ajuda" para a sã doutrina, para a ordem e para a unidade.

A Confissão de Westminster enumera cinco propósitos para a excomunhão;

     As censuras eclesiásticas são necessárias para chamar e ganhar (para Cristo) os irmãos transgressores, a fim de impedir que outros pratiquem ofensas semelhantes, para lançar fora o velho fermento que poderia corromper a massa inteira, para vindicar a honra de Cristo e a santa profissão do Evangelho, e para evitar a ira de Deus, a qual, com justiça, poderia cair sobre a Igreja, se ela permitisse que o pacto divino e seus elos fossem profanados por ofensores notórios e obstinados. Art 30.3

É provável que esta lista possa ser cuidadosamente reduzida a duas razões primárias: preocupação com alma do pecador e preocupação com a saúde da igreja.

 A disciplina eclesiástica é ordenada por Cristo, e esta é uma questão que exige grande prudência. A igreja pode incorrer em dois tipos de erro: pode tornar-se complacente demais e deixar de disciplinar os que escandalizam a fé, ou pode tornar-se severa demais e deixar de lado a misericórdia ordenada por Deus.

A disciplina eclesiástica não deve tratar de assuntos triviais ou sem importância. As trivialidades podem ser uma fonte de ruína no seio do povo de Deus. Somos chamados para nutrir um espírito de paciência e de longanimidade uns para com os outros, assim como Deus é paciente conosco. A Bíblia nos chama para  o exercício daquele amor que "cobre um multidão de pecados".

*Falta ou não ter arrependimento.

Sumário
1. A excomunhão é o último recurso na disciplina eclesiástica.

2. O único pecado que finalmente resulta em excomunhão é a impenitência.

3. Cristo instituiu o processo de disciplina eclesiástica.

4. O objetivo da excomunhão é a restauração do ofensor e a proteção da igreja.

5.  A disciplina eclesiástica não deve ser complacente demais nem severa demais.

6. Os cristãos devem exercer o amor que é paciente e longânimo.

Autor:  R. C. Sproul
Fonte: 3º Caderno Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. Editora Cultura Cristã. Compre este excelente livro em www.cep.org.br.


Disciplina
A Igreja deve apoiar os padrões dos Cristãos

Se teu irmão pecar (contra ti), vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano”. Mateus 18.15-17

O conceito cristão de disciplina tem a mesma amplitude da palavra latina disciplina, que significa toda a extensão dos métodos educativos, instrucionais e de treinamento que a formação de um discípulo requer. Quando a teologia Reformada ressalta a importância da disciplina na igreja, insistindo que não há saúde espiritual sem ela e que ela é uma marca vital da verdadeira igreja, ela tem mais coisa em mente do que processos punitivos contra pessoas imorais e hereges. Somente onde as disciplinas pessoais de aprendizado e devoção, culto e comunhão, justiça e serviço estão sendo ensinadas com firmeza num contexto de atenção e responsabilidade (Mt 28.20; Jo 21.15-17; 2 Tm 2.14-26; Tt 2; Hb 13.17) há lugar apropriado para o disciplinamento judicial. Todavia, o Novo Testamento mostra claramente que nesse contexto judicial o disciplinamento encontra lugar apropriado ao amadurecimento das igrejas e dos indivíduos (1 Co 5.1-13; 2 Co 2.5-11; 2 Ts 3.6,14,15; Tt 1 10-14; 3.9-11).
 
Jesus instituiu a disciplina na igreja autorizando os apóstolos a ligarem e desligarem (isto é, proibirem e permitirem, Mt 18.18) e a declararem os pecados perdoados ou retidos (Jo 20.23). As “chaves do reino”, dadas primeiramente a Pedro e definidas como poder para ligar e desligar (Mt 16.19), têm sido comumente entendidas como autoridade para formular doutrina e impor disciplina, autoridade dada presentemente por Cristo à igreja em geral e, em particular, a pastores investidos.
 
