Igreja e papado segundo Hans Küng
Desde o agravamento do estado de saúde de João Paulo 2º até sua morte e o conclave que culminou com a eleição de Joseph Ratzinger, agora Papa Bento 16, naturalmente surgem perguntas relacionadas à Igreja Católica e ao papado. O apóstolo Pedro foi o primeiro papa? O apóstolo Pedro foi sepultado na Basílica de São Pedro? Quem foi afinal o primeiro papa?
Entretanto o que a mídia publica é sempre de acordo com a visão teológica e histórica da própria Igreja Católica Romana.
Nesse artigo, nosso objetivo não é mostrar o que dizem, sobre a Igreja Romana, autores protestantes, mas sim o que escreveu o teólogo católico suíço Hans Küng, no seu livro Igreja Católica (Rio de Janeiro: Objetiva, 2002).
Autor de vários livros, alguns dos quais já traduzidos para o português, Küng, em 1962, foi nomeado pelo então papa João 23 consultor teológico para o Concílio Vaticano II, no qual teve grande participação na redação dos textos conciliares que propuseram mudanças na Igreja de Roma. Questionador de doutrinas tradicionais, como a infalibilidade do papa, Küng, sob o pontificado de João Paulo 2º, foi proibido de lecionar na qualidade de teólogo católico.
Vejamos os arejados trechos do seu livro, que muito nos ajudam entender o que a imprensa unilateral informa.
O apóstolo Pedro foi o primeiro papa? – A imprensa brasileira, para não desagradar a hierarquia católica do assim considerado “maior país católico do mundo”, reza pelo catecismo de Roma quando fala de Pedro como o primeiro papa. Esquece-se de que não há nenhum vestígio de ensino bíblico sobre a origem do papado.
Através dos séculos, a Igreja Católica reivindica o surgimento do papado nas palavras de Cristo a Pedro: “E eu te declaro: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do reino dos céus: Tudo o que ligares na terra, será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra, será desligado nos céus” (Mt 16.18-20, Editora Ave Maria). Na nota de rodapé dessa edição católica da Bíblia, é dito que “a tradição católica sempre viu nessa promessa a soberana autoridade conferida ao Príncipe dos Apóstolos e aos seus sucessores”; a tradição ainda afirma que, após a ressurreição do Senhor Jesus, este confirma essa autoridade a Pedro, em João 21.15.
Conforme a Igreja de Roma, o nome Pedro significa pedra, rocha, esquecendo-se de que Pedro (petros, em grego) significa mero fragmento de pedra, enquanto petra, que quer dizer rocha. O uso de petra (rocha) e petros (pedrinha) foi um trocadilho usado por Cristo. Há os que afirmam ainda que petra é a própria confissão de Pedro. Mas o próprio apóstolo Pedro testifica que Cristo é a pedra (1Pe 2.5-8).
Contrariando a interpretação tradicional de que Pedro é a rocha sobre a qual a igreja é erguida, o teólogo suíço escreveu: “Muito menos há qualquer evidência de um sucessor de Pedro (também em Roma) no Novo Testamento. De qualquer forma, a lógica da fé de Pedro em Cristo (e não a fé em qualquer sucessor) deveria ser e permanecer a base constante da igreja.” E mais: “o inescrupuloso bispo Damaso (366-384) foi o primeiro a usar a frase de Mateus sobre a pedra (que ele entendeu num sentido legalista) para respaldar reivindicação ao poder”.
Afinal, Pedro é a pedra, a rocha firme? Para Küng parece que não, pois apesar de Pedro ser porta-voz dos discípulos, “sua deficiência em compreender, sua covardia e, finalmente, sua fuga” relatadas nos evangelhos depõem contra a firmeza exigida para ser uma rocha inabalável, sobre a qual se possa edificar a igreja do Senhor Jesus.
O apóstolo Pedro foi sepultado na Basílica de São Pedro? - Durante o funeral de João Paulo 2º, a imprensa divulgou fartamente o sepultamento sob a Basílica de São Pedro, onde supostamente estão os restos mortais do apóstolo Pedro. Conforme uma tradição, Pedro teria sido executado de cabeça para baixo e sepultado em Roma. No entanto, destaca Küng, o Novo Testamento não diz, em parte alguma, que Pedro esteve em Roma.
