Congregação Batista Missionária no Rio de Janeiro
SUA FAMÍLIA ESPIRITUAL ( Efésios 2.19 )

Pastor para este tempo
Pastor para este tempo
JOSÉ LAURINDO FILHO

Lendo uma obra sobre ministério pastoral (FISHER, David. O pastor do século 21. São Paulo: Ed. Vida, 1999) notei grande preocupação do autor no que se refere ao pastorado neste século, por isso resolvi escrever esse artigo. De início há uma declaração muito direta afirmando que uma das coisas mais difíceis hoje em dia é ser pastor. É verdade, todavia, podemos dizer que não é impossível exercer o ministério hoje. Isso, se aquele que se coloca à disposição de Deus para ser pastor o faz com convicção que é para um tempo como esse que Deus ainda chama obreiros para o pastorado. Nesse sentido, perguntamos: quais as bases bíblicas para o exercício do pastorado?
AQUELE QUE SE CANDIDATA AO PASTORADO PRECISA TER UMA CHAMADA DE DEUS
Isso aconteceu com todos os homens que se dedicaram ao ministério no passado. Quando lemos as histórias de servos de Deus como Isaías, Jeremias, Amós e os apóstolos, vemos que eles iniciaram seus pastorados após terem recebido uma convocação de Deus. Amós, por exemplo, quando foi chamado para atuar junto ao povo de Deus teve que abandonar o gado. E fez isso com o objetivo de pregar para homens e mulheres do seu tempo. Simão Pedro, abandonou a pescaria de peixes para ser um pescador de homens. Mateus deixou uma posição de coletor de impostos para servir a Jesus. Isso mostra que todo aquele que quer se tornar um pastor deve deixar toda e qualquer carreira humana, para seguir o Mestre. Às vezes, tais carreiras são de grande valor ou até atrativas. Mas, aquele que é chamado por Deus deixa tudo. Deixa uma boa profissão, um bom emprego, uma função estatal, ou qualquer atividade que garanta uma estabilidade financeira. Faz isso porque tem uma chamada de Deus. Sem ela, torna-se impossível exercer o pastorado. A exigência é a mesma tanto para os pastores do passado quanto para os de nosso século. A chamada de Deus transcende o tempo. A qualquer época Ele convoca pessoas para servi-lo. Tudo que essa pessoa precisa fazer é atender esse chamado. Assim fazendo, o restante, Deus completa.

AQUELE QUE SE CANDIDATA AO PASTORADO PRECISA TER CONVICÇÃO DE SUA CHAMADA
Jesus ensina: “Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino de Deus” (Lc 9.61). É isso mesmo. Olhar para trás é não ter convicção da chamada. Quando qualquer candidato ao pastorado começa a olhar para trás, ele perde a visão daquilo que Deus quer fazer através de sua vida. Alguns candidatos ao pastorado desistem porque ficam olhando para sua antiga posição social, ou para sua antiga condição econômica, enfim, para as coisas que aparentemente lhe davam mais prazer na vida. Por isso, não conseguem ir adiante no pastorado. Qualquer dificuldade que aparece já é motivo para abandonar o ministério. Alguns são incapazes de passar pela primeira crise que encontram. Não conseguem encarar com serenidade o primeiro problema que aparece. Daí para frente já não há mais o que fazer. Desistem. Trocam o pastorado por outra coisa. A motivação para o ministério já não mais existe. Isso mostra que o candidato ao pastorado tem que ter convicção de sua chamada. Isso é o que vai garantir a sua continuidade no ministério. Ele não vai olhar para trás. Ele tem um propósito na vida. Qual é esse propósito? Pastorear as ovelhas de Jesus. Foi isso que o Senhor disse a Pedro. Este foi desafiado a confirmar sua convicção de chamada por três vezes. Jesus lhe disse: “Amas-me?... Amas-me?... Amas-me?... Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21.17). O mesmo acontece hoje. Jesus está falando ao que quer exercer o ministério pastoral: “Amas-me?” A prova da convicção está ligada à essa resposta. Se posso reafirmar meu amor por Jesus, então, estou convicto de Sua chamada para o pastorado.

AQUELE QUE SE CANDIDATA AO PASTORADO VIVE EXCLUSIVAMENTE NA DEPENDÊNCIA DE DEUS
Essa é uma questão muito importante. A Bíblia diz: “...digno é o trabalhador do seu salário...” (Lc l0.7). Quem entra no pastorado tem que ter em mente que o seu sustento virá de Deus. Isso é um desafio de fé. No meio de uma sociedade que só pensa em dinheiro, parece até loucura falar em viver pela fé. Mas é assim que Deus ensina. Qualquer pessoa que se candidata ao pastorado tem que ter essa consciência. Quando não há dependência direta de Deus, a pessoa vai querer resolver os problemas que surgem por sua própria sabedoria, condição econômica ou coisa semelhante. E isso não é da vontade de Deus.
Ser pastor nesse tempo continua sendo um grande desafio neste sentido. Há muitos que até preferem ter uma outra profissão, ou seja, fazer tendas. Mas, o ideal para todo o que é chamado para o pastorado é ter condições de tempo para cuidar da casa de Deus. Por isso, aquele que vai para o ministério, logo de início, tem que fazer uma escolha. Isto é, trabalhar exclusivamente na obra de Deus e viver do ministério, ou repartir o tempo com outra profissão.
Viver só do ministério é um grande desafio. Às vezes, os que assim fazem não são compreendidos. Lembro-me da pergunta que um garoto me fez logo no início do meu ministério. “Pastor, qual é a sua profissão?” Respondi: “Eu sou pastor de Igreja”. Ele insistiu: “O que o Senhor faz? ... O Senhor não tem uma profissão?” Tive que gastar um tempo para explicar àquele menino que o pastorado me exigia dedicação integral. Há pastores que têm outro tipo de experiência. De qualquer forma, viver só do ministério tem que estar na dependência total de Deus. Aquela mesma orientação que Jesus deu aos discípulos para não levarem consigo nada mais que o necessário,
ainda funciona hoje. Pastor não pode colocar o coração nas riquezas desse mundo. O negócio daquele que é pastor não é mais o gado, a coletoria, ou coisa do gênero. É depender da providência divina para o seu dia-a-dia. É crer que o Deus que chama é o que sustenta. Ele fez assim no passado e continua cumprindo suas mesmas promessas para com os pastores de nosso tempo.

