A Igreja e a Sã doutrina
2 Coríntios 3.4-6
Introdução
Vivemos dias difíceis com relação a firmeza doutrinária. As heresias estão ameaçando bem de perto a integridade da doutrina bíblica. A igreja de Cristo se vê cada vez mais cercada por ensinos contrários a Palavra de Deus. Esses falsos ensinos, por sua vez, encontram na nossa sociedade um terreno fértil e produtivo para lançar suas raízes. Além disso, percebe-se em muitos círculos cristãos um menosprezo pela doutrina, como se ela fosse uma pedra de tropeço para a santificação. Se, por um lado, nunca houve tantos evangélicos no nosso pais, por outro lado o nosso povo nunca esteve tão carente de uma fiel pregação das Sagradas Escrituras e os evangélicos nunca tiveram uma vida crista tão pálida e sem vida quanto tem hoje. Uma das causas dessa vida cristã frágil observada no comportamento de muitos evangélicos dos nossos dias e a crença errada de que o Espírito Santo e a doutrina bíblica ou sã doutrina são duas coisas independentes entre si. Desse modo, um crente bem-intencionado crê ser possível andar no Espírito sem pautar a sua conduta e o seu relacionamento com Deus nas Escrituras. Em muitos casos, a doutrina chega a ser reputada como "letra morta" ou, pior ainda, "letra que mata". Essa heresia esta supostamente baseada em 2 Coríntios 3.6. Para complicar ainda mais a situação, esses irmãos que dizem andar no Espírito ao mesmo tempo em que negligenciam a sã doutrina arrogam para si uma santidade maior do que a daqueles que se firmam na Palavra. o que a Bíblia diz sobre isso?
I. O ESPIRITO OU A DOUTRINA?
Considerar o Espírito e a doutrina como duas coisas que se excluem mutuamente não é um equivoco; é um erro grosseiro e primário que chega as raias da heresia. Aqueles que acreditam que "andar no Espírito" seja algo diferente de orientar o seu relacionamento com Deus e sua vida pessoal pelo ensino claro das Escrituras revelam total ignorância tanto sobre a pessoa e obra do Espírito Santo quanto sobre a inspiração e a inerrância da Palavra de Deus. No entanto, é com muita tristeza que verificamos a existência de pessoas, dentro e fora de nossas igrejas, que afIrmam andar no Espírito e ensinar em nome do Espírito ao mesmo tempo em que desprezam a Escritura sob a alegação de que ela não passa de letra morta e, pior ainda, letra assassina. Quando questionamos que Espírito e esse, cuja inspiração lhes da tanta autoridade a ponto de colocarem a Escritura num patamar inferior ao que eles próprios ocupam, prontamente recebemos a resposta de que esse Espírito e 0 próprio Espírito de Cristo. será mesmo?
Ora, o Espírito Santo foi quem inspirou os apóstolos de Cristo, e nenhum deles aprendeu com o Espírito a menosprezar a Palavra de Deus ou a colocar-se acima dela. Pelo contrário, inspirados pelo Espírito, eles ensinavam que a Palavra de Deus tem a autoridade do seu autor (Gl 1.6-9; Rm 3.2; At 7.38; Sl19.7; 2Tm 3.16), que e o próprio Deus. A Escritura não é o resultado da especulação humana nem dos devaneios fantasiosos da criatividade humana (2Pe 1.20,21). Ela e obra do Espírito Santo, que inspirou servos escolhidos para fazer registrar de modo infalível e inerrante tudo o que lhe aprouve revelar ao homem e que jamais será mudado, pois, sendo Deus, o Espírito não está sujeito a mudanças (Sl 102.27; Ml 3.6; Hb 1.12; Tg 1.17). Ora, se a Escritura é fruto da ação do Espírito em favor da conservação do verdadeiro ensino a respeito de Deus e de nosso relacionamento com ele, que direito temos nos de imaginar que andar no Espírito e zelar pela sa doutrina São coisas opostas?
