Missões em um mundo sem fronteiras
Sermão oficial pregado na 85ª Assembléia Anual da Convenção
Batista Brasileira, no Riocentro, Rio de Janeiro (RJ) -
Texto Bíblico: Efésios 2.17-18 -
A história adverte, solenemente: ou nós, como cristãos, nos envolvemos eficazmente com missões, ou os nossos anseios relacionados ao compromisso inserido na “Grande Comissão” sucumbirão, vencidos pelas forças insidiosas das trevas, do mal, da iniqüidade e do pecado.
A história de Missões tem apresentado momentos de vitórias e outros de retardo e desalento.
Um exemplo disso é o Norte da África. Se o zelo missionário tivesse permanecido com o mesmo vigor e entusiasmo, a sua história seria outra.
Nomes ilustres viveram no Norte da África e tiveram a chance de influenciar, de forma decisiva, na evangelização do continente, mas não aproveitaram a rara ocasião que lhes era oferecida. Hoje, o Norte da África é dominado, inteiramente, pelo islamismo, e nós só temos a lamentar a oportunidade perdida.
Outro exemplo histórico é a tomada de Constantinopla. Enquanto os turcos cercavam a cidade, os cristãos debatiam intricadas teses teológicas, áridas e desprovidas de qualquer interesse. De surpresa, chegaram os turcos, realizaram um feito militar extraordinário e trucidaram muitos milhares de cristãos descuidados e não comprometidos.
Uma nova oportunidade nos é apresentada. Vivemos uma hora de condições favoráveis. As portas estão abertas à pregação. Com os meios existentes podemos chegar com facilidade e rapidez até aos “confins da terra”.
Inspirados no texto da carta de Paulo aos efésios, vejamos o mundo sem fronteiras, no qual devemos transmitir a mensagem. Vejamos, também, qual a nossa missão e como cumpri-la, e, finalmente, a igreja idônea para a missão, ou seja, pronta para anunciar a paz, o evangelho, aos que estão perto e aos que estão longe.
O MUNDO SEM FRONTEIRAS
A grande fronteira, humanamente intransponível, erguida entre Deus e todos os povos, com a queda do homem no Éden, foi derrubada por Cristo. Com o seu sangue, Cristo não somente aproximou o gentio do judeu, eliminando a barreira de inimizade entre eles, mas reconciliou o judeu e o gentio com Deus, criando uma nova humanidade – a sua igreja.
O mundo no qual a igreja de Cristo tem que cumprir a sua missão, nos dias de hoje, é bem diferente do mundo conhecido pelo apóstolo Paulo. Em razão dos grandes avanços científicos e tecnológicos, pode-se dizer que o mundo não tem fronteiras, transformou-se numa pequena aldeia.
Em razão disso, o evangelho tem sido introduzido em todas as nações e não há ninguém que possa impedir tal fenômeno. Entretanto, é preciso destacar que, embora facilitem, não são os canais de comunicação que permitem a espetacular penetração do evangelho, mas, tão-somente, a natureza da mensagem. Cristo é a mensagem e essa mensagem é poder de Deus. Assim como Cristo derrubou a barreira de separação entre judeus e gentios, sua mensagem tem o poder de chegar a qualquer lugar e criar um novo homem em Cristo Jesus.
Mesmo os países fechados ao envio de missionários, que perseguem e matam os crentes, não têm como impedir que a mensagem de Cristo transponha suas fronteiras. Os satélites transmitem 24 horas, ininterruptamente, as boas novas do evangelho. O mais impressionante é que as etnias que mais resistem à evangelização são as que têm diante de si os ministérios de rádio e TV.
No final da década de 90, da Costa Rica, Billy Graham pregou a mensagem do evangelho, via satélite, a um bilhão de pessoas de uma só vez! Somente naquela semana ele pregou a mais pessoas do que é possível a vários pregadores durante toda a vida deles.
Fenômeno semelhante, de maiores proporções, aconteceu com o filme Jesus, o qual foi visto por três bilhões de pessoas, praticamente, a metade da população do mundo!
O mundo não tem fronteiras, mas para realizarmos a obra missionária com êxito incomparável temos de refletir sobre as reações do homem que habita esse planeta. É evidente que o impacto da ciência, da tecnologia e das idéias, que surgem a cada momento, vem mudando completamente o seu comportamento.
Tabus, hábitos e costumes, enraizados na sociedade há longos anos, vêm sendo desvalorizados e o homem moderno, insensivelmente, vai até perdendo sua identidade. Os laços afetivos rompem-se, regras e normas existentes são desfeitas. Estamos agora diante de uma sociedade em que as relações antigas como as de parentesco e vizinhança não têm mais o significado de outrora, levando o homem a sentir-se inseguro.