A Confissão de Westminster declara:

"As censuras eclesiásticas são necessárias para chamar e ganhar para Cristo os irmãos ofensores, para impedir que outros pratiquem ofensas semelhantes, para purgar o velho fermento que poderia corromper a massa inteira, para vindicar a honra de Cristo e a santa profissão do evangelho e para evitar a ira de Deus, a qual com justiça poderia cair sobre a igreja, se ela permitisse que o pacto divino e os selos dele fossem profanados por ofensores notórios e obstinados."(XXX.3)
 
As censuras na igreja podem ser escalonadas desde a simples admoestação, pela exclusão da Ceia do Senhor, até a expulsão da congregação (excomunhão), a qual é referida como entrega da pessoa a Satanás, o príncipe deste mundo (Mt 18.15-17; 1 Co 5.1-5,11; 1 Tm 1.20; Tt 3.10,11). Os pecados públicos (isto é, aqueles que são expostos à vista de toda a igreja) devem ser punidos publicamente na presença da igreja (1 Tm 5.20; cf Gl 2.11-14). Jesus ensina um procedimento para tratar com privacidade aqueles que cometem ofensa pessoal, na esperança de que não seja necessário pedir para eles a censura pública da igreja (Mt 18.15-17).
 
O propósito da censura da igreja em todas suas formas não é o de punir pelo só motivo da punição, mas de exortar ao arrependimento e, assim, recuperar a ovelha extraviada. Concluindo, há somente um pecado em virtude do qual o membro da igreja é excomungado _a impenitência. Quando o arrependimento é notório, a igreja deve declarar o pecado perdoado e receber o ofensor uma vez mais na comunidade.

Autor: J. I. Packer
Fonte: Teologia Concisa, Ed. Cultura Crista. Compre este livro em http://www.cep.org.br


Divisões e Contendas: A vergonha da Igreja

I Coríntios 1.9-17; 3.1-9; 6.1-11

Introdução

Na igreja, o relacionamento pessoal é importante e necessário. Na verdade, esse relacionamento é uma benção da aliança da graça. No entanto, os membros da igreja são diferentes uns dos outros, e, as vezes, muito diferentes. Ate aqui, tudo bem. O problema e quando essas diferenças se polarizam, criando aversão onde deveria haver comunhão, formando partidos onde deveria haver unidade.

I. EXORTAÇAO (1 CO 1.10)

apóstolo Paulo sabia que precisava lhes ensinar princípios de conduta espiritual, o que ele passa a fazer somente a partir do capitulo 7. Antes disso, ele as exorta a unidade (1 Co 1.1017), afirmando que a mensagem da cruz não é segundo a sabedoria deste mundo (1 Co 1.1825), mas segundo a sabedoria de Deus, que, para 0 mundo, e loucura. Os coríntios, então, deveriam permanecer na vocação que receberam (l Co 1.26-29; if. 1.9), isto é, na vocação para a comunhão, e aquele que se gloria não deve se gloriar em si mesmo, mas no Senhor (l Co 1.29,31). As contendas demonstram falta de maturidade espiritual porque, embora cada ministro e cada crente tenha seu papel no corpo de Cristo, nenhum deles é Deus, para merecer glórias, pelo contrário, somos todos cooperadores de Deus, somos todos servos do Deus vivo, não senhores uns dos outros (l Co 3.1-9). Os que ensinam devem zelar pela unidade da igreja, sabendo que o seu fundamento é o próprio Cristo (l Co 1.9 10.16). Embora a unidade promovida pela comunhão deva ser buscada a todo custo, essa unidade não pode ser pecaminosa, mas precisa ser santa. Por fim, ele ensina que as contendas e divisões são próprias daqueles que não tem parte com Deus, como havia sido a caso deles antes de sua conversão, mas agora eles haviam sido santificados e justificados pelo Senhor (1 Co 6.1-11).