É oportuno lembrar também do testemunho do apóstolo Paulo que, mesmo tendo sido arrebatado até o terceiro céu (2Co 12.1-6), nunca baseou seus ensinos na sua experiência de arrebatamento. Pelo contrario, sempre os baseou na Lei e nos profetas (Rm 2.13; 3.21,31; 7.7,14,22,25; 8.2; 10.5; Gl 3.21-24; Ef 2.20; 1 Tm 1.8) e exortou Timóteo a que tivesse cuidado de si mesmo e da doutrina (1 Tm 4.16) e corrigisse, repreendesse e exortasse com toda longanimidade e doutrina (2Tm 4.2), pois ela é inspirada por Deus e, por isso, é útil tanto para a ensino quanto para a repreensão, para a correção e para a educação na justiça (2Tm 3.16), "a fim de que o homem de Deus seja perfeito" (2Tm 3.17). Veja que a sã doutrina está estreitamente relacionada com toda a vida cristã, que é a expressão da obra do Espírito no nosso coração. Como podemos observar, o ensino do Espírito par meio da Escritura é de que ela nos conduz a um firme compromisso com Deus (Sl 119.11,93,105).
Jesus Cristo também nos ensina sabre isso. Ele diz que "o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviara em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito" (Jo. 14.26). Nessa passagem, ele está dizendo que o Consolador nos ensinará e nos trará à lembrança as palavras de Jesus. Portanto, ao Espírito que Jesus prometeu e que Paulo recebeu não compete inventar revelações novas ou criar um novo tipo de doutrina (Gl 1.6-9) diferente daquela apresentada no evangelho. Sua função é selar e fortalecer no nosso coração a mesma doutrina ensinada na Palavra de Deus.
II. A ESCRITURA COMO PADRAO DO ESPIRITO
Pode parecer um pouco estranho falarmos num padrão do Espírito Santo; afinal de contas não nos parece certo, a primeira vista, que Aquele que sujeita a si todas as coisas necessite de um padrão, mesmo que esse padrão seja a Escritura. No entanto, podemos afirmar, com toda certeza, que a Escritura e o padrão do Espírito porque foi ele que inspirou os homens santos que a escreveram e ele não muda. o Espírito que inspirou as Escrituras no passado e o mesmo Espírito hoje. Sendo assim, a Escritura é a único padrão que possuímos para fazer a avaliação das doutrinas e mensagens apresentadas "em nome do Espírito". :É isso que o apóstolo João tem em mente quando exorta a igreja a provar "os espíritos, se procedem de Deus, pois muitos falsos profetas tem saído pelo mundo fora" (lJo 4.1). Certamente, que se quiséssemos avaliar as doutrinas por uma regra humana, estaríamos laborando em grande erro, pais as regras humanas sempre São sujeitas ao erro. No entanto, que erro pode haver quando avaliamos a doutrinas pelo padrão que o próprio Espírito ensinou na Escritura? Ele e a seu autor e, por isso, não pode ser diferente daquilo que revelou em suas páginas. Assim como se revelou nela, também permanecerá para sempre.
Se alguém, menosprezando a sabedoria contida na Palavra de Deus, quiser nos ensinar outra doutrina, como poderemos saber qual é a sã doutrina se a próprio Satanás pode se transformar em anjo de luz (2Co 11.14)? Que autoridade teria entre nós o Espírito Santo se nós não pudéssemos discerni-lo de modo inequívoco? É somente a Sagrada Escritura que torna possível esse discernimento, pois ela revela a própria mente de Deus, revelada pelo Espírito. É par meio dela que podemos conferir coisas espirituais com espirituais e assim encontrar um testemunho exato do Senhor Jesus Cristo (Jo. 5.39).
o Espírito Santo, sendo a grande responsável pelo registro infalível e totalmente isento de
erros da sã doutrina na Escritura, e, conseqüentemente, identificado pelo que nela esta contido, pois Aquele que é isento de qualquer variação ou sombra de mudança sempre será fiel aquilo que uma vez revelou para servir de orientação ao povo de Deus.