A questão crucial é levar uma mensagem significativa ao homem do século 21, basicamente um homem secularizado, pós-moderno, globalizado e consumista, sem esquecer dos que integram os grupos marginalizados e excluídos, as populações flutuantes e outros. Uma mensagem que se traduza em duas verdades essenciais à vida: esperança e segurança.
Chegar ao coração do homem secularizado é, sem dúvida, um grande desafio. Para ele o mundo espiritual não existe. Só interessa o mundo material, o entretenimento, o conforto, o dinheiro, as coisas. Ele é o centro de sua vida, é o seu próprio deus.
Já o homem pós-moderno não quer correr riscos e, muito menos, fazer sacrifícios. Busca a prosperidade, a segurança de uma vida tranqüila e um futuro confortável, sem privações ou sofrimento, na qual não faz a menor diferença ser judeu, muçulmano, hindu ou qualquer outra coisa, o importante é ser sincero com relação à sua fé e estar bem consigo mesmo. Nessa filosofia não há lugar para um deus único ou verdade superior.
A globalização veio para ficar. O oriente se ocidentaliza e, até certo ponto, o ocidente se orientaliza. Graças à internet o globo parece voltar à época anterior à era da torre de Babel.
Alguém disse que até aqui não houve uma cultura que fosse capaz de resistir às influências da globalização. Seja uma sociedade agrária, tradicional, industrializada ou marxista fechada. Todas sucumbiram quando receberam uma dose de modernização. Até o islamismo está passando por uma análise crítica histórica, já enfrentada pelo cristianismo.
Se existe uma qualidade com a qual o homem moderno mais se identifica, certamente é o consumismo.
Desgraçadamente o consumismo já invadiu as nossas igrejas e tem se constituído numa das barreiras que mais dificultam a evangelização do Brasil e do mundo. Portanto, fica difícil falar do homem consumista sem olhar para nós mesmos. Não me refiro aos gastos que suprem as necessidades pessoais ou da família, mas ao consumismo desenfreado, que nos leva a satisfazer todos os nossos caprichos: necessários e supérfluos.
Na história da humanidade, nunca houve tantos grupos marginalizados e excluídos como nesses últimos tempos, em conseqüência das guerras, do desemprego, da fome, das doenças e de outras mazelas.
No Malawi morrem seis aidéticos por hora, totalizando 50 mil por ano. Essa tragédia gerou em todo o continente, até o ano 2000, dez milhões de órfãos!
Ninguém ainda conhece a real dimensão da tragédia provocada pelas gigantescas ondas geradas pelo tsunami.
Depois de enterrarem seus mais de 226 mil mortos, os asiáticos terão que lutar contra a miséria, a orfandade, as epidemias e juntar forças para reconstruir suas casas e recuperar os mutilados física e emocionalmente.
Estima-se que o maremoto pode gerar dois milhões de novos pobres na Ásia, sendo um milhão apenas na Indonésia.
Essas são apenas algumas facetas do mundo sem fronteiras. Para nós, o mais importante é destacar que milhões partem dessa vida para outra sem Deus e que bilhões não têm uma única chance de ouvir o evangelho, apesar de todo o progresso tecnológico e científico.
Ninguém pode negar que Deus está nos abençoando com uma oportunidade sem igual para cumprirmos a nossa missão.
Levando em consideração o homem e o cenário do mundo sem fronteiras.
QUAL A NOSSA MISSÃO E COMO CUMPRI-LA?
Há um grande debate sobre o assunto. Alguns afirmam que a nossa missão é salvar almas, livrando-as do inferno. Outros declaram que a nossa missão é de reconciliação: é o ministério holístico, é trazer o reino. Outros, ainda, asseveram que não é nada disso, que está tudo errado, e concluem: nossa missão é plantar igrejas. Mas a discussão não para aí, há os que só admitem missões entre os não alcançados, segundo estes, isso sim é ação missionária.
A falta de consenso entre os missiólogos sobre qual é a nossa missão não impede que todos reconheçam a suprema importância de conhecermos e definirmos o que Deus quer que façamos.
John Piper, um notável professor da Bíblia, num maravilhoso livro chamado Let the nations be glad (Que as nações sejam alegres) abre o tema com as seguintes afirmações:
Fazer missões não é o objetivo final da igreja. Missões existem porque não há adoração. Deus é o objetivo último da nossa missão e não o homem. Quando este tempo acabar e os incontáveis bilhões de redimidos prostrarem-se sobre seus rostos para adorar o Rei da Glória, não haverá mais missões.
