Teologia Calvinista
Pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus Ef2.8
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February 9, 2012


Circunstância da Publicação das Institutas

O propósito de redigir uma profissão de fé para os reformados franceses, ou, como se dizia então, para os evangélicos, parece presente no espírito de Calvino já nos primeiros meses do ano de 1534.

João Calvino tinha, então, 25 anos. Sua infância tinha se passado à sombra da catedral de Noyon, sua cidade natal. Seu pai era escrivão do capítulo, [ isto é, da assembléia do cantão]. Ele soube aproveitar-se da proteção dos grandes prelados de Noyon para enviar seu filho a Paris, para os seus estudos. No colégio chamado da Marche, Calvino teve, embora por pouco tempo, o mais famoso mestre e pedagogo da época, Mathurin Cordier, que lhe ensinou latim (agosto de 1523). Pouco mais tarde, em Bourges, onde fez curso de direito, o professor Melchior Wolmar, luterno declarado, lhe ensinou grego. Concluídos os seus estudos jurídicos, Calvino dedicou-se à literatura. Talvez pensasse numa carreira de humanista, como a de Erasmo, por quem ele tinha grande admiração. Mantinha-se ligado aos humanistas e a alguns homens que se preocupavam com a vida religiosa, como seu primo Robert Olivetan. Subitamente, sua vida laboriosa foi perturbada por um escândalo em que estavam envolvidos os teólogos da Sorbonne. Aconteceu que no dia 1º de novembro de 1533, por ocasião da reabertura da Universidade de Paris, o reitor, conforme o costume, leu um discurso. Este continha algumas declarações inesperadas em tal circunstância. Mostrando grande desprezo pelos sofistas, que reduziam a teologia aos exercícios da escolástica, opôs a eles a “filosofia de Cristo”, expressão do gosto de Erasmo, suspeito para os teólogos. Ele proclamava Cristo como o único mediador, o que a Sobornne considerava ofensivo à “Virgem” e aos santos. Ele elogiava o retorno ao Evangelho: era o rompimento com a Igreja e suas tradições.

O discurso lido pelo reitor era de Calvino. Tal foi o escândalo que Sorbonne denunciou o autor ao Parlamento de Paris com o fim de processá-lo por heresia. Cop, o reitor, fugiu para Basiléia; Calvino se escondeu num subúrbio parisiense (em Chaillot, ao que parece), e depois se refugiou na casa de um amigo, em Claix, perto de Angoulême. Foi lá, em sua solidão, tendo à mão uma rica biblioteca, que ele formou o propósito de redigir sua profissão de fé. Ele tina renunciado ao estudo da literatura; passou a dedicar-se unicamente à vida espiritual. Foi lá que se deu a sua conversão que, segundo suas confidências, tinha sido repentina.

De Angoulême ele tinha ido para Nérac, capital dos Estados da rainha de Navara, sendo ela um tanto indulgente para com os evangélicos molestados e perseguidos. Calvino tinha voltado a Noyon para ali renunciar a seus benefícios eclesiásticos, e a Paris, quando um novo escândalo desencadeou a perseguição contra os luteranos.

Na noite de 17 de outubro de 1534, em Paris, foram fixados cartazes contra a missa, e isso foi feito até na porta do quarto do rei, no castelo situado às margens do Rio Loire. Soube-se mais tarde que tinha sido obra de um lionês chamado Marcourt, primeiro pastor em Neuchâtel, a partir de 1531.

O parlamento logo submeteu os suspeitos à tortura, condenou-os a suplícios de extrema crueldade: que lhes arrancassem a língua e lhes amputassem as mãos, antes de queimá-los vivos. O rei assinou uma ordem surpreendente da parte de um amigo das letras, proibindo, sob pena de morte, a impressão de todo e qualquer livro (em 13 de janeiro de 1535).

Passou-se um ano até que, como privilégio excepcional, fosse feita uma concessão a doze impressoras. As pilhas de volumes queimados com os hereges que os escreveram ou os imprimiram ou os divulgaram explicam por que durante meio século não foi editada nenhuma Bíblia francesa na França, e pro que, até 1562, não foi possível imprimir as Institutas.

No meio da tempestade, o autor continua sua obra. Ele sabe – talvez meio dos confidentes de Marguerite d’Angoulême – como o rei é inconstante. Enquanto na França se aplica tanto rigor, na Alemanha, Francisco I procura fazer aliança com os príncipes luteranos contra o imperador. Um edito de 29 de janeiro de 1535 prescreve o extermínio dos hereges; mas, muitos dias depois, a mesma mão real assina um documento memorial redigido pelo embaixador Du Bellay em homenagem aos eleitores e aos aliados do cristianíssimo rei. Francisco I explica que está sendo acusado injustamente de perseguir pessoas por motivo de religião: são revolucionários em fúria, alega ele, são sediciosos, que ele tem o direito e o dever de reprimir.