III. A LETRA QUE MATA
Quando ouvimos alguém se referindo a Bíblia como a letra que mata, devemos saber que essa e uma interpretação errada de 2 Coríntios 3.6. Vejamos o que o apóstolo Paulo quis dizer quando afirmou que somos "ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica" (2Co 3.6). Nessa passagem, o apóstolo combate os falsos profetas, que enviavam cartas as igrejas apresentando-se como apóstolos (Gl 3.1). Esses falsos profetas pretendiam exaltar a Lei da antiga aliança sem fazer caso de Cristo, o que distanciava os crentes da graça da nova aliança, na qual o Senhor promete esculpir a Lei nas entranhas dos crentes e imprimi-la no coração deles (Jr 31.33; Hb 8.10). Portanto, o que Paulo ensina é que a Lei de Deus é letra morta e mata a todos os que a lêem quando não é acompanhada pela graça. Nesse caso, ela chega até aos ouvidos, mas não pode penetrar no coração. Por outro lado, sempre que ela é usada pelo Espírito para fazer com que a graça de Deus alcance o coração do pecador, é palavra de vida, capaz de restaurar-lhe a alma e alegrar-lhe o coração (Sl 19.7,8). Repare que "a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo" (Rm 10.17). Mais uma vez podemos ver o ministério da Palavra intimamente associado ao ministério do Espírito, pois e ele quem convence o pecador "do pecado, da justiça e do juízo" 00 16.8-11).
Podemos ver, na postura dos fariseus, um claro exemplo da letra que mata. No dizer de Jesus, eles se assentavam "na cadeira de Moisés", ou seja, com base na lei de Moisés, eles se propunham a estabelecer normas para a vida cotidiana do povo, mas, apesar de todo o seu zelo pela conservação da letra da lei, eles negligenciavam o espírito dela, a saber, a justiça, a misericórdia e a fé, sendo, por esse motivo, censurados por Jesus, que repetidamente denunciou essa hipocrisia (Mt 23.1-36, especialmente vs. 2, 23). Observe que, na continuação da passagem de 2 Coríntios, o apóstolo chama a pregação da Palavra de "ministério do Espírito" (3.8), dando com isso a entender que o Espírito está de tal modo ligado a sua Palavra que executa o seu ministério exatamente quando essa Palavra é pregada com fidelidade. Como podemos ver, a Lei de Deus só deixa de transmitir vida quando não e acompanhada pelo testemunho do Espírito ao nosso espírito. Podemos afirmar, portanto, com toda segurança, que nós só podemos andar no Espírito quando reconhecemos o seu caminho revelado nas Sagradas Escrituras.
O apóstolo Paulo nos exorta: "Andai no Espírito e jamais satisfareis a concupiscência da carne" (Gl 5.16). Com essas palavras ele introduz o seu ensino sobre as obras da carne e 0 fruto do Espírito, no qual ele da uma lista de obras da carne (Gl 5.19-21) e ensina que essas obras não São realizadas por aquele que anda no Espírito, pois elas se opõem ao Espírito e o Espírito se opõe a elas. Em 1 Timóteo 1.9,10 ha um paralelo interessante a esse ensino. Nessa passagem, Paulo diz que as mesmas obras da carne de Gálatas 5.19-21 se opõem a sã doutrina, de modo que podemos concluir que o Espírito e a sã doutrina não se excluem. Pelo contrário, estão de tal modo unidos que se opõem as mesmas coisas.
Também merece registro o fato de que o apóstolo Paulo zela pela pregação do evangelho (1 Co 9.16). Ora, seria de muito se estranhar se um dos apóstolos do Senhor Jesus fosse zeloso da pregação da letra assassina. Mais estranho ainda seria se o próprio Jesus enviasse seus discípulos a todas as nações para pregar a Palavra que mata ou se o Espírito Santo os enviasse para pregar a letra que mata.