Realizar missões decorre de uma necessidade temporária, mas adorar é um mister para toda a eternidade. Portanto, o culto de adoração é o combustível para a igreja fazer missões, para a igreja ser missionária.
Através do culto, o crente se maravilha, se encanta, se torna apaixonado por Deus. Vibra com as suas verdades e exulta com as facetas da personalidade divina; em conseqüência, é impulsionado pelo Espírito Santo a compartilhar essa glória com os demais.
Como o salmista, ele deseja que o mundo inteiro cultue com ele:
“Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável
é o teu nome em
toda a terra”.
“Louvai ao Senhor,
louvai, servos do Senhor,
louvai o nome do Senhor!
Dêem ao Senhor, ó família das nações,
dêem ao Senhor glória e força!
Adorem o Senhor no esplendor
da sua santidade,
tremam diante dele todos os
habitantes da terra”.
Assim, prezados irmãos, nossa missão é ir além da evangelização, além do discipulado. Nossa missão é fazer do homem um adorador apaixonado por Deus, que, extasiado diante de sua glória, seja levado pelo Espírito Santo a buscar pessoas entre as nações para adorarem com ele!
Se a adoração transcende esse mundo e é o objetivo último do homem, os nossos cultos devem ser dignos da presença do Deus, cuja grandeza está acima de qualquer expressão de louvor!
A centralidade da Palavra é fundamental, assim como o temor, o tremor, a reverência e a consciência plena da santa presença do Altíssimo!
Num culto dessa natureza, até o incrédulo será envolvido pela atmosfera celestial e dificilmente resistirá à graça de Deus!
Cientes da nossa missão, vejamos como colocá-la em prática:
1. Cumpriremos a nossa missão reconhecendo que Deus é um ser missionário
De um modo geral, nosso conceito de Deus é incompleto. Sabemos e sempre destacamos que:
· Deus é amor,
· Deus é justo,
· Deus é santo,
· Deus é soberano.
Esquecemos, porém, que, além de todos esses atributos, Deus, principalmente, é um ser missionário. É David Bosch quem faz essa afirmação em seu livro Missão Transformadora. Em nossos seminários, nossas casas de profetas e profetizas, não se mencionam essa qualidade divina.
Poucos são aqueles que vêem nessa omissão a sagacidade do inimigo tentando obscurecer essa faceta de Deus. Para os que não enxergam essa manobra do inimigo, a obra missionária é um mero projeto, um programa, mais uma ênfase denominacional.
A igreja, na sua gênese, resistiu a se tornar missionária. Foi necessário que Deus permitisse uma severa perseguição, grande sofrimento e morte para que ela saísse de Jerusalém.
Mais tarde, vemos o apóstolo Paulo lutando contra os demais para levar o evangelho às nações. Assim, aos poucos, a igreja foi avançando em diversas regiões do mundo.
Na idade média a igreja parou no tempo e no espaço. Mesmo a reforma não teve o mérito de impulsionar a obra missionária. Os líderes se fixaram em suas paróquias, preocupados em conquistar mais poder e em dominar seus povos, permitindo que o pseudocristianismo católico-romano e ortodoxo se expandisse.
Somente 200 anos atrás é que nós, os evangélicos, fomos despertados para a obra missionária. O inimigo cegou-nos por séculos e séculos!
Nesses últimos 30 anos houve uma verdadeira explosão missionária ao redor do mundo. Finalmente, a igreja descobriu que Deus é um ser missionário.
Mesmo antes da criação, Ele já manifesta o seu caráter missionário. Posteriormente, em Gênesis, após a queda do homem, Deus lhe promete um remidor.
Um pouco mais tarde, em Gênesis 9.27, Deus o Pai assegura a uma das etnias semitas que Ele viria e residiria com ela. Já em Gênesis 12, Ele escolhe o semita Abraão para, através dele, criar uma nação sua, um povo seu, a fim de abençoar todas as nações da terra.
O Deus missionário criou uma nação missionária. O tempo foi passando e Israel não cumpriu a sua missão. Por essa razão, foi desterrada, derrotada e levada cativa para Babilônia. No exílio, os israelitas pensaram que Deus não queria mais nada com eles, mas foi exatamente nesse período triste que Deus revelou que o seu servo, o seu ungido, seria enviado para cumprir a missão que Israel negligenciara.
No Kairos de Deus, ou na plenitude dos tempos, veio Jesus e cumpriu fielmente o que o Pai prometera a Abraão. Tendo cumprido a missão de Israel e a sua própria missão, Jesus Cristo, depois de ressuscitado, confia a missão à sua igreja.