Entretanto, uma reviravolta em favor dos evangélicos sempre parecia possível; ao rei, poderia aplicar-se o epíteto dado por Farel a Erasmo: camaleão! No dia 10 de março de 1534, um professor estabelecido em Paris já por cinco anos, Jeam Sturm, tinha escrito ao reformador Bucer, natural de Estrasburgo: “Jamais se cumpriu melhor o versículo: ‘O coração do rei está nas mãos de Deus’, porque no meio das fogueiras ele sonha com uma reforma religiosa... Insisto na necessidade de sua viagem e da de Melanchton” (o melhor colaborador de Lutero)... “A situação tão perigosa dos fiéis deve-se menos ao juízo pessoal do rei que das informações caluniosas dadas por conselheiros parciais. Nenhuma distinção se faz entre anabatistas, seguidores de Erasmo e luteranos; todos são feitos prisioneiros. Creio que a idéia do rei seria a de agir diferentemente contra os sediciosos e contra os que não professam a doutrina da igreja sobre a eucaristia”.

Essa opinião é a de um observador bem informado, envolvido nas negociações que visavam a restabelecer a paz entre os cristãos, e que, em breve, em Estrasburgo, teria seguido contatos com Calvino. A esperança de Sturm parecia que ia realizar-se na primavera de 1534; pois, no dia 23 de junho, Francisco I, oficialmente, e Du Bellay, em seu próprio nome, convidam Melanchton para vir à França. Mas o eleitor da saxônia não lhe dá permissão e, alem disso, Sorbonne recusa a discussão pública sugerida pelos diplomatas.

Uma no depois, o espírito e a pena de Calvino ficam livres para consagrar-se inteiramente à sua grande empresa. Na primavera de 1535, é publicado em Beuchâtel o Novo Testamento de Robert Olivétan, para o qual seu primo escreveu um prefácio: “A todos os que amam Jesus Cristo e seu Evangelho, saudações”. Calvino diz expressamente: “Nós o traduzimos o mais fielmente que nos foi possível, em conformidade com a verdade e com a propriedade da língua grega”, assinalando assim sua participação nessa obra de grande fôlego; e especifica a intenção: “para que os cristãos e cristãs que entendem a língua francesa possam entender e reconhecer a lei que devem ter a fé que devem seguir”, propósito patriótico semelhante ao de Lefévre, doze anos mais tarde; no começo do seu próprio Novo testamento, disse que tinha trabalhado visando à consolação dos súditos do reino, para que este não fosse mais simplesmente chamado Reino Cristianíssimo, mas que se tornasse al de fato.


Em toda a Europa ocidental, a época que vai de 1534 a 1536 é, como a então recente, de 1521-22, uma época crítica. Os reformadores trabalham, cada um em seu país, para propagar a Palavra de Deus na língua nacional, esperando a conversão de soberanos e de povos: em outubro de 1534, Lutero termina a tradução alemã da Bíblia; em outro de 1536, o tradutor da Bíblia em inglês, Tyndale, morre na fogueira orando a Deus que abra os olhos do rei da Inglaterra. Neste mesmo ano, em que é publicada a carta de Calvino ao rei da França, ao mesmo Francisco I é dedicada a Christianae fidei brevis et clara expositio (Breve e clara exposição da é cristã) de Zwínglio, publicada após a morte do sua autor por se sucessor em Zurique.

A Bíblia francesa de 1535 sai do prelo em 4 de junho. N fim do mês, chega uma notícia horrível: em Munster, foram exterminados em massa os anabatistas alemães, que buscavam nas Escrituras, não somente princípios religiosos, mas também pretextos para uma revolução social. Os adversários da Reforma a declaram responsável pelos excessos dos anabatistas, ou, ao menos, solidários a eles.

Na França (Michelet viu bem isso), a origem da Reforma “é espontânea, primeiramente francesa”. Seus primeiros adeptos levavam uma vida pacífica. Eram operários em Meaux, agricultores em Thiérache, humanista na corte. Isso não impede os seus inimigos de compararem os inofensivos “biblistas” da França com os desenfreados anabatistas da Alemanha. Uma testemunha H. Estienne, conservou sobre isso lembranças interessantes: “Evitava-se dar a entender que eles eram gente boa como os demais e que não eram zombadores nem falsos; que tinham recebido o sacramento do batismo, etc., mas, antes, diziam que eram pessoas completamente diferentes, que zombavam de Deus, que tinham suas mulheres em comum, que eram piores que os judeus, os turcos e os sarracenos”. O manifesto dirigido aos príncipes da Alemanha era a expressão oficial dos erros, preconceitos e calunias que tinham livre curso em Paris. Contra eles eleva-se o protesto indignado da consciência de Calvino.