IV. O ESPIRITO QUE VIVIFICA
Quando Jesus tremava seus discípulos para a grande missão que teriam de realizar (Mt 28.19,20) ele não os ensinava a desconsiderar a Escritura e apegar-se ao Espírito que estava por vir. Pelo contrário, ele os ensinou que o Espírito os capacitaria a realizar a sua missão (At 1.8 - "recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas"), mas também os ensinou a estudar e esforçar-se por compreender as Escrituras e a tirar delas todos os seus recursos doutrinários (Lc 24.27).
Da mesma maneira age o apóstolo Paulo que, ao exortar os tessalonicenses a que não apagassem o Espírito, não lhes recomenda que multipliquem vãs especulações alheias a Palavra de Deus, mas que não desprezem as profecias, deixando claro que a luz do Espírito se apaga quando as profecias São desprezadas, ou seja, quando a sã doutrina e deixada de lado. Desse modo, o apóstolo mais uma vez deixa claro que o Espírito não age independentemente da doutrina nem de modo diferente dela. Em vez disso, ele esta vinculado a sã doutrina por ele mesmo apresentada nas Escrituras Sagradas. Esse ensino é muito diferente daquele apresentado pelos evangélicos "místicos", que querem nos fazer pensar que a mais perfeita iluminação do Espírito consiste em colocar de lado os perfeitos ensinos bíblicos e esforçar-se por realizar todas as fantasias que a mente humana pode criar.
Quando Paulo diz: " ... vede prudentemente como andais, não como néscios e sim como sábios ... e não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito" (Bf 5.15,18), ele está ensinando a igreja de Éfeso a sobriedade que deve caracterizar o povo de Deus ao tratar de assuntos espirituais.
Essa sobriedade faz com que o povo de Deus procure andar no Espírito seguindo o caminho que o próprio Espírito traçou por meio das Escrituras. Nós não conhecemos outro Espírito diferente daquele que habitou nos apóstolos, falou por intermédio deles, chamou-nos a fé pelo ministério da Palavra e sustenta-nos pela sua sa doutrina.
Conclusão
A sã doutrina não e uma pedra de tropeço colocada por Deus diante da igreja para militar contra o Espírito, como algumas pessoas costumam dar a entender. Ela e a revelação do próprio Espírito de Deus. Ela nos ensina a ter um firme relacionamento com Deus e a andar nos caminhos do Senhor. Ela não forma um contraste com o Espírito Santo. Pelo contrário, ela é o principal instrumento usado pelo Espírito para guiar-nos em santidade. O ministério da Palavra e o ministério do Espírito estão ligados de modo tão íntimo que e impossível enxergar um sem enxergar o outro. Se, por um lado, a doutrina nos foi dada pela revelação do Espírito, por outro lado é da Escritura que o Espírito se utiliza para falar ao nosso coração. Portanto, Espírito e doutrina andam lado a lado.
APLICAÇÃO INDIVIDUAL
Diante do que foi estudado hoje, qual será o seu padrão de fé e conduta daqui por diante? E a quem você recorrerá para pedir capacitação para crescer em santidade? Como o salmo 119.11 se relaciona com a lição de hoje?
Autor: Vagner Barbosa
Fonte: Lição 9 da revista Nossa Fé – As cartas – A Igreja, pg. 31-34, editora Cultura Cristã. Compre esta revista em www.cep.org.br
Estudo digitado pelo caríssimo irmão e colaborado do site Teologia Calvinista: Davi Barrozo de Carvalho
Texto Bíblico |
I Tm. 1. 3 -7 | Não ensinem outra doutrina |
I Tm 1. 12- 17 | Fiel é a palavra |
Ef. 4. 14 | Os ventos de doutrina |
Tt. 1. 15 – 2. 10 | Convém a sã doutrina |
II Jo. 7 -11 | Permanecer na doutrina |
Cl. 2. 20 - 23 | Doutrinas dos homens |
II Tm. 2. 14 - 26 | Evita falatórios inúteis |