Teologia Calvinista
Pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus Ef2.8
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February 9, 2012


A relevância dos Cânticos

Para os reformadores, os cânticos tinham um grande apelo didático, objetando até mesmo a fixação das Escrituras. Como Palavra de Deus, cantar as Escrituras significa relembrar e fixar seus ensinamentos. [1] Calvino não ignorava o poder da música “... para agitar as emoções do ser humano”.[2] Ele escreveu: “... o canto tem grande força e vigor para mover e inflamar os corações dos homens, a fim de invocar e louvar a Deus com um mais veemente e ardente zelo.”[3]

O canto tem também relação direta com a experiência religiosa, e não simplesmente a momentos de lazer e entretenimento. Cantar, além de refletir a fé (quando o conteúdo é amparado na Palavra), também serve de estímulo espiritual. É como o “falar entre vós com salmos” (Ef 5.19). Uma fé que se expressa em cântico se fortalece do conteúdo proveniente da Palavra de Deus.

O cântico congregacional tornou-se parte importante na liturgia de Calvino.[4] O cântico a quatro vozes era utilizado no culto, todavia, enfatizou o cântico congregacional. Ainda que fosse apreciador da harpa, os cânticos eram como na sinagoga, sem acompanhamento instrumental. Calvino entendia que algumas práticas do Antigo Testamento faziam parte da infância espiritual do povo; entre elas, o uso de instrumentos no culto. [5]

Outro aspecto importante: as orações eram sugeridas, mas não deveriam ser lidas; eram espontâneas. O pai-nosso e o Credo apostólico eram recitados pela congregação. A eucaristia foi posta como elemento integrante do culto público. A Palavra de Deus recebeu destaque como elemento central do culto. “As Igrejas Reformadas simbolizaram isto nos edifícios que ergueram durante a Reforma, ao colocar o púlpito à frente e no centro do templo”. [6]

Quanto à questão da música na Igreja, Calvino afirmou:

E, na verdade, conhecemos por experiência que o canto possui grande força e poder de comover e inflamar o coração dos homens para invocar e louvar a Deus com zelo mais veemente e ardoroso. Há sempre a considerar-se que o canto não seja frívolo e leviano; pelo contrário, tenha peso e majestade, como diz Agostino.[7]

Calvino também optou por Salmos, entendendo que somente a Palavra de Deus era digna de ser cantada. No “Prefácio” do saltério genebrino, ele explicou os motivos dessa prática:

Os salmos nos incitam a louvar a Deus, orar a ele, meditar nas suas obras a fim de que os amemos, temamos, honremos e o glorificamos. O que Santo Agostinho diz é totalmente verdade; a pessoa não pode cantar nada mais digno de Deus do que aquilo que recebermos dele. [8]

Essa declaração revela o princípio da inspiração bíblica: os salmos provêm do Espírito Santo. Ele entendia que “os salmos constituem uma expressão muito apropriada da fé reformada” [9], e que “Tudo quanto nos serve de encorajamento, ao nos pormos a buscar a Deus em oração, nos é ensinado [em Salmos]”[10]. Portanto, salmos é um guia seguro para a edificação da Igreja, que pode cantá-lo sem correr o risco de proferir heresias melodiosas. Ele considerava os salmos “uma anatomia de todas as partes da alma”. [11]

Na elaboração do que veio a ser chamado Saltério genebrino [12], Calvino traduziu alguns salmos, valendo-se do talento de poetas e compositores. O saltério tornou-se “um dos livros mais importantes da reforma” [13] e um protótipo dos hinários procedentes da Reforma.

Os salmos tiveram um papel extremamente marcante na formação espiritual dos reformados, sendo também uma de suas grandes demonstrações de fé:

O cântico de salmos tornou-se essencial para a piedade calvinista. Os protestantes franceses, ao serem levados para a prisão ou para a fogueira, cantavam salmos com tanta veemência que foi proibido por lei cantar salmos e aqueles que persistiam tinham sua língua cortada. O salmo 68 era a Marselhesa huguenote. [14]

Devemos observar que os hinos da Igreja não precisam estar limitados a Salmos, mesmo reconhecendo seu indiscutível valor como Palavra inspirada de Deus. Além disso, deve ser observado que muitos dos salmos refletem de modo evidente a expressão de fé de servos de Deus na antiga aliança, que ainda não se planificara em Cristo, aquele que selou a nova aliança com o próprio sangue.