Para dar credibilidade histórica à tradição, o Papa Pio 12, após a 2ª Guerra Mundial, ordenou a escavação sob a basílica. E em 1965, com base em alguns fragmentos de ossos encontrados num relicário, o Papa Paulo 6º declarou serem eles de Pedro. Conforme o historiador católico Duffy, “infelizmente, há controvérsia sobre os métodos e quanto a alguns achados da escavação, de modo que não se pode ter certeza de que o relicário marque efetivamente o túmulo de Pedro. Os fragmentos de ossos foram encontrados na base da parede, não no nicho central. Não se pode garantir que sejam do apóstolo Pedro, mesmo porque os criminosos executados geralmente eram enterrados em valas comuns sem sinalização” (Duffy, Eamon. Santos e Pecadores: história dos papas. São Paulo: Cosac & Naify, 1998. p. 6).
Comentando tradições surgidas no início do segundo século, segundo as quais Pedro sofreu martírio em Roma e ali teria sido sepultado, Hans Küng confirma o historiador Duffy: a arqueologia não foi capaz de identificar sua tumba debaixo da atual basílica do Vaticano. Segundo Küng, Leão foi o primeiro bispo de Roma, portanto o primeiro papa, a ser enterrado sob a Basílica romana.
Quem foi afinal o primeiro papa? – Se Pedro não foi o primeiro papa, quem é que iniciou o papado? Conforme ensina Küng, “o bispo Sírico (384-399) foi o primeiro a se intitular ‘papa’. Papa (do grego pappas) era uma palavra reverente e amorosa para ‘pai’, há muito usada por todos os bispos no Oriente”.
A verdade é que o papado romano não se fez em um dia. Conscientes de seu poder, os bispos de Roma dos séculos 4 e 5 caminharam na direção de uma supremacia universal. Para isso, desenvolveram argumentos bíblico-teológicos que, com o passar dos séculos, se tornaram dogmas incontestáveis.
Acerca de uma pretensa lista que sugere uma seqüência ininterrupta de bispos da igreja em Roma, com o fim de justificar a sucessão dos papas, é importante saber, conforme escreve Küng, que “a primeira lista de bispos, do padre da igreja do século 2 Irineu de Lyon, segundo a qual Pedro e Paulo transferiram o ministério do episcopos para um certo Lino, é uma falsificação do século 2. Um episcopado monárquico pode ser demonstrado para Roma só a partir do meado do século 2 (bispo Aniceto)”.
Leão 1º (440-461) é quem de fato recebeu o título de ‘papa’ no sentido atual do termo, conforme historiadores. Seu prestígio legendário como papa teve início quando teria persuadido Átila, rei dos hunos, a deixar a Itália, sem saquear Roma, no começo da década de 450.
O historiador Henry Loyon diz que os sermões e escritos de Leão 1º forneceram a base teórica para justificar o papado. Esse embasamento das idéias de Leão segue de perto o livro Igreja Católica, do teólogo Hans Küng.
Primeiramente, Leão 1º afirmava que a primazia de Pedro se assentava no Novo Testamento. Para ele, as passagens clássicas relativas a Pedro “no sentido cruamente legalista de uma ‘plenitude de poder’ (plenitudo potestatis) concedida a Pedro” justificava uma primazia de poder sobre todos os bispos.
Além disso, Leão 1º, usando o argumento da lei romana de herança para legitimar a pretensa sucessão papal a partir de Pedro, afirmava que, mesmo que o sucessor não herdasse as características e os méritos de Pedro, recebia a autoridade e a função oficiais transmitidas por Cristo ao seu discípulo e apóstolo, de modo que, embora indigno, um papa era um sucessor de Pedro inteiramente legítimo e exercia a função como tal. Provavelmente, amparados nesse argumento, os muitos papas através da história não harmonizavam o pontificado com a santidade que o cargo deveria ter.
