Congregação Batista Missionária no Rio de Janeiro
SUA FAMÍLIA ESPIRITUAL ( Efésios 2.19 )

A um passo do "olho por olho"
“... Assíria não tem intenção de deixar a Igreja Batista, mas vai adotar preceitos judaicos em casa – a começar pela circuncisão do filho Joshua, 8 anos...” (Revista Veja, 26/1/2005, p. 76)

Coloco os pés em terras baianas, as mãos numa revista de circulação nacional e me deparo com a notícia acima. A informação não seria destaque na imprensa, se não estivesse relacionada à esposa de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, nem chamaria minha atenção, se não tratasse de pessoa com vínculos batistas. Assim, “santista” da era Pelé e batista “desde o ventre de minha mãe”, interessei-me logo pelo assunto.
Não pretendo colocar na berlinda, nem a esposa do Rei, nem questões políticas relacionadas a Israel. O foco é o problema teológico que emerge da referida notícia, retrato de um fenômeno religioso crescente em nossos dias: a “judaização” do cristianismo evangélico.
Tenho a impressão de que esse fenômeno ganhou impulso a partir da formação do Estado de Israel. Devido à força econômica dos judeus residentes nos Estados Unidos e ao uso da religião como amparo ideológico para ações políticas, a valorização teológica de Israel, usada inicialmente para consolidar sua restauração, ganhou vida própria. Evidência disso é a produção teológica massiva, relacionada aos judeus, a partir da segunda metade do século passado, de livros, revistas e textos avulsos.
Além disso, Israel criou toda uma estrutura de turismo religioso, “embasada biblicamente”, gerando verdadeiras romarias, inclusive evangélicas, àquele país. As empresas de turismo passaram a usar pastores famosos como cicerones, atraíram clientela para viagens turístico-religiosas, aumentaram seus lucros e o interesse pela teologia do Velho Testamento cresceu no coração do povo.
Paralelamente a isso, desenvolvia-se um processo de bibliolatria sem precedentes. Jesus Cristo deixou de ser, para muitos, a chave hermenêutica de interpretação da Bíblia e a expressão “a Bíblia interpreta a própria Bíblia”, de significado obscuro para a maioria, mas com som de sereia pela aparência de espiritualidade, passou a produzir efeitos obscurantistas, medievais, incalculáveis no meio evangélico.
Que saudade de David Mein! Com ele, nas aulas de Novo Testamento, aprendemos, com ampla e sólida argumentação, que a Bíblia era nossa regra de fé e prática, desde que interpretada à luz da vida e ministério de Jesus Cristo. Isso quer dizer que, sem uma compreensão bem elaborada, teologicamente, do ministério de Jesus Cristo, a Bíblia poderia tornar-se uma ferramenta diabólica.
O caso de Assíria é peixe miúdo diante, por exemplo, da multidão de pessoas que, dentro de um templo de igreja dita evangélica, passa em fila por debaixo de uma tenda, inspirada na Tenda do Encontro (Ex 33.7-11), visando alcançar prosperidade material e saúde física. Peixe graúdo seria, também, a justificativa teológica das guerras, com base nas carnificinas horrorosas praticadas em nome de Deus, pelos líderes de Israel, conforme registro nos textos sagrados judaicos.
Sou conservador no princípio batista que defende o direito das pessoas de crerem no que desejarem. Respeitada a saúde individual e social – e, em tese, as leis existem para preservar isso – cada pessoa deve ser responsável, diante de Deus, por suas crenças. Porém, me assusto ao ler sobre essa mistura de circuncisão com graça, de símbolos judaicos com exploração comercial em igrejas “evangélicas” ou, ainda, citações do Velho Testamento para amparar invasões sanguinárias de outros países.
Diante disso, precisamos urgentemente de duas coisas: popularizar princípios hermenêuticos que não obscureçam a fé e, paralelamente, mergulhar os crentes na carta de Paulo aos Gálatas. Se não fizermos isso, veremos em breve, sob justificativa “bíblica”, a restauração plena do “olho por olho, dente por dente...” (Dt 19.21).

Fonte: O Jornal Batista - Domingo, 20/03/05, pg.11



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