Congregação Batista Missionária no Rio de Janeiro
SUA FAMÍLIA ESPIRITUAL ( Efésios 2.19 )

Jesus, o Messias, e Cristologia - experiência e doutrina
Era uma aula de Hermenêutica. Faz aí um tempo já. Mas lembro  (do que lembro) (quase) como se fosse ontem. Exausto, coitado, de me ouvir, o seminarista, terminando eu a minha fala, e com ela, a aula, soltou (até hoje não sei se pensando ou sem pensar): “Ufa! Agora vamos deixar a hermenêutica... e ficar com Jesus!” (não sei mais se ele disse o “ufa!”, mas coloco aqui porque dá efeito, não dá?).
Olhei pra ele, o coitado, os alunos começando a arrumar o material para saírem. Olhei pra ele. Não sei mais o que senti, só que disse mais ou menos assim (e eu devia estar vermelho): “Que bom!”. Todos pararam: “lá vem ele (de novo)”, devem ter pensado... “Que bom! (eu disse) Traz Jesus então, que queremos todos, e eu, falar com ele”. Ele arregalou os olhos.
Pergunto-me se fui muito perverso. Até hoje não sei. Ele retrucou: “Não, professor, estou falando... é...”. “Não, querido”, disse eu (o querido acho que não), “agora quem quer largar a hermenêutica e ficar com Jesus sou eu. Então traz ele aqui pra nós, pra mim, rapidinho”. É, já era maldade minha. Eu sabia que ele não tinha “Jesus” na mão, nem em casa, e, se julgava saber onde Jesus estava, não tinha meios de ir lá... e voltar! Não ali. Não “agora”... Não tinha como ele me trazer Jesus. Mas eu continuei, malvado que fui: “Ué?! Quer dizer então que você não tem Jesus aí com você? Só tem o Jesus em quem você crê? E como é que você crê ou veio a crer nele? Ah, seu pastor... Entendo. E como seu pastor creu ou chegou a crer nele? Das duas uma: ou a gente vai de um em um até chegar a Pedro, e, com e depois de Pedro, a Jesus, ou então vai ter que assumir que aprendemos de Jesus na Bíblia: tradição e/ou Bíblia. E, se como dizemos, aprendemos dele na Bíblia, se é na Bíblia mesmo, e não na catequese, na tradição, seja ela qual for, então não temos como chegar a Jesus sem a hermenêutica”. Porque Bíblia é ta biblia, “os livros”, e Hermenêutica é coisa muito apropriada para “os livros”...
Pergunto-me, agora, enquanto escrevo, se é possível uma “experiência” com o Cristo que não seja, antes, uma adesão a um “credo”, forte ou fraco, um dogma forte ou uma doutrina cristológica de caráter mais catequético que seja... Julgo que não. Julgo que não, porque há, nos campos da teologia e da fenomenologia religiosa, uma diferença gritante, incontornável, inexorável, entre o “Deus-Pai” e o “Deus-Filho”, para mantermos inclusive a linguagem da “fé” (=doutrina): o Deus-Pai, conquanto “revelado” na história, não tem, contudo, caráter histórico. Não se fez “homem”. Captamos do Pai, de Deus, do Sagrado, apenas o leve sopro, que, guardado na memória, torna-se saudade – e doutrina, claro, mas aí já sabemos que não se trata, mais, do Pai...
Quem se fez homem foi, aí sim, o Deus-Filho. Na linguagem da Teologia, o Deus Triúno encarna como Deus-Filho. Com isso, o Filho assumiu uma forma, uma condição, uma prática: fez-se “objetivamente dado”, e em dois níveis – o histórico, enquanto homem vivente, semita, e o literário, enquanto assumido em confissão de fé canônica (escrita) e polêmica apologética. Se pode haver uma mística solúvel e “mole” com relação ao Pai, uma mística com o Filho, se é este filho Jesus de Nazaré, deve ser esta, então, uma mística “dura”, bíblica, escriturística. Não? Penso que sim. Deus está na Natureza? Está. Na sombra? Está. No espaço e no hiperespaço? No tempo e no espaço-tempo? Sim, está. Posso olhar para as estrelas e ver, lá, olhos me olhando... Mas Jesus? Penso que só posso olhar para ele “através” de sua encarnação, e vê-lo como o semita que foi, judeu, nazareno, sob o risco de perdê-lo por excesso de mística: Jesus é mais barro, menos luz, mais concreto, menos diáfano, mais história, menos teologia... Naturalmente há reflexões como a do Cristo Cósmico, mas estamos falando do Jesus de Maria mesmo, sem ironias.
Penso que esse pensamento cristológico meu seja um derivado de minha “alma” protestante (por favor, deixem de lado aqui a questão relacionada aos termos “evangélico” e “protestante”). Minha alma é, antes de tudo, essa alma cristã, uma alma “protestante”. E é protestante não porque proteste (mais) contra quem Lutero começou protestando, mas porque (curioso!) levei a sério os princípios que, para mal ou para bem, usamos para estabelecer a visão da “alma” protestante – princípios que os batistas prezam até hoje, gosto de crer.
