Misericórdia quero...
O livro Um homem chamado Jesus Cristo, de John Piper, tem um capítulo intitulado “A riqueza encarnada da compaixão de Deus – As misericórdias de Jesus Cristo”. Pareceu-me o ponto alto da obra. Transcrevo um trecho, de rara beleza: “Uma das afirmações mais arrebatadoras feitas por Jesus acerca da misericórdia de Deus acha-se em Oséias 6.6. Foi assim que Jesus pôs toda a lei protocolar do Antigo Testamento sob a bandeira da misericórdia, e não sob regras minuciosas. Quando foi criticado por ter jantado na casa de Mateus com coletores de impostos e pecados, Jesus virou-se para os críticos e disse: ‘Vão aprender o que significa isto: Desejo misericórdia e não sacrifícios (Os 6.6). Pois eu não vim chamar justos, mas pecadores’ (Mt 9.13). E quando os discípulos foram repreendidos pelos fariseus por terem colhido e comido espigas no sábado, Jesus disse: ‘Se vocês soubessem o que significam estas palavras: Desejo misericórdia e não sacrifícios, não teriam condenado inocentes’ (Mt 9.13). Todo o ministério de Jesus foi marcado pela compreensão de que a misericórdia é o significado supremo da lei de Deus”.
Piper foi muito feliz. Ao legalismo dos fariseus, que transformaram a religião em matéria de ritos, leis e cerimônias, Jesus opôs o texto de Oséias 6.6: “Pois desejo misericórdia, e não sacrifícios; conhecimento de Deus em vez de holocaustos”. Fiquemos com as palavras misericórdia, sacrifício, conhecimento e holocaustos. Elas são, em hebraico: hesed, zabah, dat e ôlah. Hesed é amor profundo, leal, eterno. Zabah vem de “matar, sacrificar, morte com sangue”. Dat é “conhecimento”, mas não teórico, e sim experiencial. Ôlah é o sacrifício de animais, com sangue. Entendemos, assim, o que Deus diz por Oséias: “Eu quero amor profundo e leal de vocês para comigo, e não morte de animais. Quero que tenham relacionamento comigo, e não que derramem sangue de animais”.
Deus não se liga em ritos, mas em sentimentos. O sacrifício era a forma mais sublime de culto no Antigo Testamento. Deus diz que não o quer. Quer ser amado. Deus ama e quer que o amemos. Esta é a sua grande exigência. Ele quer que o amemos de todo o coração. Foi isto que Jesus afirmou, ao declarar o maior de todos os mandamentos: “O mais importante é este: ‘Ouve, ó Israel, o Senhor, o nosso Deus, o Senhor é o único Senhor. Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças’”. Há um Deus apenas, que se revelou na pessoa humana, histórica e fantástica de Jesus de Nazaré. Ele quer ser amado. Porque ele nos amou primeiro: “Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores” (Rm 5.8).
O que há de mais importante na vida cristã é amar a Deus. Isto vale mais que cultuar. Cultuar e adorar a Deus é bom, mas será inútil se for desprovido de um sentimento de amor e de busca de uma experiência relacional com Deus. Você pode cantar até ficar rouco, pode gritar no culto até perder as cordas vocais, pode bater palmas até ter calos nas mãos, mas se não amar a Deus, isto não significará nada. Ele não quer ritos, mas quer ser amado.
O Salvador se relacionou com a humanidade em hesed, em amor eterno, imorredouro, que foi até o fim. Diz João 13.1: “Um pouco antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que havia chegado o tempo em que deixaria este mundo e iria para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. Foi um amor até o fim, até a cruz. Na cruz, Deus nos mostra o quanto nos ama.
E o que pede de nós? Que o amemos. Isto é mais que cultuar, mais que vir à igreja, mais que se batizar. É dedicar-se a ele, viver para ele, torná-lo o valor máximo de nossa vida.
Ele ama você. E muito. Provou isto na cruz. Você o ama? Pode provar isto?
Isaltino Gomes Coelho Filho*
Pastor da IB de Cambuí, Campinas (SP) – isaltinogomes@hotmail.com
Fonte: O Jornal Batista - Domingo, 20/11/05, pg.06