Pelos que pudemos ver até aqui, torna-se evidente que a Igreja, através da história, expressou sua fé de modo vivo e vibrante mediante hinos, elaborando sua teologia de forma clara e simples, a fim de que todos pudessem entendê-la e cantá-la. A música foi empregada não simplesmente pela música, antes, de tal forma que estivesse a serviço da mensagem e da letra do próprio evangelho.

Nota:

[1] Veja João Calvino, As Institutas, III.20.28,31-32; Confissão de Westminster, 21.5; Segunda Confissão Hevética, XXIII, § 5.221. Também a Confissão Luterana: Confissão de Augsburgo (1530), XXIV.

[2] Exposição de 1 Coríntios, p. 414. Cf. p. ex.: Platão, A República, 424b e ss., p. 168-170.

[3] Citado por john T. McNeill, the History and Character of Calvinism, p. 148.

[4] Veja As Institutas, II.20.31-32.

[5] O Livro dos Salmos, vol. 3, p. 278.

[6] W. Stanford Reid, “El Culto Reformado”; em R. G. turnbull, diccionario de la Teologia Practica, p. 43.

[7] John Calvin, opera Calvini, vol. VI, p. 167. Citado por André Biéler, O pensamento econômico e social de Calvino, p. 577. Cf. tb. As institutas, II.20.31; III. 20.32 e III.9. Cf. tb, Agostinho, confissões, p. 219-220.

[8] Citando por hughes Oliphant Old, Worship: That Is Reformed According to Scripture, p. 51-52

[9] John H. Leith, a tradição reformada, p. 336.

[10] O Livro dos Salmos, vol. 1, p. 34.

[11] O Livro dos Salmos, vol. 1, p. 33.

[12] Esta nota é do Webmaster do site. Rev. Hermisten no estudo sobre ‘A Plenitude do Espírito e as Suas Implicações na Vida Cotidiana do Crente’ escreve: Calvino na elaboração do que seria conhecido como Saltério Genebrino, traduziu alguns salmos [Sl 25,36,46,91e 138],[xxxix] valendo-se efetivamente do talento do poeta francês Clément Marot (c. 1496-1544) – que conhecera em Ferrara em 1536[xl] –, e Théodore de Bèze (1519-1605) e, posteriormente recorreu ao precioso trabalho do compositor francês Loys Bourgeois (c.1510-c. 1560) – que adaptou as canções populares e antigos hinos latinos e, também, compôs outras músicas para a métrica dos salmos de Marot[xli]– e Claude Goudimel (1510-1572), que morreu no massacre da noite de São Bartolomeu. O Saltério iniciado por Calvino em 1539, dispunha de 19 salmos; sendo concluído por Bèze (c. 1562).[xlii] Ele tornou-se “um dos livros mais importantes da reforma”,[xliii] tendo um verdadeiro “dom de línguas”, sendo traduzido para o alemão, holandês, italiano, espanhol, boêmio, polonês, latim, hebraico, malaio, tamis, inglês, etc., sendo usado por católicos, luteranos e outras denominações.[xliv] No Prefácio à edição de 1542 do Saltério Genebrino, Calvino escreveu:  “.... Nós sabemos por experiência que o canto tem grande força e vigor para mover e inflamar os corações dos homens, a fim de invocar e louvar a Deus com um mais veemente e ardente zelo.”[xlv] ver nota deste trecho no artigo no seguinte endereço: http://www.monergismo.com/textos/pneumatologia/plenitude.htm

[13] John H. Leith, A tradição reformada, p. 229. Cf. tb. p. 40.

[14] A tradição reformada, p.229 (cf. tb. a p. 301). Veja Philip Schafff, Hystory of the Christian Church, vol. VIII, p. 374.

Autor: Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

Fonte: Fundamentos da teologia reformada, pg. 133-136, Editora Mundo Cristão. Compre este Maravilhoso livro em www.mundocristao.com.br .








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