Por fim, Leão acreditava que, através dele, Pedro falava pessoalmente. Crendo-se sucessor do apóstolo, e primeiro bispo de Roma a se intitular pontifex maximus, título anteriormente reservado ao sumo sacerdote pagão, Leão 1º conseguiu até convencer o imperador da Roma ocidental a reconhecer sua primazia.
Uma conclusão a partir de Hans Küng – Uma das inovações desenvolvidas através dos séculos na cristandade é a igreja centralizada no bispo.
No Novo Testamento, bispo designa o líder da igreja local, conforme lemos no discurso de Paulo aos presbíteros (anciãos) de Éfeso: “Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28, NVI). Logo, presbítero (ancião) e bispo referem-se ao que hoje chamamos pastor da igreja local.
Posteriormente, um bispo tornou-se chefe dos demais, que eram os que pastoreavam as igrejas de uma certa região, surgindo então a figura do bispo, que na igreja romana se chama bispo diocesano. A partir daí, a vida de várias comunidades cristãs locais passou a girar em torno do bispo. É o início do episcopado-monárquico. Bruce Shelley comentando a centralização do bispo, afirmou: “A graça teve de fazer um acordo com o tempo. O bispo controlou o Espírito”.
Hans Küng explica que em Antioquia, por volta de 110, com o bispo Inácio, surgiu a ordem de três cargos, que se tornou habitual por todo o império: bispo, presbítero e diácono. A Eucaristia já não mais podia ser celebrada sem um bispo. Com essa hierarquia estava selada de vez a separação entre ‘clero’ e ‘povo’.
Küng assinala ainda que “esta constituição de igreja, centrada no bispo, não é absolutamente determinada por Deus ou dada por Cristo, mas é resultado de um longo e problemático desenvolvimento histórico. É obra humana e, portanto, pode ser mudada”.
Encerrando essa conclusão, podemos assinalar que hoje muitas denominações evangélicas são governadas por bispos. Algumas por tradição histórica, outras por decisão consciente de centralização de poder, em que os crentes nem sequer tomam conhecimento do balanço financeiro da igreja. Tal determinação é um retrocesso em relação ao cristianismo bíblico.
Roberto do Amaral Silva
Professor do STB Goiano,
pastor da IB em Vila Pedroso, Goiânia (GO) – robertosamaral@bol.com.br
Entretanto o que a mídia publica é sempre de acordo com a visão teológica e histórica da própria Igreja Católica Romana.
Nesse artigo, nosso objetivo não é mostrar o que dizem, sobre a Igreja Romana, autores protestantes, mas sim o que escreveu o teólogo católico suíço Hans Küng, no seu livro Igreja Católica (Rio de Janeiro: Objetiva, 2002).
Autor de vários livros, alguns dos quais já traduzidos para o português, Küng, em 1962, foi nomeado pelo então papa João 23 consultor teológico para o Concílio Vaticano II, no qual teve grande participação na redação dos textos conciliares que propuseram mudanças na Igreja de Roma. Questionador de doutrinas tradicionais, como a infalibilidade do papa, Küng, sob o pontificado de João Paulo 2º, foi proibido de lecionar na qualidade de teólogo católico.
Vejamos os arejados trechos do seu livro, que muito nos ajudam entender o que a imprensa unilateral informa.
O apóstolo Pedro foi o primeiro papa? – A imprensa brasileira, para não desagradar a hierarquia católica do assim considerado “maior país católico do mundo”, reza pelo catecismo de Roma quando fala de Pedro como o primeiro papa. Esquece-se de que não há nenhum vestígio de ensino bíblico sobre a origem do papado.
Através dos séculos, a Igreja Católica reivindica o surgimento do papado nas palavras de Cristo a Pedro: “E eu te declaro: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do reino dos céus: Tudo o que ligares na terra, será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra, será desligado nos céus” (Mt 16.18-20, Editora Ave Maria). Na nota de rodapé dessa edição católica da Bíblia, é dito que “a tradição católica sempre viu nessa promessa a soberana autoridade conferida ao Príncipe dos Apóstolos e aos seus sucessores”; a tradição ainda afirma que, após a ressurreição do Senhor Jesus, este confirma essa autoridade a Pedro, em João 21.15.
