Congregação Batista Missionária no Rio de Janeiro
SUA FAMÍLIA ESPIRITUAL ( Efésios 2.19 )

Vitorioso apesar da herança desfavorável
Texto bíblico: Gênesis 37

As histórias bíblicas não são apenas histórias bíblicas. São histórias de vidas verdadeiras, mesmo quando nos incomodam. São histórias com personagens ainda vivas, mesmo que tenham existido há três ou dois mil anos. São personagens dignas e heróicas, indignas e vergonhosas. São narrativas que nos pedem uma escolha: quem somos na história; com quem honestamente nos identificamos?
A história de José nos fascina, porque José nos fascina. Mas será que somos mesmo José? Seremos José, se tivermos que pagar o preço que ele pagou, só porque sonhou?

Uma família nada exemplar
Eram doze os filhos de Jacó, além de Diná. Eles nasceram de quatro mulheres diferentes. A última a lhe dar filhos, já fora da fazenda do pai Labão, foi Raquel, a preferida de Jacó e por quem trabalhou 14 anos. Os dois tiveram dois meninos: José e Benjamim. Lia, que o pai, Labão, lhe empurrara, deu seis homens (Rúben, Simeão, Levi, Judá, Issacar, Zebulom) e uma mulher (Diná) a Jacó.
As duas esposas ofereceram ao bisneto de Abraão duas concubinas, uma prática do mundo antigo. Raquel escolheu Bila, e Bila deu a Jacó dois filhos (Dã e Naftali). Lia escolheu Zilpa, mãe de Gade e Aser. Todos, exceto Benjamim, nasceram em Padã-Harã, para onde Jacó fugira de Esaú e se abrigara na casa do tio e depois sogro Labão.
Depois que Padã-Harã ficou pequena para ele e o sogro, Jacó migrou para Hebrom, com suas quatro mulheres e 13 filhos. Raquel não chegou, porque morreu no caminho, após o parto de Benjamim.
Destes filhos, José foi quem lhe salvou a vida, depois de quase ter morrido. Jacó viveu 147 anos, mas quando estava com 91 anos de idade sua vida mudou completamente por uma briga de família. Seu filho mais novo, Benjamim, era ainda muito pequeno, com seus dez anos. José estava com 17 e tinha um relacionamento melhor com Dã, de, provavelmente, 38 anos de idade, Naftali, de 36, Gade, de 34, e Aser, de 32.
As menores diferenças eram com Issacar e Zebulom, talvez com 28 e 26 anos de idade, mas eles eram filhos de Lia, rival (Gn 30.8) de sua mãe. Os outros filhos de Lia eram muito mais velhos; por essa época, por exemplo, Rúben tinha, provavelmente, 48 anos de idade; Simeão, 46, Levi, 42, e Judá, 40. Seu irmão por inteiro, Benjamim, era ainda um júnior e não participava das brincadeiras e das tarefas.
Jacó sabia pouco do que ia no coração dos seus filhos. Além disso, não aprendeu com seu pai Isaque, que não se deve preferir filhos. Ele mesmo foi vítima disso e teve que usar de fraude para receber a bênção do pai. Ele não aprendeu que onde há preferência há rejeição. Agora, adulto, fez o mesmo, preferindo José, seu filho com Raquel. E ele não escondia sua predileção e fazia questão de publicá-la. Um destes gestos foi mandar fazer para ele uma túnica especial, bem longa, e logo diferente das dos seus irmãos, que eram túnicas-padrão. Além disso, encarregou José de vigiar o comportamento dos seus irmãos mais velhos. Os padrões de José eram elevados, e seus irmãos eram sempre reprovados. E ele uma pessoa de uma fé inabalável, tal como o pai. Deus lhe falava por meio de sonhos, num tempo em que não havia escritura, nem profecia.
José não era perfeito e, para piorar as coisas, gostava de ser o preferido. Tinha sonhos e, em lugar de guardá-los para si, contava-os para quem os quisesse ouvir. O pai, em lugar de ver a revolta estampada nos rostos dos filhos, não viu ou fez que não viu. Em lugar de repreender o filho, ficou calado.
A situação só não explodia, porque Jacó era o patriarca. Ninguém ousava desafia. Seus filhos o preocupavam. O mais velho, Simeão, era violento, tendo chegado a liderar uma chacina contra a família de um jovem que seduzira sua irmã Diná (Gn 34). O que vinha depois, Rúben, era mulherengo, e seduziu uma das concubinas do seu pai (Gn 35.22).
Num dia, então, enviou seu filho preferido para ver como estavam os outros no seu trabalho de pastorear o imenso rebanho da família. Eles tinham ido longe. José achou que estavam em Siquém, a 49km, mas não estavam; teve que caminhar mais 19km, para encontrá-los em Dota.
Enquanto sorria de felicidade, vendo-os a distância, seus irmãos, tomados por um ódio há muito reprimido, planejaram fazer o que não tinham coragem perto do pai: assassina-lo. Só a um faltou a coragem de levar o plano adiante: Rúben, que deu a idéia menos cruel, a de vendê-lo como escravo e dizer ao pai que ele fora devorado por alguma fera. Nunca mais seriam vigiados e poderiam fazer o que bem entendessem. Nunca mais teriam que ouvir sonhos de grandeza. Nunca mais teriam que conviver com um irmão preferido. Nunca mais veriam sua túnica especial. Nunca mais seriam corrigidos pelo irmão mais novo, que agora iria pagar o preço, porque quem corrige um pecador tem que pagar um preço. Daquele momento em diante, mesmo vivo, José estaria morto. Eles contaram a história da morte que não houve e o pai a engoliu. A narrativa deles era precisa nos detalhes. Até chorar eles choraram.
Durante muitos anos, a mentira se tornou a verdade.

