Congregação Batista Missionária no Rio de Janeiro
SUA FAMÍLIA ESPIRITUAL ( Efésios 2.19 )

A fé código de barras

Entre nós, os chamados evangélicos têm uma máxima: somos pecadores salvos. Em outras palavras, é o que dizia, em parte, um adesivo de carro nos EUA: “Os evangélicos não são perfeitos, só perdoados”. Será que ser cristão é só isso? A graciosa dádiva da vida eterna no Reino de Deus é só isso? É verdade que os cristãos não são perfeitos, e que sempre haverá uma forte necessidade de santificação. Mas existe uma grande diferença entre não ser perfeito e ser “só perdoado”...
Neste artigo, pretendo mostrar que a fé salvadora vai muito além de um simples dizer “eu aceitei Jesus”, “agora sou evangélico”... Mas envolve uma mudança radical em todo o modo de vida de uma pessoa.
É importante notar que não estou defendendo uma salvação pelas obras, antes, ao contrário, quero demonstrar que a conseqüência natural de um salvo são as boas obras evidenciadas em sua vida (Ef 2.8-10).

A Fé Código de Barras
Nos supermercados, cada produto recebe um código de barras específico que o identifica em gênero, quantidade, qualidade... Logo, na hora do pagamento, o leitor ótico do caixa irá ler apenas o código de barras. O fato problemático é que pouco importa o conteúdo que está dentro daquela embalagem ou mesmo se o código de barra está no produto trocado, porque o scanner (o olho eletrônico) da máquina irá ler apenas o código de barras. Desta maneira, se o código de barras do iogurte está sobre um vidro de veneno, o veneno será iogurte, pelo menos para o scanner.
A teologia das quinquilharias evangélicas diz que há algo no crente que funciona como um código de barras. Nessa perspectiva, dentre uma infinidade de coisas, pode-se destacar: 1º) Ser membro de uma determinada igreja; 2º) Participar de um ritual; 3º) Dar uma generosa oferta financeira para receber bênçãos; 4º) Uma decisão pessoal de aceitar um credo; 5º) Uma decisão de passar para uma igreja “poderosa que dá liberdade” ao Espírito para agir na igreja (como se Deus dependesse da autorização de alguém para agir em sua própria casa)...
Na míope visão dessa teologia, “um momento de concordância mental com um credo”, ou mesmo “a decisão de entrar para uma igreja poderosa”, faz com que Deus “escaneie” o fato e logo jorra perdão. “É como se uma medida de justiça passasse da conta de Cristo para a nossa conta no céu e todas as nossas dívidas estariam pagas. E assim somos ‘salvos’”.1 Desta forma, acredita-se na ilusão de que se cumprindo este ou aquele ritual pode-se impressionar a Deus, da mesma forma que o código de barras impressiona o scanner. Assim sendo, se uma pessoa disser que “aceitou” a Jesus, ou se “filiou” a determinada igreja, a sua salvação já estará garantida, independente da maneira como tal pessoa conduzirá a sua vida...

Será Que Deus Estabeleceria Uma Salvação Código de Barras?
Será que Deus estabeleceria para nós, os salvos, um plano que contornasse apenas as terríveis necessidades da nossa vida na terra e deixasse o caráter humano inalterado? Será que ficaríamos desamparados, sujeitos a todas as dificuldades (emocionais, intelectuais, sociais e principalmente as necessidades espirituais) sem nos preparar para viver a vida como cidadão do seu Reino? Ou seria possível acreditar que a salvação só diz respeito à morte e ao além? Ou, ainda, será que ser salvo nada tem a ver com o tipo de pessoas que somos?
A separação entre fé e vida tem perturbado muitos que se mantêm presos as suas idéias de que para ser salvo, basta, apenas, “declarar”2 que creu em Jesus, sem a necessidade de uma verdadeira mudança interior. Mudança que o Novo Testamento chama de regeneração.
A grande pergunta é, acho eu, se Deus realmente estabeleceria um acerto do tipo código de barras? O fato problemático nessa idéia é que somos nós que corremos perigo: perigo de perder a plenitude de vida que nos é oferecida através do Evangelho aqui e agora...
Há 15 anos uma importante revista cristã comentou em editorial os rumores de que certo líder de uma determinada denominação havia renunciado por falta moral.3 Os rumores se confirmaram, mas a revista, explicando sua decisão de não publicar o caso, afirmou que esses fatos eram comuns e até numerosos, e que, portanto, só publicaria quando o líder fosse uma pessoa de grande destaque.
Helmut Thielicke destaca que muitas vezes nos perguntamos se as celebridades que anunciam produtos, comidas e roupas, se realmente elas consomem o que estão vendendo?4 Ele afirma ainda que esta questão é muito mais relevante para aqueles que falam em nome de Cristo. Se faltas morais estão tão difundidas entre nós, então algo está errado. Talvez não estejamos comendo aquilo que anunciamos. Se isso acontece em nosso meio, o mais provável é que o que estamos “vendendo” é irrelevante para nossa vida real e, portanto, não tem o poder de mudar o nosso dia-a-dia.