Conforme a Igreja de Roma, o nome Pedro significa pedra, rocha, esquecendo-se de que Pedro (petros, em grego) significa mero fragmento de pedra, enquanto petra, que quer dizer rocha. O uso de petra (rocha) e petros (pedrinha) foi um trocadilho usado por Cristo. Há os que afirmam ainda que petra é a própria confissão de Pedro. Mas o próprio apóstolo Pedro testifica que Cristo é a pedra (1Pe 2.5-8).
Contrariando a interpretação tradicional de que Pedro é a rocha sobre a qual a igreja é erguida, o teólogo suíço escreveu: “Muito menos há qualquer evidência de um sucessor de Pedro (também em Roma) no Novo Testamento. De qualquer forma, a lógica da fé de Pedro em Cristo (e não a fé em qualquer sucessor) deveria ser e permanecer a base constante da igreja.” E mais: “o inescrupuloso bispo Damaso (366-384) foi o primeiro a usar a frase de Mateus sobre a pedra (que ele entendeu num sentido legalista) para respaldar reivindicação ao poder”.
Afinal, Pedro é a pedra, a rocha firme? Para Küng parece que não, pois apesar de Pedro ser porta-voz dos discípulos, “sua deficiência em compreender, sua covardia e, finalmente, sua fuga” relatadas nos evangelhos depõem contra a firmeza exigida para ser uma rocha inabalável, sobre a qual se possa edificar a igreja do Senhor Jesus.
O apóstolo Pedro foi sepultado na Basílica de São Pedro? - Durante o funeral de João Paulo 2º, a imprensa divulgou fartamente o sepultamento sob a Basílica de São Pedro, onde supostamente estão os restos mortais do apóstolo Pedro. Conforme uma tradição, Pedro teria sido executado de cabeça para baixo e sepultado em Roma. No entanto, destaca Küng, o Novo Testamento não diz, em parte alguma, que Pedro esteve em Roma.
Para dar credibilidade histórica à tradição, o Papa Pio 12, após a 2ª Guerra Mundial, ordenou a escavação sob a basílica. E em 1965, com base em alguns fragmentos de ossos encontrados num relicário, o Papa Paulo 6º declarou serem eles de Pedro. Conforme o historiador católico Duffy, “infelizmente, há controvérsia sobre os métodos e quanto a alguns achados da escavação, de modo que não se pode ter certeza de que o relicário marque efetivamente o túmulo de Pedro. Os fragmentos de ossos foram encontrados na base da parede, não no nicho central. Não se pode garantir que sejam do apóstolo Pedro, mesmo porque os criminosos executados geralmente eram enterrados em valas comuns sem sinalização” (Duffy, Eamon. Santos e Pecadores: história dos papas. São Paulo: Cosac & Naify, 1998. p. 6).
Comentando tradições surgidas no início do segundo século, segundo as quais Pedro sofreu martírio em Roma e ali teria sido sepultado, Hans Küng confirma o historiador Duffy: a arqueologia não foi capaz de identificar sua tumba debaixo da atual basílica do Vaticano. Segundo Küng, Leão foi o primeiro bispo de Roma, portanto o primeiro papa, a ser enterrado sob a Basílica romana.
Quem foi afinal o primeiro papa? – Se Pedro não foi o primeiro papa, quem é que iniciou o papado? Conforme ensina Küng, “o bispo Sírico (384-399) foi o primeiro a se intitular ‘papa’. Papa (do grego pappas) era uma palavra reverente e amorosa para ‘pai’, há muito usada por todos os bispos no Oriente”.
A verdade é que o papado romano não se fez em um dia. Conscientes de seu poder, os bispos de Roma dos séculos 4 e 5 caminharam na direção de uma supremacia universal. Para isso, desenvolveram argumentos bíblico-teológicos que, com o passar dos séculos, se tornaram dogmas incontestáveis.