Na igreja de Corinto, aquilo que é normal foi de tal forma distorcido pelo pecado que se tornou um obstáculo a vida crista piedosa. As diferenças de opinião se transformaram em dissensão e rivalidade, chegando a gerar a formação de partidos rivais dentro da igreja. Até mesmo aqueles que afirmavam "ser de Cristo", isto é, afirmavam ser do partido de Cristo na igreja de Corinto, estavam errados, pois o nome de Cristo não pode ser usado para formar um partido e promover a divisão. Aqueles que dizem "eu sou de Cristo" apenas para reunir seu próprio grupo, seu próprio partido, estão rebaixando o nome de Cristo a uma competição pessoal, geralmente motivada pela conquista de interesses pessoais, e isso e um pecado horrível. Aqueles que dizem "eu sou de Cristo" apenas para reunir seu próprio grupo, seu próprio partido, estão rebaixando o nome de Cristo a uma competição pessoal, geralmente motivada pela conquista de interesses pessoais, e isso é um pecado horrível. Na verdade, Cristo pertence a todo o seu rebanho, sendo a cabeça de todos os membros do corpo (l Co 12.12), e não apenas de alguns. A exortação de Paulo e bem clara. Em vez de cada um dizer uma coisa diferente todos deviam falar a mesma coisa (v.9). Afinal, Paulo, Apolo e todos os outros ministros e lideres da igreja da nova aliança (inclusive os de sua igreja) São apenas servos (3.5).

II. PAZ (1 CO 1.10)

Paulo ensina que os crentes de Corinto devem ser inteiramente unidos, na mesma disposição mental e no mesmo parecer (1.10). O que ele quer dizer com isso? será que ele esta ensinando que os membros da igreja precisam ser todos iguais e pensar da mesma forma? Não. Certamente que não. Paulo sabia que os membros da igreja São todos diferentes uns dos outros e respeitava essas diferenças. Ele mesmo aponta diferenças entre os ministros do evangelho, dizendo que um é o que planta, outro é o que rega (3.6, 7). Com relação aos membros da igreja, ele diz que São todos membros do carpo de Cristo, identificando membros diferentes nesse corpo: , mão, ouvido, olho (lCo 12.15, 16), observando que a diversidade e boa e necessária, afinal, se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde estaria o olfato? ... se todos ... fossem um membro, onde estaria o corpo? (1 Co 12.18, 19).

No entanto, muito maior é aquilo que nos une do que aquilo que nos separa. Nossas diferenças pessoais, ricas, importantes e necessárias, não devem nos impedir de enxergar que a vocação que recebemos de Deus (1.9) é para a comunhão em Cristo, e o fundamento dessa comunhão não são nossas preferências pessoais, mas a cruz de Cristo. Se nossa comunhão está baseada em Cristo e nós estamos divididos em grupos, isso quer dizer que Cristo esta dividido (1 Co 1.13)? Ou quer dizer simplesmente que precisamos amadurecer mais em nossa relação com o Senhor e uns com os outros, para que nossa comunhão seja verdadeira? Nos dizeres de Paulo, o cálice da benção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? o pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo? (1 Co 10.16). Embora sejamos todos diferentes uns dos outros, essas diferenças não devem ser pretexto de discórdia, mas de enriquecimento e fortalecimento do corpo, que, pela multiforme sabedoria de Deus (Ef 3.10), é constituído de homens e mulheres, crianças e idosos, ricos e pobres, judeus e gentios, brancos e negros, sábios e analfabetos, etc.

A luz de Romanos 15.5, 6, onde Paulo deseja que Deus conceda aos crentes de Roma o mesmo sentir de uns para com os outros, segundo Cristo Jesus, para que concordemente e a uma voz glorifiqueis ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, entendemos que, quando ele diz que os crentes de Corinto devem ter a mesma disposição mental e o mesmo parecer ele não está querendo eliminar as diferenças de opinião na igreja, mas ensinando que essas diferenças não devem ser enfatizadas a ponto de criar contendas, divisões, partidos, enfim, não devem servir de impedimento para que os crentes tenham o mesmo sentimento uns para os outros e cultuem juntos ao mesmo Deus, em paz e comunhão.