Será Que Deus Realmente Não Muda a Nossa Conduta?
Neste aspecto, a Bíblia é categórica ao afirmar que um verdadeiro salvo é uma nova pessoa; alguém que tem uma vida nova vinda de Deus. “Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2Co 5.17). Observe que a grande diferença é que a vida interior do salvo é transformada e feita de novo. Isso nunca ocorre com alguém que simplesmente se pareça com um salvo, mas não é. Portanto, a verdadeira mudança ocorre em nosso interior e afeta toda a nossa vida. É exatamente isso que Ezequiel queria dizer: “também vos darei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. Ainda porei dentro vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis as minhas ordenanças e as observeis” (Ez 36.26-27 – grifos meus).
De fato, essa mudança afeta até os nossos corpos, pois se antes usávamos nossas línguas para fofocas e maledicências, agora a usamos para glorificar a Deus. “Não sabeis vós que os vossos corpos são membros de Cristo? Tomarei pois os membros de Cristo, e os farei membros de uma meretriz? De modo nenhum” (1Co 8.15). Assim sendo, nossos corpos que antes eram usados para propósitos pecaminosos, agora são usados para fazer o que é bom e agradável a Deus.
Nosso culto também se torna novo, antes, se “adorar” a Deus era sinônimo de divertimento e apenas satisfação pessoal. Agora nosso culto é ajudado pelo Espírito Santo, adoramos em espírito e em verdade, conforme preceituado pelo próprio Senhor (Jo 4.33). Neste sentido, somos convocados a adorar a Deus nos seus termos (estabelecidos em sua Sagrada Escritura) e não em nossos próprios termos baseados em nossa criatividade. Nessa perspectiva, o salvo quer fazer tudo, de modo a agradar e glorificar unicamente a Deus (1Co 6.20).
Nosso relacionamento com as outras pessoas está transformado. Queremos ser melhores maridos, melhores esposas, pais, irmãos, vizinhos... Em suma, pode-se resumir dizendo que a nossa maior vontade é nos tornar cada vez mais parecido com a imagem do nosso Mestre Jesus.
Conclusão
A verdade é que a fé salvadora, “o crer no Senhor Jesus” (At 4.12) é muito mais do que apenas acreditar nele. Essa fé jamais será um mero código de barras, porque ser salvo é ser revestido de um novo homem “... que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4.24). Na prática, é esforçar-me ao máximo para aprender com Jesus a viver a minha vida da mesma maneira que Jesus viveria se estivesse em meu lugar. Observe que isso é muito diferente de querer viver a vida de Jesus, ou mesmo de querer ser Jesus, como alguns equivocadamente o querem...
A realidade da vida espiritual no Reino de Jesus é uma realidade interior, associada ao Pai que está “em secreto”. Não que a genuína presença do Reino em um salvo possa realmente estar oculta. Não pode de forma alguma, como também não pode se ocultar a sua ausência.
Nossa consciência, como salvo, estará sempre a nos dizer que devemos obedecer aos mandamentos de Deus. Neste aspecto João afirma: “e nisto sabemos que o conhecemos: se guardamos os seus mandamentos” (1Jo 2.3). Portanto, quem conhece a Deus obedece aos seus mandamentos, sua fé é real em todos os aspectos de sua vida, e não apenas um mero código de barras.

Wilson Franklim
Pastor assistente da PIB Vila da Penha –
wf6@ig.com.br

NOTAS
1 WILLARD, D. A Conspiração Divina. São Paulo, Mundo
Cristão, 2001. p.57.
2 Declarar, essa palavra está em moda atualmente em nossos cultos, principalmente nos “corecos”, digo, corinhos que são repetidos, repetidos infinitas vezes, mas cujas letras
não dizem nada...
3 Christianity Today,
24 de setembro de 1990. p.17
4 THIELICKE, H. The Trouble with the Church: A Call for Renewal.
New York, Harper and Row, 1965. p.3

Fonte: O Jornal Batista - Domingo, 21/08/05, pg.




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