A princípio, sua exposição da fé cristã destinava-se a fortalecer os fiéis e a esclarecer os que não tinham bom conhecimento da causa; agora servirá de apologia contra os caluniadores. O doutros em direito de Orleans transforma em discurso de defesa as páginas concebidas pelo teólogo. E esse discursos ele enviará ao supremo juiz da França; essa é a origem da carta ao rei, conforme narrativa do próprio autor que consta no prefácio do seu Comentário do Livro de Salmos, por ele publicado em 1557.

“Foram queimados na França muitas pessoas santas e fiéis; chagando isso ao conhecimento das outras nações, os autores das queimas foram considerados cruéis...; eles(os príncipes luteranos) elaboraram um protesto contra os autores daquela tirania (o rei e o parlamento); para apaziguar isso, deu-se divulgação a opúsculos infelizes (como o manifesto de primeiro de fevereiro, também afixado em quadros murais), cheios de mentiras: que só eram tratados cruelmente os anabatistas e os sediciosos (citação de um expressão do manifesto), os quais, com seus extravios e com suas opiniões falsas, subvertem, não somente a religião, mas também toda a ordem política. Quanto a mim, vendo que esses falsos religiosos, com seus fingimentos, faziam tudo para que a indignidade desse derramamento de sangue inocente não somente fosse mantida oculta pelas blasfêmias e calúnias das quais eles acusavam falsamente os santos mártires depois da morte deles (no dia 15 de fevereiro, De la Forge, um amigo de Calvino, tinha sido queimado), mas também, em acréscimo, faziam tudo para pisar os pobres fiéis, sendo que a ninguém era permitido mostrar compaixão por eles, pareceu-me que, se eu não me opusesse vigorosamente, quanto me fosse possível, eu não poderia desculpar-me, se fosse julgado frouxo e desleal”. (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo, Parakletos, 1999, Vol. 1, p. 39)

Aí esta, pois, um advogado que se sente constrangido por sua consciência assumir a defesa de um inocente acusado de crimes que poderiam levar à condenação e à morte. Se com justiça M. Lefranc dá a Calvino o título de “criador da eloqüência francesa”, é graças ao tom da cara ao rei, mais do que ao plano tão claro e às deduções tão lógicas das Institutas propriamente ditas. “Calvino esperava reconduzir Francisco I a disposições mais benevolentes, revelando ao grande público o verdadeiro caráter dos reformadores franceses, odiosamente transformados em malfeitores pelos adversários. Uma vez isolados e abandonados pela opinião européia, não haveria nada que pudesse impedir a sua eliminação. Com essa clarividência superior que faria dele, aos trinta anos, um líder e um condutor de almas, o jovem reformador denunciou o perigo iminente; ele se fez o porta-voz dos seus correligionários caluniados” (Introdução de uma edição das Institutas, 1911).

Tendo saído da França no inicio de 1535, Calvino, após uma breve estada em Estrasburgo, fixa-se em Basiléia, onde vive “disfarçado”, como simples membro da “pobre igreja por banimentos expulsa”. Toma pensão no subúrbio de Saint-Albain, na casa de uma viúva, a senhora Petit, que mais tarde dará alojamento a Ramus. “Aqui”, escreverá este, “em vigílias memoráveis, celestiais, foram elaboradas as Institutas”. O autor ainda não tinha vinte e seis anos de idade.

Calvino entra em contato com dois tipógrafos associados, Platter e Lasius. No mês de agosto, a expressiva carta, que serviria de preâmbulo, tinha sido concluída “por Jean Calvin, de Noyon”. Uma das principais feiras de livros novos começava em setembro. É provável que o editor (Oprin) tenha pressionado Calvino e terminar a carta de modo que pudesse ser composta a tempo e ser anexada à parte inicial do livro: mas não conseguiram. Sete meses se escoaram antes de o volume sair do prelo, para a feira realizada da Páscoa, “mense Martio, anno 1536”.


Autor: Jacques Panner
Pastor, Doutor em Letras, Bibliotecário da Sociedade de História do Protestantismo Francês.
Fonte: As Institutas da Religião Cristã, edição especial, ed. Cultura Cristã, Vol. 1, pg 9-16. Compre este maravilhoso livro em http://www.cep.org.br .








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