Meus irmãos, a missão que foi de Deus na gênese da humanidade, que Ele entregou a Israel e que mais tarde foi entregue ao Messias que haveria de vir, Cristo a cumpriu e, em seguida, nos entregou. A missão que dEle recebemos é pregar o evangelho a toda criatura e fazer discípulos de todas as nações.
2. Cumpriremos a nossa missão reconhecendo que ela é, por natureza, global
Não somos nós que fazemos essa afirmação, mas o Senhor da obra. A obra da igreja, a nossa obra, é de natureza global: “Fazei discípulos de todas as nações”; “o campo é o mundo”; “pregai o evangelho a toda a criatura”; “que se pregasse o arrependimento para remissão de pecados” – isso é evangelização – e Cristo continua: “a todas as nações” – isso é missões – “começando por Jerusalém”.
A grande tragédia é que alguns líderes param na primeira parte do mandamento. Decretam que a prioridade é a sua igreja, a sua vizinhança, o seu bairro. Alguns chegam a dizer: Não há razão para se preocupar com o Brasil ou com o mundo.
Parece que nos esquecemos de que todos nós somos frutos de missões mundiais. Nós recebemos o evangelho porque outros povos nos transmitiram a mensagem. Nosso dever é fazer o mesmo e levar as boas novas de salvação até os confins da terra.
Mas a visão atrofiada de vários líderes não é a única força contrária à natureza global da nossa missão. Muitos não crêem que os que não têm Cristo estão perdidos.
Logo depois de falar sobre o grande amor de Deus pela humanidade, revelado no envio de seu único filho, em João 3.16, o Senhor afirma que aquele que não crer nele será julgado.
Pedro, em Atos 4.12, disse que não existe nenhum outro nome, a não ser o de Jesus, pelo qual as pessoas possam ser salvas. Paulo, por sua vez, em Romanos 10.12-15, enfatizou que apenas aqueles que crêem em Jesus podem ser salvos.
O nosso texto fala que Cristo evangelizou os que estavam perto e os que estavam longe. Os que estavam perto, sem dúvida, eram os judeus e os que estavam longe, os gentios.
O mais interessante aqui é que Paulo afirma que Cristo anunciou a paz a ambos. Como foi que isso se deu? Aos judeus, Cristo dedicou toda a sua vida. Mesmo os apóstolos se circunscreveram, no início, aos judeus, ainda que Jesus, em pelo menos duas ocasiões, mencionasse que o seu evangelho teria alcance mundial: “esse evangelho do reino será pregado no mundo inteiro”, e, ainda, “quando eu for levantado, atrairei todos a mim”.
Aos gentios, Cristo anunciou a paz, por meio de sua igreja. Se ele quisesse anunciar a mensagem às nações antes de ter encerrado a sua missão na cruz – morte, ressurreição, glorificação e a vinda do Espírito Santo –, eles não entenderiam seu evangelho. Portanto, quando o apóstolo se refere à mensagem que Cristo anunciou aos que estavam longe, está se referindo ao ministério de Cristo através da igreja. Foi o que ele continuou a fazer depois de ressuscitado e glorificado no livro de Atos. Em nome de Jesus, disse Pedro ao aleijado: levanta e anda.
Assim, vemos que a missão é da igreja. À igreja cabe continuar o ministério de levar a mensagem de Cristo às nações, aos que estão perto e, muito mais, aos que estão longe.
Meus irmãos, eu sonho, eu anseio, eu tenho esperança de que nós, batistas do Brasil, iremos romper toda e qualquer barreira que se interponha entre nós e a obra de missões. De uma vez por todas lutemos juntos como uma só família em prol da evangelização do Brasil e do mundo simultaneamente.
Eu não usei os termos “juntos e simultaneamente” por pura retórica. Eu quis dizer exatamente isso: juntos e simultaneamente.
Em primeiro lugar, por que juntos?
Como Neemias, que ao ver a sua Jerusalém com os muros derrubados, suspira, e do fundo de sua alma diz: “Grande é a obra e nós estamos muito longe uns dos outros” (Ne 4.19). Eu também afirmo: Meus irmãos, a obra missionária é solidária e não solitária, requer que estejamos juntos. Ninguém a cumpre sozinho. Ela é extensa, demanda que todos nos unamos, nos irmanemos em torno do objetivo de evangelizar as nações, incluindo o Brasil.
Conclui na próxima edição
Waldemiro Timchak
Pastor, diretor executivo da Junta de Missões Mundiais.
Fonte: O Jornal Batista - Domingo, 06/03/05, pg.08,09