Um deles é o livre-exame das Escrituras: não tenho problemas com esse. O outro, a leitura das Escrituras sob chave cristológica. E eis, justo aqui, um problema grave, que não resolvemos até hoje: se a leitura da Bíblia deve ser feita sob a ótica cristológica, segue-se que a cristologia define a leitura da Bíblia; mas, por outro lado, a cristologia, se protestante é, é, antes, bíblica, de modo que eu me vejo, então, na difícil missão de ter de ler a Bíblia mediante uma chave que é a leitura da Bíblia que me deve dar. Devo ler a Bíblia a partir de Jesus, mas, para encontrar Jesus, para o compreender, para saber quem ele é, devo, primeiro, ler a Bíblia. A conta não fecha...
Historicamente, ou se pende para a tradição (e a cristologia passa a ser dogmática, conciliar, assumida ou escamoteada) ou para a exegese (e a cristologia passa a ser histórico-crítica). A solução para esse imbróglio não cabe num artigo. De um jeito ou de outro, se crítica, se dogmática, a cristologia-enquanto-formulação-doutrinária antecipa-se a qualquer “experiência”. Quer falemos de “experiência” no sentido moderno (quase – se não já – cartesiano) ou de “experiência” no sentido místico, a mediação será, sempre, cultural, porque o Cristo será, sempre, um construto histórico-cultural, hermenêutico, mediado quer seja pela exegese histórico-crítica ou pela dogmática tradicional, dê-se-lhe o nome que se lhe queira dar, de “fundamentalismo” a “neo-ortodoxia”, e seja produzida por qual metodologia se cogite, também sob qualquer nome politicamente administrado. Dogma, de um lado, e exegese crítica, de outro, ambas são chaves de elaboração cristológica, sendo a cristologia daí derivada, por sua vez, chave protestante de leitura bíblica... De novo a conta que não fecha... De um jeito ou de outro, “essa” cristologia (crítica ou dogmática) constitui a base da experiência mística com o “Cristo”. De um jeito ou de outro, eis a hermenêutica como pedagoga...
Penso que não levamos esse assunto suficientemente a sério. Penso que, no fundo, nós evangélicos (= protestantes), na prática, assumimos uma tradição, crida bíblica, e com ela identificamos Jesus de Nazaré, ora encarnado, ora glorificado. Se bíblica ou não é realmente essa imagem, e o quanto o é, uma certa dogmática não está interessada em saber, porque às metodologias críticas que lhe poderiam servir de arrimo à resposta ela as trata de “nocivas” e “prejudiciais à igreja”. Em que situação “me vejo”, então? Na situação de, crendo em Jesus, reconhecer que creio mediado por e num construto doutrinário – a mediação cultural da experiência de fé. Mas eu não quero crer num construto doutrinário, e sim aderir a uma pessoa, Jesus de Nazaré. Então tenho de me perguntar se minha expressão doutrinária é fiel ao construto bíblico, que media o “encontro” entre o Jesus “bíblico” e eu. Mas como? Se, por um lado, não “critico” minha leitura, pelo risco de pôr a perder minha expressão doutrinária, então não tenho como assumir, honestamente, que, sim, tenho certeza de que minha expressão de fé seja bíblica no sentido de me pôr em contato com a descrição (também cultural, é verdade) de Jesus de Nazaré conforme a(s) primeira(s) comunidade(s) o vi(r)am. Essa minha leitura pode ser ótima, tradicional, ortodoxa, o mais que o valha, mas, se é mesmo bíblica ou não, não saberei. No máximo, tomá-la-ei como tal, e pronto. Por outro lado, se critico minha leitura, minha confissão, assumo, no fundo, com todos os riscos, que minha confissão “pode estar errada” – e tenho de aprender um novo jeito de crer em Jesus de Nazaré, sempre atento, sempre crítico, sempre de olho na Dona Hermenêutica.
Num e noutro caso, do meio da(s) cristologia(s), Jesus de Nazaré, um certo Jesus de Nazaré, aquele, nascido, e homem, me observa como que de longe, muito a seu jeito, do meio de sua humanidade, mas da mesma forma como, também penso, do meio da(s) teologia(s), Deus, também de longe, também muito a seu jeito, do meio de sua divindade, me observa. Este, porque é Deus, logo, inefável, intocável; Aquele, não exatamente por isso, mas já justamente porque se fez homem, e, justamente por ter assim se feito, se fez história, e aí, sim, por isso, também Ele me olha como de longe...
Os dois me olham de longe, e, cá, de cá, olho para eles. Tão divino, e tão longe! Tão humano e tão longe! Se o(s) divinizo, me escapa(m), se o(s) humanizo, me fogem. Fogem, tudo bem, mas eu os capturo na fé, que, agora acabei de ver, é construto cultural, mediado e mediador, e começo tudo de novo... E eles, lá longe... Fazer-se homem não foi um jeito de deixar-se capturar por mim – no máximo dar-se à(s) minha(s) hermenêutica(s), e eu me contente com isso...

Osvaldo Luís Ribeiro
Exegeta, teólogo e coordenador do curso de Teologia do STBSB


Fonte: O Jornal Batista - Domingo, 05/06/05, pg.14



Progress