Onde estamos nesta família?
Esta é, portanto, uma história de muitas personagens. Quem somos nesta história?
Somos Jacó, um pai que faz o que condena? Preterido por seu pai, Isaque, e quase morto pelo irmão Esaú, a quem enganou, Jacó faz o mesmo, preferindo um dos 13 filhos.
Somos Jacó, que não imagina o que a rejeição pode fazer? Se teve 13, devia a amar a todos por igual. Se temos dois, os dois são os prediletos. Se temos dez, os dez são igualmente amados. Somos Jacó, um pai que não conhece o coração dos seus filhos, incapaz de perceber o ódio que nutriam por um dos irmãos?
Somos Jacó, um pai que alimenta a hostilidade, ao nomear um dos filhos como delator dos outros? Sim, ele fez de José um autêntico dedo-duro.
Somos Jacó, que parecia ter se deixado ficar à deriva, incompetente para liderar ou mesmo agir com sabedoria nas questões essenciais da sua família? (Cf. WALLACE, Ronald. Aí vem o sonhador. São Paulo: Vida, 2004, p. 15). Somos Jacó, que não percebe que os dez filhos não estão em perigo, porque eles é que são o perigo para quem deles se aproxima?

Quem somos nesta história?
Somos os irmãos de José, que deixaram que a herança da inveja lhes travasse a possibilidade de ver na preferência de Jacó uma atitude inadequada, mas não uma rejeição deles?
Somos os irmãos de José, que nutriram tamanho e crescente ódio nos seus corações, que não perderam a única oportunidade que tiveram para eliminar aqueles a quem odiavam, sem lhe dar a menor chance de defesa ou correção de rumo?
Somos os irmãos de José, que fizeram da violência o método para a solução das suas divergências? Eles, aliás, já tinham demonstrado sua sanguinolência, na resposta que deram ao problema com sua irmã Diná.
Somos os irmãos de José, que se recusaram a ouvir a voz de Deus para eles e para a família nos sonhos do filho adolescente de Raquel?
Somos os irmãos de José, totalmente absorvidos pelos valores da cultura de seu tempo, esquecidos da fé que receberam do seu trisavô Naor, do bisavô Abraão, do avô Isaque e do pai Jacó?

Somos José, capaz de ouvir a voz de Deus no instrumento da época, o sonho?
Somos José, pronto para obedecer a seu pai, mesmo quando este lhe pede para executar uma tarefa duplamente perigosa, porque lançado num caminho cheio de feras para encontrar os corações ferozes dos seus irmãos?
Somos José, desejoso de mais para si e para sua família, quando seus irmãos pareciam satisfeitos com aquilo que o pai lhes conquistara?

