Depois da missa
"Ele me ensinou a cantar uma nova canção, um hino de louvor ao nosso Deus. Quando virem isso, muitos temerão o Senhor e nele porão a sua confiança” (Salmos 40.3).
As pessoas deixam a praça São Pedro em Roma. Voltam impressionadas pela grandeza das solenidades em torno da morte de um papa e escolha de outro. Discutem os desdobramentos doutrinários, políticos e sociais que traçarão o destino da Igreja Católica.
Não analisamos aqui a tradição e a pompa dessas missas. Observamos a reação das pessoas1. A multidão porta faixas de “Santo súbito” (santo já, em italiano) e grita “Santo, santo, santo” enquanto o corpo é levado. Até se entende que o povo, por gostar muito do papa mas não se submeter às suas ordens no dia-a-dia, pretenda compensar a desobediência. João Paulo ll trabalhou para que mais de 1.800 nomes fossem declarados beatos e santos. O povo não se convence com santos que dependem de decretos de pessoas imperfeitas como todos somos.
Não nos cabe julgar quem está salvo ou não. Mas entristece ver o desespero da multidão que reza pelo papa morto. O mistério e os rituais atraem a atenção, porém não trazem certeza da salvação eterna. Perguntamos, por que o papa não ensinou aquela mensagem de Pedro diante das autoridades religiosas do seu tempo, que o único nome dado por Deus para a nossa salvação é Cristo?2 Por que não anunciou como Paulo que quem crê em Jesus não fica desiludido3, a mesma certeza vivida por João?4 O povo, desconhecendo a Palavra, busca preencher sua alma nos rituais que logo passam.
Muda o papa. A reedição da história quer fazer dele um sucessor de Pedro. O povo, mais uma vez, percebe que esses arranjos forçam os fatos, omitem lapsos vergonhosos, não resistem à análise séria. Ao contrário da tradição, Pedro nunca aceitou homenagens5, porque os discípulos aprenderam com Jesus a corrigir elogios e sentimentos6. Em Roma, os líderes levam o povo a reverenciar um homem mortal. O resultado é que, cumprida a tradição, passada a emoção, as pessoas voltam sem mudança na vida.
E o que dizer das primeiras palavras do novo papa? Aclamado por verdadeiras torcidas, quer afirmar sua investidura e poder espiritual anunciando logo a indulgência e perdão dos pecados. Por que não aproveita o momento para citar, como Pedro, que somos libertos pelo precioso sangue de Cristo?7 Por que não diz, como João, “é por meio do próprio Jesus Cristo que os nossos pecados são perdoados”?8 Por que não rompe de uma vez os perigosos aplausos humanos, se sabe que Deus não divide sua glória com ninguém?9 Lembremos que, por gesto incomparavelmente menor do que a imponência do papa, Moisés pagou um preço alto, exemplar para todos os servos de Deus.10
Talvez tenhas experimentado este vazio ao voltar para casa ou assistir às reportagens da televisão. Se queres experimentar a paz, sem os contra-sensos de solenidades que nada acrescentam, firma tua fé em Deus, através de Cristo Jesus, e de ninguém mais.
Notas
1. Esta coluna de O Jornal Batista não debate a forma do culto, duração, periodicidade, ambiente, duração, estilo musical, mas analisa o que o culto acrescenta à vida do adorador. O que fica depois das missas de Roma nesses dias?
2. At 4.11-12
3. Rm 10.9-13
4. 1Jo 5.12
5. Em At 3.12 e 14.11-12, Pedro, João, Paulo e Barnabé recusam aplausos e anunciam Cristo.
6. Em Mc 10.18 Jesus ensina o jovem rico. Em Lc 23.28, a caminho da cruz, adverte as mulheres.
7. 1Pe 1.3 e 19
8. 1Jo 2.2
9. Is 42.8 e 48.11
10. Nm 20.8-12: nem mesmo Moisés, escolhido diretamente por Deus, e seu irmão Arão tiveram a bênção de entrar na terra prometida, e isso por um gesto momentâneo em que não mostraram a santidade de Deus ao povo.
Ivo Augusto Seitz
Pastor da IB da Floresta, Porto Alegre (RS)
Fonte: O Jornal Batista - Domingo, 22/05/05, pg.11