Um pouco mais adiante, Paulo diz aos coríntios que tudo é vosso ... seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas ... e vos, de Cristo, e Cristo, de Deus (3.2123). Ora, todos os ministros e lideres da igreja pertencem a igreja toda, e não a uma parte dela, e todos eles, sem distinção, pertencem a Cristo, juntamente com toda a igreja. Paulo chama atenção para isso quando da graças a Deus por haver batizado somente algumas pessoas em Corinto, para que ninguém pense ter sido batizado em nome dele (1.14-16). Somos cristãos, não paulinos, apolinos ou petrinos. Fomos todos batizados em nome do Deus Trino, não em nome do pastor fulano, do presbítero beltrano ou da Irmã sicrana. Somos todos igualmente seguidores de Cristo. Portanto, nossas diferenças pessoais não devem, em nenhum caso, servir de obstáculo para nossa comunhão com Cristo e uns com os outros.

Calvino nos ensina que "onde divisões religiosas São abundantes, não tarda a acontecer que estoure em conflito real aquilo que está na mente das pessoas logo. Pois, ao mesmo tempo em que nada e mais eficaz para nos congregar e nenhuma outra coisa nos ajude mais a unir nossas mentes e a mantê-las em paz do que a harmonia religiosa, se surge discordância de alguma forma com respeito a religião, a conseqüência inevitável e que os homens rapidamente se disponham a fazer guerra, não havendo outra área de disputas mais acirradas". De fato, quando a harmonia religiosa é rompida, a rivalidade e as contendas eclesiásticas irrompem com um vigor que dificilmente pode encontrar algo semelhante nas diversas as áreas da vida. Talvez seja essa a sua realidade agora. Talvez na sua igreja isso esteja acontecendo hoje. Se for esse o seu caso, saiba que provocar divisões e contendas no corpo de Cristo e um pecado bastante grave. Meu desejo e minha oração é que haja paz no corpo de Cristo, inclusive em sua igreja. Desarme-se. Ajuste o foco de sua . Enxergue sua vida pela perspectiva de Cristo. Pare de brigar com as pessoas pelas quais ele morreu. Abandone a rivalidade contra os templos do Espírito Santo que congregam ao seu lado. Afaste-se dos que promovem divisões e escândalos (Rm16.17,18). Ore por eles. Lembre-se: é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz (T g 3.18).

III. COMUNHAO NO SENHOR (1CO 1.9)

Paulo é claro ao dizer que somos chamados para a comunhão em Jesus Cristo. O fundamento de nossa comunhão é o próprio Cristo, e o único meio de obtermos conhecimento fidedigno de Cristo e por meio da Escritura Sagrada. Portanto, para que nossa comunhão seja legítima aos olhos do Senhor, para que seja realmente comunhão em Jesus Cristo, ela tem que ser orientada pelo ensino da Escritura, que é nossa única regra da e conduta. Não existe comunhão verdadeira edificada sobre um fundamento falso.

Existem muitas correntes doutrinárias, muitos ensinos religiosos que são claramente contrários ao ensino da Palavra de Deus. Quando esses ensinos se instalam na igreja, produzem uma grande devastação na piedade dos crentes, na vida cristã e, particularmente, na comunhão. A doutrina bíblica não e um ensino frio e estéril. Pelo contrário, os preceitos do Senhor dão vida: Nunca me esquecerei dos teus preceitos, visto que por" eles me tens dado vida (Sl 119.93).

Não somente a doutrina deve ser observada na conservação da comunhão. Também e muito importante observarmos a conduta. A comunhão da igreja precisa ser uma comunhão santa, como santo e o Cristo a quem servimos.

 Conclusão

As diferenças existem. No entanto, devemos desfrutar delas de forma que a igreja se tome mais rica com elas. A multiforme graça do Senhor atrai e salva pessoas muito diferentes umas das outras, e o Senhor tem um propósito para isso, que é mostrar a riqueza da sua graça e do seu amor, que alcança todos os tipos de pessoas, em todas as épocas e lugares. Caminhamos para trás quando permitimos que aquilo que deveria ser uma grande benção se transforme em uma pedra de tropeço para nossa vida cristã. As diferenças circunstanciais da vida e as diferenças de opinião não devem se transformar em rivalidade, intrigas e contendas na igreja de Cristo. Somos chamados para a comunhão em Cristo e devemos zelar par isso, preservando a unidade da e o claro ensino de Cristo, que é o fundamento de nossa comunhão com ele e de uns com as outros.