Nossa história
Nossas vidas, como a de Jacó, José e seus irmãos são feitas de heranças. O que faremos com elas?
Nossas famílias são assim. Nelas alguns são vítimas de violência, das quais jamais se recuperam. Diná sofre uma violência e dela nunca mais se fala, como se tivesse morrido.
Mães dão a luz e morrem. O choro de Raquel no parto de Benjamim ecoa por toda a história de Israel.
Irmãos carregam rancores uns dos outros, a ponto de não se falarem. Os irmãos de Jacó só se arrependeram três décadas depois da violência que cometeram. (Durante este tempo o remorso lhes corroeu a alma; sim, remorso, porque todo pecado não confessado é pecado não perdoado e pecado não perdoado é dor que se carrega, mesmo em silêncio.)
Há irmãos nascidos fora da família, que conheceremos muito tempo depois ou jamais. Pais constroem patrimônios, que filhos fazem virar pó. Pais um dia atentos se tornam relapsos ou por cansaço ou por escolherem seguir os seus próprios instintos. Filhos dão as costas aos valores aprendidos na família, como se pudessem construir novos valores a partir de si mesmos. Há filhos trapaceiros como seus pais. Há padrões que se repetem, como na família dos descendentes de Naor. Abraão preferiu Isaque, em detrimento de Ismael. Isaque preferiu Esaú, em detrimento de Jacó, a quem, enganado, abençoou. Jacó preferiu José, e quase o viu morto por isto. José tentou alterar a bênção que Jacó lançou sobre Efraim, embora Manassés fosse o mais velho.
Há padrões que se repetem. Os irmãos de José planejaram matá-lo. O projeto não era novo na família. O tio deles, Esaú, intentou matar seu pai.
Sim, há padrões que se repetem, mas para que carregar a síndrome de padrões doentios para o resto da vida, geração após geração?
Há pessoas que condicionam sua felicidade ao ambiente em que vivem. José, e nisto ele é um modelo de vencedor a ser considerado, não o fez. O seu ambiente era de rivalidade, nutrida por preferências e rejeições.
Às vezes, lamentamos nascer numa família pobre, mas veja como era a família de Jacó: rica, mas infeliz. Você acha que o ambiente em que você vive é mais adverso que o de José?
José era feliz, apesar do seu pai, que mergulhou sua família na rivalidade. Assim mesmo, amou o seu pai e cuidou dele até a morte.
José era feliz, apesar de não ter mãe. Ele não fez da orfandade uma caverna para se esconder, uma desculpa para não amar, um trampolim para a fraqueza.
José era feliz, apesar dos seus irmãos. Ele tinha tudo para odiá-los e teve a oportunidade de pagar com a mesma moeda, mas retribuiu generosidade para todos.
José era feliz, apesar de ser detestado por seus irmãos, que odiaram a pessoa errada, pois ele não tinha culpa de ser querido pelo seu pai; este, sim, deveria ser questionado. José era feliz, apesar de sua família heterogênea, com idades, gostos e religiosidades diferentes, tornando a comunicação bastante limitada.
José era feliz, apesar da sociedade em que vivia, marcada pela sexualidade desenfreada e pela violência desmedida, e foi feliz porque escolheu outro caminho, sem se deixar seduzir pela trilha da moda, pela escolha que alguns de seus filhos fizeram.
José era feliz, apesar de viver num ambiente em que os valores de Deus não eram buscados, como se alguém pudesse viver apenas de experiências espirituais do passado.
Olhamos para José como um vencedor, e ele o foi mesmo. No entanto, suas condições foram as mais adversas, como o são, por vezes, as nossas.

Vencendo as heranças
Desta história, da qual também participamos como personagens, escrevendo novas histórias, mesmo que jamais venham a ser contadas, aprendemos muito.
1. Aprendemos que espiritualidade, entendida como um relacionamento com Deus, não se transmite. Não há aqui nos bisnetos de Abraão, o pai da fé, uma espiritualidade capaz de ajudá-los a superarem as adversidades. E fé que não resiste à adversidade não é fé. José aprendeu a bem-aventurança da adversidade, como se tivesse lido o que Tiago escreveu: “Meus irmãos, considerem motivo de grande alegria o fato de passarem por diversas provações, pois vocês sabem que a prova da sua fé produz perseverança. E a perseverança deve ter ação completa, a fim de que vocês sejam maduros e íntegros, sem lhes faltar coisa alguma” (Tg 1.2-4).
2. Aprendemos que, se nos sentimos rejeitados por pai ou mãe ou irmão ou irmã em Cristo, é provável que não mudaremos os corações de quem nos pretere, mas podemos agir como José, que não venceu o mal com o mal (Rm 12.21) e foi feliz, porque, diferentemente do que parece, quem paga o mal com o mal se iguala ao mal. Na verdade, todo aquele que faz o mal, mesmo como resposta, odeia a luz e não se aproxima da luz, com medo de que as suas obras sejam manifestas (Jo 3.20).
3. Aprendemos que Deus anos abençoa em nossa família, não importa como ela é. Não importam as circunstâncias em que nascemos. Se o nosso berço foi esplêndido, saibamos que nele não poderemos ficar para sempre. Cada um de nós tem que fazer seu próprio caminho. Se o nosso berço foi de palha, não estamos condenados à pobreza, porque há um caminho a ser trilhado. O que importa se temos a convicção que Deus está conosco. Se temos esta certeza, vamos entender as palavras do apóstolo Paulo não como conformismo ou derrotismo, mas como alavanca para uma vida saudável: “pois aprendi a adaptar a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.11-13). É isto que nos faz forte: a convicção que Deus está conosco. José recebeu aqueles sonhos como um sinal de que Deus estava com ele. Por isto, enfrentou as adversidades impostas por seus irmãos e por seus amigos no Egito como ações de Deus em seu favor e de sua família. Com Deus conosco, até as adversidades convergem para o nosso bem (Romanos 8.28). Não precisamos de condições ideais para uma vida ideal.


Israel Belo de Azevedo
Pastor da IB Itacuruçá, Rio de Janeiro (RJ).

Fonte: O Jornal Batista - Domingo, 05/06/05, pg.8,9



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