AQUELE QUE SE CANDIDATA AO PASTORADO PRECISA DAR UM BOM TESTEMUNHO PARA OS DE FORA
Essa foi a exigência deixada por Paulo para com seu filho na fé, Timóteo. Paulo sabia que aquele jovem pastor teria que se relacionar com diferentes pessoas da sociedade da época. Os de fora, certamente, estariam observando a vida daquele que pastoreava a igreja de Deus. Qualquer coisa que fosse malfeita, poderia servir de escândalo. Todo o cuidado era pouco. Paulo, por exemplo, recomenda a Timóteo como se relacionar com as moças, com as senhoras e as viúvas. Para cada uma haveria um tipo de tratamento. Isso ajudaria o jovem pastor a dar bom testemunho para com os de fora. Hoje em dia é a mesma coisa. Qualquer um que queira exercer o pastorado tem que saber como se portar na sociedade. A ética do pastor deve ser moldada na ética do Supremo Pastor – Jesus Cristo. Quando algum pastor se envolve em problemas morais ou econômicos, ele perde a alegria, o desejo de exercer o pastorado e, além disso, o respeito que lhe é devido. É muito triste quando isso acontece. Todo pastor deve ser vigilante. O inimigo está ansioso para derrubar aquele que exerce a posição de liderança. E, pastor é líder. Então, está sujeito tanto às pressões quanto às tentações deste mundo. Por isso, quem quer exercer o ministério pastoral nesses tempos precisa muito do poder de Deus para permanecer firme na carreira que abraçou.

AQUELE QUE SE CANDIDATA AO PASTORADO PRECISA ESTAR LIGADO À IGREJA
É interessante que todo pastor deve estar envolvido com o pastorado de uma Igreja. Ou, mais especificamente, podemos dizer, pastor é aquele que tem ovelhas. Muitas pessoas confundem o termo “pastor” com um título. Mas, biblicamente, “pastor” é uma função. E que função importante. O apóstolo Paulo chega a afirmar: “Os anciãos que governam bem sejam tidos por dignos de duplicada honra, especialmente os que labutam na pregação e no ensino” (1Tm 5.17). A ênfase aqui está naquele que se dedica à pregação da palavra e ao ensino. O autor aos Hebreus vai mais longe. Ele convoca o cristão a imitar a fé que o pastor possui (Hb 13.7). Se por um lado, o pastor deve ser respeitado pela Igreja, por outro, ele deve respeitar a sua igreja. É um relacionamento mútuo. O pastor lida com gente e não com coisas materiais. Ele terá que dar conta a Deus das almas que estão sob o seu pastoreio. Essa é uma exigência divina. Na Carta aos Hebreus lemos: “Obedecei a vossos guias, sendo-lhes submissos; porque velam por vossas almas como quem há de prestar contas delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil” (Hb 13.17). Também, o pastor não tem que prestar contas de seu ministério só aqui neste mundo. É certo que no tribunal de Deus o pastor não ficará isento de julgamento (ver Rm 14.10).
O melhor relacionamento entre o candidato ao pastorado e a igreja é realmente de pastor e ovelha. O pastor não é um executivo. O que ele deve administrar, e bem, é a casa de Deus. Se não tem condições para isso, é melhor desistir. Paulo esclarece: “se alguém não sabe governar a sua própria casa, como cuidará da igreja de Deus?” (1Tm 3.5). É verdade que um pastor ou outro, em certo momento da vida, poderá encontrar-se sem ovelhas. Mas isso não deve ser uma constante. O conselho de Jesus é o mesmo que ele deu a Pedro: “Pastoreia as minhas ovelhas” (Jo 21.16). Essa idéia de apascentar nunca sai da mente daquele que foi chamado por Deus para o ministério pastoral. E o pastor de ovelhas é aquele que está ligado a um rebanho. Nesse tempo de tantos desafios, um dos problemas é que há igrejas que não querem pastor. Talvez tenham tido qualquer problema na área do pastorado e julgam que não precisam mais de um guia espiritual. Mas essa não é a regra nem o ensino bíblico. Lendo as cartas às igrejas da Ásia, lá está bem presente a figura do “anjo” da Igreja, ou seja, do pastor. Igreja precisa de pastor e pastor precisa de igreja.
Deus precisa de pastores para esse tempo que, realmente, tenham sido chamados para o ministério, tenham convicção dessa chamada, que vivam na dependência direta de Deus para o seu sustento, que dêem bom testemunho para os de fora e que estejam ligados à igreja. Certamente existem outros requisitos. Diante disso, alguém poderia perguntar: “Quem tem condições de exercer o pastorado?” Uma boa resposta é: só quem foi realmente chamado por Deus. Como diz a Palavra: “...Se alguém aspira ao episcopado, excelente obra deseja” (1Tm 3.1). E, Deus quer e precisa de mais pastores para esse tempo.
Que para tanto, Ele nos abençoe.

* Pastor da PIB de Campo Grande, Rio de Janeiro (RJ)

Fonte: O Jornal Batista - Domingo, , pg.04



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