Acerca de uma pretensa lista que sugere uma seqüência ininterrupta de bispos da igreja em Roma, com o fim de justificar a sucessão dos papas, é importante saber, conforme escreve Küng, que “a primeira lista de bispos, do padre da igreja do século 2 Irineu de Lyon, segundo a qual Pedro e Paulo transferiram o ministério do episcopos para um certo Lino, é uma falsificação do século 2. Um episcopado monárquico pode ser demonstrado para Roma só a partir do meado do século 2 (bispo Aniceto)”.
Leão 1º (440-461) é quem de fato recebeu o título de ‘papa’ no sentido atual do termo, conforme historiadores. Seu prestígio legendário como papa teve início quando teria persuadido Átila, rei dos hunos, a deixar a Itália, sem saquear Roma, no começo da década de 450.
O historiador Henry Loyon diz que os sermões e escritos de Leão 1º forneceram a base teórica para justificar o papado. Esse embasamento das idéias de Leão segue de perto o livro Igreja Católica, do teólogo Hans Küng.
Primeiramente, Leão 1º afirmava que a primazia de Pedro se assentava no Novo Testamento. Para ele, as passagens clássicas relativas a Pedro “no sentido cruamente legalista de uma ‘plenitude de poder’ (plenitudo potestatis) concedida a Pedro” justificava uma primazia de poder sobre todos os bispos.
Além disso, Leão 1º, usando o argumento da lei romana de herança para legitimar a pretensa sucessão papal a partir de Pedro, afirmava que, mesmo que o sucessor não herdasse as características e os méritos de Pedro, recebia a autoridade e a função oficiais transmitidas por Cristo ao seu discípulo e apóstolo, de modo que, embora indigno, um papa era um sucessor de Pedro inteiramente legítimo e exercia a função como tal. Provavelmente, amparados nesse argumento, os muitos papas através da história não harmonizavam o pontificado com a santidade que o cargo deveria ter.
Por fim, Leão acreditava que, através dele, Pedro falava pessoalmente. Crendo-se sucessor do apóstolo, e primeiro bispo de Roma a se intitular pontifex maximus, título anteriormente reservado ao sumo sacerdote pagão, Leão 1º conseguiu até convencer o imperador da Roma ocidental a reconhecer sua primazia.
Uma conclusão a partir de Hans Küng – Uma das inovações desenvolvidas através dos séculos na cristandade é a igreja centralizada no bispo.
No Novo Testamento, bispo designa o líder da igreja local, conforme lemos no discurso de Paulo aos presbíteros (anciãos) de Éfeso: “Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28, NVI). Logo, presbítero (ancião) e bispo referem-se ao que hoje chamamos pastor da igreja local.
Posteriormente, um bispo tornou-se chefe dos demais, que eram os que pastoreavam as igrejas de uma certa região, surgindo então a figura do bispo, que na igreja romana se chama bispo diocesano. A partir daí, a vida de várias comunidades cristãs locais passou a girar em torno do bispo. É o início do episcopado-monárquico. Bruce Shelley comentando a centralização do bispo, afirmou: “A graça teve de fazer um acordo com o tempo. O bispo controlou o Espírito”.
Hans Küng explica que em Antioquia, por volta de 110, com o bispo Inácio, surgiu a ordem de três cargos, que se tornou habitual por todo o império: bispo, presbítero e diácono. A Eucaristia já não mais podia ser celebrada sem um bispo. Com essa hierarquia estava selada de vez a separação entre ‘clero’ e ‘povo’.
Küng assinala ainda que “esta constituição de igreja, centrada no bispo, não é absolutamente determinada por Deus ou dada por Cristo, mas é resultado de um longo e problemático desenvolvimento histórico. É obra humana e, portanto, pode ser mudada”.
Encerrando essa conclusão, podemos assinalar que hoje muitas denominações evangélicas são governadas por bispos. Algumas por tradição histórica, outras por decisão consciente de centralização de poder, em que os crentes nem sequer tomam conhecimento do balanço financeiro da igreja. Tal determinação é um retrocesso em relação ao cristianismo bíblico.
Roberto do Amaral Silva
Professor do STB Goiano,
pastor da IB em Vila Pedroso, Goiânia (GO) – robertosamaral@bol.com.br
Fonte: O Jornal Batista - Domingo, 01/05/05, pg.