Aplicação Individual

Se você estiver metido em contendas, pare com isso. Ocupe-se com a obra do Senhor. Evangelize, ore, visite os enfermos, socorra os necessitados, tenha uma vida cristã saudável na presença de Deus e da igreja.

Autor: Vagner Barbosa

Fonte: Lição 7 da revista Nossa Fé – As cartas – A Igreja, pg. 24-26, editora Cultura Cristã.

Estudo digitado pelo caríssimo irmão e colaborado do site Teologia Calvinista: Davi Barrozo de Carvalho

Texto Bíblico

2Co 10.7

São igualmente de Cristo

Mc 10.42-45

Maior é o que serve

Fp 4.2-7

Evódia, Síntique e o livro da vida

2Tm 2.22-26

Repele as questões insensatas

1 Tm 1.3-7

Assuntos que promovem contendas

Tg 3.18

A sabedoria do alto e a paz

2Tm 2.14-26

Evita os falatórios inúteis

 


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Apóstolos e Discípulos

Os Apóstolos
Rm 1.1-6; Rm 11.13; 1 Co 9.2; 1 Co 15.9; Hb 3.1

Visto que doze daqueles que foram discípulos de Cristo posteriormente se tornaram seus apóstolos, os dois termos, discípulo e apóstolos, com freqüência se confundem. Embora os termos sejam intercambiáveis, não são exatamente sinônimos. Um discípulo é definido na Bíblia como um "aprendiz", alguém que estava em contato com a instrução rabínica de Jesus. Embora os apóstolos fossem discípulos, nem todos os discípulos se tornaram apóstolos.

Um apóstolo exercia uma função especial na igreja do Novo Testamento. O termo apóstolo significa "aquele que é enviado", Tecnicamente, contudo, um apóstolo, era mais que um mensageiro. Ele era comissionado com a autoridade para falar e para representar aquele que o havia enviado. O principal apóstolo no Novo Testamento é o próprio Jesus. Foi enviado pelo Pai e falou com a autoridade investida nele pelo Pai. Rejeitar Jesus era rejeitar o Pai que o enviara.

Semelhantemente, os apóstolos foram chamados e comissionados diretamente por Cristo e falavam por Cristo e falavam com sua autoridade. Rejeitar a autoridade apostólica era rejeitar a autoridade de Cristo, que os enviara.

No novo Testamento, doze discípulos foram comissionados como apóstolos. Depois da morte de Judas, a Igreja preencheu a vaga escolhendo Matias, conforme o registro de Atos. A este número Jesus adicionou o apóstolo Paulo, como o apóstolo  especial aos gentios. O apostolado de Paulo foi assunto de muito debate, porque ele não preenchia todos os requisitos apostólicos determinados no livro de Atos.

O Critério para o apostolado incluía:

(a) Ter sido discípulo de Jesus durante seu ministério terreno;

(b) Ter sido testemunha ocular da Ressurreição e,

(c). Ser chamado e comissionado diretamente por Cristo.

Paulo não fora discípulo antes, e sua visa do Cristo ressurreto acorreu depois da ascensão de Jesus. Ele também não era testemunha ocular da Ressurreição da mesma forma que os demais apóstolos haviam sido. Apesar de tudo isso, Paulo foi chamado diretamente para a função pelo próprio Cristo. Seu chamado foi confirmado pelos outros apóstolos, cujo apostolado não foi questionado e foi autenticado pelos milagres que Deus operou por meio dele, atestando sua autoridade com um agente apostólico da revelação.

No final do primeiro século, os pais pós-apostólicos reconheceram claramente que a autoridade deles estava subordinada à dos apóstolos originais.

Não há apóstolos oficiais vivos atualmente, visto que ninguém pode preencher os requisitos bíblicos para o ofício nem pode ser confirmado pelos apóstolos originais, como Paulo o foi, A Bíblia é a única autoridade apostólica para nós hoje.

Sumário

1. Os termos discípulos e apóstolos não são sinônimos.
 Discípulo = aprendiz
 Apóstolo = aquele que é enviado com autoridade para falar em lugar daquele que o enviou.

2. Jesus era o "Apóstolo do Pai"

3. Os requisitos bíblicos para o apostolado incluíam o seguinte:

(a)